quarta-feira, 26 de setembro de 2012

26to DOMINGO DO T.C.-B-(30-09-12)


1ª leitura Nm 11,25-29

A atividade profética é essencial para o povo de Israel. Elias será o protótipo dos profetas, pois, na transfiguração de Jesus aparecerá ao lado de Moisés, significando que a Lei e os Profetas são as duas pernas da caminhada do povo para cumprir as exigências da Aliança e manifestar ao mundo inteiro o Reino de Deus.
O profeta é quem vigia o correto caminho do povo e das autoridades na Aliança. É a consciência crítica que avalia e julga. Portanto nem sempre sua atividade é aceita, pois, muitas vezes tem que falar o que autoridades e povo não querem ouvir.
 É muita carga para Moisés a atividade profética, pois é impossível atender as inúmeras causas do povo. Então o Senhor “retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e o deu aos setenta anciãos”. Nada de especial, trata-se de bom senso, Deus institui pessoas para este serviço enviando e doando o espírito.
Notável é que o exercício da profecia, não é ligado simplesmente à instituição dos setenta enquanto tal, mas a livre determinação da vontade de Deus, pois, ele é e sempre ficará um dom. Nunca será posse do profeta chamado a exercer “Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram”.
A posse significa ter domínio e poder sobre o espírito, seria se apropriar de algo que é unicamente de Deus, pois, faz parte dele. Seria abuso. Portanto, mesmo sendo profeta o correto exercício da profecia depende única e exclusivamente ser enviado.
Assim “O espírito repousou igualmente sobre os dois, que estavam na lista, mas não tinham ido à tenda, e eles profetizavam no acampamento”. Não foram à celebração para ser ordenados como profetas. Não se diz o porquê, e tampouco tem importância. O que se destaca é a absoluta liberdade de Deus em determinar com o que achar certo, sem nenhum vínculo nem da investidura oficial por ele aprovada.
Deus é livre até de suas determinações e ações, no propósito de se ativar para o bem do povo. Isso desconcerta e desnorteia quem, ainda que sem querer pensar nisto, pretenda determinar, colocar critérios à ação de Deus, como no caso do jovem ajudante de Moisés que correu avisá-lo “Moisés, meu Senhor, manda que se calem!”.
Ao longo da história da Igreja e na atualidade quantas pessoas ligadas à instituição mandaram calar vozes proféticas dissonantes do que a instituição achava certo e verdadeiro, para depois de anos, ou do falecimento dos mesmos, reabilitá-lo se desculpando porque a igreja - entendida como Hierarquia - é pecadora. É reconhecer de que se apropriaram de algo que não lhe era próprio. Pior é que muitos pensam que é inevitável e irá sempre acontecer. Não concordo com isso.
A resposta de Moisés mostra a altura da sua personalidade “Tens ciúme de mim? Quem dera que todo o povo do senhor fosse profeta, e que o Senhor e lhe concedesse o seu espírito!”. A primeira afirmação, com uma ponta de ironia, evidencia o perigo de considerar a profecia exclusiva competência do grupo instituído, e do medo de ver diminuído o poder e a competência dele, sendo exercido por outros, como se estes tivessem se apropriado de algo que pertence só a ele.
Com o “Quem dera (...)” Moisés manifesta entender o alcance e a liberdade da ação de Deus e se alegra se todo o povo tivesse a condição de profetizar. Vale destacar que esta condição é passada ao povo pelo batismo cristão, cujo sinal exterior é a unção com o Crisma.
Se assim for não deveria acontecer o que Tiago estigmatiza na segunda leitura.

2da leitura Tg 5,1-6

O apóstolo se dirige aos ricos da comunidade cristã com palavras muito duras “ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que estão para cair sobre vós”, pois era tida como iminente a vinda do Senhor e com ela a definitiva implantação do reino, o fim do mundo, na qual deverão dar conta da própria conduta ruím.
Dois são os motivos. “O salário dos trabalhadores que ceifam os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso”. Evidente atitude de persistente exploração, e conseguinte sofrimento dos pobres e dos seus familiares.
O segundo motivo “Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida (...) condenastes o justo e assassinastes; ele não resiste a vós”. Indiferença e insensibilidade para com os sofredores, por estar voltados simplesmente sobre si mesmos.
Pior ainda, para acrescentar o luxo e a boa vida praticam todo tipo de maldade até o extremo “Condenastes o justo e o assassinastes”, sem que pudesse se defender. Assim estão “cevando os vossos corações para o dia da matança”. Entraram na dinâmica do mal, assim que vai crescendo e expandindo como uma espiral que se torna matança. Tal vez, a mesma matança que cairá sobre eles o dia da vinda do Senhor, não por vingança do Senhor, mas por ceifar o que semearam.
Portanto, os ricos deveriam temer o futuro deles “por causa das desgraças que estão para cair sobre vós”, pelo mal que fizeram por um lado, e ao mesmo tempo por acumularem grandes quantidades de bens e deixar que apodrecessem, em lugar de utilizá-los para atendera às necessidades dos indigentes. Em fim a maldade, a iniqüidade, tomou conta da pessoa e da vida deles. Do ponto de vista de Deus se suicidaram...
Infelizmente é também realidade atual, com características diferentes, mas não com menor dramaticidade. Refiro-me á especulação financeira, á falta de ética no mercado, à corrupção e outros aspectos, onde a única lei que impera é o lucro, custe o que custar, mesmo que isso signifique manter na indigência boa parte da humanidade.
O movimento dos “indignados”, as instituições, os profetas, que gritam com insistência para uma nova ordem da economia e das finanças mundiais, mesmo não se referindo à segunda vinda de Cristo, apelam ao sentimento de humanidade, à fraternidade universal e aos valores da convivência na justiça, e não último à sobrevivência do planeta em consideração da exploração da natureza e do crescente número dos habitantes na terra. Eles são a voz de Deus, presente e viva na história, desenvolvem o papel profético e procuram estimular a vida social para a política e a economia se afastarem do escândalo de condenar milhões de pessoas à uma vida desumana e a morte prematura.
Profecia e escândalo. A primeira é dom de Deus para todo cristão consciente, o segundo deve-se evitar com determinação custe o que custar. É o que o evangelho ensina.

Evangelho Mc 9,38-43.45.47-48

“Quem não é contra nós é, a nosso favor”. É a conclusão de Jesus com respeito ao pedido de João “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue”. O que é seguir ou não Jesus? Com certeza, não é estar simples e fisicamente ao lado dele.
 Para Jesus o desconhecido não falará mal dele.  Assim, mesmo não estando fisicamente no grupo dos discípulos, por outros caminhos, circunstâncias e meios sintonizou com a pessoa e a palavra dele, até se achar em condição de agir como ele.
Gostaríamos de saber mais com respeito a este processo, mas o texto não oferece elementos. Fica a alerta para os discípulos.  Não se atribuir poderes de proibição pelo simples fato de seguir e professar a própria adesão ao Senhor, precisa-se de visão e critérios mais amplos; como não colocar cerca entre “os nossos” e os que não participam da comunidade ou da mesma religião, pois há caminhos desconhecidos pelos quais chegar a sintonizar com Jesus. E conferir a sintonia entre a ação - neste caso devolver à pessoa a integridade, contra tudo o que divide ela, dela mesma, ou seja, o demônio - e informação sobre Jesus.
Reconhecer e sintonizar com os discípulos e sustentar a missão deles mesmo com uma ação tão espontânea e humana como dar um copo de água “porque sois de Cristo” (não quer dizer que se não é de Cristo não vai dar!) não ficará sem recompensa, pois, no fundo está a percepção do amor que eles transmitem e a resposta de amor no copo de água. O que salva e é ao mesmo tempo recompensa é o amor.
O contrário é o escândalo, palavra ou atitude que suscita reprovação, desgosto e grande perturbação da consciência e do sentimento. É contra-testemunho que pode levar ao afastamento e rejeição do caminho. Os profetas dirão abertamente que por causa dos escândalos muitos se afastaram do caminho do Senhor.
É o que, infelizmente, acontece também hoje. Muitos se afastam da Hierarquia, do clero, especialmente de todo o que se refere a Vaticano, pelos conhecidos escândalos, e não querem nada da Igreja como instituição, mesmo manifestando sua fé e adesão à pessoa e ação de Jesus.
Assim, “se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho”. Os pequeninos não se referem às crianças, mas a todos aqueles que se fizeram pequeninos, se afastando do próprio estilo de comportamento, da própria filosofia de vidas, dos próprios critérios humanos, para assumir com humildade e confiança o ensino da pregação dos discípulos.
O escândalo os levam a pensar que tudo foi engano, que investiram em algo que não merecia e determina o afastamento e abandono. Daí uma sentença tão dura e chocante. Assim como são radicais as indicações “Se tu pé leva a pecar, corta-o! (...)”. O que está em jogo é a salvação a entrada no Reino de Deus, pela qual é preciso agir com determinação e firmeza, como se tivesse que cortar o que origina o escândalo.
Evidentemente, não é fisicamente o pé, a mão, o olho que originam o escândalo, mas a estruturas os condicionamentos do próprio mundo interior que leva à ação escandalosa. Toda pessoa é sujeita por um motivo ou outro ser motivo de escândalo, pois no coração do homem há grande potencialidade de bem como de mal.
No momento que este último aspecto tivesse que fugir do controle, crescer e ser motivo de escândalo é preciso tomar as providências necessárias, mesmo se radicais e dolorosas. Nesta circunstâncias sempre se poderá contar com a graça, com a ajuda misericordiosa do Senhor.


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