quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Comentário do 4º Domingo do Tempo Comum – Ano C (31-01-2010)

leitura Jr 1,4-5.17-19.

É um texto autobiográfico do profeta Jeremias, que relata o momento do chamado de Deus para o serviço profético “eu te conheci... te consagrei e te fiz profeta das nações”. A certeza da eleição e da familiaridade com Deus ficou muito gravada na alma de Jeremias e será o ponto firme e estável no desenvolvimento da missão, sobretudo nos momentos difíceis.

Com efeito, Deus lhe preanuncia a missão de “comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo, senão, eu te farei tremer na presença deles” Será uma missão árdua, difícil, “eles te farão guerra contra ti, mas não prevalecerão ” Com certeza, o convite não é animador do ponto de vista da sensibilidade e do desejo humano. Já prevê dificuldades que deverão ser enfrentadas com determinação por parte do profeta. Daí a ordem “Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te” de assumir com determinação e coragem o que Deus lhe vai confiar. Ele pode confiar só em Deus e especificamente no fato de ter sido escolhido por ele, e de ter ele como próprio defensor “eu te transformarei hoje muna cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze, contra todo o mundo... eles não prevalecerão porque eu estou contigo para defender-te”.

Nesse contexto, só um chamado de Deus pode sustentar uma missão de tão grande porte. O profeta incomodará muito, porque irá propor coisas que ultrapassam o costumeiro, o que sempre foi dito e se consolidou por uma prática assumida e aprovada pela tradição. Tal vez , mexerá com interesses, vantagens de tipo financeiro e de poder, que tornará ainda mais difícil a aceitação.

Pelo fato de mexer com o costumeiro, será tido como um fanático, um exaltado, tudo para desacreditá-lo e justificar o próprio afastamento e até a rejeição violenta, como deixa entender o texto.

O que motiva Deus a este tipo de intervenção é o cumprimento da Aliança. Com efeito, ela é o pacto de amor entre Deus e o seu povo, é o compromisso a favor da humanidade que pratica a justiça e o direito, como vivencia do amor que faz da existência de cada pessoa e da humanidade uma realidade digna e satisfatória. Se Deus intervém de maneira tão forte e determinada é porque o pacto está muito longe de ser realizado, mais ainda, foi desvirtuado. Então, Deus quer reconduzir o povo nos trilhos da Aliança, para o bem do mesmo povo. A motivação do agir é sempre o amor.

O que é o amor de Deus é analisado no famoso hino à Caridade da 2da leitura.

2ª leitura 1Cor 12,31-13,13

Aspirai aos dons mais elevados” Paulo, com estas palavras, pretende chamar a atenção por algo que, por si mesmo, está marcado na estrutura de cada pessoa. Pretende acordar, também, o interesse pelo que irá apresentar, pois “Eu vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior”

Com isso, elabora em forma de hino, o grande tema da Caridade. O texto, muito profundo, se presta a múltiplas considerações de grande importância. Muito foi escrito, e muito se escreverá...

A partir do conteúdo da 1ª leitura, parece-me oportuno frisar os versículos 4 - 6. Em primeiro lugar apresenta o que a caridade não é: não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor, não se alegra com a iniqüidade” Notável, para o nosso tema de hoje é “não guarda rancor”, não tomar em conta o mal recebido. No desenvolvimento da missão, o profeta terá mil motivos para ter rancor, pela dureza de coração e pela oposição, até violenta, dos destinatários.

É a experiência comum de todo ser humano - em grau, evidentemente, muito menor- quando deve manifestar, deve falar, coisas que o destinatário não gosta de ouvir. Como ficar livre das respostas ou atitudes rancorosas? Como não ficar sujeito a alguma forma de ressentimento, de mágoa, de desejar pelo outro alguma forma de castigo etc.?

Tal vez, a resposta é indicada no vers.6. Em sentido positivo diz o que a caridade é: “se regozija com a verdade”. O que é, então, a verdade? É o contrário da mentira, do engano, que sempre deixam a pessoa frustrada, defraudada, em condição subumana, que não condiz com sua essência e vocação de comunhão, de harmonia consigo mesma, com os outros, com a coletividade e com o ambiente. Assim, se regozijar com a verdade é ter, por um lado, a certeza do que a pessoa precisa para se sentir realizada na sua essência e vocação, no respeito da subjetividade intelectual, cultural e social e pelo outro, a humildade da duvida, da proposta não ser o que ele precisa naquele momento, da incompreensibilidade da mesma, da compreensão das resistências e das reações contrárias, ofensivas e até violentas.

Esta paixão pela verdade não surge espontaneamente, mas é fruto de um processo educativo implantado na comunidade humana. É por meio das palavras, das atitudes e das vivencias na família, na comunidade cristã, na sociedade, que são assimilados, como por osmose, critérios e valores que apaixonam o ser humano, porque verdadeiros e conforme ao processo de sua realização. Embora o contrário seja expressamente praticado e defendido, a verdade- que é a caridade- fala mais alto, no sentido que se impõe como fonte de regozijo e não guarda rancor. Daí que “A caridade é paciente, é benigna”, sabe sofrer e não desiste do bem.

É o que Jesus deve ter experimentado no evangelho que vamos comentar.

Evangelho Lc 4,21-30

O texto é a segunda parte, a continuação, do domingo passado. O v.21 já foi comentado no domingo anterior.

Após o primeiro momento de estupor “Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saiam de sua boca”, surge a perplexidade suscitada pela origem e pela falta de um sinal, que comprovasse a autenticidade da condição de profeta “Não é este o filho de José?... Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos que fizestes em Cafarnaum”. Jesus percebe e compreende a dificuldade, e responde com a frase conhecida : “santo de casa não faz milagres”.

Contudo, oferece uma resposta desconcertante tirada da experiência do povo de Israel. Aponta a dois fatos muito conhecidos. Que tiveram como atores principais dois pagãos : a viúva de Sarepta e Naamã,o sírio ( geral do exercito inimigo). Eles tiveram fe na palavra do profeta e foram beneficiados, experimentaram a salvação .

Jesus, não responde às perplexidades deles com respeito à sua origem nem faz milagres como em Cafarnaum. Simplesmente exige fe, voto de confiança nas palavras, nas atitudes e no estilo de vida dele. Mais ainda. Lembra a eles como a fe destes dois pagãos foi certa e motivo de salvação... Os ouvintes entenderam perfeitamente a comparação e o sentido da colocação. É como se tivesse dito: Cuidado! Se vocês não tivessem fe como a destes pagãos, serão excluídos do reino que vou implantar. Então, a salvação será para outros e não para vocês, apesar de vocês serem membros do povo eleito.

Comparar a fe deles com aquela dos pagãos; eles serem excluídos da salvação a não pagãos era o máximo da provocação e da blasfêmia. Daí, a reação da sinagoga “Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade... com intenção de lançá-lo no precipício”

“Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” Surpreende a mudança de atitude do povo. O texto não diz o porque. Tal vez, porque não era ainda a hora, reservada para os eventos da Pascais; tal vez, foi o que indicava a 1ª leitura “Farão guerra contra ti, mas não prevalecerão. Porque eu estou contigo para defender-te, diz o Senhor

Importantes as palavras finais: “continuou o seu caminho” Apesar do evidente fracasso, de uma experiência tão dramática, ao limite do trágico, Jesus continua seu caminho, sua missão, movido pela caridade que “não guarda rancor” e “se regozija com a verdade”, como comentávamos na 2da leitura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário