1ª leitura Is 35,4-7
Terminado o exílio de Babilônia o povo - o resto de Israel – volta à própria terra. Partir é um pouco como morrer, mesmo tendo ficado no exílio por um longo período de setenta anos. A meta é a terra dos pais, desconhecida e da qual simplesmente ouviram falar. Portanto, o sentimento de desânimo é compreensível.
A eles se dirige o profeta “Dizei às pessoas deprimidas: Criai ânimo, não tenhais medo!”. Pretende passar coragem e confiança, mesmo caminhando para a meta desconhecida e o futuro incerto, sendo que podem contar com a presença de Deus “Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus, é ele que vem para vos salvar”.
Para eles é a recompensa divina de Deus, fiel à promessa e a aliança. Para os opressores será vingança. Não é especificado em que consiste esta última. Não necessariamente deve-se pensar na ação violenta, pois, não há registro dela e o exílio foi pela vontade de Deus como resposta à infidelidade do povo à aliança. Talvez seja que a glória, a vida em abundância, a harmonia e a paz do novo povo, por cumprir os cânones da aliança, se tornem humilhação para o opressor.
Deus pede confiança na sua ação a favor deles e promete regeneração pessoal surpreendente qual “se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos”. A pessoa será restabelecida na integridade física, e também psicológica, moral e espiritual. Encontrar- se -á plenamente consigo mesma, pois, será como uma ressurreição, fonte de alegria e felicidade. Também a natureza participará do mesmo processo “A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes de água”.
Deus renova sua fidelidade com respeito ao futuro e destino do povo, esperando do mesmo a determinação em viver em sintonia com a aliança, após a triste experiência do exílio. A história é mestre, e após o fracasso apreender dos erros para não voltar ao mesmo e manter o rumo correto.
Voltar à terra prometida e ao mesmo tempo ao Senhor com todo o coração e com a vontade de assumir para valer a fidelidade à aliança é condição para que a presença de Deus seja percebida como ponto firme e estável de proteção e realizar os frutos da promessa.
É a oportunidade para começar tudo de novo, após a triste desilusão e se afastar de toda proposta contrária. Trata-se de resgatar os autênticos valores que sustentam o respeito à dignidade da pessoa e com aquele que os assumem e acreditam neles (os valores),organizar a nova sociedade na fraternidade e na solidariedade.
Então, a implantação da justiça e do direito, administrados legalmente, manifestarão que o povo pertence a Deus, agradecendo e louvando por ter sido escolhido e guiado nos acontecimentos pessoais e sociais.
Implantando uma sociedade mais humana na justiça e realizando assim o significado das metáforas do texto que apontam à vida, à felicidade para todos e a harmonia com a criação, louva-se a Deus. O dom da redenção e da salvação se torna no coração, na inteligência e na vontade das pessoas e da comunidade motivo e força para integrar na comunhão os excluídos e afastados.
É conhecida a frase de Santo Irineu, teólogo do segundo século, “A gloria de Deus é a vida dos homens, e a vida dos homens é louvar a Deus”. Assim, a vida alcança sua plenitude quando consciente do resgate e capacitação na prática do amor, faz o mesmo para com outros e, desta forma, retorna a Deus o louvor por tê-lo mergulhado e sustentado na dinâmica.
Com Cristo, Deus fez tudo o que podia fazer a favor dos homens, mas o retorno foi decepcionante, como mostra a segunda leitura.
2ª leitura Tg 2,1-5
Viver em sintonia com o dom recebido forma a consciência da igual dignidade de cada pessoa, assim de não discriminar uma da outra e estabelecer para com todas iguais oportunidades. Com efeito, a fé em Cristo se manifesta no correto relacionamento entre as pessoas. Portanto, o apóstolo se dirige à comunidade “a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas”.
Norma simples e óbvia, mas muito desatendida. Múltiplos são os motivos: vínculo familiar, afinidades, troca de favores, etc. De fato, poucas pessoas sabem manter a correta equidistância. Assim, discriminações humilhantes criam distâncias e afastamentos. Portanto, afirmar a própria fé em Cristo e agir desta maneira é contraditório e inaceitável, não só do ponto de vista da fé, mas do bom senso e do respeito que se deve a cada pessoa.
Jesus ultrapassa toda preferência, até com respeito à mãe “Aqui está minha mãe e meus irmãos.Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”(Mc 3, 34-35).Resposta desconcertante pela sensibilidade humana, mostra a verdadeira atitude de equidade.
Praticar a igual dignidade com cada pessoa é reconhecer nela a minha própria redenção operada pelo sangue de Cristo. É olhar para ela com o mesmo olhar de Deus. Só assim é possível vencer a tentação do favoritismo e da discriminação. Esta atitude é particularmente incisiva e admirada em quem possui um patrimônio ético no qual se espelha o valor da honestidade e retidão.
Para outros, pelo contrário, é ingênuo, fora da realidade do mundo não aproveitar. São sustentados pela convicção de que todos agiriam desta maneira e não entrar nessa é simplesmente passar a oportunidade a outro.
Positivamente o apóstolo considera a valor da pobreza “não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?”. Refere-se aos pobres que amam o Senhor, não simplesmente àqueles que os são do ponto de vista social. Assim, à condição de pobres é associada a confiança amorosa no Deus da vida, no qual colocam a esperança.
A esperança deles é sustentada pelo fascínio e atração pelo reino de Deus, pela comunhão fraterna, sem forma alguma de favoritismo e menos ainda de discriminação. Com efeito, há um abismo entre a vida do mundo e o reino de Deus. As discriminações que o apóstolo evidencia oferecem a distância e a impossibilidade de reconciliação entre os dois mundos.
Esta dimensão social e comunitária da fé não é tomada na devida consideração por parte do povo de Deus. A formação sócio-religiosa é notoriamente muito individualista e pouco comunitária, pois, cada pessoa se preocupa da própria salvação, em desenvolver os próprios dons, capacidade e compromisso individual.
A preocupação social e comunitária é deixada a pessoas tidas como capacitadas ou à boa vontade de outras. Muitos ficam com o pé atrás quando convidadas a assumir responsabilidade na comunidade. Fogem do compromisso, sendo que a salvação individual é ligada à salvação da comunidade, no exercício da fraternidade.
As pessoas se tornam como surdos e mudos à proposta de se formar e preparar para o serviço à comunidade. Precisam se deixar tocar por Jesus, como mostra o evangelho.
Evangelho Mc 7,31-37
O povo pede a Jesus para impor a mão - passar a força e o poder dele – tendo percebido a singularidade da pregação e personalidade dele. Assim, “Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão” e depois “colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele”, gestos pelos quais toda a sua pessoa está envolvida naquilo que vai acontecer.
“Olhando para o céu, suspirou”, como quem sintoniza com o que procede do alto, opera o milagre, pois, sua palavra: “Abre-te!” cumpre o que manda. “Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”. Abriu-se o que estava fechado, restabeleceu-se a plena condição humana para a vida com dignidade, produziu-se as condições para voltar à comunidade e participar dela a todos os efeitos, da qual havia sido excluído pela doença. Para o surdo-mudo foi como uma ressurreição.
A ordem de Jesus “Abre-te” se pode referir não só ao ouvido, mas também ao coração e a inteligência muitas vezes fechados em esquemas fixos, nos preconceitos, nos medos etc., que isolam do convívio comunitário. Desta maneira, os efeitos da celebração litúrgica nas pessoas e na comunidade se anulam, a participação é simples cumprimento de obrigação, vazia de conteúdo, e com o passar do tempo será deixada de lado.
Abrir é convite a criar espaço. O Espírito Santo é espaço. A sua ação na pessoa e na comunidade é passar coragem e ousadia rumo a novos horizontes, elaborando síntese em sintonia com a esperança motivada pela morte e ressurreição de Cristo, sustentada pela promessa de vida em abundância.
Esta dinâmica é inesgotável pelas múltiplas circunstâncias e eventos da história a da vida pessoal, e por participar do mistério de Deus presente na criação, na história e em cada pessoa. Portanto, a existência é ao mesmo tempo um ponto de chegada e de partida. Assim, a abertura é manifestação de acolhimento do Espírito, que sustenta o discernimento necessário para separar o certo do errado e com isso o crescimento na fé autêntica.
Outro aspecto. “Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém”. Por que esta preocupação exigida com determinação de manter o segredo? Talvez, porque Jesus sabe do mal entendido de sua ação, por parte do povo em geral. Teriam visto nele simplesmente quem tem poder de curar, que corresponde ao que esperavam do Messias. De fato, eles ficaram “muito impressionados”, pois, era a primeira condição para ser acreditado como Messias, e diziam “Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.
Por parte de Jesus, o milagre é simplesmente a manifestação de sua idoneidade como Messias, manifestação da eficácia de sua palavra e proposta de vida. Isso para que tenham confiança no ensinamento que revoluciona, transforma e leva a cumprimento o antigo, sobretudo tendo que enfrentar a oposição das autoridades do povo.
Jesus sabia que o choque teria levado ele ao martírio e nele manifestado a verdadeira realidade do Messias com o evento de sua morte e ressurreição. Proibindo a divulgação, pretendia liberar eles da ideia equivocada do Messias, que teria impedido a adequada atenção ao que devia vir.
Com efeito, a correta compreensão da pessoa e da missão de Jesus é o evento da Páscoa. É ao mesmo tempo ponto de partida e de chegada. Nele Deus mostra o último e definitivo não só de Jesus , mas de toda pessoa , da criação, Dele mesmo.
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