quinta-feira, 25 de março de 2010

Ponto fixo

Para uma pessoa muito especial para mim...

Muitas vezes olhamos para nossas vidas e concluímos que as coisas não aconteceram como nós esperávamos. Aquilo que tínhamos em mente, que sonhamos profundamente não aconteceu. Os milagres e as graças não surgiram. Será que realmente nada aconteceu? Ou será que nós, por olharmos fixamente para o nosso querer não deixamos de enxergar todo o universo que existe ao nosso redor? Quando olhamos fixamente num ponto o nosso campo visual fica restrito àquele ponto, e o "em volta" fica como que invisível.
O nosso coração também é assim. Se fixamos os nossos sentimentos em uma vontade específica, ele deixa de captar todos os sentimentos que estão ao nosso redor, e deixa de ver todas as pessoas que estão nos amando naquele momento. Ficamos cegos da visão e dos sentimentos. Abrir os olhos do coração ao que está a nossa volta é um exercício difícil, pois exige que observemos a vida que corre fora de nós e deixemos o nosso querer, não como centro, mas como parte de toda uma realidade. Pensamos que nada aconteceu, mas tudo está acontecendo, nós é que não conseguimos ver, com os olhos e com o coração.
Acho que encontrar Deus também é assim. Quanto mais dirigimos o olhar e o coração para onde achamos que vamos encontrá-lo, mais Ele fica "distante" de nós. Porque Deus não está num ponto, num querer... Deus está em volta, acima, abaixo, dentro e fora de cada um de nós, cercando toda a nossa vida de amor e cuidados, colocando pessoas e acontecimentos em nossa existência. Sempre está presente, atuante, amando-nos com um amor que não podemos compreender. Não deixa nenhum filho no desamparo, na solidão, no sofrimento. Porém Ele está invisível aos que não tem olhos e corações abertos. Ninguém nem nada pode fixar Deus num ponto determinado, deixá-lo estático, como que apenas esperando que eu (ou você) lhe proponha meus (seus) desejos. Nem a morte colocou Deus no aparente eterno vazio. Ele não pode ser preso a nenhum sepulcro, como também não pode ser encerrado pelas paredes de nenhum templo. Ele é o templo! Ele é o sepulcro da morte! Ele é ressurreição, vida nova, horizonte sem fim, tempo sem fim! Por isso Ele é Deus.
Quando vamos a Igreja, não vamos para ver Deus com os olhos, mas para vermos com o coração, com os olhos do nosso espírito, conhecê-lo cada vez mais e cada vez mais amá-lo e deixar que Ele nos ame. Vamos para comungar com Ele, para entregarmos o nosso ser, a nossa vida a Ele, e deixar que Ele ocupe cada pedaço de nós e sermos enfim, um com Ele.
Se a gente acha que nada acontece daquilo que sonhamos e queremos é porque não conseguimos enxergar a presença e o agir de Deus em nossas vidas; é porque colocamos o nosso imediatismo e a nossa impaciência como propulsores do nosso destino; é porque não esperamos as próximas curvas de nossa estrada, onde com certeza está o lugar onde corre leite e mel para cada um de nós. É porque temos os olhos fixos naquele ponto da nossa vontade (e talvez do nosso egoísmo) em que Deus não pode estar.
Roberto Maia.
blogdabandaterrasanta.blogspot.com

segunda-feira, 22 de março de 2010

DOMINGO DA PÁSCOA-C- (04-04-10)

DOMINGO DA PÁSCOA (4-04-10)

1a leitura At 10, 34 a. 37-43


O dia de Pentecostes, com a vinda do Espírito Santo, Pedro e os outros apóstolos tomam consciência do significado, do alcance e da importância do evento da ressurreição de Jesus. A continuação, Pedro se dirige, também em nome dos outros apóstolos, ao povo com as palavras: “E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém”. Ele faz um resumo da vida e da missão de Jesus que os ouvintes podem com facilidade reter como certo e objetivo na sua parte histórica “ Vós sabeis (...) como Jesus de Nazaré (...) andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio (...)Eles- as autoridades do povo- o mataram, pregando-o numa cruz”.Estes fatos de crônica são colocados pelo impulso e pela iluminação do Espírito Santo, a partir do evento desconcertante, acontecido faz 50 dias, e do qual só agora toma(m) plena consciência: “ Más Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe se manifestar-se não a todo o povo, mas à testemunhas que Deus havia escolhidos: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos”.
É a luz do significado e da importância deste evento que revela a pessoa de Jesus, como "ungido por Deus com Espírito Santo e com poder (...)”, quem age eficazmente contra os demônios “porque Deus estava com ele”. Com isso, quero dizer que a compreensão da figura de Jesus não é simplesmente reduzível a um fato de crônica registrado pelo(s) observador (es), dizemos assim, “neutral” que apresenta o acontecido como si fosse uma câmara de vídeo. Trata-se de pessoa(s) já envolvida(s) profundamente no evento desconcertante, não acessível ao povo todo indistintamente. Mais ainda, são pessoas “que Deus havia escolhido: a nós que...”. Portanto, é importante não perder de vista que se trata do testemunho simultaneamente histórico e teológico.
Notável que as testemunhas acompanharam Jesus na sua atividade pastoral desde o inicio, o batismo no Jordão, são as que comeram e beberam com o ressuscitado. Tudo isso, sugere uma ligação entre o caminhar com Jesus no dia –a- dia e a experiência do mesmo ressuscitado, após a terrível experiência da cruz.
Portanto, cabe pensar que a experiência do Ressuscitado é accessível a toda pessoa que hoje, como os apóstolos, seguem Jesus no caminho da ética por ele implantada, sem desviar, apesar das seduções de outras propostas e sem desistir pelas provações e pelas dificuldades. Continuar fielmente, mesmo entre trancos e barrancos, é condição para perceber a presença do Ressuscitado no próprio mundo interior, como foi para são Paulo: “ Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). É perceber, também, a presença Dele no jardineiro, no viandante desconhecido, no homem beira o mar de Tiberiade, para citar experiências relatadas pelos evangelhos.
Dessa maneira, toma consistência a condição de testemunha confiável. De fato, a finalidade da manifestação do Ressuscitado, não é, simplesmente, legitimar a pessoa de Jesus como Messias, Filho de Deus e constituído pelo Pai “Juiz dos vivos e dos mortos”, mas capacitar o discípulo como testemunha para a missão “E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos (...). Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”.
Pregar a partir da experiência do ressuscitado ou sem ela faz a diferença de não pouca conta, como o falar por ter ouvido falar dele, e falar por tê-lo visto. Está em jogo a qualidade da missão. Ser testemunha autentica configura o discípulo no presente e no futuro com as características indicadas na 2da leitura.


2da leitura Cl 3,1-4


Pois vós morrestes, e vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus”. Vós morrestes deve ser entendido não em sentido de morte física, mas de morte ao pecado e ao mal. Em virtude disso, o mal e o pecado, sempre presentes no dia-a-dia, não têm poder de domínio sobre a testemunha. Seria como agir sobre o cadáver. Por isso que são Paulo afirma: “Por ele (Jesus Cristo), o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo”.
Com a vida escondida em Deus com Cristo, Paulo afirma a misteriosa participação da testemunha, do discípulo, à comunhão de vida em Deus, doada por meio da morte e ressurreição de Cristo e alcançada pela fé. Mesmo misteriosa, a comunhão é percebida pela testemunha, pois é a seiva da nova existência e o meio pelo qual se viabiliza e acontece nele experiência do Ressuscitado. Daí, então, as palavras “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto (...) aspirai às coisas celestes e não as coisas terrestres”.
Conseqüentemente, a prova ad autenticidade do testemunho é o esforço e a vontade de alcançar níveis de maior e mais profunda comunhão no mistério de amor de Deus, vencendo toda sedução de ficar preso aos apelos de uma vida simplesmente entendida dentro dos horizontes humanos. Com outras palavras, o experimentar os efeitos da morte e ressurreição de Cristo suscita a esperança e o desejo de algo ainda mais profundo, que motiva o correr para a meta que sempre estará na frente, continuamente inalcançável, por ser o Mistério e a realidade de Deus. Ao mesmo tempo, estabelece a permanente luta e tensão entre aspirar “as coisas celestes e não as coisas terrestres”. Dessa forma, é implantada a tensão entre o “já”- o participar do efeito da morte o ressurreição de Jesus-, e o “ainda não”- aquilo que seremos e veremos “quando Cristo, vossa vida (no presente), aparecer em seu triunfo (futuro)”.
Não haverá decepção nem desilusão com respeito a isso tudo. Olhando à meta das pessoas e da humanidade, à luz da revelação do mistério da morte e ressurreição, são Paulo sintetiza “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória”. É o momento da intervenção última e definitiva de Deus, na qual se desvendará o sentido e a meta da humanidade e de cada pessoa. Corresponderá, também, à vinda do Ressuscitado no final dos tempos. Então, se revelará a intima comunhão com a glória de Cristo, os dois “revestidos de glória”.
Deixar-se tocar pelo evento da morte e ressurreição cria um novo sujeito no sujeito. Sem deixar o que somos, vai-se construindo uma nova identidade que integra , transforma e complementa o ser da pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. Esta imagem vai cada vez mais semelhando a Ele, num processo muito singular pelo qual, sugere o teólogo alemão (E. Hofmann), “ desde o começo de sua vida o homem tem não só uma ‘corporeidade exterior’, e sim, também, uma ‘corporeidade interior’, ou seja, sua verdadeira pessoa, o autêntico ‘eu’, que vai crescendo no dia a dia e se torna mais forte, na medida em que permanece na comunhão com Deus e aberto à criação (homens e natureza), para após a morte ser acolhido e levado à plenitude por Deus”
Dessa forma, o humano e o divino se integram no respeito da especificidade de cada natureza, de maneira que o humano se faz mais humano - assumindo a glória e Deus -, e o divino se faz mais divino pela da glorificação da pessoa humana. Com outras palavras, as duas naturezas entram num processo simbiótico pelo qual crescem em conformidade ao ser profundo delas: o homem se diviniza e Deus se humaniza.


Evangelho Jo 20,1-9

O evento da ressurreição foi totalmente inesperado e, sobretudo, foi muito além de toda experiência e entendimento ao alcance dos discípulos. Portanto, também a compreensão deles será progressiva, e, como frisado na 1ª leitura, só em Pentecostes os discípulos terão consciência do alcance do evento. O mesmo texto anota “ De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. É impossível querer saber o que a ressurreição foi para Jesus. Seria perguntar-se a respeito da existência do crucificado num mundo do qual não temos experiência.
A primeira aproximação ao evento é das mulheres que, simplesmente, encontram o sepulcro vazio “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. Desconcertadas e assustadas- não é difícil imaginar o estado de animo delas-, referem aos discípulos cuja reação impetuosa é registrada “Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais de pressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo”.
Eles conferem a ausência do corpo de Jesus e anotam detalhadamente o singular posicionamento das faixas “Viu as faixas de linho deitadas não chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte”. Com isso constatam que alguma coisa muito singular devia ter acontecido. Se o corpo tivesse sido roubado, os autores não teriam se preocupados de deixar as faixas como estavam, menos ainda, dobrar o pano que tinhas estado sobre a cabeça de Jesus.
João, “o outro discípulo, aquele que Jesus amava (...) entrou (...) viu, e acreditou”. Acreditou que o corpo não foi roubado e que algo muito singular aconteceu. “De fato, eles ainda não tinham compreendido (...) que El devia ressuscitar dos mortos”.
Parece-me importante o destaque do desaparecimento singular e desconcertante do cadáver de Jesus. Tudo isso prepara o passo seguinte: a revelação do evento da ressurreição que atinge aquele corpo crucificado não encontrado no sepulcro e explica a o porquê e o significado do desparecimento nos termos que o anuncio sucessivo atribuirá à intervenção de Deus.
Este destaque do desaparecimento do corpo morto parece-me de grandíssima importância para afirmar a verdade sobre a característica do evento da ressurreição. Ele será interpretado, pelas autoridades e outros, erroneamente, de diversas formas, como a ressurreição da alma ou do espírito, como uma morte aparente, como experiência de uma visão emocional e afetiva, etc.
O evento concreto da morte de Jesus levada ao seu comprimento por uma lógica de conflito sobre o verdadeiro ou falso entendimento da realidade de Deus e seus desdobramentos em nível do ser profundo e do comportamento,revela a dimensão divina presente em cada pessoa, a possibilidade e a condição do ser desenvolvida com sucesso na história da humanidade e da criação.

domingo, 21 de março de 2010

Domingo de Ramos-C-( 28-03-10)

1a leitura Is 50,4-7

Com o terceiro cântico do “Servo de Javé” do profeta Isaias começa a Semana Santa. A figura do Servo de Javé é descrita nos quatro cânticos. Do terceiro é tirado o texto desta primeira leitura. (É muito importante ler e meditar conjuntamente aos outros três: Is 42,1-9; 49,1-9 e 52,13 até o final do cap.53). É a figura de um sujeito (uma pessoa, mas, alguns estudiosos dizem que é um “resto” fiel do povo de Israel) chamado, ungido pelo Espírito. Ele, conforme a vontade de Deus, deverá sofrer e entregar sua vida para resgatar e salvar o povo e a humanidade. Após a morte e ressurreição de Jesus, os discípulos e os apóstolos identificarão este personagem com Jesus mesmo.
Neste texto, o sujeito é claramente uma pessoa diariamente instruída por Deus “O Senhor Deus deu-me língua adestrada (...) ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido” e ao mesmo tempo estimulada e motivada a prestar atenção. Não se trata de ouvir por ouvir nem para agradar, mas de “prestar atenção como um discípulo”, como quem apreende para praticar. Com efeito, a primeira atitude do discípulo é a de escutar com todo o coração, com toda a alma e com todo o ser. (Como não pensar ao relato evangélico de Marta e Maria, no qual Jesus elogia Maria por estar aos pés Dele escutando, tornando-se,desta forma, uma discípula!)O escutar é para “ que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida” e assim desenvolver corretamente a missão.
Missão que apresenta um aspecto, pelo menos, desconcertante: “ O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás” Pelo que se refere a Jesus, foi nas tentações no deserto que entendeu como as palavras de conforto passavam uma lógica e uma expectativa totalmente contrárias ao desejo e entendimento dos ouvintes, e que as mesmas os teriam levado diretamente à cruz. Contudo, Ele não voltou atrás. Foi corajosa e decididamente para frente, até o fim.
Eis, então, a rejeição dramática, humilhante e de grande sofrimento “ Ofereci as costas para que me baterem e as faces para que me arrancarem a barba; não desviei o rosto dos bofetões e cusparadas”. Gestos e atitudes de grande desprezo. Foram interpretados pelos presentes- no caso de Jesus- como prova do abandono de Deus, por tê-lo blasfemado com suas palavras e pretensões messiânicas
Notável a reação do Servo de Javé: “Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o animo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não serei humilhado” É surpreendente não se sentir humilhado nem abatido naquela situação e sofrendo daquela forma, se não for pelo auxílio do Senhor. Em que consistiu o auxílio não é especificado. Tal vez, podemos supor, na base do fato que não se deixou abater nem se sentiu humilhado, que teve a percepção no profundo do ser, de algo como “o poder de uma vida indestrutível”(Hb.7.16) que, propriamente, seria como a seiva da árvore que sustentou e motivou a radical fidelidade Dele e, no momento da máxima provação, se tornou geradora dos estados de animo indicados. Se for certa esta suposição, então, daria para afirmar que o Servo de Javé tem acesso à transcendência e à experiência de Deus, no profundo do próprio ser, pela radical fidelidade no desenvolvimento da missão, conforme a vontade do Senhor.
Tudo isso bate com a experiência de Jesus que são Paulo sintetiza magistralmente na segunda leitura.

2da leitura Fl 2,6-11

É o hino dos primeiros cristão (o cantavam na liturgia?) que sintetiza a figura, o alcance e o significado da missão de Jesus. Muito foi escrito e muito se escreverá sobre ele, pela importância do conteúdo. É um texto que todo cristão deveria meditar e decorar.
Os versículos seis até oito falam da “descida” de Jesus no último do mal e do pecado. Os outros três do infinitamente oposto: a “subida” na exaltação no céu.
Em primeiro lugar, Jesus “esvaziou-se a si mesmo” da condição divina. Colocou como entre parêntesis sua condição divina; não quis usufruir das condições privilegiadas dela. É como se o Presidente renunciasse a todo privilegio, mordomia, honra, mesmo continuando a exercer suas funções.
Motivo da escolha foi para se colocar na “condição de escravo e tornando-se igual aos homens”. Igual aos homens, no sentido de que mesmo não sendo afastado da comunhão com Deus, da familiaridade com o Pai nem privado da presença do Espírito Santo, se solidariza com o homem pecador, ou seja, o homem que é todo o contrário do que Ele é. Desta forma, coloca entre parêntesis sua condição divina. De fato, a carta aos Hebreus lembra que Jesus assumiu em toda a condição humana menos no pecado. Mais ainda, se iguala e se coloca na “condição de escravo”. Iguala-se para abaixo. É de o escravo servir. Referido a Jesus, o serviço consistirá em resgatar a humanidade do afastamento de Deus.
Encontrado com aspecto humano” O povo o encontra como tal, como simples homem, e, ao mesmo tempo, com pretensões messiânicas- e até divina, como Filho de Deus- que não condizem, de jeito nenhum, com o que Ele diz e faz. Pelo contrário, o povo e as autoridades acham ele blasfemo e ateu, merecedor de morte ultrajosa.
Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Por livre determinação Jesus sofre em si mesmo dupla humilhação, simultaneamente, perante do Pai e perante do povo. Ele se apresenta como pecador perante o Pai, por representar a humanidade toda. Ao mesmo tempo, sofre a humilhação e a rejeição violenta de quem está representando, do povo, das autoridades, da humanidade toda.
Assim, por um lado, sofre o afastamento do Pai, como conseqüência do pecado, “Deus meu, Deus meu porque ma hás abandonado”. E pelo outro, a morte de cruz, como maldito de Deus “ Maldito seja aquele que for suspenso do madeiro” (Gl 3,13).
“Fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” Obediente a um Pai que, absurdamente, determina entregar o filho inocente? Que cobra do filho o pecado da humanidade? Que o pai entregue o filho e uma das afirmações mais espantosas do Novo Testamento, absolutamente desconcertante para o entendimento humano. Contudo, por um lado, o evento manifesta a cólera e o juízo de Deus para com o homem pecador. Pelo outro lado, o amor à verdadeira pratica de vida que tira o homem do mal e da própria autodestruição não é negociável, deve ser segurada, custe o que custar
São estes dos aspectos que estão no fundo do evento: a cólera e o juízo de Deus, como expressão do amor traído pela pertinaz insistência do homem na própria autodestruição. Mas também, o amor do resgate salvador, por Jesus representar a humanidade toda que não se entrega ao pecado. Enfim, é o AMOR nas suas diferentes expressões que sustenta o evento todo.
Por isso, Deus o exaltou acima de tudo” O “ por isso”estabelece uma ligação entre o anterior e o posterior. Portanto, aponta à relação entre a cruz e a ressurreição, exatamente por ser a cruz posse da ressurreição. A ressurreição não é um super milagre, mas o efeito da entrega na cruz. Como a cruz foi motivada pelo amor, assim, também, a ressurreição: o amor da entrega é o mesmo que ressuscita. Este é o nome de Deus “Nome que está acima de todo nome” em virtude do qual Jesus é constituído “Cristo”, ungido, Messias e “Senhor” no céu, na terra e abaixo da terra “para a glória de Deus Pai”. Sendo a glória de Deus a vida do homem, na feliz expressão de Santo Irineu, esta se manifestará em todos os homens que aceitarão, pela fé, os efeitos da representação de Jesus Cristo perante o Pai, se tornando seguidores e imitadores do Filho, porque filhos de adoção.

Evangelho Lc 23,1-49

O relato da paixão se presta para muitas considerações. Vou comentar somente o relativo à tentação. O relato das tentações no deserto, do mesmo autor, frisava “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13).
O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam: Tu és o Cristo?: A outro salvou. Salve-se a si mesmo,se, de fato, é o Cristo de deus, o Escolhido! (...)Uns dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Jesus não se dobrou, não cedeu, às tentações no deserto. Tal vez, o demônio esperava ter maior sucesso neste momento de fraqueza extrema e de sofrimento, juntamente à sedução de que um gesto tão espetacular, na expectativa do povo, dos chefes e do malfeitor, era esperado como prova certa e definitiva com respeito à Sua pretensão messiânica e de Filho de Deus. Existe prova maior que esta? Do ponto de vista humano,não.
Então, por que fica? Por que entra na morte? Parece-me por três motivos:
- para desfazer a ligação pecado- morte. Pecado e morte estão unidos, pois dirá são Paulo: “A morte é o salário do pecado” (Rm 6,23). A resistência extrema ao pecado levou Jesus à morte. Tendo entrado nela sem se dobrar ao pecado, quebra o elo que os une: “mesmo que morto viverá (...) não morrerá para sempre” (Jo 11,25). Conseqüentemente, à morte vai lhe faltar o que a sustenta e do qual é expressão e manifestação. Agora a morte tem outro significado e, sobretudo, outro destino...
- Será que a confiança em Deus depende de gestos grandiosos e surpreendentes? A parábola do rico que pede ser ressuscitado, convencido que, em virtude disso, os irmãos, ainda vivos na terra, se converteriam, ensina: “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos” (Lc 16, 27-31).Cair na tentação teria sido a manifestação do poder grandioso e surpreendente, porém inútil, porque o temor reverencial que suscitaria frente ao poderoso geraria, por um lado, distanciamento e, por outro, a falsa comunhão típica do inferior para com o superior chamados a conviverem juntos.
- O efeito da morte de Jesus possibilita a parceria que a cruz sela de uma vez para sempre. Nela Cristo “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).A resposta é o seguimento, a imitação, pelo qual-“permanecendo completamente unido a Cristo”(Rm 6,5) experimentará toda dificuldade Dele. Daí, a afirmação: “Fui crucificado junto com Cristo” (Gl 2,19). A conseqüência será que “por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). A ligação cruz- ressurreição da 2da leitura
Última consideração. Mas, devia ser aquela morte? Não tinha cabimento outra? A morte na cruz manifesta todo o porte da radical tragédia do pecado e do pecador É a morte mais desonrosa e desprezível. Com isso, é manifesto o desonroso e o desprezível do pecado. Por causa dele, Deus manifesta seu afastamento do Filho, sua ira e sua cólera para com Ele, em quanto sujeito feito pecado Gl 3,13.
Para os homens a cruz era amaneira certa de manifestar o repudio de toda pessoa que abusasse do título de Messias, de Filho de Deus. Veiam nela a maldição de Deus sobre o condenado. Era expressão do zelo pela cauda de Deus. Ironicamente matam a Deus pensando de honrá-lo, de salvar a identidade e a presença Dele no meio do povo.
Mais desconcertante, ainda, é que Deus com essa mesma cruz salva os que O crucificam!