domingo, 14 de agosto de 2011

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA - Festa-(15-08-11)

1ª leitura Ap 11,19ª; 12,1.3-6ª.10ab

É a festa da glorificação de Maria, ou seja, da participação dela com o corpo da gloria de Deus. A tradição da Igreja na “mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” enxerga a imagem de Nossa Senhora. Cabe esclarecer que a imagem da mulher simboliza o povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Com efeito, um e outro são vítimas das perseguições indicadas pelo texto. Entretanto, os textos que se referem ao povo de Deus, a Igreja, podem ser aplicados à Maria, enquanto o verdadeiro mistério dessa se insere no mistério da igreja, ao mesmo tempo que o ilumina.
Abriu-se (...) e apareceu no Templo a arca da aliança”. A arca do Antigo Testamento, uma caixa dourada especialmente construída, continha os sinais da aliança de Deus para com o povo, quais as tabuas da Lei, o cajado de Moises etc. Agora a nova arca da aliança é Maria. De fato, ela leva no seio e traz para a humanidade o artífice único e fundamental da aliança nova e eterna: o filho Jesus. Pois, “ela deu a luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro”.
Desde antes de nascer o filho, se trava a luta entre o mesmo, a mulher e os opositores. Estes últimos têm uma força muito grande e poderosa comparada ao do Dragão. O que está em jogo é o governo do mundo inteiro “Então apareceu (...) um grande Dragão, cor de fogo. (...) varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra”. Os opositores percebem de imediato o perigo da presença deste nascituro. Já sabem os poderes deste mundo o que significa a adesão das pessoas a Jesus Ressuscitado. Percebem a forca subversiva e inovadora da proposta e da filosofia dele. Sabem que Ele vai tirar o poder e força deles sobre os dominados como indicará o cântico de Maria no evangelho. Portanto, é uma luta extrema que procura suprimir a Mulher e o nascituro “O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar a luz, pronto para devorar o seu Filho logo que nascesse”.
O extremamente dramático deste retrato é imagem do que acontecerá à Igreja, à comunidade cristã e a toda pessoa que, tocada pela pessoa de Jesus, determina assumir para valer o caminho dele se tornando discípulo. Eis, portanto que a mensagem do texto é dirigida ao perseguido de todos os tempos e de todos os lugares, que desanimado, provado e assustado pode se desmotivar, achando de ter sido enganado e abandonar o caminho.
Eis, então, a última e definitiva intervenção de Deus “ Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza de Deus, e o poder do seu Cristo”. Pois, com sua ação Deus leva o Filho junto dele “e do seu trono” e “A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar”. A ação de Deus é realizada nos termos e com os meios próprios do exercício do poder humano dos opositores, com força, realeza e com o poder do enviado especial. Portanto, os perseguidos devem saber que por quanto assustadora e terrível a opressão, não será a última palavra com respeito à condição deles. Pois, Deus é maior, é o verdadeiro salvador, não serão esquecidos nem abandonados.
O texto pretende ser uma mensagem que motiva a coragem e sustenta a esperança. Tudo isso tem sua fundamentação no evento da ressurreição de Jesus, que constitui propriamente o “poder do seu Cristo”, como indica a segunda leitura.

2da leitura 1Cor 15, 20-27a

Eis a anuncio fundamental, o eixo de toda argumentação e teologia de são Paulo: “Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”. Cristo se manifesta como primícias dos ressuscitados. Ora, se é verdade que às “primícias” segue a colheita, é verdade que à ressurreição de Cristo seguirá a nossa. Isso se deve ao fato que Jesus é o representante da humanidade de todos os tempos, como o foi Adão no começo da criação. Daí, então, o sentido da afirmação “por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como por Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão”.
É importante fixar na mente e acreditar no coração a verdade do relacionamento representante (Jesus) e representado (a humanidade e as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares). Porque é a certeza dessa verdade o elo que garante e convence da transposição que o acontecido na pessoa de Jesus acontece, objetivamente, na pessoa e na humanidade toda. Assim, representante e representado estão intimo e profundamente unidos na mesma vivencia e no mesmo destino.
Só o voto de confiança nisso permite atualizar os efeitos da morte e ressurreição Dele na comunidade e nas pessoas que celebram a Eucaristia, os demais sacramentos e na prática de vida conseqüente. Evidentemente, tudo isso é realizado misteriosamente e percebido só pela fé. O evento foge e ultrapassa todo raciocínio e experiência humana. Daí, as palavras após a consagração do cálice “Eis o mistério d a fé”. Assim, a fé de cada pessoa, e da comunidade, realiza a passagem do efeito objetivo - realizado por Jesus, o representante -, ao efeito subjetivo na pessoa que acredita sincera e firmemente nesse relacionamento.
Portanto, o “também em Cristo todos reviverão” não é evento de rotina ou automático, mas atingirá “os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda”. Com certeza, quando Paulo escreveu era iminente a espera da volta do ressuscitado. De todas as maneiras, é certo também que participarão da ressurreição com Cristo os que “pertencem a Cristo” e isso se realiza pela fé que acabo de explicitar. É preciso se manter na fé, mesmo passando pelas provações e abalos indicados na primeira leitura.
Essa realidade é uma situação intermédia, ainda não é o fim, a meta: “A seguir, será o fim, quando ele ( Cristo) entregar a realeza de Deus-pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força (...) . O último inimigo a ser destruído é a morte”.Com outras palavras, a meta será a manifestação do momento no qual Deus “será tudo em todos” (1Cor 15,28).
Tocará ao Filho, através da ação dos seus discípulos no mundo inteiro, “destruir todo principado e todo poder e força”. Parece-me que não se trata de uma dimensão sociológica, no sentido de submissão de toda a realidade sócio-humana, pois, ela continuará existindo com as ambigüidades que lhe são próprias até a vinda do ressuscitado. A vitória se manifestará pelo testemunho daqueles que não se dobraram ao principado, poder e força do mundo, que resistiram com coragem e esperança. É neles que Cristo vence e são com eles que entregará todos a Deus Pai.
Será evidente, então, o que o cântico de Maria proclamará no evangelho.

Evangelho Lc 1,39-56

O texto é muito conhecido. Após o “sim” da anunciação “Maria partiu (...) apressadamente a uma cidade da Judéia". A adesão à palavra suscita nela o dinamismo surpreendente apto para enfrentar uma longa viagem ao encontro da prima Isabel, com o intuito de compartilhar o envolvimento da experiência tão singular e determinante para o futuro do povo, em ordem à realização da promessa de Deus. Isso diz muito com respeito à qualidade e consistência de nossa adesão para valer à palavra, ao chamado de Deus, muitas vezes marcada, pelo comodismo, pela preguiça, pela indiferença para com as demais pessoas ou por uma fé simplesmente individualista.
Maria foi conferir o que o anjo lhe havia anunciado “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice”. Também em Isabel o que parecia impossível se tornou realidade. O encontro é motivo para constatar a eficácia da promessa de Deus: a estéril e a virgem se tornam fecundas e mães, para a salvação da humanidade, associadas na única missão, cujos filhos a desenvolverão de maneira diferente. Tudo isso, sob a ação do único Espírito Santo “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.
No encontro com Isabel, Maria é elogiada pela fé, pelo voto de confiança na promessa: “Bem-aventurada àquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Ela colocou a disposição sua pessoa e deixou que Deus operasse nela. A fé e a atitude dela se tornaram patrimônio e possibilidade da humanidade toda e de cada pessoa em particular. É o que gostaríamos todos vivenciarem e experimentar a bem-aventurança que inspirou Maria no cântico atribuído a ela.
O cântico é uma visão retrospectiva que parte da constatação que Deus “Socorreu Israel (...) conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abrão e sua descendência, para sempre”. Ou seja, o que o Senhor prometeu conforme a palavra de Isabel se cumpriu.
O cumprimento da promessa se deve que Deus “lembrando-se de sua misericórdia”, orientou seu coração ao resgate da dignidade e da vida do povo, agindo de maneira desconcertante “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despiu os ricos de mãos vazias”. Com isso “mostrou a força de seu braço” não só por reverter uma situação humanamente impossível, mas por dispersar “os soberbos de coração”, ou seja, a arrogância e a prepotência dos que se sentem superiores , privilegiados, e com isso motivados para dominar com o poder e dinheiro.
Nesse agir se manifesta a santidade do nome de Deus, pois, ele é expressão da soberania de Deus sobre a verdadeira convivência humana, além das dificuldades e dos múltiples obstáculos e resistências que se apresentarem nas diferentes circunstâncias.
Nesse contexto, Maria encaixa a própria pessoa como a destinatária da bem- aventurança que será reconhecida como tal por “todas as gerações”. Reconhece que Deus “olhou para a humildade de sua serva (...) o Todo- poderoso fez grandes coisas em meu favor”, ou seja, ela mesma. Constata que o ter dado voto de confiança com o próprio “sim” a Deus, foi oportunidade para experimentar nela a ação surpreendente e poderosa de Deus, além de toda expectativa, como Salvador dela e da humanidade.
Tudo isso é motivo nela de estupor e de maravilha, manifestados pelas primeiras palavras do cântico: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. É o testemunho da existência bem sucedida, que motiva e anima toda pessoa encontrar nela o modelo de discípula (o) do Senhor, bem sabendo das dores e dos sofrimentos que acompanharam a vida dela, pelo que aconteceu na vida do Filho. Ela por não desistir nem desconfiar de que a promessa será cumprida - como testemunha a ressurreição do filho -, já participa plenamente com o próprio corpo da glória na qual o mesmo Filho está envolvido e preenchido.

domingo, 7 de agosto de 2011

20o DOMINGO DO T.C.-A-(14-08-11)

1ª leitura Is 56,1.6-7

O templo de Jerusalém polariza a vida nacional e alguns do povo lutam pelo exclusivismo nacionalista. Para estes, só os descendentes legítimos da raça pertencem ao povo eleito.
Para ter uma idéia. J.Jeremias, grande estudioso da bíblia, informa que, depois da investigação no arquivo do templo até a quinta geração, no caso um descendente da tribo sacerdotal- a de Levi-, tivesse o próprio sangue misturado com o de outra raça era excluído do serviço. A pureza racial era, para alguns, determinante aos efeitos da salvação. (Algo disso tem na ,polemica de Jesus para com os fariseus, que avançam suas pretensões em função da descendência de Abraão).
Eis a ordem do Senhor: “Cumpri o dever e praticai a justiça”. Em que consiste o dever? O respeito e a fidelidade às exigências da Aliança. O respeito dos termos da Aliança faz do povo, o “povo de Deus”. E o cumprimento de suas exigências, consolida e fortifica a identidade, em virtude da qual Deus reconhece nele o seu povo e o povo tem a certeza d e pertencer a Deus.
Praticai a justiça” é o correto relacionamento com Deus, assim como o correto relacionamento interpessoal e social. Praticar a justiça é a maneira de manifestar o evidente Senhorio de Deus sobre o seu povo. Isso se desdobra nas atitudes indicadas quais “prestando-lhe culto, honrando o nome do Senhor, servindo-o...”.
Assim, “minha salvação está prestes a chegar e minha justiça não tardará a manifestar-se” . A salvação consistirá na paz, entendida como harmonia entre todos e com tudo. É justo todo o que faz da pessoa um sujeito mais humano, mais capaz de se doar para gerar fraternidade, sem discriminação de algum tipo.
É justo todo o que faz o povo se identificar praticando o direito e o cumprimento da Lei, contra a prepotência e o abuso em prejuízo dos desamparados: o pobre, a viúva , o órfão, o estrangeiro... Assim, se cumpre a justiça, que ultrapassa a condição humana e manifesta sua origem e proveniência de Deus.
Tudo isso, não fica circunscrito ao povo eleito, como exclusividade dele, mas abrange também os estrangeiros “Aos estrangeiros que aderem ao Senhor,...” . É abertura surpreendente. A profecia se dirige a eles. Em virtude de honrar o nome do Senhor, o mesmo diz “ a esses conduzirei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; aceitarei com agrado em meu altar seus holocaustos...”.
Honrar o nome do Senhor é sinônimo de amá-lo. Melhor, é acolher o amor com que nos ama, pelo cumprimento dos mandamentos. Eis, então uma indicação chave. O critério de pertencer ao povo de Deus vai alem do critério da descendência, ultrapassa o da raça e se concretiza no binômio confiança-amor. Com outras palavras, do amor confiante, com sincero coração e inteligência perspicaz.
Este critério vale não só para os estrangeiros, mas para todos, pois o cumprimento da Aliança depende disso. Portanto, não se trata só da concessão inédita a favor dos estrangeiros, mas apontar ao centro, e as condições para ser realmente e não só mecanicamente o povo de Deus, o povo da Aliança.
É nesta ótica que se podem entender as palavras de Paulo na segunda leitura.

2ª leitura Rm 11,13-15.29-32

São Paulo considera a ligação entre a missão dirigida aos pagãos e a salvação dos seus compatriotas. Muito o angustia a não aceitação de Cristo por parte de seu povo. Garante que “honrarei o meu ministério” para com os primeiros, na esperança de “despertar o ciúme nos de minha raça” de maneira tal de “salvar alguns deles”.
Ponto de partida da reflexão é o compromisso por parte de Deus, que certamente será cumprido pela fidelidade do Mesmo, pois, “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”. Pois, a salvação é para uns e para os outros.
A ligação consiste no singular jogo pelo qual, em primeiro termo, a desobediência de uns ajudou o outro e depois, em segundo termo, é vice-versa. Dirige-se aos pagãos: “Outrora, vós fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes a misericórdia, em conseqüência da desobediência deles”. Com efeito, os compatriotas rejeitando Jesus fizeram que o sacrifício Dele tivesse valor universal e, portanto, se abriu a porta da salvação para todos os povos. É o que Paulo está comprovando com a sua pregação e adesão dos pagãos a Cristo.
Agora ele aguarda e espera o processo contrário: “Assim, são eles agora os desobedientes, para que, em conseqüência da misericórdia usada convosco, alcancem finalmente a salvação”.
A chave do mecanismo e de toda a dinâmica é a misericórdia de Deus, sustentada pela vontade de salvar a todos. Paulo o afirma explicitamente “ Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”(1Tm2,4). Por isso, Deus ativa sua misericórdia “Com efeito, Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos”.
Que o estrangeiro possa ser motivo de conversão dos integrantes do povo de Deus, dos que praticam a Aliança e dos herdeiros da promessa, é uma perspectiva que ultrapassa toda imaginação e expectativa no contexto de então. Contudo, é a visão e a certeza que move Paulo. Visão grandiosa, inimaginável e estupenda e,ao mesmo tempo, capaz de motivar toda dedicação, sofrimento e provação, como as que Paulo experimentou ao longo de toda sua vida .
Retomando o tema da primeira leitura, são estes estrangeiros que amam e “honram o nome do Senhor”, na aceitação do dom de Cristo oferecido pela sua morte e ressurreição. Com isso, se cumpre toda justiça e a realização do plano de Deus para toda a humanidade.
É o paradoxo e a ironia que os excluídos na visão dos integrantes do polvo eleito, se tornem os que mediam a salvação a favor dos mesmos. Isso revela que os caminhos do Senhor fogem de toda previsão e cálculo humano. É a surpresa de constatar como Deus age de maneira tal que todos tenham acesso à salvação, tendo acesso a ela todos aqueles que se deixam tocar pela dinâmica é a morte e ressurreição do Filho. Pois, a misericórdia é para todos, indistintamente.
Ela é amor que caminha de mãos dada com a fé , como testemunha o evangelho.

Evangelho Mt, 15, 21-28

Jesus está em terra estrangeira, entre os pagãos “a região de Tiro e Sidônia”. A fama dele chegou até ai, ultrapassou os confins de israel. Ele é abordado pela mulher cananéia como “Senhor, filho de Davi”. A mulher sabe que pertence a outra raça, a outro povo, que não é descendente do povo eleito, do povo do rei Davi. Contudo, suplica “tem piedade de mim, minha filha está cruelmente atormentada por um demônio”.
Com o termo “cruelmente”, manifesta o profundo sofrimento da mulher. Surpreende, portanto, o silencio de Jesus, tão sensível ao sofrimento e a dor das pessoas ...
Aos Apóstolos se manifestam como para se libertar do incomodo de uma circunstância desagradável “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”, Jesus responde com uma motivação que limita sua missão aos filhos de Israel. “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas de Israel”. Palavras e atitude desconcertantes, mais que suficiente para desanimar, desmotivar e afastar para sempre toda pessoa. Há como uma barreira insuperável.
A mulher, pelo contrário, com determinação e insistência volta suplicar e encara a resposta de Jesus, que a coloca em nível do cachorrinho, com genialidade e firmeza “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos”.
Uma força de animo, uma lucidez e prontidão tão singular são possíveis porque a mulher participa de maneira profunda de amor ao sofrimento da filha, e não poderia ser de outra maneira sendo a mãe. Mas também ela ficou muito envolvida com o que a palavra e a pessoa de Jesus operaram nela. Com certeza deve ter percebido no profundo si mesma a verdade e o surgir das condições pelas quais pode alcançar a saúde para a filha. Com outras palavras, entrou no mundo de Jesus, ou deixou que o mundo de Jesus entrasse nela. E acreditou.
É o que Jesus frisa explicitamente “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres! E desse momento sua filha ficou curada”. O que ela quer será feito porque em sintonia com o que Jesus suscitou no profundo dela, em virtude de tê-lo acolhido. Trata-se da fé dela no que Jesus realizou nela.
Portanto a grandeza da fé que Jesus elogia não é direta em primeiro lugar à sua pessoa, em quanto Jesus Filho de Deus todo poderoso. Mas, ao que ele operou em termos de transformação no mundo interior dela.
É a mesma fé que Jesus espera de toda pessoa que se aproxima a ele e diz de ter fé nele. É a fé na transformação interior com respeito aos valores, aos critérios, à filosofia de vida, que declina o novo estilo de vida e motiva abandonar o que não é conforme para assumir o que é conforma à nova realidade que vai surgindo e que já descobre presente nele .
Jesus com as palavras “Seja feito como tu queres” não satisfaz o capricho dela, ou simplesmente atende a insistência dela. Mas, prende consciência do que foi amadurecendo nela com o processo da transformação do mundo interior que a sua palavra e a sua pessoa operou.
Para concretizar, a Missa é um desses eventos. A Oração Eucarística - mas vale para a missa toda - realiza em nós a transformação. Mais exatamente: a remissão dos pecados; restabelece a nova ed eterna aliança e a participação na vida eterna, antecipo da glória que se manifestará no final dos tempo.
Percebendo esta transformação pela fé somos dignos de receber a eucaristia: o Corpo e o Sangue do Senhor. Não se trata de dignidade ética - pois somos pecadores, e nos apresentamos como tal - mas teológica, ou seja, aquelas é operada por Ele e assumida pela fé.
Eis, portanto, o ponto alto, o ponto de chegada da fé.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

19o DOMINGO DO T.C.-A- (07-08-11)

1ª leitura 1Rs 19,9a.11-13ª

Depois de ter mandado matar os quatro cento e cinqüenta profetas de corte da rainha Jezabel no monte Carmelo, Elias foge, pois, a rainha o persegue para matá-lo. Ele chega “ao Horeb, o monte de Deus, o profeta entrou na gruta, onde passou a noite”.
No momento altamente dramático, e de profunda crise por não perceber apoio nenhum à sua ação, Elias sente a necessidade de chegar ao lugar onde tudo começou para o povo de Israel: o monte Horeb. É no Horeb onde Deus se manifestou a Moises, entregou a Lei e selou a Aliança...
Para ele é como tornar às raízes das quais tudo surgiu. Foi, tal vez, para reencontrar ou regatar a autenticidade e a verdade dele; para conferir se o próprio agir e caminhar é conforme à Aliança. Em fim, é motivado da urgência de se reencontrar com a própria identidade mais profunda, abalada pelos eventos desconcertantes.
O Senhor o acolhe da mesma forma que acolheu Moises “Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar”. Portanto, a expectativa é que o Senhor se manifeste da mesma forma de como foi com Moises “veio o vento impetuoso e forte(...), houve o terremoto (...), veio o fogo”. Mas o Senhor não estava neles.
Pelo contrario, o Senhor se manifestou no meio de “um murmúrio de uma leve brisa”, ou seja, de uma maneira totalmente inesperada. Contudo, “Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta”.
Nos momentos de crise e de dificuldade é importante voltar com o coração e com inteligência aos momentos marcantes e determinantes da própria vocação, para revisitar aquilo que determinou a decisão fundamental da própria existência. Mesmo passando por um período árido, como foi a travessia do deserto por Elia, que por outro lado foi sustentada da presença do anjo do Senhor, merece enfrentar a viagem.
Com certeza Deus acolhe.Tal vez, seja por isso que acontecem momentos de crise, para redesenhar o projeto, para reconsiderar os termos da caminhada, para retomar o caminho com novos critérios e novas mediações.
Não adianta se apoiar em experiências de outros - como foi aquela de Moises por Elias - ou elaborar expectativa assim de prever antecipadamente como o Senhor se tornará presente. Deus não pode ser encaixado dentro de nossas expectativas, sempre surpreende. E de fato, se manifestará no “murmúrio de brisa”, algo totalmente diferente de como se manifestou a Moises. Deus é Deus e ninguém pode prever como se ele se manifesta.
Ele sempre surpreende, com seu agir criativo e inesperado, mesmo na maneira de se comunicar com a pessoa dedicada a ele. Contudo, o importante é reconhecer e entender a presença e assumir a atitude conveniente. No caso de Elias, como a de Moises perante a transcendência Dio Senhor, ele se “cobriu o rosto com o manto, saiu e se pôs à entrada da gruta”, pois, ninguém pode ver Deus face a face e permanecer vivo.
A finalidade de tão larga viagem é alcançada, o contacto está feito. E Deus, fonte da vida, falará com Elias e dará a resposta conveniente. Não foi em vão a viagem, a esperança e voltar às raízes.
A renovada sintonia com Deus determinará a atitude conveniente. É o que Paolo manifesta, por ter alcançado a sintonia com Cristo.

2da leitura Rm 9,1-5.

Com grande sinceridade “Não estou mentindo”, Paulo manifesta a grande tristeza com respeito ao povo de Israel à qual pertence, e pelo qual tem imenso carinho: por que “os de minha raça”não aceitaram a Cristo?
O motivo é que deste povo “é que descende, quanto à sua humanidade, Cristo, o qual está acima de todos, Deus bendito para sempre! Amen!”. A argumentação é que “Eles são Israelitas. A eles pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas e também os patriarcas”. Portanto, tudo converge a que sejam particularmente favorecidos em entender e aceitar a Cristo, no qual encontram a filiação adotiva. Mais ainda, em Cristo se concentra a realização das promessas e a manifestação da glória de Deus.
Para Paulo é sumamente difícil entender esta atitude dos próprios compatriotas. É particularmente angustioso constatar a incapacidade, ou a consciente resistência, em acolher e acreditas na missão de Cristo “uma grande tristeza e uma dor continua”, que eles permaneçam em tal atitude.
O tamanho do sofrimento é manifestado pela troca surpreendente de desejar para ele a pior desgraça, se ela pudesse abrir o coração e a inteligência deles à conversão: “a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor dos meus irmãos”. Para Paulo afirmar isso é manifestar uma dor verdadeiramente grande!
Pela historia e tradição dele a identidade e o sentido de pertencer ao povo eleito de Israel é algo que conforma a sua realidade pessoal e social mais autentica e verdadeira. O sentido de pertencer ao povo de Deus, de ser parte da historia viva e atual, e, sobretudo, de se sentir herdeiro, com o povo, das promessas de Deus seladas pela Aliança no Sinai, constitui , podemos dizer, como o DNA da própria existência.
Portanto, a salvação dele e do povo formam uma realidade só. Esta sensibilidade e percepção que ultrapassa a dimensão individual e abraça a realidade do povo todo, falta na percepção e experiência espiritual dos cristãos.
Nós estamos muito acostumados entender a salvação como um evento estritamente individual, como algo que cada pessoa deve tratar e verificar com Deus, deixando para os outros e o povo toda a incumbência de se concertar por própria iniciativa. Ninguém de nós se incomodaria pelo fato do outro, do povo em geral, ter uma conduta inadequada, afastada do horizonte da salvação, se não for por erros e prejuízos de caráter social que as circunstâncias acarretam.
É particularmente trabalhoso e complicado mudar o rumo, a direção. A herança do passado cuja conseqüência a sociedade toda carrega se resiste a toda modificação.
Por outro lado, a rápida e constante evolução social, conhecida como globalização e a informação em tempo real, da a entender que frente aos problemas e desafios da humanidade se faz cada vez mais evidente que nos salvamos todos, ou todos afundamos. Tomar em seria consideração a salvação de todos é ao mesmo tempo se preocupar da própria.
Jesus é o ponto de referencia para o evento da salvação bem sucedido, como explicita o evangelho.

Evangelho Mt 14,22-33

Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente, tu és o filho de Deus” . Na primeira leitura Deus se manifestou no murmúrio da suave brisa, aqui no domínio da tempestade e do vento. Pois, era entendimento comum que só Deus podia dominar as águas. Mas, como Elias, também os discípulos chegam a esta experiência após circunstâncias e situações dramáticas e perturbadoras.
Depois das multiplicações dos pães, Jesus e os apóstolos se dividem, ou melhor, Jesus “ mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar” . E ele “ subiu ao monte, para orar a sós”.
Ele orando na tranqüilidade da solidão até as “ três horas da manhã”, e os apóstolos lutando para a sobrevivência no meio da tempestade. Um contraste muito singular. Parece-me querido propositalmente. Mais ainda, imediatamente depois do grande milagre da multiplicação dos pães, momento mágico e triunfante do Senhor e dos mesmos apóstolos.
Qual foi o motivo, não se sabe. Nem é dito qual foi o motivo de Jesus passar a noite em oração. Tal vez cabe deduzi-lo, ligando com as mesmas palavras de Jesus dirigidas a Pedro na quinta feira santa “ Simão, Simão! Olha que Satanás pediu permissão para vos peneirar como trigo. Eu porem, rezei por ti, para que tua fé não se apague” (Lc 22,31-32).
Portanto, o evento é para comprovar a consistência da fé dos discípulos, após o milagre, e a eficácia da oração de Jesus.
Eis Jesus se aproximando a eles andando sobre mar e sendo motivo de apavoramento, porque “disseram: é um fantasma”. A intervenção de Jesus e a exortação de não ter medo tem uma primeira resposta de Pedro “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”. Resposta entre confiança e teste, ao ponto que quando pus sua atenção sobre o vento e a tempestade começou a afundar e suplicou a intervenção de Jesus: “Senhor , salva-me”.
A resposta de Jesus “Homem fraco na fé, porque duvidaste?” evidencia como o milagre da multiplicação dos pães não foi suficiente para segurar a fé necessária para enfrentar a tempestade.
A tempestade é imagem das provações e das dificuldades que os apóstolos encontrarão na missão. No desenvolvimento dela poderão contar com a oração de Jesus a favor deles. E também da sua presença, que não será a ilusão de um fantasma e nem simplesmente de umas palavras de conforto e de coragem, mas a de um braço forte “Jesus logo estendeu a mão”capaz salvar de uma situação difícil, sustentar a pouca fé e os momentos de fraqueza dos discípulos.
Por esta experiência viva e eficaz poderão louvar a Deus, reconhecendo sua assistência e intervenção que resolve o que humanamente seria impossível: “ Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus”