1ª leitura Ap 11,19ª; 12,1.3-6ª.10ab
É a festa da glorificação de Maria, da participação na glória de Deus com o próprio corpo. A tradição da Igreja enxerga na “mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” a imagem de Nossa Senhora. Certo, também, é que a mulher simboliza o povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Com efeito, a mulher e o povo são vítimas das perseguições indicadas pelo texto. Entretanto, os textos que se referem ao povo de Deus, à Igreja, podem ser aplicados à Maria, enquanto o verdadeiro mistério dessa se insere no mistério da Igreja, ao mesmo tempo que o ilumina.
“Abriu-se (...) e apareceu no Templo a arca da aliança”. A arca da aliança é uma caixa dourada, especialmente construída e contem os sinais da aliança de Deus para com o povo, quais as tábuas da Lei, o cajado de Moisés, etc. Agora, a nova arca da aliança é Maria. De fato, ela leva no seio e traz para a humanidade o artífice único e fundamental da aliança nova e eterna: o filho Jesus. Pois, “ela deu a luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro”.
Desde antes de nascer o filho, se trava a luta entre o mesmo, a mulher e os opositores. Estes últimos têm uma força muito grande e poderosa comparada a do Dragão. O motivo é o governo do mundo inteiro “Então apareceu (...) um grande Dragão, cor de fogo. (...) varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra”.
Os opositores percebem o perigo da presença deste nascituro. Já sabem os poderes deste mundo o que significa a adesão das pessoas a Jesus Ressuscitado. Percebem a força subversiva e inovadora da proposta e da filosofia dele. Sabem que Ele vai tirar o poder e força deles sobre os dominados, como indicará o cântico de Maria no Evangelho. Portanto, é uma luta extrema que procura suprimir a Mulher e o nascituro “O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar a luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse”.
O extremamente dramático deste retrato é imagem do que acontecerá à Igreja, à comunidade cristã e a toda pessoa que, tocada pela pessoa de Jesus, determina assumir para valer o caminho dele, se tornando discípulo. Portanto, a mensagem do texto é dirigida ao perseguido de todos os tempos e lugares, que desanimado, provado e assustado pode se desmotivar, achando ter sido enganado e abandonar o caminho.
Eis, então, a última e definitiva intervenção de Deus “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza de Deus, e o poder do seu Cristo”. Pois, com sua ação Deus leva o Filho junto dele “e do seu trono” e “A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar”. A ação de Deus é realizada nos termos e com os meios próprios do exercício do poder humano dos opositores, com força, realeza e com o poder do enviado especial.
Portanto, os perseguidos devem saber que, por quanto assustadora e terrível seja a opressão, não será a última palavra com respeito à condição deles. Deus é maior, é o verdadeiro salvador, pois, não serão esquecidos nem abandonados.
O texto pretende ser uma mensagem que motiva a coragem e sustenta a esperança. Tudo isso tem sua fundamentação no evento da ressurreição de Jesus, que constitui propriamente o “poder do seu Cristo”, como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 15, 20-27°
Eis a anúncio fundamental, o eixo de toda argumentação e teologia de são Paulo: “Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”. Cristo se manifesta como primícias dos ressuscitados. Ora, se é verdade que às “primícias” segue a colheita, é verdade que à ressurreição de Cristo seguirá a nossa.
Isso se deve ao fato que Jesus é o representante da humanidade de todos os tempos, como o foi Adão no começo da criação. Daí, então, o sentido da afirmação “por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como por Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão”.
É importante fixar na mente e acreditar no coração a verdade do relacionamento representante (Jesus) e representado (a humanidade e as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares). Porque é a certeza dessa verdade o elo que garante e convence da transposição que o acontecido na pessoa de Jesus acontece, objetivamente, na pessoa e na humanidade toda. Assim, representante e representado estão intimo e profundamente unidos na mesma vivencia e no mesmo destino.
Só o voto de confiança nisso permite atualizar os efeitos da morte e ressurreição Dele na comunidade e nas pessoas que celebram a Eucaristia, os demais sacramentos e na prática de vida conseqüente. Evidentemente, tudo isso é realizado misteriosamente e percebido só pela fé. O evento foge e ultrapassa todo raciocínio e experiência humana. Daí, as palavras após a consagração do cálice “Eis o mistério da fé”. Assim, a fé de cada pessoa, e da comunidade, realiza a passagem do efeito objetivo - realizado por Jesus, o representante -, ao efeito subjetivo na pessoa que acredita sincera e firmemente nesse relacionamento.
Portanto, “também em Cristo todos reviverão” não é evento de rotina ou automático, mas atingirá “os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda”. Com certeza, quando Paulo escreveu era iminente a espera da volta do ressuscitado. De todas as maneiras, é certo também que participarão da ressurreição com Cristo os que “pertencem a Cristo” e isso se realiza pela fé que acabo de explicitar. É preciso se manter na fé, mesmo passando pelas provações e abalos indicados na primeira leitura.
Essa realidade é uma situação intermediária, ainda não é o fim, a meta: “A seguir, será o fim, quando ele (Cristo) entregar a realeza de Deus-pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força (...) . O último inimigo a ser destruído é a morte”.Com outras palavras, a meta será a manifestação do momento no qual Deus “será tudo em todos” (1Cor 15,28).
Tocará ao Filho, através da ação dos seus discípulos no mundo inteiro, “destruir todo principado e todo poder e força”. Parece-me que não se trata de uma dimensão sociológica, no sentido de submissão de toda a realidade sócio-humana, pois, ela continuará existindo com as ambigüidades que lhe são próprias até a vinda do ressuscitado. A vitória se manifestará pelo testemunho daqueles que não se dobraram ao principado, poder e força do mundo, que resistiram com coragem e esperança. É neles que Cristo vence e são com eles que entregará todos a Deus Pai.
Será evidente, então, o que o cântico de Maria proclamará no evangelho.
Evangelho Lc 1,39-56
O texto é muito conhecido. Após o “sim” da anunciação “Maria partiu (...) apressadamente a uma cidade da Judéia". A adesão à palavra suscita nela o dinamismo surpreendente, apto para enfrentar uma longa viagem ao encontro da prima Isabel, com o intuito de compartilhar o envolvimento da experiência tão singular e determinante para o futuro do povo, em ordem à realização da promessa de Deus.
Isso diz muito com respeito à qualidade e consistência de nossa adesão para valer à palavra, ao chamado de Deus, muitas vezes, marcada pelo comodismo, pela preguiça, pela indiferença para com as demais pessoas ou por uma fé simplesmente individualista.
Maria foi conferir o que o anjo lhe havia anunciado “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice”. Também em Isabel o que parecia impossível se tornou realidade. O encontro é motivo para constatar a eficácia da promessa de Deus: a estéril e a virgem se tornam fecundas e mães, para a salvação da humanidade, associadas na única missão, cujos filhos a desenvolverão de maneira diferente. Tudo isso, sob a ação do único Espírito Santo “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.
No encontro com Isabel, Maria é elogiada pela fé, pelo voto de confiança na promessa: “Bem-aventurada àquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Ela colocou a disposição sua pessoa e deixou que Deus operasse nela. A fé e a atitude dela se tornaram patrimônio e possibilidade da humanidade toda e de cada pessoa em particular. É o que gostaríamos todos , vivenciar e experimentar a bem-aventurança que inspirou Maria no cântico atribuído a ela.
O cântico é uma visão retrospectiva que parte da constatação que Deus “Socorreu Israel (...) conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abrão e sua descendência, para sempre”. Ou seja, o que o Senhor prometeu conforme a palavra de Isabel se cumpriu. O cumprimento da promessa se deve que Deus “lembrando-se de sua misericórdia”, orientou seu coração ao resgate da dignidade e da vida do povo, agindo de maneira desconcertante “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias”.
Com isso “mostrou a força de seu braço” não só por reverter uma situação humanamente impossível, mas por dispersar “os soberbos de coração”, ou seja, a arrogância e a prepotência dos que se sentem superiores , privilegiados, e com isso motivados para dominar com o poder e dinheiro.
Nesse agir se manifesta a santidade do nome de Deus, pois ele é expressão da soberania de Deus sobre a verdadeira convivência humana, além das dificuldades e dos múltiples obstáculos e resistências que se apresentarem nas diferentes circunstâncias.
Nesse contexto, Maria encaixa a própria pessoa como a destinatária da bem- aventurança que será reconhecida como tal por “todas as gerações”. Reconhece que Deus “olhou para a humildade de sua serva (...) o Todo- poderoso fez grandes coisas em meu favor”, ou seja, ela mesma. Constata que o ter dado voto de confiança com o próprio “sim” a Deus, foi oportunidade para experimentar nela a ação surpreendente e poderosa de Deus, além de toda expectativa, como Salvador dela e da humanidade.
Tudo isso é motivo, nela, de estupor e de maravilha, manifestados pelas primeiras palavras do cântico: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. É o testemunho da existência bem sucedida, que motiva e anima toda pessoa encontrar nela o modelo de discípula (o) do Senhor, bem sabendo das dores e dos sofrimentos que acompanharam a vida dela, pelo que aconteceu na vida do Filho.
Ela por não desistir nem desconfiar de que a promessa será cumprida - como testemunha da ressurreição do filho - já participa plenamente com o próprio corpo da glória na qual o mesmo Filho está envolvido e preenchido.
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