quarta-feira, 26 de setembro de 2012

26to DOMINGO DO T.C.-B-(30-09-12)


1ª leitura Nm 11,25-29

A atividade profética é essencial para o povo de Israel. Elias será o protótipo dos profetas, pois, na transfiguração de Jesus aparecerá ao lado de Moisés, significando que a Lei e os Profetas são as duas pernas da caminhada do povo para cumprir as exigências da Aliança e manifestar ao mundo inteiro o Reino de Deus.
O profeta é quem vigia o correto caminho do povo e das autoridades na Aliança. É a consciência crítica que avalia e julga. Portanto nem sempre sua atividade é aceita, pois, muitas vezes tem que falar o que autoridades e povo não querem ouvir.
 É muita carga para Moisés a atividade profética, pois é impossível atender as inúmeras causas do povo. Então o Senhor “retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e o deu aos setenta anciãos”. Nada de especial, trata-se de bom senso, Deus institui pessoas para este serviço enviando e doando o espírito.
Notável é que o exercício da profecia, não é ligado simplesmente à instituição dos setenta enquanto tal, mas a livre determinação da vontade de Deus, pois, ele é e sempre ficará um dom. Nunca será posse do profeta chamado a exercer “Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram”.
A posse significa ter domínio e poder sobre o espírito, seria se apropriar de algo que é unicamente de Deus, pois, faz parte dele. Seria abuso. Portanto, mesmo sendo profeta o correto exercício da profecia depende única e exclusivamente ser enviado.
Assim “O espírito repousou igualmente sobre os dois, que estavam na lista, mas não tinham ido à tenda, e eles profetizavam no acampamento”. Não foram à celebração para ser ordenados como profetas. Não se diz o porquê, e tampouco tem importância. O que se destaca é a absoluta liberdade de Deus em determinar com o que achar certo, sem nenhum vínculo nem da investidura oficial por ele aprovada.
Deus é livre até de suas determinações e ações, no propósito de se ativar para o bem do povo. Isso desconcerta e desnorteia quem, ainda que sem querer pensar nisto, pretenda determinar, colocar critérios à ação de Deus, como no caso do jovem ajudante de Moisés que correu avisá-lo “Moisés, meu Senhor, manda que se calem!”.
Ao longo da história da Igreja e na atualidade quantas pessoas ligadas à instituição mandaram calar vozes proféticas dissonantes do que a instituição achava certo e verdadeiro, para depois de anos, ou do falecimento dos mesmos, reabilitá-lo se desculpando porque a igreja - entendida como Hierarquia - é pecadora. É reconhecer de que se apropriaram de algo que não lhe era próprio. Pior é que muitos pensam que é inevitável e irá sempre acontecer. Não concordo com isso.
A resposta de Moisés mostra a altura da sua personalidade “Tens ciúme de mim? Quem dera que todo o povo do senhor fosse profeta, e que o Senhor e lhe concedesse o seu espírito!”. A primeira afirmação, com uma ponta de ironia, evidencia o perigo de considerar a profecia exclusiva competência do grupo instituído, e do medo de ver diminuído o poder e a competência dele, sendo exercido por outros, como se estes tivessem se apropriado de algo que pertence só a ele.
Com o “Quem dera (...)” Moisés manifesta entender o alcance e a liberdade da ação de Deus e se alegra se todo o povo tivesse a condição de profetizar. Vale destacar que esta condição é passada ao povo pelo batismo cristão, cujo sinal exterior é a unção com o Crisma.
Se assim for não deveria acontecer o que Tiago estigmatiza na segunda leitura.

2da leitura Tg 5,1-6

O apóstolo se dirige aos ricos da comunidade cristã com palavras muito duras “ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que estão para cair sobre vós”, pois era tida como iminente a vinda do Senhor e com ela a definitiva implantação do reino, o fim do mundo, na qual deverão dar conta da própria conduta ruím.
Dois são os motivos. “O salário dos trabalhadores que ceifam os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso”. Evidente atitude de persistente exploração, e conseguinte sofrimento dos pobres e dos seus familiares.
O segundo motivo “Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida (...) condenastes o justo e assassinastes; ele não resiste a vós”. Indiferença e insensibilidade para com os sofredores, por estar voltados simplesmente sobre si mesmos.
Pior ainda, para acrescentar o luxo e a boa vida praticam todo tipo de maldade até o extremo “Condenastes o justo e o assassinastes”, sem que pudesse se defender. Assim estão “cevando os vossos corações para o dia da matança”. Entraram na dinâmica do mal, assim que vai crescendo e expandindo como uma espiral que se torna matança. Tal vez, a mesma matança que cairá sobre eles o dia da vinda do Senhor, não por vingança do Senhor, mas por ceifar o que semearam.
Portanto, os ricos deveriam temer o futuro deles “por causa das desgraças que estão para cair sobre vós”, pelo mal que fizeram por um lado, e ao mesmo tempo por acumularem grandes quantidades de bens e deixar que apodrecessem, em lugar de utilizá-los para atendera às necessidades dos indigentes. Em fim a maldade, a iniqüidade, tomou conta da pessoa e da vida deles. Do ponto de vista de Deus se suicidaram...
Infelizmente é também realidade atual, com características diferentes, mas não com menor dramaticidade. Refiro-me á especulação financeira, á falta de ética no mercado, à corrupção e outros aspectos, onde a única lei que impera é o lucro, custe o que custar, mesmo que isso signifique manter na indigência boa parte da humanidade.
O movimento dos “indignados”, as instituições, os profetas, que gritam com insistência para uma nova ordem da economia e das finanças mundiais, mesmo não se referindo à segunda vinda de Cristo, apelam ao sentimento de humanidade, à fraternidade universal e aos valores da convivência na justiça, e não último à sobrevivência do planeta em consideração da exploração da natureza e do crescente número dos habitantes na terra. Eles são a voz de Deus, presente e viva na história, desenvolvem o papel profético e procuram estimular a vida social para a política e a economia se afastarem do escândalo de condenar milhões de pessoas à uma vida desumana e a morte prematura.
Profecia e escândalo. A primeira é dom de Deus para todo cristão consciente, o segundo deve-se evitar com determinação custe o que custar. É o que o evangelho ensina.

Evangelho Mc 9,38-43.45.47-48

“Quem não é contra nós é, a nosso favor”. É a conclusão de Jesus com respeito ao pedido de João “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue”. O que é seguir ou não Jesus? Com certeza, não é estar simples e fisicamente ao lado dele.
 Para Jesus o desconhecido não falará mal dele.  Assim, mesmo não estando fisicamente no grupo dos discípulos, por outros caminhos, circunstâncias e meios sintonizou com a pessoa e a palavra dele, até se achar em condição de agir como ele.
Gostaríamos de saber mais com respeito a este processo, mas o texto não oferece elementos. Fica a alerta para os discípulos.  Não se atribuir poderes de proibição pelo simples fato de seguir e professar a própria adesão ao Senhor, precisa-se de visão e critérios mais amplos; como não colocar cerca entre “os nossos” e os que não participam da comunidade ou da mesma religião, pois há caminhos desconhecidos pelos quais chegar a sintonizar com Jesus. E conferir a sintonia entre a ação - neste caso devolver à pessoa a integridade, contra tudo o que divide ela, dela mesma, ou seja, o demônio - e informação sobre Jesus.
Reconhecer e sintonizar com os discípulos e sustentar a missão deles mesmo com uma ação tão espontânea e humana como dar um copo de água “porque sois de Cristo” (não quer dizer que se não é de Cristo não vai dar!) não ficará sem recompensa, pois, no fundo está a percepção do amor que eles transmitem e a resposta de amor no copo de água. O que salva e é ao mesmo tempo recompensa é o amor.
O contrário é o escândalo, palavra ou atitude que suscita reprovação, desgosto e grande perturbação da consciência e do sentimento. É contra-testemunho que pode levar ao afastamento e rejeição do caminho. Os profetas dirão abertamente que por causa dos escândalos muitos se afastaram do caminho do Senhor.
É o que, infelizmente, acontece também hoje. Muitos se afastam da Hierarquia, do clero, especialmente de todo o que se refere a Vaticano, pelos conhecidos escândalos, e não querem nada da Igreja como instituição, mesmo manifestando sua fé e adesão à pessoa e ação de Jesus.
Assim, “se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho”. Os pequeninos não se referem às crianças, mas a todos aqueles que se fizeram pequeninos, se afastando do próprio estilo de comportamento, da própria filosofia de vidas, dos próprios critérios humanos, para assumir com humildade e confiança o ensino da pregação dos discípulos.
O escândalo os levam a pensar que tudo foi engano, que investiram em algo que não merecia e determina o afastamento e abandono. Daí uma sentença tão dura e chocante. Assim como são radicais as indicações “Se tu pé leva a pecar, corta-o! (...)”. O que está em jogo é a salvação a entrada no Reino de Deus, pela qual é preciso agir com determinação e firmeza, como se tivesse que cortar o que origina o escândalo.
Evidentemente, não é fisicamente o pé, a mão, o olho que originam o escândalo, mas a estruturas os condicionamentos do próprio mundo interior que leva à ação escandalosa. Toda pessoa é sujeita por um motivo ou outro ser motivo de escândalo, pois no coração do homem há grande potencialidade de bem como de mal.
No momento que este último aspecto tivesse que fugir do controle, crescer e ser motivo de escândalo é preciso tomar as providências necessárias, mesmo se radicais e dolorosas. Nesta circunstâncias sempre se poderá contar com a graça, com a ajuda misericordiosa do Senhor.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

25to DOMINGO DO T.C.-B-(23-09-12)



1a leitura Sab 2,12.17-20

O capítulo todo merece ser lido. Descreve o contraste entre o justo que teme Deus, e se comporta em sintonia com a Lei, e o seu contrário, ó ímpio. Não se trata de contraste de ideias, mas de conduta, de comportamento. O ímpio se comporta come se Deus não existisse, ou, se existe, não lhe importa. Vai pelo caminho e os critérios dele.
É Um texto de grande atualidade, escrito pouco antes de Jesus nascer - mais ou menos cinquenta anos – pela sabedoria hebraica na Alexandria de Egito em língua grega (razão pela qual os irmãos evangélicos não o consideram inspirado por Deus. Portanto, não está - com outros livros também – na bíblia deles).
Eis o retrato da distorcida e perversa conduta do ímpio “Os ímpios disseram”. Eles estão irritados pela conduta do justo. Não se trata de divergências de ideias, mas do comportamento que “se opõe ao nosso modo de agir”, inclusive o fato de não se associar à turma deles. São dois mundos pertos e contrapostos.
Os ímpios e os justos receberam a mesma instrução, foram ensinados na mesma disciplina, mas os primeiros se determinaram a seguir para outro caminho. Portanto, o comportamento do justo é permanente chamada de atenção com respeito ao que eles renegaram, removeram e gostariam que nunca aflorasse.
A conduta do justo se torna repreensão às “transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina”, pois, o comportamento por si só provoca tanto ou mais do que a palavra.
Longe está o propósito de conversão, por reação surge neles o sentimento de aversão, que crescendo, é percebido como ameaça à própria conduta colocada como entre espada e a parede. Eis, então, o propósito de suprimir o justo.
É o que o justo percebe, como ação contra ele “Vemos pô-lo à prova com ofensas e torturas (...) vamos condená-los à morte vergonhosa” . A intenção é suprimi-lo física e moralmente a fim de desmanchar toda memória, manchando a memória de uma vez para sempre.
Acrescenta-se o sarcasmo de provar o justo verificando a consistência e bondade da serenidade e da paciência, tidas como características da vida do justo que se considera como tal.
Mia ainda, o ímpio pretende conferir se a condição do justo é aprovada por Deus, sendo que presume ser filho de Deus. “Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz (...) De, de fato, o justo é ‘Filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos (...) porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”.
A intervenção direta de Deus é tida como prova irrefutável da condição de “justo” que presume para si mesmo. Só depois disso será aceito como tal e merecedor de confiança. Pois, é inadimissível que Deus não intervenha a favor do justo. Se não acontecesse é prova do engano por parte do justo.
No ímpio se configuram simultaneamente, pela ação e presença do justo, a consciência da própria condição de transgressor da Lei, e a de caçoar o justo, desafiando a intervenção de Deus, pelo qual não tem consideração senão pela curiosidade de quem quer brincar e ponto. É evidente que a figura do justo combina perfeitamente com a de Jesus, assim como as reações e provações que sofrerá.
Os dois mundos contrastantes - do ímpio e do justo - serão permanentemente irreconciliáveis e determinam o âmbito da ação pastoral. O que sustenta o conflito e as atitudes de um e do outro são considerados na segunda leitura.

2da leitura Tg 3,16-4,3

É bem conhecido que ímpio e o justo integram todo grupo social, inclusive na igreja. Pois, na igreja, na comunidade, não faltam tensões e brigas. O apóstolo pergunta “De onde vem as guerras?De onde vem as brigas entre vós?”e afirma em forma interrogativa “Não vem,justamente das paixões que estão em conflito dentro de vós?”.
Coloca na paixão a causa principal, cuja finalidade é a posse do que motiva o seu surgimento a força ativa. Nem todas as paixões têm como meta a posse, mas, aquelas finalizadas a isso manifestam grande poder de destruição. Com efeito, a paixão não controlada pela razão destrói, é ruim.
É o que apresenta o trecho “Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir”. Tudo isso acontece porque o afã de possuir desmancha a dimensão de presente e, portanto, o relacionamento de gratuidade e de liberdade para com aquilo que é e deve ser percebido e mantido como presente, como graça.
Entre outros aspectos é a maneira de esvaziar o conteúdo de beleza e fascinío do possuído, e de novo comparece a insatisfação  com o desejo de mais possuir ainda. Acontece, para exemplificar, como no menino que tomando posse do presente, o dia seguinte esquece-o, com frustração de quem doou.
Por outro lado, a frustração de não conseguir suscita de aversão - chegando até conflitos fratricidas e guerras - a inveja que leva olhar mal e com raiva quem possui o que é desejado. Pelo contrário, o ciúme é o temor de perder o que é possuído. De toda maneira, por um lado ou pelo outro, possuir é ruim.
Assim, a ação de Jesus e de Deus, a nosso favor sempre é presente, dom, imerecido e gratuito. Ele sempre será dom, nunca será posse. Seria esvaziá-lo do conteúdo de maior importância: o amor. Deus é amor, portanto, seria rejeitar a realidade de Deus como comunhão no amor.
Em cada momento e em toda circunstância podemos contar com o dom. Afirma são Paulo “onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça”(Rm 5,21). Toda pessoa que faz do presente, do dom, motivo de troca, joga fora o conteúdo de amor contido nele, e se desvirtuam os autênticos relacionamentos pessoais, familiares e sociais, cujas consequências negativas são bem conhecidas.
O apóstolo indica a saída em pedir corretamente “Pedis, sim, mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres”. Assim, pedir de maneira correta é manter em relação ao recebido a consciência de dom, de presente. Isso abre o coração e motiva a vontade em passar a outro, em fazer partícipe outro do mesmo dom. Na transmissão se enriquecem simultaneamente quem doa e quem recebe.
Mais o dom é sincero, transparente e não contaminado do sentimento de posse ou de troca; na transparência, como a marca d’água, se percebe a presença de Deus. É o que Jesus praticou e ensinou, e continua ensinar pela palavra e atualizar pelos sacramentos, tendo como pano de fundo o que o evangelho apresenta.
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Evangelho Mc 9.30-37

Jesus ensina e ao mesmo tempo anuncia aos discípulos o que acontecerá para com ele “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”. Eles ficaram desconcertados e desnorteados, de jeito nenhum teriam esperado uma colocação deste tipo.
De fato, “não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”. Não compreendiam porque totalmente diferente das convicções e expectativas deles que esperavam o contrário. E também porque a preocupação deles era discutir “quem era o maior”.
À pergunta de Jesus “O que discutíeis pelo caminho?”, ficaram calados. Pois perceberam o constrangimento de estar em toda outra sintonia com respeito à colocação de Jesus. Daí, também o “medo de perguntar”, por não querer tomar ciência de algo tão absurdo, porque contrário às expectativas e destruidor da imagem do Messias que tinham. Do ponto de vista humano é desagradável e incômodo se encontrar desnorteados e perdidos, melhor não perguntar.
“Pelo caminho tinham discutido quem era o maior”. Tal vez em consideração da implantação do reino com a chegada de Jesus a Jerusalém. Pois era opinião comum que o Messias devia comparecer a noite de Páscoa no templo, iniciar à expulsão dos romanos de Israel e purificar o povo, discernindo os cumpridores dos descumpridores da Lei, para instaurar o reino de Deus.
Impressiona a incomunicabilidade entre Jesus e eles, dois mundos opostos. Jesus não se surpreende da incompreensão deles. Com calma e domínio de si mesmo coloca “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” invertendo o critério comum. Não explica em virtude de que a inversão consiga o primeiro lugar.
Cabe supor que faça parte da implantação do reino de Deus, pois é a finalidade da missão. Portanto, só no horizonte da gratuidade e do dom - segunda leitura - se pode compreender como a inversão consiga resultado.
Só após a morte e ressurreição de Jesus e pelos efeitos em quem acolhe o dom da vitória  dele sobre o pecado e a morte, será manifesto em que consiste “ser o primeiro” , por servir a causa do reino e ganhar a condição divina, inimaginável à mente humana.
Pelo momento Jesus pede confiança, através do gesto surpreendente e acolher e abraçar uma criança. Não acolhe pelas virtudes da criança por ser tal, mas por não ter peso social no ambiente. Pois, só com a maioria da idade - adquirida mais o menos aos doze anos no templo mostrando compreender a Lei  -o relato de Jesus no templo  -, se torna adulto a todos os efeitos. Antes, do ponto de vista social, é equiparada ao escravo hebreu, pois, é considerada simplesmente em quanto futuro cidadão.
“Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que está acolhendo” por um lado surpreende os ouvintes, pelo outro significa que entendeu o significado da atitude de Jesus. Com ela Jesus a consciência de ter, com respeito ao nível social, insignificância por ser Galileu, por sua humilde condição social, por não ter título o descendência prestigiosa,pois, provem da roça e filho do carpinteiro!
Retoma o tema do acolhimento “E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou” se referenda a si mesmo e mais ainda ao relacionamento com o Pai. Jesus sabe de não contar, como não conta a criança em quanto tal, contudo, pede a conversão de atitude: ser acolhido e colocado no meio deles -como acaba de fazer com a criança – no centro a atenção , como se acolhe de coração aberto a quem se abraça.
Só assim entenderão o que é “ser primeiro”.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

24to DOMINGO DO T.C.-B- (16-09-12)

1a leitura Is 50,5-9°

O trecho, tirado do terceiro (dos quatros) cânticos do “Servo de Javé”, apresenta o Servo como pessoa perseguida por causa da palavra do Senhor “O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás”.

O Servo chamado por Deus para a missão em favor do povo de Israel é ungido pela presença e força do Espírito Santo. Nos cânticos anteriores (precisa-se ter a visão conjunta dos quatro cânticos), apesar das dificuldades no desenvolvimento da missão, e, por isso questionar sobre o sentido dela devido aos escassos resultados, o Servo é confirmado e aprovado por continuá-la, de maneira tal que a luz dela resplandeça não só para Israel, mas para a salvação de todas as nações.

Contudo, o que o Senhor comunica a ele palavras a serem transmitidas contrárias aos desejos e expectativas do povo. Pois, não encontrará acolhimento nem adesão, pelo contrário, será uma rejeição assustadora e violenta. Ele deverá pregar o que o povo não quer ouvir, propor o que será tido como blasfemo e contrário à tradição e anunciar um futuro contrário à expectativa e esperança deles.

De fato experimentará a reação particularmente violenta e humilhante “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba: não desviei o rosto de bofetões e cusparadas”. Enfrenta-a com plena consciência da causa, não fica surpreso, e com grande dignidade pessoal “não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra”.

Cabe se perguntar: o que motivou não desistir nem voltar atrás da missão sabendo o que ia acontecer? O que sustentou a força do ânimo e a atitude dele? Em primeiro lugar a certeza de que “O Senhor é meu Auxiliador; quem é que me vai condenar?”. Em segundo lugar a identificação e intimidade com o Senhor que o enviou, o fascínio da verdade, a paixão do possível, e o sentido profundo da própria existência.

O que preocupa ele não é a condenação dos homens, mesmo violenta e humilhante, mas a do Senhor, por não obedecer e confiar nele. Portanto “não me deixei abater (...) sei que não serei humilhado”. Adquiriu pela obediência e pela força do Espírito uma certeza e força interior muito superior, as normais condições humanas, pois por muito menos, a desistência seria aprovada e justificada pela grande maioria das pessoas.

É evidente a consistência e a personalidade de quem se dedica com convicção, determinação e retidão à causa do Senhor pela qual foi chamado e se deixou envolver. Pois, servir sincera e autenticamente o Senhor é como tornar a si mesmo um “Rio de água viva” para os momentos de aridez, secura, solidão, dor, fracasso, como aquele que o servo está experimentado.

Trata-se de beber a água do próprio poço interior, como afirma João “Aquele que crê em mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior”(Jo 7,37-38). Esta “água” que o revigora forma nele um estado de ânimo surpreendente, até afirmar de maneira desafiadora “Ao meu lado está quem me justifica (...). Quem é meu adversário? Aproxime-se”.

Pois, ele tem a certeza “A meu lado está quem me justifica”. O desafio ao opositor de se aproximar, não é para a justiça vingativa, mas demonstrativa da verdade da qual ele é transmissor e, em virtude da qual, quer continuar confrontar-se com ele. A “água” sustenta a coragem de continuar na missão continuando o enfretamento, e alimenta na consciência a certeza do desenvolvimento correto da mesma e dá condições para afirmar com determinação “alguém me fará objeções? Vejamos (...)Aproxime-se”.

A imagem que transmite, de jeito nenhum é da pessoa fracassada, deprimida, amargurada e desejosa de revanche. Pelo contrário, é de uma pessoa vitoriosa, com surpreendente vontade de continuar a luta, devido

a certeza de que Deus está “a meu lado e me justifica; alguém me fará objeções?”.

Ter acreditado no Senhor e mantido a confiança mesmo nas provações e nas dificuldades, com retidão e determinação, faz do Servo um modelo significativo e digno de imitação. Estas atitudes básicas imprimidas no coração sustentam o discernimento, assim de colocar palavra e atitude para com o próximo em sintonia com elas.

A isto chama atenção da comunidade o apóstolo na segunda leitura.

2da leitura Tg 2,14-18

O apóstolo questiona com vigor o comportamento da comunidade “Meus irmãos: que adianta alguém dizer que tem fé, quando não a põe em prática?”. É questionamento de muitos dentro e fora da Igreja para com aqueles que se comportam dessa maneira. Assim, a profissão de fé e a prática do dia a dia são separadas, como que descoladas. A consequência é o esvaziamento da condição de discípulos.

Mais ainda está em jogo a finalidade, a missão, pois, pergunta Tiago: nesta condição “A fé seria então capaz de salvá-lo?”. Portanto, a simples profissão - enunciado - de fé na pessoa e na obra de Cristo não gera a salvação pela qual Jesus entregou sua vida.

O descolamento entre fé e vida é um desafio atualíssimo à evangelização. Tal vez seja conseqüência de ter ensinado a fé como adesão à verdades enunciadas e ensinadas no catecismo e na bíblia, sem a correspondente ligação com a prática, pois, esta última foi colocada no âmbito da ética e classificada como pecado.

Pela verdade a teologia da libertação procurou colocar no centro da proposta esta ligação, refletindo sobre a importância e o valor fundamental da prática ética, como expressão da fé devidamente entendida e assimilada. A devoção e as celebrações são para agradecer a Deus do poder dEle nesta ligação e para pedir que o vínculo se aperfeiçoe e se aprofunde cada vez mais, pois, nele está o mandamento do amor.

Portanto, o comportamento incorreto não é só manifestação do pecado, mas do que está no mais profundo e previamente, ou seja, o errado entendimento de Deus e do que ele fez e continua fazendo por meio de Cristo na Palavra e nos sacramentos.

É esta verdade que Tiago evidencia com suas palavras “a fé se não se traduz em obras, por si só está morta”. Ela, na convicção do apóstolo, é tão certa e fundamental para a vivência do cristão que desafia os que pensam o contrário “Tu, mostra-me a tua fé sem obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras.”.

Isso corresponde às palavras de Jesus no sermão da montanha “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor,Senhor, não foi em teu nome que profetizamos(...) que expulsamos demônios? (...) que fizemos muitos milagres?’ Então eu lhes direi publicamente: ‘Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal’” (Mt 7,21-23).

Assim as obras procedem da fé e medem a consistência e a força dela. Fé e obras são as duas faces do mistério de Deus no qual somos mergulhados e renovados gratuita e continuamente pela atualizacão dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus. Daí a firmeza do apóstolo “te mostrarei a minha fé pelas obras!”, na certeza que o contrário é engano, e aponta com ironia “mostra-me a tua fé sem as obras”.

A fé autêntica orienta a atenção aos sofredores, suscita a compaixão e a misericórdia para com eles, e, se torna ação para os tirar do sofrimento e devolver a eles as condições de dignidade própria de cada ser humano. O exemplo do apóstolo não deixa dúvidas “(... ) sem lha dar o necessário para o corpo, que adiantará isso?”. Portanto fecha “a fé se não se traduz em obras, por si só está morta”, pois, o que vivifica a fé são as obras, não as palavras, os gratificantes conceitos, os bons propósitos, mas as obras.

Por obras se entende toda atividade, como dom de si mesmo para o bem do próximo e da humanidade., como mostra o evangelho

Evangelho Mc 8,27-35

“Jesus partiu com seus discípulos (...) no caminho perguntou ‘Quem dizem os homens que eu sou?’”. Jesus está em constante caminho, passa de um lugar para outros, de uma situação para outra, rumo a meta final: Jerusalém. Para o desfecho da missão.

Os discípulos responderam “Alguns dizem que tu és João Batista; outros que és Elias; outros, ainda que és um dos profetas”, pois , é reconhecido como enviado por Deus. Contudo, a intenção de Jesus é outra: “E vós, quem dizeis que eu são? Pedro respondeu ‘Tu és o Messias”.

Surpreendentemente Jesus “proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito”. O motivo é ter percebido que a ideia de Messias de Pedro e do povo é totalmente diferente, contrária, a dele. Portanto, seria incentivar a compreensão enganosa do que é realmente ser Messias. Então “Em seguida, começou a ensiná-los, dizendo que o Filho do Homem devia sofrer muito (...) e ressuscitar depois de três dias”.

Com efeito, a imagem do Messias que esperavam, era o enviado de Deus comparecer a noite da Páscoa no templo e iniciasse o movimento de libertação dos romanos e purificasse o povo separando os cumpridores dos infiéis à Lei. Assim, assumindo o poder, instaurasse o reino em perfeita sintonia com a Lei os mandamentos da Aliança.

O abalo e desconcerto dos discípulos foram acrescentados por Jesus falar abertamente, para todos ouvirem. Pois, era como condenar a missão ao fracasso, todos teriam se afastados. Daí que Pedro “tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo”. Por sua vez, Jesus “voltou-se, olhou para os discípulos e reprendeu Pedro dizendo: ‘ Vai longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens’”.

Impressionante e incrível, aquele que minutos antes respondeu corretamente e foi elogiado - na versão de Mt. -, agora é reconhecido como Satanás. Esta possibilidade de passar de um extremo a outro é alerta para quem se considera convertido de uma vez para sempre. É necessário conferir caso por caso se o próprio pensar e agir são como Deus o como os homens.

Jesus vai para frente a acrescenta, entre o desconcerto geral, “Se alguém me quer seguir renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Assumir o critério, a maneira de pensar e avaliar de Deus, é renunciar ao próprio critério humano. Isso encontrará a incompreensão, oposição e rejeição de quem não compreende ou não quer entender, o sentido, pois, para ele, é simplesmente loucura.

Com certeza, sob entendimento humano é perder oportunidade humanamente significativa e gratificante, é como renunciar a viver. Jesus responde antecipadamente “Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”.

Eis, o paradoxo: a verdade se esconde no contrário. Portanto, quem permanece simplesmente no próprio âmbito pessoal e familiar, mesmo participando das práticas religiosas e cultuais, mas indiferente e desmotivado a favor dos pobres e injustiçados, e tendo confiança em Deus que o acolherá no reino, está se enganando.

Ao contrário, com certeza o discípulo terá que enfrentar solidão, incompreensão, rejeição, não excluindo a eventualidade de perder a própria vida. Será sustentado pelo amor à causa de Cristo, o mesmo amor pelo qual se sentiu regenerado, transformado e no devolver o dom assumindo à causa de Cristo, identificado com ele e com forte sentimento de se pertencer mutuamente.

Paradoxalmente salvará a sua vida, porque a causa de Cristo é a mesma de Deus para cada pessoa, a humanidade e a criação. Pois, o amor é eterno, ultrapassa o tempo, e confere ao tempo cronológico - passado presente e futuro – a dimensão de eternidade.

Assim, o eterno não é ausência do tempo, mas sua principal qualidade, que nem a morte pode destruir. Perder a vida pela causa é manifestar e acolher a vida eterna doada com a morte e ressurreição. É o que os apóstolos e os discípulos entenderão após o evento da ressurreição e o envio do Espírito Santo. É o tesouro no qual já participamos e estamos mergulhados. Só acreditar e viver conseqüentemente.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

23ro DOMINGO DO T.C.-B-(09-09-12)

1ª leitura Is 35,4-7

Terminado o exílio de Babilônia o povo - o resto de Israel – volta à própria terra. Partir é um pouco como morrer, mesmo tendo ficado no exílio por um longo período de setenta anos. A meta é a terra dos pais, desconhecida e da qual simplesmente ouviram falar. Portanto, o sentimento de desânimo é compreensível.

A eles se dirige o profeta “Dizei às pessoas deprimidas: Criai ânimo, não tenhais medo!”. Pretende passar coragem e confiança, mesmo caminhando para a meta desconhecida e o futuro incerto, sendo que podem contar com a presença de Deus “Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus, é ele que vem para vos salvar”.

Para eles é a recompensa divina de Deus, fiel à promessa e a aliança. Para os opressores será vingança. Não é especificado em que consiste esta última. Não necessariamente deve-se pensar na ação violenta, pois, não há registro dela e o exílio foi pela vontade de Deus como resposta à infidelidade do povo à aliança. Talvez seja que a glória, a vida em abundância, a harmonia e a paz do novo povo, por cumprir os cânones da aliança, se tornem humilhação para o opressor.

Deus pede confiança na sua ação a favor deles e promete regeneração pessoal surpreendente qual “se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos”. A pessoa será restabelecida na integridade física, e também psicológica, moral e espiritual. Encontrar- se -á plenamente consigo mesma, pois, será como uma ressurreição, fonte de alegria e felicidade. Também a natureza participará do mesmo processo “A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes de água”.

Deus renova sua fidelidade com respeito ao futuro e destino do povo, esperando do mesmo a determinação em viver em sintonia com a aliança, após a triste experiência do exílio. A história é mestre, e após o fracasso apreender dos erros para não voltar ao mesmo e manter o rumo correto.

Voltar à terra prometida e ao mesmo tempo ao Senhor com todo o coração e com a vontade de assumir para valer a fidelidade à aliança é condição para que a presença de Deus seja percebida como ponto firme e estável de proteção e realizar os frutos da promessa.

É a oportunidade para começar tudo de novo, após a triste desilusão e se afastar de toda proposta contrária. Trata-se de resgatar os autênticos valores que sustentam o respeito à dignidade da pessoa e com aquele que os assumem e acreditam neles (os valores),organizar a nova sociedade na fraternidade e na solidariedade.

Então, a implantação da justiça e do direito, administrados legalmente, manifestarão que o povo pertence a Deus, agradecendo e louvando por ter sido escolhido e guiado nos acontecimentos pessoais e sociais.

Implantando uma sociedade mais humana na justiça e realizando assim o significado das metáforas do texto que apontam à vida, à felicidade para todos e a harmonia com a criação, louva-se a Deus. O dom da redenção e da salvação se torna no coração, na inteligência e na vontade das pessoas e da comunidade motivo e força para integrar na comunhão os excluídos e afastados.

É conhecida a frase de Santo Irineu, teólogo do segundo século, “A gloria de Deus é a vida dos homens, e a vida dos homens é louvar a Deus”. Assim, a vida alcança sua plenitude quando consciente do resgate e capacitação na prática do amor, faz o mesmo para com outros e, desta forma, retorna a Deus o louvor por tê-lo mergulhado e sustentado na dinâmica.

Com Cristo, Deus fez tudo o que podia fazer a favor dos homens, mas o retorno foi decepcionante, como mostra a segunda leitura.

2ª leitura Tg 2,1-5

Viver em sintonia com o dom recebido forma a consciência da igual dignidade de cada pessoa, assim de não discriminar uma da outra e estabelecer para com todas iguais oportunidades. Com efeito, a fé em Cristo se manifesta no correto relacionamento entre as pessoas. Portanto, o apóstolo se dirige à comunidade “a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas”.

Norma simples e óbvia, mas muito desatendida. Múltiplos são os motivos: vínculo familiar, afinidades, troca de favores, etc. De fato, poucas pessoas sabem manter a correta equidistância. Assim, discriminações humilhantes criam distâncias e afastamentos. Portanto, afirmar a própria fé em Cristo e agir desta maneira é contraditório e inaceitável, não só do ponto de vista da fé, mas do bom senso e do respeito que se deve a cada pessoa.

Jesus ultrapassa toda preferência, até com respeito à mãe “Aqui está minha mãe e meus irmãos.Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”(Mc 3, 34-35).Resposta desconcertante pela sensibilidade humana, mostra a verdadeira atitude de equidade.

Praticar a igual dignidade com cada pessoa é reconhecer nela a minha própria redenção operada pelo sangue de Cristo. É olhar para ela com o mesmo olhar de Deus. Só assim é possível vencer a tentação do favoritismo e da discriminação. Esta atitude é particularmente incisiva e admirada em quem possui um patrimônio ético no qual se espelha o valor da honestidade e retidão.

Para outros, pelo contrário, é ingênuo, fora da realidade do mundo não aproveitar. São sustentados pela convicção de que todos agiriam desta maneira e não entrar nessa é simplesmente passar a oportunidade a outro.

Positivamente o apóstolo considera a valor da pobreza “não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?”. Refere-se aos pobres que amam o Senhor, não simplesmente àqueles que os são do ponto de vista social. Assim, à condição de pobres é associada a confiança amorosa no Deus da vida, no qual colocam a esperança.

A esperança deles é sustentada pelo fascínio e atração pelo reino de Deus, pela comunhão fraterna, sem forma alguma de favoritismo e menos ainda de discriminação. Com efeito, há um abismo entre a vida do mundo e o reino de Deus. As discriminações que o apóstolo evidencia oferecem a distância e a impossibilidade de reconciliação entre os dois mundos.

Esta dimensão social e comunitária da fé não é tomada na devida consideração por parte do povo de Deus. A formação sócio-religiosa é notoriamente muito individualista e pouco comunitária, pois, cada pessoa se preocupa da própria salvação, em desenvolver os próprios dons, capacidade e compromisso individual.

A preocupação social e comunitária é deixada a pessoas tidas como capacitadas ou à boa vontade de outras. Muitos ficam com o pé atrás quando convidadas a assumir responsabilidade na comunidade. Fogem do compromisso, sendo que a salvação individual é ligada à salvação da comunidade, no exercício da fraternidade.

As pessoas se tornam como surdos e mudos à proposta de se formar e preparar para o serviço à comunidade. Precisam se deixar tocar por Jesus, como mostra o evangelho.

Evangelho Mc 7,31-37

O povo pede a Jesus para impor a mão - passar a força e o poder dele – tendo percebido a singularidade da pregação e personalidade dele. Assim, “Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão” e depois “colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele”, gestos pelos quais toda a sua pessoa está envolvida naquilo que vai acontecer.

“Olhando para o céu, suspirou”, como quem sintoniza com o que procede do alto, opera o milagre, pois, sua palavra: “Abre-te!” cumpre o que manda. “Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”. Abriu-se o que estava fechado, restabeleceu-se a plena condição humana para a vida com dignidade, produziu-se as condições para voltar à comunidade e participar dela a todos os efeitos, da qual havia sido excluído pela doença. Para o surdo-mudo foi como uma ressurreição.

A ordem de Jesus “Abre-te” se pode referir não só ao ouvido, mas também ao coração e a inteligência muitas vezes fechados em esquemas fixos, nos preconceitos, nos medos etc., que isolam do convívio comunitário. Desta maneira, os efeitos da celebração litúrgica nas pessoas e na comunidade se anulam, a participação é simples cumprimento de obrigação, vazia de conteúdo, e com o passar do tempo será deixada de lado.

Abrir é convite a criar espaço. O Espírito Santo é espaço. A sua ação na pessoa e na comunidade é passar coragem e ousadia rumo a novos horizontes, elaborando síntese em sintonia com a esperança motivada pela morte e ressurreição de Cristo, sustentada pela promessa de vida em abundância.

Esta dinâmica é inesgotável pelas múltiplas circunstâncias e eventos da história a da vida pessoal, e por participar do mistério de Deus presente na criação, na história e em cada pessoa. Portanto, a existência é ao mesmo tempo um ponto de chegada e de partida. Assim, a abertura é manifestação de acolhimento do Espírito, que sustenta o discernimento necessário para separar o certo do errado e com isso o crescimento na fé autêntica.

Outro aspecto. “Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém”. Por que esta preocupação exigida com determinação de manter o segredo? Talvez, porque Jesus sabe do mal entendido de sua ação, por parte do povo em geral. Teriam visto nele simplesmente quem tem poder de curar, que corresponde ao que esperavam do Messias. De fato, eles ficaram “muito impressionados”, pois, era a primeira condição para ser acreditado como Messias, e diziam “Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.

Por parte de Jesus, o milagre é simplesmente a manifestação de sua idoneidade como Messias, manifestação da eficácia de sua palavra e proposta de vida. Isso para que tenham confiança no ensinamento que revoluciona, transforma e leva a cumprimento o antigo, sobretudo tendo que enfrentar a oposição das autoridades do povo.

Jesus sabia que o choque teria levado ele ao martírio e nele manifestado a verdadeira realidade do Messias com o evento de sua morte e ressurreição. Proibindo a divulgação, pretendia liberar eles da ideia equivocada do Messias, que teria impedido a adequada atenção ao que devia vir.

Com efeito, a correta compreensão da pessoa e da missão de Jesus é o evento da Páscoa. É ao mesmo tempo ponto de partida e de chegada. Nele Deus mostra o último e definitivo não só de Jesus , mas de toda pessoa , da criação, Dele mesmo.