1ª leitura Sb 12,13 .16-19
“A tua força é principio da tua justiça (...). Mostras a tua força (...). Dominando a tua própria força...”. O texto desenvolve a reflexão tendo com eixo a força de Deus. Contrariamente àquilo que se entende por força como energia impositiva e coercitiva, ela è apresentada de uma maneira muito singular “Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano...”. E especifica o que entende por humano “... e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores”.
Portanto, se tornar mais humano pela pratica do perdão è o princípio da justiça. O que è implantado com isso è a ética do amor. A força a justiça de Deus è o amor. E a definição mai própria de Deus è a de primeira carta de João: “Deus è Amor”. Daí principia, tem sua raiz, toda justiça.
Esta atitude de Deus deixa perplexidades entre os homens, como se Deus tivesse que justificar a própria atitude e mostrar “que teu (de Deus) julgamento não foi injusto”. A argumentação procura responder a elas. Em primeiro lugar afirma que “Não há, além de te ti, outro Deus que cuide de todas as coisas”. Em virtude disso “o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente”. Assim, o cuidado amoroso para com toda a criação é atitude fundamental de Deus para com a obra de suas mãos.
Daí decorre diferentes comportamentos. “Mostras a tua força a quem não crê na perfeição do teu poder...”. Trata-se da força e do poder do amor indulgente para com os que estão desconfiados de que a misericórdia tenha a força e o poder de renovar e transformar a vida das pessoas.
Por outro lado, “...e nos que te conhecem”- os que já experimentaram a indulgencia e a misericórdia-, a atitude é a repreensão: “castigas o seu atrevimento”. Trata-se do atrevimento de quem por rebeldia, ou qualquer outro motivo, se recusa contra toda evidencia em entender e acolher o agir de Deus.
“No entanto, dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração”. Contudo, o agir de Deus permanece firme e constante, pois a amor dele è inabalável. Ele é o Deus fiel à Aliança.
Tudo isso conforta e anima o pecador, o homem fraco e vulnerável às exigências da Aliança. Em virtude do pecado mereceria o repudio, a condenação eterna, pois os termos da Aliança são peremptórios e sem possibilidade de ser mal entendidos: quem não respeitar a Aliança merece a morte.
Contudo, o homem sabe que por parte de Deus “quando quiser, está ao teu alcance fazer uso do teu poder”. Vale frisar que é muito comum abusar desta atitude de Deus. Muitas pessoas acham que em virtude deste poder misericordioso, se sentem como “liberados” em pecar, como se pudessem contar incondicionalmente da boa disposição e vontade de Deus ao perdão.
É a avaliação de quem manifesta pouca consideração ao amor e à misericórdia de Deus. Como se elas fossem devidas, em m virtude dele ser Deus. Como se Ele fosse obrigado em virtude de sua condição divina em perdoar sempre em todo caso, fosse só por ser fiel à Aliança.
No fundo isso significa simplesmente quiser aproveitar da bondade Dele, sem se sentir comprometido e envolvido em e por esse amor. Estamos bem longe do que Deus espera...
Tudo isso pela fraca sintonia com o Espírito, tema da segunda leitura.
2da leitura Rm 8,26-28
Ponto de partida é o Espírito Santo. Ele mora em nós e “vem em socorro da nossa fraqueza”. A fraqueza não é de tipo ético, de tipo comportamental, mas de entendimento com respeito ao que é oportuno e conveniente pedir e a maneira de como pedir “Pois nós não sabemos o que pedir, nem como pedir”.
A primeira leitura dava entender que o agir de Deus é tido como injusto. E apesar de ter experimentado a força amorosa de Deus, há pessoas que se atrevem e recusam o comportamento de Deus. Assim, a fraqueza se deve à condição humana não suficientemente esclarecida e iluminada, no meio das contradições e incertezas do presente.
Portanto, ela precisa do socorro do Espírito “ Pois, é segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos (os cristãos são chamados de santos. Não em sentido de perfeitos, como entendemos hoje o ser santo,mas pela determinação deles a favor de Cristo)”.
A intercessão acontece “com gemidos inefáveis”. Eles manifestam a ação do Espírito que suscita a nostalgia impaciente da plena realização da ação salvadora de Deus e o sentido da esperança, apesar da fragilidade da condição humana.
Assim, o Espírito se apresenta como testemunha da nova identidade e do destino glorioso dos cristãos. Os “gemidos inefáveis” são como sinais que antecipam a salvação prometida. E isso porque Deus “penetra o intimo dos corações e sabe qual é a intenção do Espírito”. O Espírito age incessantemente a favor dos cristãos e socorre a fraqueza deles.
Os gemidos inefáveis se tronam como estimulo e incentivo, para o cristão se aproximar ao evento da salvação e da comunhão com Deus, renovando a inteligência e abrindo o coração para perceber a singular e inesperada ação de Deus apresentada pela primeira leitura.
Os gemidos, praticamente, sustentam o processo de constante conversão. No sentido da necessidade de renovar incessantemente os critérios do agir de Deus, ultrapassando as expectativas e critérios consolidados pela experiência e pela pratica costumeira.
Uma renovação que Jesus mesmo ilustra com as parábolas do evangelho.
Evangelho Mt 13,24-43
Contra toda pretensão e expectativa de erradicar o joio do trigo já na atualidade, Jesus responde “Deixai crescer um e outro até a colheita!”, pois, há o perigo que “arrancando o joio, arranqueis também o trigo”. Os dois terão seu destino se parados “ no tempo da colheita”, no final dos tempos. O mal acompanhará a história toda. Portanto, é preciso saber conviver com ele e não se deixar envolver. Neste sentido haverá uma luta constante. O mal tem seu poder de engano e de sedução, pelo envolvimento profundo com a realidade e pelo não sempre fácil discernimento entre joio e trigo - o bem e mal -. Será preciso proceder com muita atenção e cautela.
Outro aspecto da conversão diz com respeito à pequenez , humana e socialmente insignificante, do que é semeado. Pois, a semente é comparada a pequena “semente de mostarda (...) a menor de todas as sementes”. De fato, “Quando cresce, fica maior do que as outras plantas”. O resultado final é surpreendente. A conversão consiste em ter a certeza de que o trabalho pastoral deve ser desenvolvido apesar das aparências. Ele tem em si mesmo uma potencialidade que supera toda imaginação. O contraste ente o momento inicial e o final não deixa duvidas.
Assim, também, a parábola do fermento. O acontecer “do Reino dos Céus é como o fermento” colocado na devida proporção de maneira tal “que todo fique fermentado”. Com isso é passada a certeza de que todo alcançará a perfeição pela qual foi criado. Cada realidade adquirirá a plenitude pensada por Deus e desta forma dará gloria ao Criador. Portanto, todas as diversidades de culturas, línguas, religiões etc. alcançarão a plenitude do que é próprio e ao mesmo tempo se estabelecerá a harmonia entre tudo e a paz entre todos.
Estes resultados ultrapassam o modo de proceder, os métodos e a sabedoria próprios da realidade humana. Só haverá resultado se ela é como encharcada do estilo de vida, da filosofia do amor, que Jesus ensinou e praticou.
Os ensinamentos de Jesus em parábolas pretendem ilustrar, com exemplos tirados da vida e da experiência de todos os dias - e, portanto, muito acessíveis à compreensão dos ouvintes - a singular força e poder do proceder de Deus.
Deus procede motivado pelo amor e animado pelos sentimentos indicados na primeira leitura. Ele tira da realidade humana todas aquelas comparações, metáforas, que ilustram o bom senso e o sentido do agir dele.
Mas o horizonte, a finalidade de tudo è vencer as resistências, a desconfiança, todo o que impede e atrapalha ao homem chegar à comunhão com Ele. E ao mesmo tempo ensinar ao homem se tornar cada vez mais humano, como Deus se tornou humano na pessoa de Jesus
terça-feira, 12 de julho de 2011
domingo, 3 de julho de 2011
15o DOMINGO DO T.C.-A-(10-07-11)
1ª leitura Is 55,10-11
O texto atribui à palavra de Deus uma realidade objetiva, uma força excepcional, capaz de superar todo obstáculo e executar a vontade de Deus. Ela é comparada à chuva e à neve “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vem irrigar...”. Metáfora muito eficaz que transmite a idéia da força e poder indiscutível da palavra de Deus.
Ela “não voltará para mim vazia; antes realizará tudo que for de minha vontade, e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”. Cabe perguntar: em que consiste a vontade do Senhor e o que pretende conseguir?
Em primeiro lugar afirma , como a chuva e a neve,que a palavra chega a todos indistintamente. Todos a recebem, ninguém fica excluído. É preciso criar as condições para que isso aconteça. Eis, então, o primeiro passo do discípulo, do profeta, do evangelizador: anunciar a palavra.
O anúncio inclui a devida argumentação do que é proposto. Assim, é preciso dar razão da própria adesão e ela; da transformação que suscita e da esperança com respeito ao futuro e ao destino pessoal e da humanidade toda. Com outras palavras, perceber o valor, a importância e o sentido da proposta.
A palavra pode ser acolhida ou não. Por acolhida, deve-se entender o comprometimento. Não se trata de simples informação ou de curiosidade. Trata-se de acreditar nela de maneira tal que marca o caminho, constitui a filosofia de vida com respeito ao relacionamento consigo mesmo, com os outros, com a sociedade, com o mundo e com a criação e o destino do próprio viver.
Mas, também, pode não ser acolhida. Diferentes motivos podem sustentar tal atitude. De fato, ela no entra no horizonte dos próprios interesses de maneira significativa e marcante. Pode ser objeto de informação, de conhecimento, de atenção em situações particulares e momentâneas, mas incide superficialmente o de maneira inconsistente no projeto global da própria vida.
Eis, então, a segunda missão da palavra: discernir. Assim, a vontade e os efeitos pela qual foi enviada é determinar o posicionamento de todos com respeito à proposta de vida que ela oferece. O evangelho frisa como o velho Simeão, tendo em seus braços Jesus, profetizará que “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações” ( Lc 2, 34-35).
O envio da palavra responde por um lado à vontade do Senhor e pelo outro lado à exigência de libertação da criação toda, como explicita a segunda leitura.
2da leitura. Rm 8, 18-23
A palavra será motivo de contradição, como profetizou Simeão. Gerará divisão, tensão e sofrimento entre as pessoas. E, também, naquelas que a divulgam, pelas múltiplas dificuldades que encontrarão no desenvolvimento da missão.
Neste pano de fundo, Paulo afirma “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós”. O entendimento dele é sustentado pela presença e ação do Espírito nele e na criação.
Devido ao evento da Pentecostes “sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto. E não somente ela, mas nós também,que temos os primeiros frutos do Espírito”.
O que está acontecendo é como o parto, a geração de uma nova realidade, de uma nova vida. Ele, o parto, pelo lado da criação traz a esperada libertação da vaidade e da escravidão da corrupção. E pelo lado do cristão a “adoção filial e a libertação para o nosso corpo”.
Ponto determinante e final do processo, ansiosamente esperado, é “o momento de se revelarem os filhos de Deus”, na condição de pessoas investidas da adoção filial e participes plenamente da ressurreição de Cristo.
Assim, o parto envolverá simultaneamente os cristãos e a criação. Pelos primeiros se tratará da manifestação “da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Pela criação “a liberdade da escravidão (da vaidade) da corrupção” e, assim, participar da liberdade e da glória dos mesmos filhos de Deus.
Eis, porque Paulo afirma “De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelares os filhos de Deus” e se sente investido de uma missão que ultrapassa a pregação às pessoas, à comunidade e abrange a criação toda, que será mergulhada na gloria de Deus. Assim, também a criação chegará à condição de novo céu e da nova terra, libertada do que se opõe à vontade do Criador.
Paulo sabe da “ glória que deve ser revelada em nós”. E como ela está intima e profundamente ligada à ação evangelizadora que reprisa nele e nos cristãos a experiência da morte e ressurreição de Cristo.
Portanto, o apostolo, comparando os sofrimentos do presente e a gloria futura afirma com plena consciência “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós”.
A metáfora do parto faz pensar ao momento inicial do processo, ou seja, à fecundação. Assim, a fecundação e o inicio do processo se da naqueles que recebem a palavra de Deus e se deixam envolver por ela. Sem este ponto de partida a criação ficará sem esperança de libertação e de participar da glória de Deus.
É a palavra de Deus (a carta de Pedro a compara explicitamente ao sêmen masculino) o elemento que ativa o processo. Contudo, ele pode não chegar ao bom fim, como indica o evangelho.
Evangelho Mt 3,1-23
É a conhecida parábola do semeador, cuja explicação o texto oferece com clareza e profundidade o significado de conteúdo. Cada pessoa e cada comunidade estão chamadas a se confrontar com ela.
A parábola foi colocada para dar animo e esperança aos missionários, aos discípulos, desanimados e até desmotivados pelos poucos frutos, pela desilusão de não ter o retorno esperado da própria atividade evangelizadora.
Com efeito, as palavras finais “produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente” garantem e passam a certeza de que o trabalho evangelizador chegará a completar as expectativas de Deus, como frisava o conteúdo da primeira leitura.
Parece-me que “a terra boa”, não se refere à pessoa ou à comunidade eticamente correta. A ética será fruto amadurecido do que previamente Deus mesmo oferece como preparação do terreno.
Neste sentido “a terra boa” é a realidade pessoal constantemente, adubada e irrigada pelo dom da morte de ressurreição do Senhor. Com efeito, o anuncio da Palavra tem como eixo central a proclamação de tal evento e de seus efeitos naqueles que acolhem o dom oferecido.
É isso que prepara a terra boa. Todos os obstáculos, os empecilhos e as condições que não permitem à terra de acolher e de produzir frutos após a semeadura, são tirados e anulados por esse dom.
A interiorização dos efeitos da morte e ressurreição - quais a remissão dos pecados, o restabelecimento da Aliança e a conseguinte percepção da vida em abundancia como participação, antecipação e garantia da vida futura que se manifestará no final dos tempos – cria as condições para produzir os frutos do estilo de vida e da filosofia de amor que Jesus praticou e pregou na sua ação evangelizadora e ensinou como caminho, verdade e vida.
Este “trabalho prévio” Deus o realiza constantemente na ação sacramental e particularmente na Eucaristia. É assim que se cria a necessária e eficaz ligação entre fé e vida, que caracteriza a autentica espiritualidade cristã. Tal vez, este aspecto prévio não é suficientemente percebido na sua importância.
Conseqüentemente a ligação fé vida sofre daquela fraqueza e inconsistência pela qual se manifesta a fratura entre a celebração da Eucaristia, o estar na Igreja, e a vida fora nos afazeres do dia a dia. A dificuldade de entrosamento leva à aceitação passiva que assim é, que não há remédio...
Por outro lado, é certo que a Eucaristia, não é só trabalho prévio, mas também fim. Ela é, participação do louvor e da glória de Deus. Com efeito, ela une os dois aspetos, o começo e o fim, que configuram o círculo do amor de Deus no qual a pessoa e a comunidade estão mergulhadas.
Eis, então, percebida a eficácia da palavra e as condições para que ela produza os frutos para os quais é destinada. Inclusive, aqueles frutos de discernimento entre aqueles que a assumem para valer e outros que optam ficar em outras filosofias e estilos de vida.
De todas as maneiras a palavras cumpre a sua missão.
O texto atribui à palavra de Deus uma realidade objetiva, uma força excepcional, capaz de superar todo obstáculo e executar a vontade de Deus. Ela é comparada à chuva e à neve “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vem irrigar...”. Metáfora muito eficaz que transmite a idéia da força e poder indiscutível da palavra de Deus.
Ela “não voltará para mim vazia; antes realizará tudo que for de minha vontade, e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”. Cabe perguntar: em que consiste a vontade do Senhor e o que pretende conseguir?
Em primeiro lugar afirma , como a chuva e a neve,que a palavra chega a todos indistintamente. Todos a recebem, ninguém fica excluído. É preciso criar as condições para que isso aconteça. Eis, então, o primeiro passo do discípulo, do profeta, do evangelizador: anunciar a palavra.
O anúncio inclui a devida argumentação do que é proposto. Assim, é preciso dar razão da própria adesão e ela; da transformação que suscita e da esperança com respeito ao futuro e ao destino pessoal e da humanidade toda. Com outras palavras, perceber o valor, a importância e o sentido da proposta.
A palavra pode ser acolhida ou não. Por acolhida, deve-se entender o comprometimento. Não se trata de simples informação ou de curiosidade. Trata-se de acreditar nela de maneira tal que marca o caminho, constitui a filosofia de vida com respeito ao relacionamento consigo mesmo, com os outros, com a sociedade, com o mundo e com a criação e o destino do próprio viver.
Mas, também, pode não ser acolhida. Diferentes motivos podem sustentar tal atitude. De fato, ela no entra no horizonte dos próprios interesses de maneira significativa e marcante. Pode ser objeto de informação, de conhecimento, de atenção em situações particulares e momentâneas, mas incide superficialmente o de maneira inconsistente no projeto global da própria vida.
Eis, então, a segunda missão da palavra: discernir. Assim, a vontade e os efeitos pela qual foi enviada é determinar o posicionamento de todos com respeito à proposta de vida que ela oferece. O evangelho frisa como o velho Simeão, tendo em seus braços Jesus, profetizará que “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações” ( Lc 2, 34-35).
O envio da palavra responde por um lado à vontade do Senhor e pelo outro lado à exigência de libertação da criação toda, como explicita a segunda leitura.
2da leitura. Rm 8, 18-23
A palavra será motivo de contradição, como profetizou Simeão. Gerará divisão, tensão e sofrimento entre as pessoas. E, também, naquelas que a divulgam, pelas múltiplas dificuldades que encontrarão no desenvolvimento da missão.
Neste pano de fundo, Paulo afirma “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós”. O entendimento dele é sustentado pela presença e ação do Espírito nele e na criação.
Devido ao evento da Pentecostes “sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto. E não somente ela, mas nós também,que temos os primeiros frutos do Espírito”.
O que está acontecendo é como o parto, a geração de uma nova realidade, de uma nova vida. Ele, o parto, pelo lado da criação traz a esperada libertação da vaidade e da escravidão da corrupção. E pelo lado do cristão a “adoção filial e a libertação para o nosso corpo”.
Ponto determinante e final do processo, ansiosamente esperado, é “o momento de se revelarem os filhos de Deus”, na condição de pessoas investidas da adoção filial e participes plenamente da ressurreição de Cristo.
Assim, o parto envolverá simultaneamente os cristãos e a criação. Pelos primeiros se tratará da manifestação “da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Pela criação “a liberdade da escravidão (da vaidade) da corrupção” e, assim, participar da liberdade e da glória dos mesmos filhos de Deus.
Eis, porque Paulo afirma “De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelares os filhos de Deus” e se sente investido de uma missão que ultrapassa a pregação às pessoas, à comunidade e abrange a criação toda, que será mergulhada na gloria de Deus. Assim, também a criação chegará à condição de novo céu e da nova terra, libertada do que se opõe à vontade do Criador.
Paulo sabe da “ glória que deve ser revelada em nós”. E como ela está intima e profundamente ligada à ação evangelizadora que reprisa nele e nos cristãos a experiência da morte e ressurreição de Cristo.
Portanto, o apostolo, comparando os sofrimentos do presente e a gloria futura afirma com plena consciência “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós”.
A metáfora do parto faz pensar ao momento inicial do processo, ou seja, à fecundação. Assim, a fecundação e o inicio do processo se da naqueles que recebem a palavra de Deus e se deixam envolver por ela. Sem este ponto de partida a criação ficará sem esperança de libertação e de participar da glória de Deus.
É a palavra de Deus (a carta de Pedro a compara explicitamente ao sêmen masculino) o elemento que ativa o processo. Contudo, ele pode não chegar ao bom fim, como indica o evangelho.
Evangelho Mt 3,1-23
É a conhecida parábola do semeador, cuja explicação o texto oferece com clareza e profundidade o significado de conteúdo. Cada pessoa e cada comunidade estão chamadas a se confrontar com ela.
A parábola foi colocada para dar animo e esperança aos missionários, aos discípulos, desanimados e até desmotivados pelos poucos frutos, pela desilusão de não ter o retorno esperado da própria atividade evangelizadora.
Com efeito, as palavras finais “produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente” garantem e passam a certeza de que o trabalho evangelizador chegará a completar as expectativas de Deus, como frisava o conteúdo da primeira leitura.
Parece-me que “a terra boa”, não se refere à pessoa ou à comunidade eticamente correta. A ética será fruto amadurecido do que previamente Deus mesmo oferece como preparação do terreno.
Neste sentido “a terra boa” é a realidade pessoal constantemente, adubada e irrigada pelo dom da morte de ressurreição do Senhor. Com efeito, o anuncio da Palavra tem como eixo central a proclamação de tal evento e de seus efeitos naqueles que acolhem o dom oferecido.
É isso que prepara a terra boa. Todos os obstáculos, os empecilhos e as condições que não permitem à terra de acolher e de produzir frutos após a semeadura, são tirados e anulados por esse dom.
A interiorização dos efeitos da morte e ressurreição - quais a remissão dos pecados, o restabelecimento da Aliança e a conseguinte percepção da vida em abundancia como participação, antecipação e garantia da vida futura que se manifestará no final dos tempos – cria as condições para produzir os frutos do estilo de vida e da filosofia de amor que Jesus praticou e pregou na sua ação evangelizadora e ensinou como caminho, verdade e vida.
Este “trabalho prévio” Deus o realiza constantemente na ação sacramental e particularmente na Eucaristia. É assim que se cria a necessária e eficaz ligação entre fé e vida, que caracteriza a autentica espiritualidade cristã. Tal vez, este aspecto prévio não é suficientemente percebido na sua importância.
Conseqüentemente a ligação fé vida sofre daquela fraqueza e inconsistência pela qual se manifesta a fratura entre a celebração da Eucaristia, o estar na Igreja, e a vida fora nos afazeres do dia a dia. A dificuldade de entrosamento leva à aceitação passiva que assim é, que não há remédio...
Por outro lado, é certo que a Eucaristia, não é só trabalho prévio, mas também fim. Ela é, participação do louvor e da glória de Deus. Com efeito, ela une os dois aspetos, o começo e o fim, que configuram o círculo do amor de Deus no qual a pessoa e a comunidade estão mergulhadas.
Eis, então, percebida a eficácia da palavra e as condições para que ela produza os frutos para os quais é destinada. Inclusive, aqueles frutos de discernimento entre aqueles que a assumem para valer e outros que optam ficar em outras filosofias e estilos de vida.
De todas as maneiras a palavras cumpre a sua missão.
terça-feira, 28 de junho de 2011
FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO-A-(03-07-11)
1ª leitura At 12,1-11
Momento altamente dramático. Herodes para agradar o povo, desencadeia uma violenta perseguição de torturas e de morte “prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João”. Podemos imaginar o estado de preocupação, de tensão e de pavor entre os membros da jovem Igreja que estava se constituindo. Mais ainda, com o passo sucessivo de Herodes “ Vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos”,ou seja, os dias da Páscoa hebraica. Circunstancia providencial que não permitiu a Herodes executar imediatamente também Pedro. Portando, “Herodes colocou-o na prisão (...) tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa”
Momentos difíceis, provações de diferentes tipos fazem parte da experiência de todos. Certo, há diferentes dificuldades e provações, algumas dramáticas e até trágicas, como a dos primeiros cristãos. E outras muito menores, as comuns de todos os dias. Com respeito a estas últimas, refiro-me àquela que surgem pela fidelidade ao estilo de vida cristã e à dinâmica do evangelho. Por serem elas contrárias, ou não em conformidade, com desejos e expectativas dos interlocutores contrariam pessoas queridas, descontentam as amadas, suscitam mal estar e discordâncias. Assim, muitos desistem da pratica coerente e necessária para o bem de outros. Que fazer nestas circunstâncias?
“Enquanto Pedro era mantido em prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” A intercessão perseverante da oração conseguiu o humanamente impossível. Cabe considerar que ela, tal vez, não teve a finalidade de “dobrar” a vontade de Deus ao próprio legítimo desejo. Tal vez foi em sintonia com o relatado no mesmo livro “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra (...). Todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a Palavra de Deus” (At 4,24-31). Um pedido e uma atitude confirmada com a intervenção do Espírito Santo. Foi como uma nova Pentecostes.
Contudo, a vontade de Deus se manifestou de maneira admirável e de repente. Cabe frisar como a intervenção é tão surpreendente por um lado e pouco espetacular pelo outro. Ela acontece entre visão e realidade. “Pedro não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão”. Tal vez, Pedro pensava que fosse uma simples visão sustentada pelo desejo pessoal e pela intercessão da comunidade. Tal vez tinha-se conformado com a morte iminente, sendo que esta foi o que aconteceu ao apostolo Tiago.
De fato, a intervenção surpreendeu o mesmo Pedro, que demorou entender a ação divina. Só percebeu a realidade do acontecido após sair da prisão em companhia do anjo e quando este último o deixou “Então, Pedro caiu em si e disse: Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”. É uma característica geral das manifestações divinas serem percebidas só a operação concluída.
De todas as maneiras, ela testemunha que Deus não está ausente nem indiferente às condições humanas. Sobretudo dos seus discípulos nas condições de extrema dificuldade.
Inclusive na experiência de são Paulo que terá um desfecho bem diferente como veremos na segunda leitura.
2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18
Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele manifesta os sentimentos dele diante a morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu lá estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde atualmente há a Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do evangelho e constituição das comunidades cristã. Em fim, um combate que deu resultado satisfatório para ele e para a difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É o próprio da consciência de quem fez tudo o que era nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção, sustentada pela experiência, de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente e, por certos aspectos, inalcançável nesta terra. Contudo, é ela que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho em virtude dos quais manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente. Nele encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua -do Senhor- manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, tal vez, lhe era impossível perceber anteriormente e precisamente de que “o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi poça coisa. Foi, pela graça e presença do Senhor, causa de libertação “da boca do leão”. Refere-se ao “ leão” que motiva fugir do combate; parar ou desistir da corrida; desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o “leão” que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos comprometidos, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, os desmotivando de todo sério compromisso com o Senhor.
Em fim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor, nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
O eixo é a fé, o voto de confiança em Jesus e em si mesmo, como indica o Evangelho.
Evangelho Mt 16,13-19
Jesus tem ciência do novo que surgirá pela missão dele. Também tem certeza que do antigo não ficará “pedra sobre pedra”, assim como a impossibilidade de voltar atrás. Sua mesma palavra: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deu” vale em primeiro lugar para Ele.
Para envolver neste processo a humanidade inteira, precisa-se colocar as bases e fornecer os instrumentos para dar consistência e solidez ao processo. Nesta ótica, escolhe e associa a si mesmo os discípulos para que, caminhando e sendo instruídos por Ele, adquiram o conhecimento e as atitudes convenientes.
É nesse contexto que a metade do evangelho (a metade do caminho?) o evangelista coloca o texto de hoje. A resposta à pergunta de Jesus com respeito a “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem” (Filho do Homem é a maneira de Jesus se apresentar), oferece uma breve informação da multiplicidade das interpretações do povo com respeito à pessoa e à missão Dele. Contudo, ela é simplesmente introdutória à pergunta central dirigida aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. O verdadeiro interesse de Jesus é ter ciência do entendimento dos discípulos.
A resposta de Pedro “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” é elogiada por Jesus e indicada como revelação do “meu Pai que está no céu”. Mas, como acontece nas experiências de todos os dias, com as mesmas palavras as pessoas entendem coisas diferentes. O mesmo acontecerá com Pedro que entenderá, com estas palavras, algo bem diferente do que entedia Jesus, motivo pelo qual haverá um choque muito áspero entre os dois. (Mc. 8, 32-33).
Contudo, Jesus afirma solenemente, com a sua autoridade, que aquela profissão de fé será a pedra da edificação da comunidade dos discípulos. Sinal disso troca o nome de Simão pelo de Pedro “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. A pedra, evidentemente, não é a pessoa de Pedro, mas a fé que Pedro acaba de professar, mesmo que o significado e o conteúdo certo dela serão entendidos após a morte e ressurreição de Jesus. Haverá forças poderosas contrárias, mas a última palavra vitoriosa será dela “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.
“Eu te darei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Portanto, o poder das chaves, de abrir e fechar, de ligar e desligar, entregado a Pedro - aos discípulos e a Igreja toda - por Jesus, não autoriza um exercício arbitrário, deixado ao bem querer e entender dele, mas ao critério de discernimento que tem como eixo a fé que acaba de professar. Será a aplicação de uma fé libertadora, operadora daquela liberdade que ele experimentou na 1ª leitura. Será a chave que abrirá a prisão do condenado a morte e prestes a ser executado que devolverá a ele vida e futuro cheio de esperança. Evidentemente, se trata não só de pessoas prestes a ser executados fisicamente, mas dos que já experimentam a morte pela desumanização, pelo vazio interior e o sem sentido da existência, pela prática de vida imoral e pelo real afastamento da comunhão com Deus e pelas quais está disponível a ação misericordiosa do Senhor.
Momento altamente dramático. Herodes para agradar o povo, desencadeia uma violenta perseguição de torturas e de morte “prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João”. Podemos imaginar o estado de preocupação, de tensão e de pavor entre os membros da jovem Igreja que estava se constituindo. Mais ainda, com o passo sucessivo de Herodes “ Vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos”,ou seja, os dias da Páscoa hebraica. Circunstancia providencial que não permitiu a Herodes executar imediatamente também Pedro. Portando, “Herodes colocou-o na prisão (...) tinha intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa”
Momentos difíceis, provações de diferentes tipos fazem parte da experiência de todos. Certo, há diferentes dificuldades e provações, algumas dramáticas e até trágicas, como a dos primeiros cristãos. E outras muito menores, as comuns de todos os dias. Com respeito a estas últimas, refiro-me àquela que surgem pela fidelidade ao estilo de vida cristã e à dinâmica do evangelho. Por serem elas contrárias, ou não em conformidade, com desejos e expectativas dos interlocutores contrariam pessoas queridas, descontentam as amadas, suscitam mal estar e discordâncias. Assim, muitos desistem da pratica coerente e necessária para o bem de outros. Que fazer nestas circunstâncias?
“Enquanto Pedro era mantido em prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” A intercessão perseverante da oração conseguiu o humanamente impossível. Cabe considerar que ela, tal vez, não teve a finalidade de “dobrar” a vontade de Deus ao próprio legítimo desejo. Tal vez foi em sintonia com o relatado no mesmo livro “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra (...). Todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a Palavra de Deus” (At 4,24-31). Um pedido e uma atitude confirmada com a intervenção do Espírito Santo. Foi como uma nova Pentecostes.
Contudo, a vontade de Deus se manifestou de maneira admirável e de repente. Cabe frisar como a intervenção é tão surpreendente por um lado e pouco espetacular pelo outro. Ela acontece entre visão e realidade. “Pedro não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão”. Tal vez, Pedro pensava que fosse uma simples visão sustentada pelo desejo pessoal e pela intercessão da comunidade. Tal vez tinha-se conformado com a morte iminente, sendo que esta foi o que aconteceu ao apostolo Tiago.
De fato, a intervenção surpreendeu o mesmo Pedro, que demorou entender a ação divina. Só percebeu a realidade do acontecido após sair da prisão em companhia do anjo e quando este último o deixou “Então, Pedro caiu em si e disse: Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”. É uma característica geral das manifestações divinas serem percebidas só a operação concluída.
De todas as maneiras, ela testemunha que Deus não está ausente nem indiferente às condições humanas. Sobretudo dos seus discípulos nas condições de extrema dificuldade.
Inclusive na experiência de são Paulo que terá um desfecho bem diferente como veremos na segunda leitura.
2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18
Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele manifesta os sentimentos dele diante a morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu lá estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde atualmente há a Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do evangelho e constituição das comunidades cristã. Em fim, um combate que deu resultado satisfatório para ele e para a difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É o próprio da consciência de quem fez tudo o que era nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção, sustentada pela experiência, de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente e, por certos aspectos, inalcançável nesta terra. Contudo, é ela que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho em virtude dos quais manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente. Nele encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua -do Senhor- manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, tal vez, lhe era impossível perceber anteriormente e precisamente de que “o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi poça coisa. Foi, pela graça e presença do Senhor, causa de libertação “da boca do leão”. Refere-se ao “ leão” que motiva fugir do combate; parar ou desistir da corrida; desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o “leão” que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos comprometidos, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, os desmotivando de todo sério compromisso com o Senhor.
Em fim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor, nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
O eixo é a fé, o voto de confiança em Jesus e em si mesmo, como indica o Evangelho.
Evangelho Mt 16,13-19
Jesus tem ciência do novo que surgirá pela missão dele. Também tem certeza que do antigo não ficará “pedra sobre pedra”, assim como a impossibilidade de voltar atrás. Sua mesma palavra: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deu” vale em primeiro lugar para Ele.
Para envolver neste processo a humanidade inteira, precisa-se colocar as bases e fornecer os instrumentos para dar consistência e solidez ao processo. Nesta ótica, escolhe e associa a si mesmo os discípulos para que, caminhando e sendo instruídos por Ele, adquiram o conhecimento e as atitudes convenientes.
É nesse contexto que a metade do evangelho (a metade do caminho?) o evangelista coloca o texto de hoje. A resposta à pergunta de Jesus com respeito a “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem” (Filho do Homem é a maneira de Jesus se apresentar), oferece uma breve informação da multiplicidade das interpretações do povo com respeito à pessoa e à missão Dele. Contudo, ela é simplesmente introdutória à pergunta central dirigida aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. O verdadeiro interesse de Jesus é ter ciência do entendimento dos discípulos.
A resposta de Pedro “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” é elogiada por Jesus e indicada como revelação do “meu Pai que está no céu”. Mas, como acontece nas experiências de todos os dias, com as mesmas palavras as pessoas entendem coisas diferentes. O mesmo acontecerá com Pedro que entenderá, com estas palavras, algo bem diferente do que entedia Jesus, motivo pelo qual haverá um choque muito áspero entre os dois. (Mc. 8, 32-33).
Contudo, Jesus afirma solenemente, com a sua autoridade, que aquela profissão de fé será a pedra da edificação da comunidade dos discípulos. Sinal disso troca o nome de Simão pelo de Pedro “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. A pedra, evidentemente, não é a pessoa de Pedro, mas a fé que Pedro acaba de professar, mesmo que o significado e o conteúdo certo dela serão entendidos após a morte e ressurreição de Jesus. Haverá forças poderosas contrárias, mas a última palavra vitoriosa será dela “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”.
“Eu te darei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Portanto, o poder das chaves, de abrir e fechar, de ligar e desligar, entregado a Pedro - aos discípulos e a Igreja toda - por Jesus, não autoriza um exercício arbitrário, deixado ao bem querer e entender dele, mas ao critério de discernimento que tem como eixo a fé que acaba de professar. Será a aplicação de uma fé libertadora, operadora daquela liberdade que ele experimentou na 1ª leitura. Será a chave que abrirá a prisão do condenado a morte e prestes a ser executado que devolverá a ele vida e futuro cheio de esperança. Evidentemente, se trata não só de pessoas prestes a ser executados fisicamente, mas dos que já experimentam a morte pela desumanização, pelo vazio interior e o sem sentido da existência, pela prática de vida imoral e pelo real afastamento da comunhão com Deus e pelas quais está disponível a ação misericordiosa do Senhor.
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