quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Comentário do 5º Domingo do Tempo Comum - Ano C (07-02-2010) (

1ª leitura Is 6,1-8

O que chama a atenção, de imediato, é o grande contraste entre a realidade de Deus e do homem. Por um lado a imensidade de Deus e, pelo ouro, a pobreza e humildade do homem.

Os primeiros quatro versículos descrevem a auto-manifestação de Deus com expressões que inculcam a transcendência divina, a excelsa e universal força de Deus “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; toda a terra está repleta de sua glória” Repetir três vezes “santo” é a maneira de indicar a absoluta imensidade e grandeza – com o termo pouco usado comumente, transcendência- de Deus, que supera sempre toda imaginação e expectativa humana. Manifestar-se como Deus dos exércitos, significa afirmar que nenhum poder e força humana podem contrastar ou vencer Ele.

É manifesto, dessa forma, o mistério de Deus que, por um lado, suscita temor e respeito por sua realidade infinita e, pelo outro, é surpreendentemente próximo ao homem, à sua criação. Assim, é ao mesmo tempo um Deus distante e próximo. A isso apontam as palavras “toda a terra está repleta de tua glória” Com efeito, falar da glória de Deus pode indicar a imensidade misteriosa de Deus, inalcançável à criatura. Nesse sentido, trata-se do Deus distante. Mas, também, é o Deus próximo, pois, algo dessa imensidade é percebida e manifesta na criação, nas pessoas e na convivência humana.

A continuação, eis a reação do homem e o envolvimento dele perante a manifestação de Deus. De imediato, surge nele o tremor e o sentimento de indignidade: “Ai de mim, estou perdido! Sou apenas um homem de lábios impuros, mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos” Na época, era entendimento comum que nenhum ser vivente podia ver a Deus e ficar vivo. Daí, a percepção de morte imediata: “estou perdido!” E, além disso, com a consciência da própria indignidade, porque “sou apenas um homem de lábios impuros”. Não é difícil imaginar o estado de animo, de apavoramento, de desconcerto, deste primeiro momento. Com efeito, toda verdadeira manifestação de Deus suscita na pessoa este sentimento e esta percepção.

Contudo, Deus de imediato age para envolver a pessoa na missão, na realização da vontade dele. Toda manifestação de Deus não tem simplesmente como finalidade a manifestação de si mesmo, da sua grandeza, de seu poder e de sua glória, mas a participação da missão a favor do povo. Em primeiro lugar perdoa a culpa e o pecado. Eis, então a brasa que, simbolicamente, “tocou minha boca, assim (...) desapareceu tua culpa, e teu pecado está perdoado”. Dessa forma, Deus de chama a pessoa à comunhão e amizade consigo, pois o perdão é sempre expressão do amor. E cria as condições para convidá-la à missão: “Quem enviarei? Quem ita por nós?”

A resposta é assumir a causa de Deus, que pretende realizar o resgate do povo à fidelidade da Aliança, por meio do seu representante, o profeta Isaias.
Será Jesus a palavra definitiva de Deus, para o resgate da humanidade como comentaremos na 2da leitura.

2ª leitura 1Cor 15, 1-11

São Paulo descreve a si mesmo como “o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. É pela graça de Deus que eu sou o que sou” Com efeito, ele foi purificado, como Isaias, pelo fogo da morte e ressurreição de Jesus na via de Damasco, ou seja, quando entendeu no coração o significado e a importância da morte e ressurreição do mesmo para ele. Escreverá na carta aos Gálatas “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou” Assim, passou de perseguidor à seguidor. A vida dele, a dedicação, a teimosia, os sofrimentos etc., dão testemunho da enorme mudança que a graça de Deus operou nele.

“Sua graça para comigo não foi estéril: a prova é que tenho trabalhado mais do que os outros apóstolos- não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo” O dom recebido é para ser passado a outros, através da pregação, do testemunho e o dom de si mesmo na caridade. Desta forma, a boa noticia do evangelho se torna boa realidade na vida pessoal, familiar e social dos que livremente se deixam tocar e envolver pelo dom.

A maneira para conservar e acrescentar o dom é passá-lo. Portanto, a missão não é uma obrigação, um dever, uma imposição, e, portanto, uma carga, um peso, mais um incomodo entre os muitos do dia -a- dia, mas o impulso da graça de comunicar e envolver outros na mesma realidade e dinâmica do dom. Então, a vida se torne uma realidade bem sucedida na fraternidade, na união, na construção de uma vida pessoal e social más condizente à realidade humana –divina, raiz verdadeira de toda existência. Dessa forma, vai- se conformando um estilo de vida que fecunda a existência, em contraposição à esterilidade e à perda do dom.

Cabe pensar se a causa de muitas desmotivações, desistências, abandonos da vida pastoral, da participação da igreja em geral, não tenha na falta da missão uma das suas causas principais. É certo que o habito individualista de entender e vivenciar a fé, leva considerar a missão como algo opcional, com respeito à salvação própria e de outros. De fato, a própria salvação está necessariamente ligada à transmissão do dom “o evangelho que vos preguei e que recebestes, e no qual estais firmes” e gera, por sua vez, salvação dos que o acolhem. É urgente abandonar a maneira individualista de entender a fé e a salvação. Ela constitui um ponto imprescindível no processo de conversão.

Ligado à transmissão e à missão está o correto entendimento da graça. “Por ele ( o evangelho) sois salvos, se o estais guardando tal qual ele vos foi pregado por mim. De outro modo, teríeis abraçado a fé em vão . São Paulo explicita o conteúdo específico dessa graça, que deve ser guardado e transmitido tal como ele o pregou. Trata-se, então, de algo de grande importância e especificamente “ que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras; e que apareceu...” Deve ser guardado a compreensão correta do que aconteceu em Jesus naquele evento, o que significou para ele, assim o como o por que, e de que maneira a pessoa e a humanidade está envolvida em tudo isso. Trata-se do alicerce, do fundamento,da fé. Toda missão nasce, se fundamenta e tem como seu fim último, na compreensão e no envolvimento de coração nesse evento de Jesus. Daí minha insistência em voltar em diferentes oportunidades e formas sobre o tema da morte e ressurreição. O Batismo, a chamada, a vocação cristã é participação e envolvimento nisso.

Evangelho Lc 5,1-11

Começando sua atividade pastoral, após o surpreendente inicio na sinagoga de Nazaré, (analisado nos domingos anteriores) Jesus teve uma grande adesão de público “a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus” O sucesso da pregação dele pode ter sido incentivo para procurar colaboradores, discípulos, multiplicadores do anuncio da proximidade do Reino. De fato, mais na frente, Jesus os enviará, de dois em dois, à missão com esta específica finalidade.

O texto não indica o critério da escolha. Só relata como foi. Jesus entrou na barca de Simão “pediu que se afastasse um pouco da margem” E foi atendido por Simão, pois, permitiu que acontecesse. Seja qual for o motivo de Simão, de fato realizou-se a aproximação. A continuação “(Jesus) Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões” Pedro ouviu a pregação. O que ele entendeu foi suficiente para um voto de confiança à palavra de Jesus, no meio da perplexidade por uma noite inteira de trabalho sem fruto algum “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”.

A eficácia surpreendente deixou a todos, Pedro, Tiago e João assustados. Pois, o evento estava revelando algo do mistério de Deus presente em Jesus. E como Isaias, na primeira leitura, a reação foi o espanto e o sentimento de indignidade: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” cuja profundidade e sinceridade manifestou-se por se tirar aos pés de Jesus “Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus” A resposta de Jesus “Não tenhas medo!” , deve ter soado como o elemento purificador do próprio pecado. Ela é sinal da compreensão, por parte de Jesus, da fragilidade e da vulnerabilidade humana.

Mas, também, manifesta Jesus que não julga nem se queixar da dúvida, da perplexidade, e simplesmente manifesta que a causa está no medo. A exortação confere animo e coragem a Pedro ( e aos demais discípulos) para não ficar preso do medo, mas ultrapassá-lo em virtude da confiança que Jesus acabou de ganhar. Assim, a confiança fala mais alto do que o medo, e Pedro não ficará escravo dele.

Todos estão sujeitos a diferentes medos. Eles acompanham o dia-a-dia. O importante é ultrapassá-lo pela confiança na pessoa e na palavra de Jesus. Confiança que, de imediato, é sujeita ao novo teste, quando Jesus acrescenta “De hoje em diante tu serás pescador de homens” O que Pedro entendeu com estas palavras, o texto não diz. Com certeza, não aquilo que entendemos nós hoje as lendo. Assim, Pedro, que acaba de sair de um susto-surpresa, é investido de uma proposta- missão mais forte e comprometedora. Tal vez, Pedro terá se perguntado: o que é isso de “pescador de homens”?! À primeira incompreensão segue - de imediato- outra não menos desafiadora e incompreensível. Contudo, com base na experiência da primeira, aceita a segunda “Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”. Com certeza, seguir Jesus não é mole... é um caminhar com ele na constante surpresa e renovação da confiança.

Comentário do 4º Domingo do Tempo Comum – Ano C (31-01-2010)

1ª leitura Jr 1,4-5.17-19.

É um texto autobiográfico do profeta Jeremias, que relata o momento do chamado de Deus para o serviço profético “eu te conheci... te consagrei e te fiz profeta das nações”. A certeza da eleição e da familiaridade com Deus ficou muito gravada na alma de Jeremias e será o ponto firme e estável no desenvolvimento da missão, sobretudo nos momentos difíceis.

Com efeito, Deus lhe preanuncia a missão de “comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo, senão, eu te farei tremer na presença deles” Será uma missão árdua, difícil, “eles te farão guerra contra ti, mas não prevalecerão ” Com certeza, o convite não é animador do ponto de vista da sensibilidade e do desejo humano. Já prevê dificuldades que deverão ser enfrentadas com determinação por parte do profeta. Daí a ordem “Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te” de assumir com determinação e coragem o que Deus lhe vai confiar. Ele pode confiar só em Deus e especificamente no fato de ter sido escolhido por ele, e de ter ele como próprio defensor “eu te transformarei hoje muna cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze, contra todo o mundo... eles não prevalecerão porque eu estou contigo para defender-te”.

Nesse contexto, só um chamado de Deus pode sustentar uma missão de tão grande porte. O profeta incomodará muito, porque irá propor coisas que ultrapassam o costumeiro, o que sempre foi dito e se consolidou por uma prática assumida e aprovada pela tradição. Tal vez , mexerá com interesses, vantagens de tipo financeiro e de poder, que tornará ainda mais difícil a aceitação.

Pelo fato de mexer com o costumeiro, será tido como um fanático, um exaltado, tudo para desacreditá-lo e justificar o próprio afastamento e até a rejeição violenta, como deixa entender o texto.

O que motiva Deus a este tipo de intervenção é o cumprimento da Aliança. Com efeito, ela é o pacto de amor entre Deus e o seu povo, é o compromisso a favor da humanidade que pratica a justiça e o direito, como vivencia do amor que faz da existência de cada pessoa e da humanidade uma realidade digna e satisfatória. Se Deus intervém de maneira tão forte e determinada é porque o pacto está muito longe de ser realizado, mais ainda, foi desvirtuado. Então, Deus quer reconduzir o povo nos trilhos da Aliança, para o bem do mesmo povo. A motivação do agir é sempre o amor.

O que é o amor de Deus é analisado no famoso hino à Caridade da 2da leitura.

2ª leitura 1Cor 12,31-13,13

“Aspirai aos dons mais elevados” Paulo, com estas palavras, pretende chamar a atenção por algo que, por si mesmo, está marcado na estrutura de cada pessoa. Pretende acordar, também, o interesse pelo que irá apresentar, pois “Eu vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior”

Com isso, elabora em forma de hino, o grande tema da Caridade. O texto, muito profundo, se presta a múltiplas considerações de grande importância. Muito foi escrito, e muito se escreverá...

A partir do conteúdo da 1ª leitura, parece-me oportuno frisar os versículos 4 - 6. Em primeiro lugar apresenta o que a caridade não é: “não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor, não se alegra com a iniqüidade” Notável, para o nosso tema de hoje é “não guarda rancor”, não tomar em conta o mal recebido. No desenvolvimento da missão, o profeta terá mil motivos para ter rancor, pela dureza de coração e pela oposição, até violenta, dos destinatários.

É a experiência comum de todo ser humano - em grau, evidentemente, muito menor- quando deve manifestar, deve falar, coisas que o destinatário não gosta de ouvir. Como ficar livre das respostas ou atitudes rancorosas? Como não ficar sujeito a alguma forma de ressentimento, de mágoa, de desejar pelo outro alguma forma de castigo etc.?

Tal vez, a resposta é indicada no vers.6. Em sentido positivo diz o que a caridade é: “se regozija com a verdade”. O que é, então, a verdade? É o contrário da mentira, do engano, que sempre deixam a pessoa frustrada, defraudada, em condição subumana, que não condiz com sua essência e vocação de comunhão, de harmonia consigo mesma, com os outros, com a coletividade e com o ambiente. Assim, se regozijar com a verdade é ter, por um lado, a certeza do que a pessoa precisa para se sentir realizada na sua essência e vocação, no respeito da subjetividade intelectual, cultural e social e pelo outro, a humildade da duvida, da proposta não ser o que ele precisa naquele momento, da incompreensibilidade da mesma, da compreensão das resistências e das reações contrárias, ofensivas e até violentas.

Esta paixão pela verdade não surge espontaneamente, mas é fruto de um processo educativo implantado na comunidade humana. É por meio das palavras, das atitudes e das vivencias na família, na comunidade cristã, na sociedade, que são assimilados, como por osmose, critérios e valores que apaixonam o ser humano, porque verdadeiros e conforme ao processo de sua realização. Embora o contrário seja expressamente praticado e defendido, a verdade- que é a caridade- fala mais alto, no sentido que se impõe como fonte de regozijo e não guarda rancor. Daí que “A caridade é paciente, é benigna”, sabe sofrer e não desiste do bem.

É o que Jesus deve ter experimentado no evangelho que vamos comentar.

Evangelho Lc 4,21-30

O texto é a segunda parte, a continuação, do domingo passado. O v.21 já foi comentado no domingo anterior.

Após o primeiro momento de estupor “Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saiam de sua boca”, surge a perplexidade suscitada pela origem e pela falta de um sinal, que comprovasse a autenticidade da condição de profeta “Não é este o filho de José?... Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos que fizestes em Cafarnaum”. Jesus percebe e compreende a dificuldade, e responde com a frase conhecida : “santo de casa não faz milagres”.

Contudo, oferece uma resposta desconcertante tirada da experiência do povo de Israel. Aponta a dois fatos muito conhecidos. Que tiveram como atores principais dois pagãos : a viúva de Sarepta e Naamã,o sírio ( geral do exercito inimigo). Eles tiveram fe na palavra do profeta e foram beneficiados, experimentaram a salvação .

Jesus, não responde às perplexidades deles com respeito à sua origem nem faz milagres como em Cafarnaum. Simplesmente exige fe, voto de confiança nas palavras, nas atitudes e no estilo de vida dele. Mais ainda. Lembra a eles como a fe destes dois pagãos foi certa e motivo de salvação... Os ouvintes entenderam perfeitamente a comparação e o sentido da colocação. É como se tivesse dito: Cuidado! Se vocês não tivessem fe como a destes pagãos, serão excluídos do reino que vou implantar. Então, a salvação será para outros e não para vocês, apesar de vocês serem membros do povo eleito.

Comparar a fe deles com aquela dos pagãos; eles serem excluídos da salvação a não pagãos era o máximo da provocação e da blasfêmia. Daí, a reação da sinagoga “Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade... com intenção de lançá-lo no precipício”

“Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” Surpreende a mudança de atitude do povo. O texto não diz o porque. Tal vez, porque não era ainda a hora, reservada para os eventos da Pascais; tal vez, foi o que indicava a 1ª leitura “Farão guerra contra ti, mas não prevalecerão. Porque eu estou contigo para defender-te, diz o Senhor”

Importantes as palavras finais: “continuou o seu caminho” Apesar do evidente fracasso, de uma experiência tão dramática, ao limite do trágico, Jesus continua seu caminho, sua missão, movido pela caridade que “não guarda rancor” e “se regozija com a verdade”, como comentávamos na 2da leitura.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Comentário do 3º Domingo do Tempo Comum – Ano C (24-01-2010)

1ª leitura Ne 8,2-4.5-6.8-10

Retornado ao próprio país, após a libertação do exílio de Babilônia, Esdras promulga a lei, que deverá marcar a caminhada do povo, com uma solene celebração. Assim, o povo inicia uma nova vida, á luz da lei de Deus.

“Era o primeiro dia do sétimo mês... Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até ao meio dia” O povo é convocado num momento específico e por um tempo prolongado. São duas indicações importantes para quem se propõe o correto entendimento e relacionamento com a filosofia do dia-a-dia baseado na vontade de Deus, cujo registro importante é a Palavra. É esta palavra que precisa ser ouvida com o coração aberto. A convocação é momento de formação e ninguém deve menosprezá-la ou ficar para trás. De fato, são convocados “todos os que eram capazes de compreender”. Sacerdotes, escribas e os levitas instruíam o povo “explicaram seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura”. Temos todos os elementos da correta liturgia da Palavra nos nossos dias.

“E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei” As atitudes do povo manifestam aprecio, pois “quando Esdras abriu o livro da lei o povo ficou de pé”. Ficar de pé é sinal de respeito e prontidão ao cumprimento. A consciência do valor e da importância da lei os levou à atenta escuta e à aceitação do que foi proclamado “e todo o povo respondeu, levantando as mãos: Amém! Amém! Depois se inclinaram e prostraram-se diante do Senhor”.Isso supõe uma identificação real e não só exterior, de boca para fora, ou simplesmente por conveniência ,ou por medo do castigo. Supõe ter alcançado uma identificação de coração sincero, que por um lado abre horizontes inéditos atrativos, significativos e de grande porte e, pelo outro, oferece a percepção da mediocridade do que foi a vida totalmente desligada e afastada da lei. Assim, escuta é experiência de forte emoção e motiva o choro “Não fiqueis tristes nem choreis, pois o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei” Tal vez seja uma mistura de alegria e arrependimento, pois, os dois podem estar juntos, como nessa circunstância, comparável à experiência de morte e ressurreição. Vale frisar, que este tipo de experiência acompanha o dia- a- dia da vivencia, nas suas diferentes circunstâncias e oportunidades. É a experiência da morte e ressurreição do quotidiano.

Contudo, o ponto final é a festa, a alegria compartilhada e participada aos que não tiveram oportunidade de estarem presentes. Assim, o elemento prevalente é a festa, que não pode ficar circunscrita aos presentes, mas deve envolver os que não estavam. Portanto, a transmissão e a participação fazem parte da festa em sua plenitude.

Manter o coração aberto á Palavra e a conseguinte identificação, fazem parte do processo no qual é preciso reelaborar critérios e atitudes que conformam uma nova visão de si mesmo, do relacionamento com os outros- especialmente com o diferente-, com o mundo e com a finalidade e sentido da vida. É o que comentaremos a continuação.

2ª leitura 1Cor 12,12-30

Esta nova visão tem como ponto central a pessoa de Cristo e a ação do Espírito Santo “... formamos um só corpo, assim acontece com Cristo. De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” Em virtude da ação específica da Palavra- a conjunção de Cristo e do Espírito-, surge a consciência de pertencer a uma realidade maior, indicada com o termo de corpo, integrado por muitos membros diferentes entre si, que desenvolvem diferentes funções.

Hoje esta consciência é muito fraca, devida à cultura individualista, às filosofias e práticas de vida que exaltam ,como pessoa bem sucedida, não a comunhão e a integração, mas o contrario, a competição, o ser mais do outro em sentido não de ajudar ou servir melhor, mas de se impor como superior, de se manter distante, objeto de admiração ou de inveja... É o contrário da comunhão e da integração. Esta cultura pode levar a um grau de auto-suficiência tão alto de pensar “Não preciso de ti... não preciso de vós” e ativar o necessário relacionamento nos termos da utilidade, da conveniência, da necessidade, reduzindo o valor da pessoa à coisa.

Assim, perde-se de vista uma indicação de grande importância “De fato, Deus dispôs os membros e cada um deles no corpo, como quis”. Não é casualidade, ou azar, que sustenta as diferenças, mas a vontade explicita do Criador, que corresponde à vontade de levar o corpo- a humanidade toda- àquela plenitude de experiência do amor que participa da realidade mesma de Deus.

Portanto, o sentimento de pertencer a uma humanidade integrada por pouco menos de sete bilhões de pessoas que constituem o corpo do Senhor, não é um fator opcional que pode ser deixado de lado sem sério prejuízo nem um elemento de secundária importância aos fins de uma existência individual bem sucedida.

Ao sentimento de pertencer se acompanha, necessariamente, o de responsabilidade. Trata- se de responder coerentemente e de maneira certa, pelo que está nas próprias condições pessoais e sociais, às interpelações, eventos, necessidades etc. do presente visando à comunhão no respeito das diferenças. Daí, então, a solidariedade “para que não haja divisão no corpo e, assim, os membros zelem igualmente uns pelos outros. Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se ele é honrado, todos os membros se regozijam com ele”

Nesse sentido estamos chamados a reelaborar constantemente o nosso mundo interior; a visualizar a complexidade e multiplicidade das propostas de vida que fascinam o dia-a-dia; a escolher os critérios de discernimento visando o mundo com os olhos de Deus, cientes das limitadas condições de fazer e de abranger. Contudo, há desafios que podemos assumir com responsabilidade e amor desinteressado.

Evangelho Lc 1.1-4. 14-21

Lucas escreve a Teófilo motivando o porquê da decisão de escrever o evangelho “Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste” Teófilo poderá conferir a validez e bondade do que aprendeu com respeito a vivencia do evangelho que a comunidade cristã transmitiu a ele no dia -a- dia. A Palavra vem a confirmar a vivencia... Então, uma Palavra desligada da vivencia é ineficaz para si mesma e para o crescimento da comunidade. Isso faz pensar e é motivo de séria avaliação sobre a consistência evangélica da vida pessoal e da sua solidez, que juntamente a de outras conformam o testemunho da comunidade. De vez em quando é necessário parar para avaliar com sincera humildade e coragem.

Jesus foi a Nazaré “com a potencia do Espírito Santo”. Potencia que o levou ao batismo do Jordão, quando determinou ser solidário com os pecadores e lhe foi revelado a finalidade da missão em sintonia com os quatro Cânticos do Servo de Yave do profeta Isaias. Potencia, que experimentou nas tentações no deserto ,quando teve lucidez e certeza dos critérios para o correto desenvolvimento da missão . A partir dessa experiência ele se sentiu identificado com as palavras do profeta Isaias “O Espírito do senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção”

A consagração veio porque ele se dispôs para a missão no batismo do Jordão, e lutou no deserto para entender e assumir o significado e o alcance dela ( O texto das tentações oferece a chave de leitura do evangelho todo). Com outras palavras, a consagração não foi um gesto devido porque filho de Deus (são Paulo disse que Jesus colocou como entre parêntesis sua condição divina) nem porque já predestinado para isso, mas foi o resultado do dom de Deus - a missão-, e do envolvimento de toda a inteligência, vontade , memória dele, no horizonte do amor .

Eis, então, delineado o conteúdo da missão “ para anunciar a Boa-nova aos pobres... proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”. O texto frisa que “Todos... tinham os olhos fixos nele” E não era para menos, sendo que ele teve a ousadia de não completar a citação do profeta “e o dia da vingança do nosso Deus”. Como pude fazer isso? sendo parte integrante da expectativa messiânica ( Com efeito, era o que João Batista pregava!).

Já isso é indicativo de que missão consistirá em reintegrar os que, na mentalidade comum e na teologia dos escribas, estavam excluídos; em oferecer uma chance de redenção aos pecadores; em motivar a esperança aos desanimados... Enfim, para que todos tenham vida em abundancia, para tomar uma frase do mesmo Jesus.

Mas o golpe mais forte, o escândalo verdadeiro é constituído das últimas palavras do texto “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” Sobretudo o “Hoje” irritou. Tivesse falado: “no final dos tempos”, ainda era aceitável. Mas, “hoje” era demais... Uma blasfêmia , uma loucura, uma pretensão digna da reação que a continuação a assembléia manifestará. Como pretende expulsar os Romanos, hoje? Como pretende separar joio do trigo, hoje? Como vai instaurar o novo Reino, resgatando o esplendor do tempo de Davi e de Salomão, hoje? etc. Toda uma serie de perguntas difíceis de responder dentro das expectativas messiânicas que constituíam o tecido da Fe de Israel.

Iniciar a missão desta forma tão desconcertante, abre uma serie de considerações de oportunidade ou menos intermináveis...