terça-feira, 7 de agosto de 2012

19no DOMINGO DO T,C,-B- (12-08-09)

1ª leitura 1Rs 19,4-8

Após o evento do monte Carmelo no qual desmascarou a os falsos profetas da rainha e determinou a trágica morte deles, o povo ficou aquém às expectativas de Elias, e isso foi motivo de desilusão. Além disso, a rainha jurou vingança determinando a imediata morte dele, obrigando-o fugir ao deserto.

O estado de ânimo de Elias sofreu um duro golpe, como quem depois de ter se esmerado no serviço, percebe que foi inútil e, mais ainda, pôs em própria vida. A reação primária dele é de acabar com tudo e pede a Deus que faça isso “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”.

Elias tem consciência de que os pais, também, sofreram momentos difíceis e provações que os levaram a desconfiar na presença e na promessa do Senhor. Como eles, também Elias, experimenta o que, tal vez, pensava que nunca teria acontecido para com ele. Tendo constatado o contrário, e o poder abalador da provação, até o sentido de viver veio abaixo.

Fugindo para o deserto, determina-se pegar o caminho rumo ao monte Horebe, para onde está se dirigindo. Quer voltar ao ponto onde tudo começou, onde Deus se manifestou e estabeleceu o pacto - a Aliança - para se encontrar com Deus e entender o que está acontecendo com ele e com o povo. Foi como voltar às origens para conferir a própria vocação e o correto desenvolvimento dela.

Neste caminho encontra o sustento do mensageiro de Deus que por duas vezes lhe oferece o alimento e ordena “Levanta-te e come!Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Com isso Deus aprova a ida a Ele, mas também revela que há muito caminho para percorrer, que não alcançará a meta em pouco tempo, como quem diz, não desanime, continue caminhando; garantindo por meio do anjo que não faltará o necessário para chegar.

Já isso é sinal da atenção e benevolência de Deus para com ele. Pode perceber que Deus não o abandonou nem se esqueceu dele. Continuar caminhando, mesmo com a carga de dor e sofrimento já é sinal de recuperação da desconfiança que provocou o abatimento.

“Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus”. Não desistiu no propósito e com a ajuda de Deus chegou à meta.

Não é difícil perceber o valor paradigmático - modelo - da experiência de Elias. Toda pessoa que sincera, autêntica e coerentemente desenvolve a missão que Deus lhe confiou passa por experiências de decepção, de dificuldades e rejeição que nunca teria pensado que acontecessem, e como isso é motivo para experimentar toda a força da tentação de deixar, de abandonar a missão.

O que ensina este trecho é de não se surpreender que isso aconteça, mas de tomar em conta e se preparar ao que vem como conseqüência disso. Com certeza não significa ficar imunizado do desconcerto, do sofrimento e da tentação, mas o fato de não ficar totalmente surpreendido ajuda enfrentar a dificuldade.

Enfrentá-la corretamente quer dizer se voltar ao ponto de partida, onde tudo começou, e reencontrar os pontos fundamentais e a motivação que sustentou a decisão de aceitar a missão. É importante avaliar, também, se o proceder nela foi correto.

Elias seguiu este caminho, sustentado pelo que metaforicamente poderia ser o pão e a bebida necessária: vontade e determinação de se dirigir ao Senhor -pão de vida – e a bebida da retidão ética consigo mesmo.

Tudo isso é sustentado pela presença do Espírito, que inspira e suscita as atitudes convenientes que a segunda leitura mostra.

2da leitura Ef 4,30-5,2

Paulo lembra aos membros da comunidade a singular condição de serem marcados, de uma vez para sempre, pelo selo do Espírito Santo “Não contristeis o Espírito Santo com o qual Deus vos marcou como com um selo para o dia da libertação”. Assim, o evento pascal - cujos efeitos são acolhidos pela fé por parte dos cristãos - os libertou do pecado, estabeleceu uma nova e eterna aliança no sangue de Jesus e os preencheu de vida eterna, da glória de Deus, como antecipação e participação da glória de Deus.

O selo do Espírito é o espaço na mente e no coração dos cristãos que, acolhendo o dom de Jesus cristo, se percebem como outras pessoas renascidas, regeneradas “do alto”. Este espaço e abertura é o selo que pode ser desmanchado pela desconfiança, superficialidade, provações que colocam em dúvidas a nova condição e a capacidade de viver em sintonia com ela. Nesse sentido eis a exortação de Paulo “Não contristeis o Espírito Santo”.

Portanto, os anima “Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor”. A atenção deve ser colocada no amor com o qual somos amados. A entrega de Cristo por mim, como dirá Paulo em outro texto, e os efeitos desse amor devem tomar conta de todo o ser, encharcá-lo como a esponja na água. Assim, o viver do cristão não pode ser desligado desse amor.

Só dessa maneira será possível viver no amor, pois, cada pensamento, cada ação brota dele e a ele tende. Daí vem motivação e força para assumir as atitudes convenientes que o apóstolo indica.

Em primeiro lugar a de devolver a Deus o dom recebido, como espontânea gratidão pelos benefícios recebidos, imitando-o “Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama”. Pois, Ele agiu não retendo nada para si mesmo, mas doando tudo para o bem da humanidade até entregar o próprio único Filho; daí, decorrem duas atitudes: A primeira afastar-se e libertar-se de “Toda amargura, irritação, cólera, gritaria, injúrias (...) como toda espécie de maldade”. Trata-se de cultivar e manter o coração livre de tudo que impede fluir o amor. É viver a verdadeira liberdade. Com efeito, tal condição se manifesta quando amamos, pois é a liberdade para amar, muito mais profunda que a liberdade de escolher.

A segunda é desenvolver no profundo do ser os mesmos sentimentos de Cristo “Sebe bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo”.

Particularmente importante é o perdão, cuja realização não é fruto da vontade, da determinação pessoal, pois, é experiência de todos os múltiplos fracassos da boa vontade e sinceros sentimentos neste sentido, mas da consistência e profundidade da interiorização do perdão realizado por Cristo Jesus. Com outras palavras, ter feito experiência do perdão é a força para perdoar.

Acreditar no perdão de Cristo exige a mesma fé que Cristo pede aos ouvintes do evangelho de hoje, continuação do domingo anterior.

Evangelho Jo 6,41-51

A afirmação de Jesus “Eu sou o pão que desceu do céu” suscitou a murmuração dos judeus, pois, comentavam “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?”. Perante delas Jesus faz apelo ao “Pai que me enviou”, no sentido que ninguém “pode vir a mim” se o Pai não o atrai. Acrescenta “E eu o ressuscitarei no último dia”.

Com isso afirma sua união e proveniência do Pai que legitima sua afirmação, e promete que quem acreditar nele terá como efeito ser ressuscitado no último dia pelo mesmo Jesus. Portanto não é só acreditar no presente em virtude de sua união com o Pai, mas ter a certeza da vida em plenitude no último dia, participando da ressurreição.

Com efeito, a ressurreição já era afirmada no Antigo Testamento, para que ninguém pensasse que com a morte tudo acabou, seja pelos os que respeitam a Lei, assim como pelos que a desrespeitam. Deste modo, ninguém pode fugir das exigências da lei, pois serão julgados para a salvação ou a condenação.

Jesus falando de pão da vida, da vida eterna, da ressurreição, coloca perante deles a certeza do pleno cumprimento da Lei para todos os que acreditam nele. Ele se apoia nos Profetas para afirmar que todos serão discípulos de Deus, pois, o Pai chama a todos, indistintamente, sem diferença e discriminação nenhuma.

A prova de que o pessoal escuta a voz do Pai “e por ele foi instruído, vem a mim”, se aproxima e acredita em Jesus. Assim, ser chamado e instruído pelo Pai não necessariamente significa tê-lo visto, isso é experiência de Jesus “Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai”. Contudo, quem acreditar em Jesus já possui a vida eterna, participa da vida do Pai.

Jesus não responde sobre o como desceu do céu, mas argumenta sobre sua união com o Pai e sobre os efeitos nas pessoas que acreditam na sua pessoa e na sua palavra. Portanto repete “Eu sou o pão da vida (...) quem dele comer, nunca morrerá”. Está oferecendo todos os motivos pelos quais merece confiança.

Tem mais, após afirmar de novo “Eu são o pão vivo descido do céu, quem come deste pão viverá eternamente”, afirma algo ainda mais surpreendente “E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”, que deixa ainda mais desnorteados os ouvintes. (As reações do povo e dos discípulos serão o conteúdo do evangelho do próximo domingo).

A glória de Deus é a vida do homem. Jesus que passar e mergulhar os homens na vida eterna já nesta vida passageira, que passa pela comunhão com todos os seres humanos e a criação. Esta meta, do ponto de vista racional e humano impossível, se torna realidade pela fé, por assumir o estilo de vida e a filosofia de Jesus, por acreditar nele, muito além do que os sentidos e a inteligência humana podem perceber e elaborar.

É este esforço e coragem de acreditar nele que Jesus pede aos ouvintes, de então e de hoje.

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