domingo, 16 de maio de 2010

PENTECOSTES-C-(23-05-10)

1a leitura At 2,1-11

Pentecostes - 50 dias após a Páscoa - é o evento marcante para a humanidade de todos os tempos até a vinda do Ressuscitado. Vinda por Ele prometida antes de voltar na glória do Pai o dia da Ascensão.
Toda manifestação de Deus acontece de maneira imprevista, de repente, sem nenhum aviso prévio. Ela irrompe de forma desconcertante na vida das pessoas, neste caso, dos discípulos “os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” e, por medo dos judeus, estavam com a porta trancada.
Foi difícil para eles dar conta do que exatamente aconteceu, pois, não havia palavras adequadas. Portanto, usam comparações “como se fosse uma forte ventania”, “apareceram línguas como de fogo”, pois, o evento ultrapassou toda capacidade de entendimento. Foi participação ao infinito mistério de Deus.
Assim, a manifestação foi uma surpresa, no sentido verdadeiro e profundo do termo “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os inspirava (...), pois cada um ouvia os discípulos falar em suas próprias línguas”. Tomado ao pé da letra, seria uma tradução simultânea? Sinceramente não sei como explicar este fato de maneira plenamente convincente. A Bíblia registrará o fenômeno de eventos parecidos como ação do Espírito nas comunidades que estavam surgindo.
Com certeza, o fenômeno chamou a atenção pela transformação operada neles em nível de entendimento, de atitudes para com o povo e as autoridades, e pelo fenômeno singular das línguas “Cheios de espanto e admiração, diziam: Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?”.
A continuação é elencada todas as nações conhecidas do mundo de então, para indicar o alcance universal do evento, assim como foi o da morte e ressurreição de Jesus. É registrado, portanto, que a descida do Espírito não é circunscrita aos discípulos nem à Jerusalém nem ao povo judeu, mais abrange a humanidade toda e de tosos os tempos. Este é um aspecto de grande importância para a reflexão atual sobre a missão da Igreja no mundo, em dialogo com outras culturas e religiões. Elas têm em si mesmas a palavra do Espírito que interpela os cristãos. Daí a importância da humilde procura da Verdade através da dialética fraternal.
Parece-me mais importante da compreensão do fenômeno, entender a mensagem dos apóstolos. Com efeito, o texto frisa “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” As maravilhas se referem ao evento da morte e ressurreição de Jesus. Tal vez seja isso que os enche de espanto e admiração, mais do que o fenômeno das línguas. Apresentar um condenado a morte - um maldito de Deus justiçado menos de uma semana - como Salvador não é coisa de pouca conta.
Com a descida do Espírito Santo os discípulos tomam plena consciência do alcance e significado da morte e ressurreição de Jesus. Algo que, até então, ficou meio incompreensível e indecifrável. O alcance do pleno significado gerou nos discípulos uma mudança de atitudes radical para consigo mesmos, no relacionamento com o ambiente e com as autoridades.
Com a descida do Espírito começa a Igreja, ou seja, o surgimento das comunidades cristãs. O Espírito será como a seiva da arvore. Ela é invisível, porém, indispensável para ávida e o crescimento da mesma. A vida de Deus correrá nela exatamente pela presença e ação do Espírito nas comunidades.
O Espírito será o mestre interior de todo discípulo. Em virtude disso, estabelecerá um relacionamento direto entre ele e Deus, realizando dessa maneira o profetizado por Jeremias “imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração (...) não será mais necessário ensinar ao seu próximo dizendo: ‘Conhece o Senhor! Todos me reconhecerão, do menor ao “maior deles”(31,34)’. Este relacionamento é o ponto de partida não dispensável de todo correto entendimento da pessoa, do ensino de Jesus, assim como de toda prática da vida cristã.
Com efeito, a presença do Espírito qualifica o discípulo, como comentaremos na 2da leitura.

2da leitura 1Cor 12,3b-7.12-13

Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo”. Evidentemente não se trata de afirmar vocalmente, de boca para fora, mas de ser interiormente convencido do homem Jesus de Nazaré constituído pela ressurreição Senhor de tudo e de todos. Evento no qual o Espírito Santo agiu com poder e força conforme a vontade do Pai. Portanto, só o mesmo Espírito pode convencer interiormente todo discípulo e modelar o entendimento e a vida dele em sintonia com esta verdade.
A compreensão da pessoa de Jesus, à luz do que aconteceu na Páscoa, tem múltiplos desdobramentos, entre eles o específico agir conjuntamente da Trindade Santa “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos” Lendo o trecho de frente para trás e aplicando-o à vida do discípulo destacam umas considerações valiosas.
Assim, se o discípulo agir, se desenvolver atividades, conforme a vontade do Pai, para a transformação da humanidade, ele estará se relacionando com o Pai. Se exercer esta missão em sintonia com o que Jesus fez, servindo ( ministérios) até com o dom da própria vida, estará em sintonia com o Filho. Se servir, se exercer o ministério, usando dos dons que lhe são próprios, ele estará em sintonia com o Espírito Santo. Dessa forma, o discípulo, no concreto dos acontecimentos humanos do dia – a - dia terá clareza da vivencia e da percepção da presença Trinitária nele.
Tudo brota, começa, caminha e chega ao seu fim satisfatório pela ação do Espírito. Ele move, instrui, e sustenta a ação, pois, “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”. O bem comum visa à harmonia entre as diversidades dos povos, línguas e das culturas “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres fomos batizados no mesmo Espírito, para formarmos um único corpo, e todos bebemos de um único Espírito”.
Todos afirmaram que a diversidade é uma riqueza, que deve ser aproveitada para o crescimento humano e espiritual. Não faltam elogios a ela. O complicado é como fazer, como administrar a diversidade no horizonte da harmonia e do crescimento. Particularmente desafiador é quando ela ultrapassa o limite de aceitação que cada pessoa percebe em si mesma em virtude da própria história, cultura, educação e experiência. Mais ainda, quando, para dar espaço e cabimento a ela, é preciso abrir mão do que é próprio. É então que as virtudes da coragem, da generosidade, da gratuidade e da fraternidade mostram a sua real consistência , assim como a verdadeira fé no valor da diversidade
Há três critérios gerais que orientam o processo de integração das diferenças. 1) A pessoa se torna mais humana, no sentido de fazer da própria vida um dom a favor dos que precisam, para que elas- por sua vez- transmitam a mesma dinâmica? 2) A sociedade é favorecida no crescimento do direito, da justiça e no respeito das exigências legitimas das diversidades? 3) A natureza é respeitada nas suas exigências ecológicas? Responder positivamente significa se esvaziar de si mesmo como foi a prática de Jesus e a ação do Espírito Santo “no qual fomos batizados para formarmos um só corpo”. Trata- se da pratica d caridade.
O Espírito procede do Pai e do Filho como amor deles para a humanidade e para cada pessoa. Mais profundamente, é Amor que qualifica a essência de Deus e que une a amante (o Pai) com o amado (o Filho) no amor (o Espírito Santo) com a humanidade de todos os tempos e de todos os lugares.
É o que destaca nas palavras de Jesus no evangelho.

Evangelho Jo 20,19-23

Os discípulos e as pessoas traumatizadas, profundamente abaladas pelos acontecimentos da sexta feria-santa e cheias de medo estão “ com portas fechadas” . Jesus, de repente, se apresenta “pondo-se no meio dele e disse: a paz esteja convosco”. Nas palavras Dele não há a menor alusão à experiência pessoal dele dos dias anteriores e, menos ainda, ao comportamento dos discípulos. Sobrepõe-se de tudo e de todos, em virtude do triunfo da vida e da verdade sobre a morte e a mentira. Sua preocupação é de doar a paz interior àqueles discípulos. Só per esta atitude percebe-se a grandeza humana e espiritual de Jesus.
Mostra a eles algo que os deixará perplexos: “ mostrou-lhes as mãos ( furadas) e o lado(aberto)”. Cabe uma pergunta: por que as feridas ficaram abertas? Por que não as fechou? Sendo elas feridas de morte, permanecem Nele que, agora, está aí vivo mais do que antes, pois, se antes podia morrer agora é vivo para sempre.
A morte e a mentira continuam ativas e presentes no mundo. As feridas abertas testemunham que o poder e o domínio delas são vencidos de uma vez para sempre na pessoa do ressuscitado e, conseqüentemente, naqueles que permanecerão nele pelo voto de confiança.
Os discípulos nem tiveram tempo de se recompor do susto e da alegria, que surpreendentemente Jesus investe eles de mais um desconcerto. À paz interior associa a missão “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. O envio, comparado ao envio do Pai para com ele, devia deixa-los muito perplexos. Tinham perante de si mesmos um modelo infinitamente superior às condições e possibilidade deles. Como não se sentir radicalmente inadequados?
Respondendo a estes inevitáveis sentimentos, Jesus realiza um gesto muito importante e significativo “ E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo”. Este sopro tem relação com o sopro de Deus, que transformou o barro em um ser vivente a imagem e semelhança Dele. É o sopro da nova criação inaugurada pela ressurreição de Jesus. É o sopro que faz deles novas criaturas, redimidas e resgatadas pelos eventos da Páscoa. É o sopro da presença e força do Espírito que acompanhou Jesus em sua missão e o resgatou da escravidão da morte e da mentira. Mas, sobretudo é o sopro do Espírito do Amor, que faz deles uma realidade que ama e é amada.
É a consistência e a profundidade do amor que os habilita a cumprirem a missão e especialmente “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. Evidentemente, com estas palavras o perdão não é deixado à arbitrariedade, aos estados de animo, deles, mas à percepção e a vivencia do amor que une o amante e o amado no singular relacionamento pelo qual se recriam todas as coisas, inclusive os relacionamentos mais ruins, as experiências mais frustrantes e até violentas.
É o que Jesus está praticando para com eles. As palavras e a s atitudes Dele são expressão do perdão de Deus, que será eficiente e real pela aceitação das palavras e da missão que Jesus lhes confia. Eles deverão repetir o mesmo. Pode ser que encontrarão pessoas como o servidor da parábola que, depois de receber o perdão de uma dívida enorme por parte do Senhor, não consegue sintonizar e valorizar o perdão recebido ao ponto de não perdoar o companheiro de uma pequena dívida. Então o perdão se esvazia de seu poder renovador e construtor. Portanto a ação do Espírito neles não será automática nem rotina, más expressão da renovada fé e amor à pessoa de Jesus e a presença da Trindade neles.

domingo, 9 de maio de 2010

ASCENSÃO-C-(16-05-10)

1a leitura At 1,1-11

Vale especificar que o autor dos Atos dos Apóstolos é o mesmo do Evangelho: o apóstolo Lucas (ou a comunidade que faz referencia a ele). Os Atos dos Apóstolos é a continuação do Evangelho e, especificamente, testemunha a ação do Espírito Santo na difusão do Evangelho no mundo então conhecido e o surgimento das primeiras comunidades. Daí o sentido de “No meu primeiro livro” e as palavras introdutórias que resumem brevemente o evangelho.
Jesus é apresentado, no período que vai da ressurreição à ascensão- simbolicamente 40 dias, um período demorado- como Senhor do Reino de Deus: “Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus”.É muito significativo que Jesus não fale de si mesmo, da grande injustiça que fizeram para com ele, dos sofrimentos da cruz e da experiência da ressurreição, da traição, do abandono dos apóstolos etc., mas somente da finalidade da missão dele: o Reino de Deus.
Demonstra, assim, um desapego de si mesmo surpreendente do ponto de vista humano. É como se estivesse falando sem que nada especial lhe tivesse acontecido. Isso diz muito com respeito ao relacionamento dele consigo mesmo, à missão que desenvolveu e que está chegando ao seu ponto final na terra. Como pude manter tal distanciamento, tal desapego de si mesmo? Como não há registro de uma palavra de desconformidade, de critica, de lamentação, com respeito à ingratidão do povo, dos apóstolos etc.? Mas, só preocupação de que os apóstolos entendam a dinâmica da implantação do Reino?
As explicações de Jesus não foram bem entendidas, pois, os apóstolos perguntam: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel”. Eles entenderam falar da realização do Reino conforme a expectativa geral do povo e de João Batista, ou seja, a expulsão dos invasores romanos e a purificação do povo infiel à lei de Moises. Isso demonstra quanto pouco eles entenderam Jesus, mesmo após da experiência de vê-lo ressuscitado. Contudo, Jesus não se surpreende nem pretende corrigir ou explicar em que realmente consiste o Reino, pois, sabe que não têm condições de entender (só com a vinda do Espírito entenderão), mas revela que não compete a eles “saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com sua própria autoridade”.
Assim, preanuncia a descida do Espírito Santo: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra”. A função do Espírito, após de tornar-los conhecedores da profundidade e importância do evento da morte e ressurreição de Jesus, visa constituí-los testemunhas até os últimos confins da terra. Com isso afirma o caráter universal do evento e da missão Dele.
“Depois (...) foi levado ao céu (...). Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo”. Com isso Jesus universaliza a missão. Ele chegará até os confins da terra por meio da ação missionária dos apóstolos, das testemunhas. A missão se estenderá até a volta Dele no fim dos tempos, portanto, os apóstolos não deverão ficar parados olhando o céu “ Homens da Galiléia, porque ficais aqui, parados, olhando para o céu?” Uma coisa é certa, aquele que agora sumiu dos olhos deles voltará, não os abandonará, pela vinda do Espírito, e já tem marcada a hora de reencontro”Esse Jesus (...) virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. O viram partir numa nuvem que o encobriu, ou seja, pela presença e ação do Espírito Santo- tal é o significado da nuvem que o encobriu, como na transfiguração-. E será pela ação do mesmo Espírito que acontecerá o evento definitivo e último que atingirá a criação toda no fim dos tempos.
Uma criação e uma humanidade transformada como comentaremos na 2da leitura.

2da leitura Hb 9,24-28; 10,19-23

Parte importante da carta aos Hebreus é a contraposição entre o Sumo Sacerdote do Antigo Testamento e o Sacerdócio de Jesus Cristo realizado com sua morte e ressurreição. O segundo substitui e leva à perfeição o primeiro, de uma vez para sempre “Cristo, oferecido uma vez por todas, para tirar os pecados da multidão”, (O sacerdócio de hoje- nos três níveis de diácono, sacerdote, bispo- é participação do único e eterno sacerdócio realizado por Cristo de uma vez para sempre).
Conseqüentemente “ Ele nos abriu um caminho novo e vivo, através da cortina, quer dizer,através de sua humanidade”. A cortina separava o lugar mais sagrado do templo dos demais ambientes. Absolutamente ninguém podia entrar nesse lugar. Só era permitido ao sumo sacerdote, uma vez por ano, para cumprir o ritual referente ao perdão dos pecados do povo, que só a ele incumbia.
Com a morte na cruz, rasgado o corpo de Jesus, e com ele o “corpo” da humanidade toda, simbolicamente rasgou-se a cortina que separava o povo todo de Deus. Com isso “Ele nos abriu um caminho novo e vivo”:
-“Caminho novo”, porque nada tem a ver com o anterior. Iluminadoras as palavras de Jesus com respeito à destruição do templo, do qual não ficará pedra sobre pedra, significando que será impossível recompor uma pedra com a outra. Não dará para voltar atrás: “eis que faço novas todas as coisas”(Ap 21,5).
-“Caminho vivo”, pela participação à vida divina. Pois, o amor surpreendente pelo caminho novo oferecido pela dinâmica da morte e ressurreição de Jesus, faz que as múltiplas diferenças de língua, de nação, de cultura e as variadas circunstâncias que conformam a vivencia de cada dia, encontrem elementos de união, de comunhão, bem nas diferentes afirmações das próprias legitimas individualidades.
Daí a exortação do texto, motivada pela mediação de Jesus como “grande sacerdote constituído sobre a casa de Deus (a casa de Deus é a humanidade, redimida objetivamente)” e baseada na certeza da fidelidade Dele “porque é fiel quem fez a promessa”.
Com esta certeza no coração “Aproximemo-nos, portanto, de coração sincero e cheio de fé, com coração purificado de toda má consciência e o corpo lavado com água pura. Sem desanimo, continuamos a afirmar a nossa esperança” temos todos os elementos para lutar e resistir contra toda adversidade e força contraria que motivam o desanimo, o desespero, pelas dificuldades e pelas provações da vida.
Portanto, é preciso cultivar no próprio mundo interior estes valores, que vão conformando a identidade profunda da pessoa e com ela a adesão sincera à promessa e à atitude de Jesus para experimentar a comunhão com Ele. Trata-se de manter vivo e sempre novo o testemunho Dele na pessoa. Dessa forma, ela se torna testemunha do que Ele opera constantemente nela e a habilita à missão a favor dos irmãos.
É isso e sentido último do evangelho de hoje.

Evangelho Lc 24,46-53

Vós sereis testemunhas de todo isso” Jesus especifica o conteúdo do testemunho: “O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. Tudo isso, em cumprimento do plano de Deus para as pessoas e a humanidade toda, conforme a Escritura, os textos do Antigo Testamento.
Jesus anuncia a eles a descida do Espírito Santo para serem revestidos da presença Dele, única condição para dar consistência, credibilidade e firmeza ao testemunho “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” Eles deverão aguardar e esperar o momento determinado por Deus, para que isso aconteça.
Aguardar e esperar confiadamente supõe intimidade, familiaridade, em fim, muito amor. Daí as perguntas que Jesus fez a Pedro por três vezes: “tu me amas?” (Jo 21,15) e a resposta sincera deste “tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Já o Espírito estava atuando em Jesus, quem pergunta depois de ter sido renegado por três vezes, e em Pedro, quem manifesta com sinceridade o próprio sentimento, o próprio mundo interior, que parece em contradição com a atitude de fraqueza no momento da prova, na noite de quinta feira-santa.
É na certeza desse amor que Jesus se afasta deles “Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu”. Amor pelo qual eles têm certeza que não os deixará órfãos, sozinhos, abandonados. Dessa forma, tudo acontece no horizonte do renovado amor.
Este evento deve ter mexido profundamente o coração dos apóstolos, em consideração da desconcertante experiência da sexta-feira santa, da consciência dos limites, da fraqueza, da vergonha do comportamento deles para com Jesus e, mais ainda, da desconcertante atitude e palavra de Jesus, que não faz referencia alguma a todo isso. Humanamente falando, pode-se pensar que eles esperavam alguma cobrança, alguma chamada de atenção. Mas, nada disso! A primeira palavra do Ressuscitado é o dom da paz e a continuação assume atitudes e profere palavras somente positivas.
Parece-me seja isso que da razão do comportamento e das atitudes dos discípulos, após a saída de Jesus “Em seguida voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus”. Pois Jesus os resgatou como pessoas na dignidade de discípulos para fazer deles testemunhas competentes e qualificada do amor Dele a favor da humanidade toda.

domingo, 2 de maio de 2010

6to DOMINGO DA PÁSCOA-C-(09-05-10)

1ª Leitura At 15,1-2. 22-29

O novo que surge e se apresenta no dia-a-dia às vezes é bem vindo, outras não é percebido ou é motivo de séria preocupação. Até de tensões e conflitos muito graves. Neste último caso, resolve-los é um quebra cabeça, por interesses e visões contrastantes e irreconciliáveis. É o caso relatado pelo texto. A posta em jogo é muito séria “Vós não podeis salvar-vos, se não fordes circuncidados (hoje, a fimose), como ordena a Lei de Moises”.
Com efeito, a salvação era ligada à circuncisão porque era o sinal de aceitar e pertencer ao povo de Israel. Assim, todo adulto pagão, que não pertencia ao povo se Israel por nascença, devia se submeter à circuncisão, no momento que aceitava o Deus de Israel. Era a marca registrada da salvação. Era impensável que a salvação chegasse a um pagão incircunciso!
A circuncisão significava aceitar toda a lei Mosaica e a tradição do povo de Israel com seus preceitos e prescrições. Portanto a pergunta que estava debaixo de tudo: É preciso se tornar judeu e depois cristão para alcançar a salvação ou é suficiente a fé, selada pelo batismo, em Jesus Cristo? Jesus não tinha dado indicações ao respeito, tinha falado só de batizar. Agora, colocar de lado uma tradição milenária e baseada na autoridade de Moises, não era coisa de pouca conta nem tão evidente.
Dai a grandíssima tensão interna às comunidades recém constituídas e a necessária intervenção da autoridade central dos apóstolos e dos anciãos. De fato, os membros da comunidade “decidiram que Paulo, Barnabé e alguns outros fossem a Jerusalém, para tratar dessa questão com os apóstolos e os anciãos”. Portanto, há questões que não podem ser resolvidas pela comunidade local, mas devem ser dirigidas à autoridade central.
O problema, o desafio, fundamental era a comunhão, isto é, a unidade da Igreja. A decisão foi de grande coragem: dispensar a circuncisão. As conseqüências foram enormes. Significou o distanciamento do judaísmo que, mais na frente, se tornou desligamento. De outra maneira, a Igreja teria sido um apêndice do judaísmo. A partir deste momento deverá se reger por conta própria. Contudo, uma decisão desta envergadura demorará em ser assumida plenamente, pois, o Novo Testamento registra as dificuldades.
Extremamente interessante é atribuir a decisão à singular união entre eles - os apóstolos e os anciãos- e o Espírito Santo: “Porque decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo”. Cabe perguntar em virtude de que chegaram a esta afirmação. Que percepção eles tiveram da presença e da ação do Espírito Santo neles?Cabe pensar na experiência de Pentecostes. Foi uma reviravolta do entendimento deles, com respeito ao significado da morte e ressurreição de Jesus: de maldito de Deus à Salvador da humanidade; de paralisadas pelo medo a corajosos testemunhas e pregadores.
Também, cabe considerar a sintonia com o ensino e a pratica de Jesus, quem deu nova e ousada respostas a partir da Lei mosaica “foi dito... porém eu vos digo”, em atenção a oferecer oportunidade de resgate e salvação a quem, de outra maneira, teria ficado presa da lei e dos preceitos. Em fim, intuíram uma liberdade criadora, geradora da comunhão que universalizaria a obra salvadora do Mestre. Com isso, deram começo à realização da nova humanidade à qual aponta a 2da leitura.

2da leitura Ap 21,10-14.22-23

O sonho de Deus, a meta da humanidade, é apresentado pela descrição da “cidade santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus”, rica em imagens. Ela quer, mediante o uso de muitas particularidades, indicar simbolicamente a perfeição. Não é apresentado o plano de uma cidade, mas o novo povo de Deus integrado por aqueles que, tocados pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus – “o Cordeiro”, imolado e vivente-, fazem dele a lâmpada que ilumina o caminho do- dia -a –dia. Isso, se deve aos alicerces estabelecidos pela pregação dos apóstolos: “ A muralha da cidade tinha doce alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doce apóstolos”.
O “estar junto de Deus” indica ter alcançado a familiaridade com Deus, pela qual o Cordeiro entregou sua vida. Aceitar de ter sido justificado, perdoados e reconciliados, pelo Cordeiro perante do Pai significa ser preenchidos da presença do Pai mesmo. De fato, “Não vi templo na cidade”. O templo na cidade era o lugar da presença e do encontro com Deus. Agora não precisa mais, sendo que a glória de Deus preenche o povo todo, a Jerusalém santa, “brilhando com a glória de Deus”.
Por conseguinte “A cidade não precisa de sol, nem de lua que a iluminem”. Todo nela é luz. A luz inacessível, que é Deus, torna-se acessível aos homens, e isso não num futuro longínquo, embora sua plena manifestação seja no fim dos tempos. Com isso, fica esclarecido que futuro e presente são inseparáveis, pela ação do Cordeiro imolado.
Esta ligação inverte a relação com o tempo, se tornando um forte alicerce de espiritualidade. Com outras palavras. Se já participamos do destino final, da meta; se já o futuro está em nós pelo presente da morte e ressurreição de Cristo, então a espiritualidade é antecipar este futuro na pratica pessoal e nos diferentes relacionamentos com as pessoas no dia -a- dia. Acolher o dom, vivenciá-lo e praticá-lo, é condição para acrescentá-lo e assim glorificar a Deus.
Cada cristão consciente deveria assumir os valores da vida, elaborar os critérios de discernimento, qualificar os atos e vivenciar os relacionamentos a partir desse futuro que não é só futuro, más é já presente em cada pessoa e constitui o próprio da Aliança com Deus. Na Missa, as palavras da consagração do cálice rezam: “o sangue da nova e eterna aliança”. Aliança, por parte de Deus, permanentemente oferecida e atualizada com o perdão dos pecados e restabelecida na sua essência profunda, que toca o mai profundo do ser de cada cristão consciente. É impressionante a teimosia de Deus em perseverar no intento de convencer a pessoa e a humanidade da profundidade e da grandeza do amor dele.
A percepção desta verdade e do amor contido nela é básica para a identificação do discípulo, como comentaremos no Evangelho.

Evangelho Jo 14,23-29

e nós viremos e faremos nele nossa morada”. O estar junto de Deus não é somente a meta do fim dos tempos, no momento final da história da humanidade e da criação, mas já é uma realidade possível hoje. O “nós” se refere à Santíssima Trindade. As palavras atestam a morada Dela na pessoa. É o ponto alto da experiência de Deus nesta vida.
Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará (...). Quem não me ama, não guarda a minha palavra”. O amor para com Ele é a resposta do amor Dele para com a humanidade e a criação, cujo momento alto foi a morte na cruz: “... me amou e se entregou por mim” dirá são Paulo em Gl 2,20. Portanto, a fé tem como conteúdo central a aceitação desse amor. Assim, “amor atrai amor”, como disse Santa Terezinha do Menino Jesus, e se manifesta no “guardar a minha palavra”, ou seja, a identificação com o ensinamento, a prática e a entrega de Jesus.
A Palavra está intima e profundamente ligada ao Pai e ao Espírito Santo. Daí o motivo da morada trinitária na pessoa. É “a palavra (...) do Pai que me enviou. Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. Jesus além de apontar a intima comunhão com o Pai indica o Espírito Santo como mestre interior, quem desvelará o sentido verdadeiro e profundo dos gestos e das palavras Dele.
Com efeito, o Espírito Santo é Deus em nós, não simplesmente o fora de nós, como o Filho e o Pai. Praticamente, é ele que ativa e viabiliza o processo pelo qual na pessoa acontece a união a trintaria, por um lado ensinando, mas, sobretudo, por ser o defensor.
Vale frisar este segundo importante aspecto. Se não cumprisse esta ação especifica, a infidelidade da pessoa e da humanidade ao dom do Filho tornaria o dom inútil, sem efeito. O domínio do pecado de desconfiança, de desinteresse, de desvalorização da ação salvadora de Jesus, cria o afastamento de Deus e deixa sem efeito o dom da salvação.
É nesta situação que se coloca a importante defesa operada pelo Espírito. Ele atualiza, em todo momento e em cada circunstância, os efeitos da morte e ressurreição de Jesus e suscita a nova adesão do afastado. Dessa forma, restabelece a aliança, perdoa o pecado e restitui a dignidade de filho no Filho, tornando-o radicalmente conforme à ação salvadora de Jesus, em obediência à vontade do Pai. Se não houvesse essa ação defensora, própria do Espírito Santo, estaríamos irremediavelmente separado da Deus, apesar do sacrifício de Cristo e da vontade do Pai. Quem resolve tudo, aqui e agora, em cada momento, é o Espírito Santo.
Os efeitos de todo isso é a serenidade e a confiança perante o futuro, devido ao afastamento físico da pessoa de Jesus “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Ouvistes que eu vos disse ‘Vou, mas voltarei a vós’”. Afastamento que na atualidade está provocando neles tristeza e desconcerto, como é próprio da experiência de separação entre pessoas que se amam. Contudo, Jesus aponta ao lado defeituoso desse amor, que pode suscitar no futuro imediato descrença, desanimo, abatimento “ Disse isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis”. No fundo, desvela neles o amor mais por si mesmo, que para Ele “Se me amasseis, ficareis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” Com efeito, o amor na sua expressão mais verdadeira é alegria pela alegria do outro. É ficar alegre da alegria do outro, sendo que o destino Dele é entrar com seu corpo na comunhão com o Pai, maior do que Ele.
Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo”. É a síntese, o resumo, de toda a missão de Jesus: deixa, pois, indica o caminho e as condições- guardar a palavra-, e doa, porque a paz se torna realidade em todos aqueles que, pela fé, acolherem o que ele fez naquele evento pascal, atualizado pelos sacramentos, como permanente atitude de amor. Assim, Jesus distingue e diferencia a paz oferecida pelo mundo, daquela oferecida por Ele.