1ª leitura Is 11,1-10
“Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor”. A alusão ao “tronco” e à “raiz” de Jessé faz supor que a dinastia do rei Davi irá acabando. Contudo, o oráculo assegura, na continuidade da dinastia, a fidelidade divina às promessas. Ao apresentar, porém, a característica do verdadeiro rei descreve o que se realizará no Messias.
“Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de discernimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus”. São os dons do Espírito Santo que no sacramento da Confirmação são passados aos crismados. Portanto, o Messias será um sujeito plenamente disponível à vontade de Deus através a ação do Espírito nele.
Cabe frisar o inciso “no temor do Senhor encontra ele o seu prazer”. Com isso, a atitude dócil, reverencial e amorosa, pela ação do Espírito à vontade de Deus, será motivo e fonte de grande satisfação e até de prazer. Para alcançar esta atitude é preciso se despojar do próprio projeto, das próprias expectativas e desejos, como quem não constrói, nem planeja, não projeta atribuindo a tudo a característica de conformidade à vontade de Deus.
Mas, se dispõe a modificar o que pensou e esperou em virtude da realidade concreta que lhe se apresenta e obrar nela e sobre ela com os critérios de Deus, com as atitudes sugeridas naquele momento pela ação do Espírito. Significa ter e cultivar a “infância espiritual” própria de quem se deixa conduzir, momento por momento, como a criança que confia plenamente no pai, pelos rumos que lhe são apresentados. Esperava uma coisa e se apresenta outra. Tudo bem, só indagar e perceber como se comportar o que assumir ou rejeitar, pensando e agindo conforme ao critério de Deus sugerido pelo Espírito, sustentado por essa docilidade, por essa “infância espiritual”.
Só dessa forma desenvolverá a missão com as atitudes certas “Ele não julgará pelas aparências que vê nem decidirá somente por ouvir dizer” cujos efeitos será a “...Justiça (...) uma ordem justa (...) destruirá o mau”. Eis, então, retrato o perfil do Messias como quem ,dessa maneira, “Cingirá a cintura com a correia da justiça e as costas com a faixa da fidelidade”.
Com efeito, a pratica da justiça e a perseverança na fidelidade constituem os elementos fundamentais, irrenunciáveis, do cumprimento e realização da Aliança e com ela a implantação do reino de Deus entre os homens. A poética descrição a continuação “O lobo e o cordeiro viverão juntos (...) vers. 6-8” manifestam a harmonia da criação. O que agora é contraposto e hostil se tornará o que a mente e expectativa humana não se atrevia pensar nem supor.
Até o maior inimigo será vencido “Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte”. E, em positivo, “a terra será repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar”. Será o triunfo da raiz do Jessé- o Messias- que “se erguerá como um sinal entre os povos”- como não pensar no Ressuscitado?- “e gloriosa será a sua morada”.
A Promessa, selada pela Aliança no Sinai, terá sua plena realização. Valeu esperar, já se aproximando dessa realidade de maneira conveniente, como indica a segunda leitura.
2ª leitura Rm 15,4-9
“acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus”. Cabe se perguntar: Em que consiste a glória de Deus em virtude da qual devemos acolher? Um grande teólogo do segundo século depois de Cristo respondeu: “A glória de Deus é que o homem viva e a vida do homem é glorificar a Deus”. Com efeito, a vida à qual se refere esta afirmação é a que brota e toma consistência por ter sido acolhida anteriormente por Cristo, com todos seus defeitos e pecados, para ser redimida e resgatada. Portanto, aceitar de ter sido aceito e justificado perante do Deus Pai, por ter sido acolhido por Cristo, é o alicerce da verdadeira vida, é o que faz viver a pessoa na glória de Deus.
Sabemos em que consistiu e o preço desse acolhimento “Cristo tornou-se servo (...) para honrar a veracidade de Deus, confirmando as promessas feitas aos pais”. Com isso, ele se tornou modelo do acolhimento entre os homens. Pois, o mesmo exercício manifesta a glória de Deus atuante entre os homens. Portanto, como dizia o teólogo acima citado, a vida do homem é glorificar a Deus, no sentido de redesenhar, refazer, reconstruir os relacionamentos como se eles fossem outro Cristo. O ter sido aceito por Ele, a consciência dessa mesma aceitação - que é o próprio do conteúdo da fé - sustenta a identificação com Cristo que os capacita na mesma missão Dele e que Ele mesmo lhes confiou.
Nesse processo é importante para o seu correto desenvolvimento se referir ao que “foi escrito para a nossa instrução” e ser sustentado “ pelo conforto espiritual das Escrituras”. Portanto, é preciso não descuidar nem desvalorizar o estudo e o aprofundamento das Escrituras, sob pena de estancar o processo de crescimento ou até de retroceder e desviar.
O conforto espiritual consiste na ação do Espírito que ilumina o significado do que Cristo realizou com sua morte e ressurreição à luz dos textos do Antigo Testamento. Estes textos eram as Escrituras a disposição de Paulo, pois, ainda não existiam os textos do Novo Testamento. Após o evento da morte e ressurreição de Jesus, os discípulos relendo os textos do Antigo Testamento, por ex. os 4 Cânticos do servo de Yavé, perceberam , com surpresa, que tudo isso se cumpriu na pessoa de Jesus. Daí, então, o conforto espiritual, a certeza de estar no caminho certo e a força motivadora que isso proporciona.
Conseqüentemente, o discípulo experimentará a constância e o conforto como dom de Deus “O Deus que dá constância e conforto vos de a graça da harmonia e concórdia, uns com os outros, como ensina Cristo Jesus”, cujos frutos amadurecidos serão a harmonia e a concórdia nos termos indicados pela primeira leitura. Com outras palavras, será descobrir o tesouro escondido do reino de Deus já presente no meio de nós.
Com isso a certeza do cumprimento da promessa de Deus “feita aos pais”, que teve uma primeira expressão e manifestação com a morte e ressurreição de Cristo e terá sua implantação definitiva e última com a vinda do Ressuscitado, será motivo de consolidar a esperança e fazer dela uma realidade cada vez mais firme e consistente.
A realidade do Reino é central na pregação do João Batista do evangelho.
Evangelho Mt 3,1-12
João Batista anuncia a grande expectativa do povo: a proximidade do reino “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Entre parêntesis, Reino dos Céus e Reino de Deus são sinônimos). Condição para participar dele é a conversão, visibilizada pelos frutos correspondentes “Produzi frutos que manifestem a vossa conversão”. Não se trata de sentimentos ou de bons propósitos, mas de atitudes, de comportamentos em sintonia com as exigências da Lei. São frutos decorrentes da prática da justiça e do direito, que estabelecem e configuram o povo de Deus libertado da escravidão do Egito e consolidado pela vivencia entre eles da libertação: livres para libertar todo ser humano de todo o que o oprime desde as necessidades básicas às exigências do amor fraternal.
João lembra o que já todos sabem. O reino será implantado pelo Messias, enquanto “Ele-o Messias- está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”. Será manifesta a “ira que vai chegar” e da qual de jeito nenhum ninguém poderão fugir.
Nem será argumento válido se apelar à descendência: “Não penseis que basta dizer: ’ Abraão é nosso pai’, porque eu vos digo, até mesmo destas pedras deus pode fazer nascer filhos de Abraão” Entre parêntesis, o mesmo vale enquanto ao nosso batismo. Não é suficiente batizar simplesmente as crianças ou os adultos e com isso pensar de “estar bem com Deus” por ter feito a própria parte.
Perante a iminência desta realidade assustadora “Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia (...) confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão”. Pois, a perspectiva de acabar “no fogo que não se apaga” não é agradável para ninguém. Mai ainda, com a ameaça iminente de que “O machado já está na raiz das árvores, toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo”. Há como uma pressão em proceder rapidamente e com determinação, pois, o tempo se faz curto, não há como demorar!
Contudo, a idéia de João Batista com respeito à missão do Messias e à implantação do reino dos céus, está muito aquém daquela que Jesus desenvolverá e realizará. João Batista declara a superioridade do Messias com respeito a ele mesmo “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu (...). Ele vos batizará com o Espírito santo e com fogo”. Mas, entende e interpreta tudo isso dentro da expectativa dele, ou seja, o premio para os convertidos e o castigo eterno para os outros. O Messias dividirá o povo em dois blocos; Salvação para uns e condenação para outros.
João Batista manifesta a concepção do Antigo Testamento com respeito ao cumprimento da Lei mosaica estabelecida como sinal da Aliança no Sinai, á qual ninguém poderá fugir. A mesma idéia de ressurreição do Antigo Testamento visava a isso. Se alguém pensasse que com a morte tudo acabasse e pudesse desta forma fugir ao juízo da Lei, o Antigo Testamento responderá que não. Ele será ressuscitado para ser julgado conforme à exigência da lei. Ninguém poderá se subtrair a ela. A conversão imediata era a última chance oferecida antes da catástrofe final e irreversível.
A atuação de Jesus irá muito além. Ela provocará um grande desconcerto na pessoa de João como indicado no evangelho do próximo domingo.
De toda maneira, fica atual a urgência da conversão, não no âmbito do entendimento da lei, mas à realidade e conseqüências da morte e ressurreição de Jesus.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
1oDOMINGO DO ADVENTO-A-(2811-10)
1ª leitura Is 2,1-5
“Acontecerá, nos últimos tempos”. O texto pretende apontar o aproximar-se do momento último e definitivo da historia, caracterizado pela intervenção de Deus. Convida dirigir o olhar à meta, para o povo esperar e já se aproximar a ela de maneira conveniente. A meta é simbolizada pelo “monte da casa do Senhor”.
Para o hebreu a casa do Senhor, o templo, era o centro do mundo, ou melhor, o umbigo do mundo que liga céu e terra. O lugar mais santo di templo, onde só o Sumo Sacerdote entrava - não sem temor- uma vez por ano para o rito da expiação dos pecados, era o lugar onde Deus apoiava seus pés.
O fato de estar “firmemente estabelecido no ponto mai alto do monte e dominará as colinas” passa a idéia de uma realidade estável, permanente, que se impõe a todos e a tudo- as colinas- por sua visibilidade e força. Com outras palavras, se manifestará o mistério de Deus e do reinado Dele sobre a sua criação, que abrangerá tudo e todos.
Esta manifestação será como o imã, pois, ao templo “acorrerão todas as nações (...) para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine cumprir seus preceitos”. Faz parte da consciência do povo de Israel sua missão universal de reunir todos os povos sob a lei do único Deus. Portanto, ele carrega sobre si mesmo esta responsabilidade, testemunhando o cumprimento d a Aliança e convidando os outros povos a reconhecerem a presença do verdadeiro Deus, para que a glória do Mesmo se manifeste em toda sua realidade salvadora. Daí a consciência de superioridade com respeito aos demais povos.
“Porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a palavra do Senhor”. Nos últimos tempos, a lei e a palavra do Senhor se manifestarão em toda sua potencialidade, como indicado acima. Más ela já está presente no patrimônio do povo eleito. O que acontecerá no será surpresa de algo totalmente desconhecido e inesperado. Pelo contrário, o povo reconhecerá o cumprimento da promessa, a bondade do caminho da Aliança. A conclusão será que valeu tomar a serio e investir seriamente nelas.
Eis, portanto a exortação final “Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos (hoje) guiar pela luz do Senhor”. Portanto, ter ciência da singular ligação entre presente e futuro oferece sentido e motivação à vida do povo e das pessoas, com respeito ao cumprimento da Aliança com Deus estabelecida após a libertação do mal e da escravidão do Egito, selada no Sinai por Moises e portadora da Promessa de uma nova humanidade, onde reinará, com todas suas múltiplas características, a paz universal.
Devido ao desrespeito das exigências da Aliança, aos múltiplos pecados do povo, a paz universal está longe de ser implantada. Contudo, será “nos últimos tempos” que Deus, com sua intervenção última e definitiva, julgará as nações e argüirá numerosos povos. Estes “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra outros e não mais travarão combate”.
Portanto o tempo de Advento, à luz do evento final, é tempo da espera, participação na glória da plena comunhão com Deus e motiva já antecipar no presente os efeitos deste futuro, por meio da conduta moral coerente.
É o que Paulo incentiva na segunda leitura.
2ª leitura Rm 13,11-14
São Paulo já falou longamente nesta carta da obra salvadora de Deus por meio do seu Filho Jesus e afirmou que ela continua a realizar-se agora. Portanto, convida os cristãos à conscientização deste momento “Vós sabeis em que tempo estamos” e assumir atitude conveniente “pois, já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mai perto de nós do que quando abraçamos a fé”. Paulo não precisa a causa da alerta, da necessidade de despertar. Tal vez, seja pela pouca atenção, pela distração, por não perceber o alcance e a amplitude da salvação etc.,
Viver o presente como momento favorável da salvação, fruto da fé na obra realizada por Jesus nos eventos da Páscoa, faz perceber que “A noite já vai adiantada, o dia vem chegando”. Com outras palavras, a noite da injustiça, do mal em todas suas múltiplas expressões, vai deixando espaço à luz do novo dia que está cada vez mais próximo. Percebe-se a esperança como realidade concreta e de indiscutível atualização, que vai cada vez mais se aproximando, como o dia que vai chegando vencendo a noite.
Eis, então, a exortação: “despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz”. Aproximar-se da luz pede ao cristão o comportamento ético, que se concretiza na vigilância por um lado e em fazer as obras da luz pelo outro. É preciso determinação e colaboração ativa para que o processo da passagem da treva à luz se consolide oportunamente.
A exortação toma realisticamente em conta a possibilidade do processo se estancar, ou até de retroceder. Pois, as seduções, os desânimos, as provações e as dificuldades de todo tipo acompanham o dia - a – dia da vida do cristão. Sem determinação e firmeza de caráter na luta para conseguir o que se enxerga, o processo não chegará ao seu fim. Com efeito, toda ação salvadora de Deus pede a colaboração e o consentimento ativo da pessoa, ou da comunidade à qual se dirige. De braços cruzados e passivamente, nunca chegará o novo dia.
Daí as indicações concretas “Procedamos honestamente, como em pleno dia” como se já estivéssemos na plenitude da luz. Este “como” é particularmente importante, pois o cristão não está na plenitude da luz, só a enxerga que vai chegando. Contudo, deve se comportar como se já estivesse nela... Isso é possível pela fé, pois, a carta aos Hebreus a define “uma maneira de já possuir o que se espera”. Portanto, é preciso antecipar as atitudes e os comportamentos próprios de quem já possui o que espera. É singularíssimo tudo isso, com certeza, mas faz parte do dom que vai chegando. Ele motiva e qualifica o compromisso, a vontade e o esforço de sustentar a luta contra as trevas.
Trevas que são acolhidas por quem não se afasta das atitudes quais “nada de glutonarias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem brigas e rivalidades”. Elas conformam o processo de retrocesso e, portanto, a negação da luz e da esperança .
“Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”, pois, o modelo é Ele. Convida a ser autênticos representantes de Cristo, se despojando do homem velho, para assumir a novidade que traz a identificação com a pessoa de Cristo e sua missão.
Manter tudo isso é a missão de todos os dias de quem sabe vigiar sobre si mesmo e discernir o tempo presente e futuro.
Evangelho Mt 24,37-44
Jesus faz referencia à manifestação de sua vinda “A vinda do Filho do Homem”, - com este termo se refere a si mesmo - que acontecerá quando a historia e a criação chegar ao seu ponto final. Cabe perguntar: este momento se refere a lago cronológico, a um futuro que será determinado pelo tempo do relógio que parara de marcar o seu decorrer? Será um tempo de plenitude, no qual a existência da pessoa e da criação alcançará a sua plena potencialidade de viver o Amor como comunhão dinâmica com o Deus da Vida. Nesse sentido será algo que não necessariamente excluirá o tempo cronológico?
Penso nisso porque um futuro que sempre foge a totalmente alheio à dimensão temporal e espacial é um futuro frustrante que não existe nem pode existir, é um futuro que só deixa como um vazio e, portanto, não interessa se não for ao momento que se faz presente, e, portanto, deixa de ser futuro. É um futuro futurível ou simplesmente a expressão de algo que se chama tal só porque está na frente como idéia, como possibilidade, ou seja, simplesmente em contraposição ao presente, não tendo atinência com o hoje?
A referencia à historia de Noé, na qual as pessoas “nada perceberam até o dia em que Noé entrou na arca”, diz respeito à intervenção que surpreendeu a todos, mas não a Noé que, pelo contrário, foi feito participe desse futuro com anterioridade. Haverá pessoas que não percebem e outras muito conscientes do que irá acontecer. O futuro para uns e para outros é bem diferente... Para os primeiros é incógnito e simplesmente vivem o presente com o que lhe é próprio “todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento”. Para outros é o futuro de Deus, pertence a Deus e àqueles que lhe pertencem pela fé. Esse futuro é teológico que, tal vez, não exclui o temporal, mas, com certeza, será reassumido e reelaborado pela intervenção de Deus.
É o que mostra a continuação “Dois homens (...) um será levado e outro deixado. Duas mulheres (...) uma será levada e outra deixada”. Não diz o critério da escolha, simplesmente afirma que a intervenção atingirá tudo e todos indistintamente. Com isso passa a idéia de que tudo e todo serão atingidos de uma maneira ou outra, inclusive o tempo cronológico, o tempo qualitativo ou os dói juntos...
“Portanto, ficai atentos! Por que não sabeis em que dia virá o Senhor... Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”. Pois, se as pessoas que sabem da hora da chegada do ladrão se preparam e vigiam para não ficarem surpreendidos e prejudicados, quanto mais àqueles que desconhecem quando da hora da chegada, mas tem a certeza que chegará!
“Por isso, também vós ficai preparados” ao Novo Natal, como quem sabe o que estão esperando e o alcance da vinda Dele. A primeira vinda e a saída do mundo de Jesus são prelúdio e garantia da segunda vinda dele como Ressuscitado. O Natal passado é motivo para lembrar e dirigir o olhar e o coração ao último e definitivo Natal que celebramos com anterioridade, na esperança e na certeza de fazer parte da plenitude do novo nascimento antecipado no batismo.
“Acontecerá, nos últimos tempos”. O texto pretende apontar o aproximar-se do momento último e definitivo da historia, caracterizado pela intervenção de Deus. Convida dirigir o olhar à meta, para o povo esperar e já se aproximar a ela de maneira conveniente. A meta é simbolizada pelo “monte da casa do Senhor”.
Para o hebreu a casa do Senhor, o templo, era o centro do mundo, ou melhor, o umbigo do mundo que liga céu e terra. O lugar mais santo di templo, onde só o Sumo Sacerdote entrava - não sem temor- uma vez por ano para o rito da expiação dos pecados, era o lugar onde Deus apoiava seus pés.
O fato de estar “firmemente estabelecido no ponto mai alto do monte e dominará as colinas” passa a idéia de uma realidade estável, permanente, que se impõe a todos e a tudo- as colinas- por sua visibilidade e força. Com outras palavras, se manifestará o mistério de Deus e do reinado Dele sobre a sua criação, que abrangerá tudo e todos.
Esta manifestação será como o imã, pois, ao templo “acorrerão todas as nações (...) para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine cumprir seus preceitos”. Faz parte da consciência do povo de Israel sua missão universal de reunir todos os povos sob a lei do único Deus. Portanto, ele carrega sobre si mesmo esta responsabilidade, testemunhando o cumprimento d a Aliança e convidando os outros povos a reconhecerem a presença do verdadeiro Deus, para que a glória do Mesmo se manifeste em toda sua realidade salvadora. Daí a consciência de superioridade com respeito aos demais povos.
“Porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a palavra do Senhor”. Nos últimos tempos, a lei e a palavra do Senhor se manifestarão em toda sua potencialidade, como indicado acima. Más ela já está presente no patrimônio do povo eleito. O que acontecerá no será surpresa de algo totalmente desconhecido e inesperado. Pelo contrário, o povo reconhecerá o cumprimento da promessa, a bondade do caminho da Aliança. A conclusão será que valeu tomar a serio e investir seriamente nelas.
Eis, portanto a exortação final “Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos (hoje) guiar pela luz do Senhor”. Portanto, ter ciência da singular ligação entre presente e futuro oferece sentido e motivação à vida do povo e das pessoas, com respeito ao cumprimento da Aliança com Deus estabelecida após a libertação do mal e da escravidão do Egito, selada no Sinai por Moises e portadora da Promessa de uma nova humanidade, onde reinará, com todas suas múltiplas características, a paz universal.
Devido ao desrespeito das exigências da Aliança, aos múltiplos pecados do povo, a paz universal está longe de ser implantada. Contudo, será “nos últimos tempos” que Deus, com sua intervenção última e definitiva, julgará as nações e argüirá numerosos povos. Estes “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra outros e não mais travarão combate”.
Portanto o tempo de Advento, à luz do evento final, é tempo da espera, participação na glória da plena comunhão com Deus e motiva já antecipar no presente os efeitos deste futuro, por meio da conduta moral coerente.
É o que Paulo incentiva na segunda leitura.
2ª leitura Rm 13,11-14
São Paulo já falou longamente nesta carta da obra salvadora de Deus por meio do seu Filho Jesus e afirmou que ela continua a realizar-se agora. Portanto, convida os cristãos à conscientização deste momento “Vós sabeis em que tempo estamos” e assumir atitude conveniente “pois, já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mai perto de nós do que quando abraçamos a fé”. Paulo não precisa a causa da alerta, da necessidade de despertar. Tal vez, seja pela pouca atenção, pela distração, por não perceber o alcance e a amplitude da salvação etc.,
Viver o presente como momento favorável da salvação, fruto da fé na obra realizada por Jesus nos eventos da Páscoa, faz perceber que “A noite já vai adiantada, o dia vem chegando”. Com outras palavras, a noite da injustiça, do mal em todas suas múltiplas expressões, vai deixando espaço à luz do novo dia que está cada vez mais próximo. Percebe-se a esperança como realidade concreta e de indiscutível atualização, que vai cada vez mais se aproximando, como o dia que vai chegando vencendo a noite.
Eis, então, a exortação: “despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz”. Aproximar-se da luz pede ao cristão o comportamento ético, que se concretiza na vigilância por um lado e em fazer as obras da luz pelo outro. É preciso determinação e colaboração ativa para que o processo da passagem da treva à luz se consolide oportunamente.
A exortação toma realisticamente em conta a possibilidade do processo se estancar, ou até de retroceder. Pois, as seduções, os desânimos, as provações e as dificuldades de todo tipo acompanham o dia - a – dia da vida do cristão. Sem determinação e firmeza de caráter na luta para conseguir o que se enxerga, o processo não chegará ao seu fim. Com efeito, toda ação salvadora de Deus pede a colaboração e o consentimento ativo da pessoa, ou da comunidade à qual se dirige. De braços cruzados e passivamente, nunca chegará o novo dia.
Daí as indicações concretas “Procedamos honestamente, como em pleno dia” como se já estivéssemos na plenitude da luz. Este “como” é particularmente importante, pois o cristão não está na plenitude da luz, só a enxerga que vai chegando. Contudo, deve se comportar como se já estivesse nela... Isso é possível pela fé, pois, a carta aos Hebreus a define “uma maneira de já possuir o que se espera”. Portanto, é preciso antecipar as atitudes e os comportamentos próprios de quem já possui o que espera. É singularíssimo tudo isso, com certeza, mas faz parte do dom que vai chegando. Ele motiva e qualifica o compromisso, a vontade e o esforço de sustentar a luta contra as trevas.
Trevas que são acolhidas por quem não se afasta das atitudes quais “nada de glutonarias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem brigas e rivalidades”. Elas conformam o processo de retrocesso e, portanto, a negação da luz e da esperança .
“Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”, pois, o modelo é Ele. Convida a ser autênticos representantes de Cristo, se despojando do homem velho, para assumir a novidade que traz a identificação com a pessoa de Cristo e sua missão.
Manter tudo isso é a missão de todos os dias de quem sabe vigiar sobre si mesmo e discernir o tempo presente e futuro.
Evangelho Mt 24,37-44
Jesus faz referencia à manifestação de sua vinda “A vinda do Filho do Homem”, - com este termo se refere a si mesmo - que acontecerá quando a historia e a criação chegar ao seu ponto final. Cabe perguntar: este momento se refere a lago cronológico, a um futuro que será determinado pelo tempo do relógio que parara de marcar o seu decorrer? Será um tempo de plenitude, no qual a existência da pessoa e da criação alcançará a sua plena potencialidade de viver o Amor como comunhão dinâmica com o Deus da Vida. Nesse sentido será algo que não necessariamente excluirá o tempo cronológico?
Penso nisso porque um futuro que sempre foge a totalmente alheio à dimensão temporal e espacial é um futuro frustrante que não existe nem pode existir, é um futuro que só deixa como um vazio e, portanto, não interessa se não for ao momento que se faz presente, e, portanto, deixa de ser futuro. É um futuro futurível ou simplesmente a expressão de algo que se chama tal só porque está na frente como idéia, como possibilidade, ou seja, simplesmente em contraposição ao presente, não tendo atinência com o hoje?
A referencia à historia de Noé, na qual as pessoas “nada perceberam até o dia em que Noé entrou na arca”, diz respeito à intervenção que surpreendeu a todos, mas não a Noé que, pelo contrário, foi feito participe desse futuro com anterioridade. Haverá pessoas que não percebem e outras muito conscientes do que irá acontecer. O futuro para uns e para outros é bem diferente... Para os primeiros é incógnito e simplesmente vivem o presente com o que lhe é próprio “todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento”. Para outros é o futuro de Deus, pertence a Deus e àqueles que lhe pertencem pela fé. Esse futuro é teológico que, tal vez, não exclui o temporal, mas, com certeza, será reassumido e reelaborado pela intervenção de Deus.
É o que mostra a continuação “Dois homens (...) um será levado e outro deixado. Duas mulheres (...) uma será levada e outra deixada”. Não diz o critério da escolha, simplesmente afirma que a intervenção atingirá tudo e todos indistintamente. Com isso passa a idéia de que tudo e todo serão atingidos de uma maneira ou outra, inclusive o tempo cronológico, o tempo qualitativo ou os dói juntos...
“Portanto, ficai atentos! Por que não sabeis em que dia virá o Senhor... Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”. Pois, se as pessoas que sabem da hora da chegada do ladrão se preparam e vigiam para não ficarem surpreendidos e prejudicados, quanto mais àqueles que desconhecem quando da hora da chegada, mas tem a certeza que chegará!
“Por isso, também vós ficai preparados” ao Novo Natal, como quem sabe o que estão esperando e o alcance da vinda Dele. A primeira vinda e a saída do mundo de Jesus são prelúdio e garantia da segunda vinda dele como Ressuscitado. O Natal passado é motivo para lembrar e dirigir o olhar e o coração ao último e definitivo Natal que celebramos com anterioridade, na esperança e na certeza de fazer parte da plenitude do novo nascimento antecipado no batismo.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
FESTA DE CRISTO REI-A-(21-11-10)
1ª leitura 2Sm 5,1-3
Com poucas palavras é narrado um dos acontecimentos fundamentais da história do povo de Israel: Davi é ungido rei e reconhecido por todas as tribos de Israel. Acontece no momento da unidade Nacional , pois, Davi, habilidosamente, escolhe Jerusalém como capital, ponto de união, no confino dos dois reinos anteriores e, assim, manter a eqüidistância.
O povo se reconhece na pessoa do rei como “Somos teus ossos e tua carne”. Não é só uma indicação antropológica, mas existencial, pois abrange a vivencia toda do povo e de sua tradição. O povo reconhece nele um autentico representante dos sentimentos, das expectativas e do sonho dele “Tempo atrás, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel”.
Nesse contexto Deus lhe confia a missão: “Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o seu chefe”. Apascentar significa cuidar, proteger, orientar, guiar, socorrer etc. Essas,devem ser as atitudes próprias do chefe no desenvolvimento da missão em sintonia com o mandato recebido. Com efeito, a missão do rei é salvar, pois, é representante do Deus Salvador. Sua missão é de proteger os mais indefensos, particularmente o pobre, a viúva e o estrangeiro, mais expostos à exploração, à prevaricação dos prepotentes.
Ao rei Deus lhe confia vigiar e incentivar o que for necessário, para o cumprimento das exigências e características da Aliança, de maneira que o sonho de liberdade, começado com a saída da escravidão do Egito, se consolide cada vez mais na pratica da vida do povo. Ele é o garante humano, como representante de Deus, da Aliança, e com ela, do sonho de Israel de se conformando como povo eleito, como povo de Deus, modelo a ser apresentado a todas às Nações.
O reconhecimento de Deus e do povo é indicado pelas palavras “O rei Davi fez com eles uma aliança em Hebron, na presença do Senhor, e eles o ungiram rei de Israel”. A unção é sinal de consagração que o separa de outra finalidade, de outra causa, que não for o cumprimento da missão que acaba de assumir. De fato, com seus altos e baixos, com seus trancos e barrancos, o reinado de Davi e de seu filho Salomão serão lembrado como o período de ouro da historia de Israel.
Contudo, a história de Israel testemunha, começando pelos filhos de Salomão, a sucessão de reis fieis e infiéis à Aliança, prevalecendo aqueles que levarão o povo ao afastamento do correto entendimento da mesma, apesar da presença dos profetas cuja missão será chamar a atenção aos governantes de sua obrigação específica.
Do ponto de vista da bíblia, a conseqüência de tudo isso será desastrosa para a vida do povo, como a mesma testemunha pelos muitos acontecimentos ruins. Irá se formando a idéia e a espera de um Messias, de um novo ungido que restaurará a gloria dos tempos de Davi e Salomão.
Do ponto de vista cristão essa espera se cumprirá com a vinda de Jesus.
2da leitura Cl 1,12-20
O texto é um hino de agradecimento. Ele reconhece que a iniciativa da salvação é do Pai, por meio do Filho “por quem temos a redenção, o perdão dos pecados”. Isso significa ser capacitado “de participar da luz, que é a herança dos santos”. Com outras palavras, entrosar e mergulhar na vida e na comunhão com Deus. Eis, então, a atitude de agradecimento: “ Com alegria dai graças ao Pai”.
O agir do Pai é fonte inspiradora e modelo do agir do rei, pois, como tocava na 1ª leitura, a missão dele é a salvação de toda pessoa e do povo. É Jesus o modelo histórico do agir do rei, sobretudo pelo significado e importância do mistério Pascual pelo qual amou “até o fim” (Jo 13,1).
Eis, então, a exaltação do Filho em termos que abrangem a preexistência na comunhão trinitária, assim como sua missão e presença na Igreja. Desde o versículo 15 até o 20 é um condensado de afirmações teológicas de grande significado, que merecem toda consideração, reflexão e interiorização e manifestam a magnitude e grandeza da pessoa de Jesus.
Vale destacar que “Ele, Jesus, é imagem do Deus invisível (...) porque Deus quis habitar nele com toda sua plenitude”. Com estas palavras se manifesta que Deus se tornou visível, acessível a toda pessoa e a experiência humana de todos os dias. Não é mais o Deus distante, no céu- entendido como outro mundo-, mas o Deus perto e próximo, quem se inclina sobre as misérias da pessoa e da humanidade para resgatá-la de sua lastimável condição.
Mais surpreendente, ainda é que nele “Deus quis habitar com toda sua plenitude”. Este “toda ” abre a mente e o coração à percepção de algo sensacional: Come pode toda plenitude habitar numa realidade humana, contingencial, no especo e no tempo ,nas cultura de um povo? Come pode o infinito e o imenso estar todo Ele no limite da condição humana?
A possível resposta está na ação na pratica Dele, na missão que desenvolveu. Pela característica dela, o que está em jogo é a realidade da entrega e do amor nos termos bem conhecidos e frisado pelo texto “por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Portanto, é a qualidade dos diferentes relacionamentos pessoais, sociais, com a natureza que conferem a dimensão de eternidade a tudo o que é passageiro, limitado e contingente.
De fato, a ação criadora, re-criadora, regeneradora de tudo e de todos está alicerçada na qualidade do relacionamento. Tudo pode ser construído ou destruído por ele; tudo pode terminar no nada ou adquirir plenitude de vida. “Ele é o Principio, o Primogênito (...) em tudo ele tem a primazia” se pode entender não só no sentido que tudo tem seu início, mas também a nascente de onde brota toda atitude e força que levam as pessoas, a sociedade e a natureza à plena realização.
Reconhecer e aceitar este princípio supõe manter e cultivar em si mesmo a correta atitude ética com a realidade mais verdadeira de si mesmo, que o evangelho deixa transparecer na pessoa do “bom malfeitor”.
Evangelho Lc 23,35-43
“Acima dele (Jesus) havia um letreiro: Este é o Rei dos Judeus”. Irônico e dramático: um rei crucificado! Desconcertante: como podia ter pretensões de Messias uma pessoa que termina sua vida na cruz? Era sentenciado que todo crucificado era um maldito de Deus! “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido”. É a última tentação à qual o evangelista apontava, após a vitória de Jesus sobre as tentações no deserto: “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). Se Jesus tivesse descido da cruz o demônio teria conseguido o resultado que não obtive com as tentações no deserto: o fracasso da missão de Jesus.
É impressionante constatar como a tentação radical e decisiva da própria vida se faz presente nos últimos e mais dramáticos momentos dela e nas condições mais favoráveis por ela e, ao contrário, mais desfavoráveis por Jesus, provado e debilitado pela trágica circunstância, conseqüente ao projeto e finalidade da própria vida e missão.
Contudo, a realeza Dele se configura exatamente por tudo isso! Que realeza mais diferente do que comumente se entende por ela! Ela é possível só se amar a Deus com todo o ser, alma e coração e ser sepultado nesse amor misterioso, confiante que a Promessa da vinda do reino se está manifestando e se visibilizará pelo mesmo evento.
Parece-me que este é o elo com a segunda parte do texto: o diálogo de Jesus com o “bom ladrão” no qual certifica a participação deste último ao evento da salvação que está acontecendo por meio e na pessoa de Jesus mesmo “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Com estas palavras Jesus manifesta a certeza de sua entrada na glória e, portanto, a vitória de sua missão. Com a sua entrega, com o oferecimento da totalidade de si mesmo ao Pai pelo Espírito, ele enxerga “a potencia da vida indestrutível”(Hb 7,16). Só assim podemos entender o surpreendente comportamento humano e psicológico de Jesus no evento da morte Dele.
Por que Jesus acolhe um malfeitor e deixa o outro? O que faz a diferença entre ele é a atitude para com Jesus. O primeiro simplesmente quer aproveitar da oportunidade “Salva-te a te mesmo e a nós”, diríamos, quer simplesmente “pegar carona”. O segundo, apesar de ser um malfeitor, manifesta um núcleo ético, como um núcleo sadio de sua personalidade, que lhe permite reconhecer objetivamente a condição de justo de Jesus e a própria de malfeitor “Nem sequer temes a Deus (...)? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”.
Este núcleo sadio, mantido por temer a Deus, será o “espaço” a brecha da ação do Espírito, como foi na conversão de são Paulo. Ele- Paulo- era um temente de Deus, pretendia servir a Deus com dedicação total, só que estava no caminho errado. A ação de Deus encontrou o terreno fértil nesta brecha e pode entender o significado e a importância do evento Pascal, não sendo um dos apóstolos que segui Jesus durante a missão dele. Assim como, com certeza, não foi discípulo o malfeitor, bem percebendo a realidade de justo de Jesus.
Portanto, parece-me que a atenção e o cultivo do núcleo ético permitem a todo homem ter condição de se abrir positivamente ao evento da Páscoa e fazer dessa percepção o hoje da salvação.
Portanto, o “hoje” é o hoje de todos os dias, o momento da conversão “Jesus, lembra-te de mim, quando entrarás no teu reinado”. Tal vez, não tendo ciência totalmente esclarecida do que estava pedindo, contudo, tinha a convicção de que Jesus estava alcançando a meta que pregou e pela qual foi enviado.
A realeza de Jesus é esta oportunidade de salvação em todo momento e condição, que pode ser percebida só se não destruímos em nós a raiz ética que permite reconhecer e aceitar o que realmente somos, sem máscaras e sem medos.
Com poucas palavras é narrado um dos acontecimentos fundamentais da história do povo de Israel: Davi é ungido rei e reconhecido por todas as tribos de Israel. Acontece no momento da unidade Nacional , pois, Davi, habilidosamente, escolhe Jerusalém como capital, ponto de união, no confino dos dois reinos anteriores e, assim, manter a eqüidistância.
O povo se reconhece na pessoa do rei como “Somos teus ossos e tua carne”. Não é só uma indicação antropológica, mas existencial, pois abrange a vivencia toda do povo e de sua tradição. O povo reconhece nele um autentico representante dos sentimentos, das expectativas e do sonho dele “Tempo atrás, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel”.
Nesse contexto Deus lhe confia a missão: “Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o seu chefe”. Apascentar significa cuidar, proteger, orientar, guiar, socorrer etc. Essas,devem ser as atitudes próprias do chefe no desenvolvimento da missão em sintonia com o mandato recebido. Com efeito, a missão do rei é salvar, pois, é representante do Deus Salvador. Sua missão é de proteger os mais indefensos, particularmente o pobre, a viúva e o estrangeiro, mais expostos à exploração, à prevaricação dos prepotentes.
Ao rei Deus lhe confia vigiar e incentivar o que for necessário, para o cumprimento das exigências e características da Aliança, de maneira que o sonho de liberdade, começado com a saída da escravidão do Egito, se consolide cada vez mais na pratica da vida do povo. Ele é o garante humano, como representante de Deus, da Aliança, e com ela, do sonho de Israel de se conformando como povo eleito, como povo de Deus, modelo a ser apresentado a todas às Nações.
O reconhecimento de Deus e do povo é indicado pelas palavras “O rei Davi fez com eles uma aliança em Hebron, na presença do Senhor, e eles o ungiram rei de Israel”. A unção é sinal de consagração que o separa de outra finalidade, de outra causa, que não for o cumprimento da missão que acaba de assumir. De fato, com seus altos e baixos, com seus trancos e barrancos, o reinado de Davi e de seu filho Salomão serão lembrado como o período de ouro da historia de Israel.
Contudo, a história de Israel testemunha, começando pelos filhos de Salomão, a sucessão de reis fieis e infiéis à Aliança, prevalecendo aqueles que levarão o povo ao afastamento do correto entendimento da mesma, apesar da presença dos profetas cuja missão será chamar a atenção aos governantes de sua obrigação específica.
Do ponto de vista da bíblia, a conseqüência de tudo isso será desastrosa para a vida do povo, como a mesma testemunha pelos muitos acontecimentos ruins. Irá se formando a idéia e a espera de um Messias, de um novo ungido que restaurará a gloria dos tempos de Davi e Salomão.
Do ponto de vista cristão essa espera se cumprirá com a vinda de Jesus.
2da leitura Cl 1,12-20
O texto é um hino de agradecimento. Ele reconhece que a iniciativa da salvação é do Pai, por meio do Filho “por quem temos a redenção, o perdão dos pecados”. Isso significa ser capacitado “de participar da luz, que é a herança dos santos”. Com outras palavras, entrosar e mergulhar na vida e na comunhão com Deus. Eis, então, a atitude de agradecimento: “ Com alegria dai graças ao Pai”.
O agir do Pai é fonte inspiradora e modelo do agir do rei, pois, como tocava na 1ª leitura, a missão dele é a salvação de toda pessoa e do povo. É Jesus o modelo histórico do agir do rei, sobretudo pelo significado e importância do mistério Pascual pelo qual amou “até o fim” (Jo 13,1).
Eis, então, a exaltação do Filho em termos que abrangem a preexistência na comunhão trinitária, assim como sua missão e presença na Igreja. Desde o versículo 15 até o 20 é um condensado de afirmações teológicas de grande significado, que merecem toda consideração, reflexão e interiorização e manifestam a magnitude e grandeza da pessoa de Jesus.
Vale destacar que “Ele, Jesus, é imagem do Deus invisível (...) porque Deus quis habitar nele com toda sua plenitude”. Com estas palavras se manifesta que Deus se tornou visível, acessível a toda pessoa e a experiência humana de todos os dias. Não é mais o Deus distante, no céu- entendido como outro mundo-, mas o Deus perto e próximo, quem se inclina sobre as misérias da pessoa e da humanidade para resgatá-la de sua lastimável condição.
Mais surpreendente, ainda é que nele “Deus quis habitar com toda sua plenitude”. Este “toda ” abre a mente e o coração à percepção de algo sensacional: Come pode toda plenitude habitar numa realidade humana, contingencial, no especo e no tempo ,nas cultura de um povo? Come pode o infinito e o imenso estar todo Ele no limite da condição humana?
A possível resposta está na ação na pratica Dele, na missão que desenvolveu. Pela característica dela, o que está em jogo é a realidade da entrega e do amor nos termos bem conhecidos e frisado pelo texto “por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Portanto, é a qualidade dos diferentes relacionamentos pessoais, sociais, com a natureza que conferem a dimensão de eternidade a tudo o que é passageiro, limitado e contingente.
De fato, a ação criadora, re-criadora, regeneradora de tudo e de todos está alicerçada na qualidade do relacionamento. Tudo pode ser construído ou destruído por ele; tudo pode terminar no nada ou adquirir plenitude de vida. “Ele é o Principio, o Primogênito (...) em tudo ele tem a primazia” se pode entender não só no sentido que tudo tem seu início, mas também a nascente de onde brota toda atitude e força que levam as pessoas, a sociedade e a natureza à plena realização.
Reconhecer e aceitar este princípio supõe manter e cultivar em si mesmo a correta atitude ética com a realidade mais verdadeira de si mesmo, que o evangelho deixa transparecer na pessoa do “bom malfeitor”.
Evangelho Lc 23,35-43
“Acima dele (Jesus) havia um letreiro: Este é o Rei dos Judeus”. Irônico e dramático: um rei crucificado! Desconcertante: como podia ter pretensões de Messias uma pessoa que termina sua vida na cruz? Era sentenciado que todo crucificado era um maldito de Deus! “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido”. É a última tentação à qual o evangelista apontava, após a vitória de Jesus sobre as tentações no deserto: “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). Se Jesus tivesse descido da cruz o demônio teria conseguido o resultado que não obtive com as tentações no deserto: o fracasso da missão de Jesus.
É impressionante constatar como a tentação radical e decisiva da própria vida se faz presente nos últimos e mais dramáticos momentos dela e nas condições mais favoráveis por ela e, ao contrário, mais desfavoráveis por Jesus, provado e debilitado pela trágica circunstância, conseqüente ao projeto e finalidade da própria vida e missão.
Contudo, a realeza Dele se configura exatamente por tudo isso! Que realeza mais diferente do que comumente se entende por ela! Ela é possível só se amar a Deus com todo o ser, alma e coração e ser sepultado nesse amor misterioso, confiante que a Promessa da vinda do reino se está manifestando e se visibilizará pelo mesmo evento.
Parece-me que este é o elo com a segunda parte do texto: o diálogo de Jesus com o “bom ladrão” no qual certifica a participação deste último ao evento da salvação que está acontecendo por meio e na pessoa de Jesus mesmo “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Com estas palavras Jesus manifesta a certeza de sua entrada na glória e, portanto, a vitória de sua missão. Com a sua entrega, com o oferecimento da totalidade de si mesmo ao Pai pelo Espírito, ele enxerga “a potencia da vida indestrutível”(Hb 7,16). Só assim podemos entender o surpreendente comportamento humano e psicológico de Jesus no evento da morte Dele.
Por que Jesus acolhe um malfeitor e deixa o outro? O que faz a diferença entre ele é a atitude para com Jesus. O primeiro simplesmente quer aproveitar da oportunidade “Salva-te a te mesmo e a nós”, diríamos, quer simplesmente “pegar carona”. O segundo, apesar de ser um malfeitor, manifesta um núcleo ético, como um núcleo sadio de sua personalidade, que lhe permite reconhecer objetivamente a condição de justo de Jesus e a própria de malfeitor “Nem sequer temes a Deus (...)? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”.
Este núcleo sadio, mantido por temer a Deus, será o “espaço” a brecha da ação do Espírito, como foi na conversão de são Paulo. Ele- Paulo- era um temente de Deus, pretendia servir a Deus com dedicação total, só que estava no caminho errado. A ação de Deus encontrou o terreno fértil nesta brecha e pode entender o significado e a importância do evento Pascal, não sendo um dos apóstolos que segui Jesus durante a missão dele. Assim como, com certeza, não foi discípulo o malfeitor, bem percebendo a realidade de justo de Jesus.
Portanto, parece-me que a atenção e o cultivo do núcleo ético permitem a todo homem ter condição de se abrir positivamente ao evento da Páscoa e fazer dessa percepção o hoje da salvação.
Portanto, o “hoje” é o hoje de todos os dias, o momento da conversão “Jesus, lembra-te de mim, quando entrarás no teu reinado”. Tal vez, não tendo ciência totalmente esclarecida do que estava pedindo, contudo, tinha a convicção de que Jesus estava alcançando a meta que pregou e pela qual foi enviado.
A realeza de Jesus é esta oportunidade de salvação em todo momento e condição, que pode ser percebida só se não destruímos em nós a raiz ética que permite reconhecer e aceitar o que realmente somos, sem máscaras e sem medos.
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