1ª leitura Ne 8,2-4.5-6.8-10
Retornado ao próprio país, após a libertação do exílio de Babilônia, Esdras promulga a lei, que deverá marcar a caminhada do povo, com uma solene celebração. Assim, o povo inicia uma nova vida, á luz da lei de Deus.
“Era o primeiro dia do sétimo mês... Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até ao meio dia” O povo é convocado num momento específico e por um tempo prolongado. São duas indicações importantes para quem se propõe o correto entendimento e relacionamento com a filosofia do dia-a-dia baseado na vontade de Deus, cujo registro importante é a Palavra. É esta palavra que precisa ser ouvida com o coração aberto. A convocação é momento de formação e ninguém deve menosprezá-la ou ficar para trás. De fato, são convocados “todos os que eram capazes de compreender”. Sacerdotes, escribas e os levitas instruíam o povo “explicaram seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura”. Temos todos os elementos da correta liturgia da Palavra nos nossos dias.
“E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei” As atitudes do povo manifestam aprecio, pois “quando Esdras abriu o livro da lei o povo ficou de pé”. Ficar de pé é sinal de respeito e prontidão ao cumprimento. A consciência do valor e da importância da lei os levou à atenta escuta e à aceitação do que foi proclamado “e todo o povo respondeu, levantando as mãos: Amém! Amém! Depois se inclinaram e prostraram-se diante do Senhor”.Isso supõe uma identificação real e não só exterior, de boca para fora, ou simplesmente por conveniência ,ou por medo do castigo. Supõe ter alcançado uma identificação de coração sincero, que por um lado abre horizontes inéditos atrativos, significativos e de grande porte e, pelo outro, oferece a percepção da mediocridade do que foi a vida totalmente desligada e afastada da lei. Assim, escuta é experiência de forte emoção e motiva o choro “Não fiqueis tristes nem choreis, pois o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei” Tal vez seja uma mistura de alegria e arrependimento, pois, os dois podem estar juntos, como nessa circunstância, comparável à experiência de morte e ressurreição. Vale frisar, que este tipo de experiência acompanha o dia- a- dia da vivencia, nas suas diferentes circunstâncias e oportunidades. É a experiência da morte e ressurreição do quotidiano.
Contudo, o ponto final é a festa, a alegria compartilhada e participada aos que não tiveram oportunidade de estarem presentes. Assim, o elemento prevalente é a festa, que não pode ficar circunscrita aos presentes, mas deve envolver os que não estavam. Portanto, a transmissão e a participação fazem parte da festa em sua plenitude.
Manter o coração aberto á Palavra e a conseguinte identificação, fazem parte do processo no qual é preciso reelaborar critérios e atitudes que conformam uma nova visão de si mesmo, do relacionamento com os outros- especialmente com o diferente-, com o mundo e com a finalidade e sentido da vida. É o que comentaremos a continuação.
2ª leitura 1Cor 12,12-30
Esta nova visão tem como ponto central a pessoa de Cristo e a ação do Espírito Santo “... formamos um só corpo, assim acontece com Cristo. De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” Em virtude da ação específica da Palavra- a conjunção de Cristo e do Espírito-, surge a consciência de pertencer a uma realidade maior, indicada com o termo de corpo, integrado por muitos membros diferentes entre si, que desenvolvem diferentes funções.
Hoje esta consciência é muito fraca, devida à cultura individualista, às filosofias e práticas de vida que exaltam ,como pessoa bem sucedida, não a comunhão e a integração, mas o contrario, a competição, o ser mais do outro em sentido não de ajudar ou servir melhor, mas de se impor como superior, de se manter distante, objeto de admiração ou de inveja... É o contrário da comunhão e da integração. Esta cultura pode levar a um grau de auto-suficiência tão alto de pensar “Não preciso de ti... não preciso de vós” e ativar o necessário relacionamento nos termos da utilidade, da conveniência, da necessidade, reduzindo o valor da pessoa à coisa.
Assim, perde-se de vista uma indicação de grande importância “De fato, Deus dispôs os membros e cada um deles no corpo, como quis”. Não é casualidade, ou azar, que sustenta as diferenças, mas a vontade explicita do Criador, que corresponde à vontade de levar o corpo- a humanidade toda- àquela plenitude de experiência do amor que participa da realidade mesma de Deus.
Portanto, o sentimento de pertencer a uma humanidade integrada por pouco menos de sete bilhões de pessoas que constituem o corpo do Senhor, não é um fator opcional que pode ser deixado de lado sem sério prejuízo nem um elemento de secundária importância aos fins de uma existência individual bem sucedida.
Ao sentimento de pertencer se acompanha, necessariamente, o de responsabilidade. Trata- se de responder coerentemente e de maneira certa, pelo que está nas próprias condições pessoais e sociais, às interpelações, eventos, necessidades etc. do presente visando à comunhão no respeito das diferenças. Daí, então, a solidariedade “para que não haja divisão no corpo e, assim, os membros zelem igualmente uns pelos outros. Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se ele é honrado, todos os membros se regozijam com ele”
Nesse sentido estamos chamados a reelaborar constantemente o nosso mundo interior; a visualizar a complexidade e multiplicidade das propostas de vida que fascinam o dia-a-dia; a escolher os critérios de discernimento visando o mundo com os olhos de Deus, cientes das limitadas condições de fazer e de abranger. Contudo, há desafios que podemos assumir com responsabilidade e amor desinteressado.
Evangelho Lc 1.1-4. 14-21
Lucas escreve a Teófilo motivando o porquê da decisão de escrever o evangelho “Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste” Teófilo poderá conferir a validez e bondade do que aprendeu com respeito a vivencia do evangelho que a comunidade cristã transmitiu a ele no dia -a- dia. A Palavra vem a confirmar a vivencia... Então, uma Palavra desligada da vivencia é ineficaz para si mesma e para o crescimento da comunidade. Isso faz pensar e é motivo de séria avaliação sobre a consistência evangélica da vida pessoal e da sua solidez, que juntamente a de outras conformam o testemunho da comunidade. De vez em quando é necessário parar para avaliar com sincera humildade e coragem.
Jesus foi a Nazaré “com a potencia do Espírito Santo”. Potencia que o levou ao batismo do Jordão, quando determinou ser solidário com os pecadores e lhe foi revelado a finalidade da missão em sintonia com os quatro Cânticos do Servo de Yave do profeta Isaias. Potencia, que experimentou nas tentações no deserto ,quando teve lucidez e certeza dos critérios para o correto desenvolvimento da missão . A partir dessa experiência ele se sentiu identificado com as palavras do profeta Isaias “O Espírito do senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção”
A consagração veio porque ele se dispôs para a missão no batismo do Jordão, e lutou no deserto para entender e assumir o significado e o alcance dela ( O texto das tentações oferece a chave de leitura do evangelho todo). Com outras palavras, a consagração não foi um gesto devido porque filho de Deus (são Paulo disse que Jesus colocou como entre parêntesis sua condição divina) nem porque já predestinado para isso, mas foi o resultado do dom de Deus - a missão-, e do envolvimento de toda a inteligência, vontade , memória dele, no horizonte do amor .
Eis, então, delineado o conteúdo da missão “ para anunciar a Boa-nova aos pobres... proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”. O texto frisa que “Todos... tinham os olhos fixos nele” E não era para menos, sendo que ele teve a ousadia de não completar a citação do profeta “e o dia da vingança do nosso Deus”. Como pude fazer isso? sendo parte integrante da expectativa messiânica ( Com efeito, era o que João Batista pregava!).
Já isso é indicativo de que missão consistirá em reintegrar os que, na mentalidade comum e na teologia dos escribas, estavam excluídos; em oferecer uma chance de redenção aos pecadores; em motivar a esperança aos desanimados... Enfim, para que todos tenham vida em abundancia, para tomar uma frase do mesmo Jesus.
Mas o golpe mais forte, o escândalo verdadeiro é constituído das últimas palavras do texto “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” Sobretudo o “Hoje” irritou. Tivesse falado: “no final dos tempos”, ainda era aceitável. Mas, “hoje” era demais... Uma blasfêmia , uma loucura, uma pretensão digna da reação que a continuação a assembléia manifestará. Como pretende expulsar os Romanos, hoje? Como pretende separar joio do trigo, hoje? Como vai instaurar o novo Reino, resgatando o esplendor do tempo de Davi e de Salomão, hoje? etc. Toda uma serie de perguntas difíceis de responder dentro das expectativas messiânicas que constituíam o tecido da Fe de Israel.
Iniciar a missão desta forma tão desconcertante, abre uma serie de considerações de oportunidade ou menos intermináveis...
Nenhum comentário:
Postar um comentário