segunda-feira, 28 de março de 2011

4to DOMINGO DA QUARESMA-A-(03-04-11)

1ª leitura 1Sm 16,1b.6-7. 10-13ª O texto apresenta um momento muito importante da história do povo de Israel: a consagração de Davi como rei de Israel. O relato coloca em evidencia o critério da escolha. Samuel, o profeta do Senhor, é chamado para esta missão. Vendo o primogênito de Jessé, Eliab, considera a importância da primogenitura e do aspecto físico e conclui “Certamente é este o ungido do Senhor!”. Eis, então, a resposta do Senhor “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu i rejeitei”. O motivo da não aceitação é colocado a continuação “Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”. É o coração o centro motor de toda a pessoa, o que determina os critérios e a motivação das escolhas e do agir. Nele estão posto os olhos do Senhor. O homem não tem condição nem capacidade e, as vezes, nem vontade de chegar até lá. Ele fica deslumbrado e conformado com as aparências. Muitas vezes ele mesmo age em nível das aparências, para ganhar o consenso e a admiração dos outros. Entre os filhos, o que tinha menos consideração pelo pai “Estão aqui todos os teus filhos?. Jessé respondeu : resta ainda o mais novo que está apascentando as ovelhas’’ é escolhido pelo Senhor “Levanta-te , unge-o: é este! (“...) e a partir daquele dia o espírito do Senhor se apoderou de Davi”. A diferença entre os critérios dos homens e o critério e Deus alerta com respeito às referencias que conformam a autenticidade ou menos dos valores a serem tomados em consideração na avaliação do melhor para a existência humana. Assim como é fácil se deixar enganar quando conduzidos pela exterioridade e superficialidade das aparências. Mas, como chegar ao coração humano? Como discernir a autenticidade e a verdade dos sentimentos, das palavras, dos atos? Não nos conhecemos completamente a nós mesmos; como conhecer aos outros na verdade do ser e dos sentimentos deles? É um caminho não fácil e demorado, cheio de armadilhas e de enganos. È preciso caminhar nele na autenticidade do próprio ser e dos próprios sentimentos, com atenção aos sentimentos e atitudes e escolhas dos que nos acompanham, conscientes da ambigüidade de toda pessoa. A desconfiança é rainha da circunstância e também elemento que suscita a prudência no falar e no agir. Contudo, ele deve se vencida pelo amor à verdade e ao bem. A transparência será a condição para perceber a autenticidade da pessoa. É como a marca de água da bondade e autenticidade do produto. Portanto, é a base fundamental da verdadeira amizade e comunhão entra as pessoas. Nela se manifesta a verdade da pessoa e Aquele a que esta nela e ultrapassa a ela mesma... A transparência é luz que vence as trevas do engano e do mal, como incida a segunda leitura. 2da leitura Ef 5,8-14 Paulo define a condição dos cristãos, a passagem da treva à luz pela adesão aos efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo “Outrora éreis trevas, mais agora sois luz no Senhor”. Trata-se da transformação radical que afeta todo o ser da pessoa em todos os níveis. Ela é uma nova criatura. Portanto, a conseqüência é evidente: “Vivei como filhos da luz”. Evidentemente, a maneira de viver deve-se ater à maneira de ser. Um cachorro não pode se comportar como cavalo, por exemplo, pois, é cachorro e não cavalo. Portanto, o cristão é luz e deve-se comportar nele como luz, que ilumina todo homem que vem no mundo. “E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade”. Com efeito, os três termos abrangem a totalidade da ação salvadora a favor da pessoa. O que é bom em ordem à identificação com Cristo, ao estilo de vida a missão dele e, sobretudo, ao dom de si mesmo para que a boa noticia do evangelho se torne boa realidade é cumprir toda justiça, é fazer a verdade. Positivamente, o apostolo exorta “Discerni o que agrada ao Senhor”, e negativamente “Não vos associes às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as”. Assim, viver como filhos da luz e produzir bons frutos são uma atividade da inteligência, do coração aberto e, ao mesmo tempo, uma luta contra as forças adversas. O que agrada ao Senhor é a salvação, ou seja, que a pessoa seja autentica no dom de si mesma, para sustentar e animar a comunhão na diversidade. O discernimento entre o certo e o errado vai muito além das normas e leis que pretendem estabelecê-lo. Todo sabe da diferença entre e lei e o espírito da mesma. E como esta diferença abre um amplo espaço de considerações e com elas margens de criatividade nas respostas, que podem ir até muito longe da letra da lei. Por outro lado, é preciso manter distancias das “obras das trevas”. Isto supõe ter clareza dos mecanismos, da lógica intrínsecas delas, que conseguem trazer em enganos a apresentar como correto e bom o que não é. As trevas “brincam” muito com a astúcia, o melhor, com a meia verdade, escondendo aquela parte que se manifestará como engano só depois ter aderido à proposta. Muitas vezes, infelizmente, não há possibilidade e condição de retorno. O discernimento é um ver e perceber a realidade de maneira certa e com a maior amplitude possível. Nesse sentido é preciso o dialogo e a contribuição de outros, assim como a humildade de considerar o próprio ponto de vista como a vista e um ponto. Portanto, toda analise, bem que necessária terá um caráter provisional. Contudo, é necessário proceder ao julgamento e discernir o certo do errado à luz do critério acima indicado. A bondade do discernimento aplicado na vida da pessoa e na realidade social, será comprovado pelos frutos, evidentemente, orientados à meta e ao sentido último da existência. É esta capacidade e condição de ver que o evangelho frisa. Evangelho Jo 9,1-41 Ponto de partida: “Os discípulos pergunta a Jesus: Mestre, quem pecou para que nascesse cego”. A resposta “Nem ele nem seus pais pecaram” quebra uma tradição, um entendimento teológico consolidado. Jesus acrescenta o que será o pano de fundo para entender o que a continuação vai acontecer “mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. É necessário que nós (inclui os discípulos) realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia (enquanto ele está presente). Vem a noite ( com a morte dele na cruz), em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo,eu sou a luz do mundo”. Esta luz devolve a visão ao cego, por meio da confiança dele na indicação e na palavra de Jesus. De imediato surgem divergências entre o povo: quem diz que é ele, quem não é outro, apesar de afirmar ser ele mesmo agraciado pela ação de Jesus. Então, o povo se dirige aos fariseus - os religiosos “doc” da época, os quais sentenciam com base na própria pratica e sustentados da teologia dos escribas: “Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado (...). Como pode um pecador fazer tais sinais?”. A alternativa é negar que seja pecador ou negar o sinal. Escolhem a segunda e se empenham com todos os meios e a argumentação necessária para mostrar a bondade da própria atitude. Perante a surpreendente argumentação e ironia do agraciado “Se ele é pecador, não sei (...). Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?” e, a continuação, o polêmico dialogo com diferentes argumentações de um lado e do outro, os fariseus se fecham, não querem ver “Tu nasceste no pecado e estás nos ensinando?”. E sentenciam a expulsão do homem da comunidade. O verdadeiro cego são eles, não querem ver as obras de Deus, a teologia deles o impede. Entre parêntesis, algo parecido está acontecendo também na Igreja. Ela está se enforcando com a doutrina dela, com respeito à exclusão da comunhão eucarística dos divorciados que convivem com o segundo relacionamento. Para estes aceder à comunhão deveriam matar o cônjuge ou não fazer sexo. A Igreja escolheu a segunda, se refugiando na comunhão espiritual e desvalorizando a Eucaristia que ordena comer e beber. E tudo para salvar a doutrina! Espera-se que pronto a Igreja elabore uma saída mais adequada. Jesus sai ao encontro com o expulsado e lhe pergunta “Acreditas no filho do Homem? (...) . Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”, à qual responde com a profissão de fé “Eu creio, Senhor! E prostrou-se diante de Jesus”. Assim, a teologia dos fariseus é como uma aparência, para retomar o sentido da primeira leitura. Não manifesta o sentir e o coração de Deus. Fica como na exterioridade e possibilita entender ou enxergar as coisas só de maneira superficial. Apesar de eles terem entendido o significado da ação e das palavras de Jesus ao ponto que disseram “Porventura, também nós somos cegos?”, não conseguem dar um passo para frente. Daí a dramática conclusão de Jesus “Se fosseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: Nós vemos, o vosso pecado permanece”. Então, Jesus liga com a afirmação inicial do texto que originou tudo o que seguiu “Mestre, quem pecou para que nascesse cego, ele o seus pais?”. Cuidado em discernir corretamente o que é realmente o pecado e onde ele está presente com toda sua força e poder, até o ponto não permitir enxergar a obra de Deus, que além de devolver a visão e a vida oferece uma nova compreensão, uma nova teologia que aproxima e gera a verdadeira comunhão com Ele.

segunda-feira, 21 de março de 2011

3ro DOMINGO DA QUARESMA-A-(27-03-11)

1ª leitura Ex 17,3-7

“Por que nos fizeste sair do Egito?” Pergunta altamente dramática do povo, que questiona o agir tudo de Deus. Assim, a libertação da escravidão do Egito, o pacto da Aliança no Sinai, rumo a realização da Promessa da terra prometida onde haverá “leite e mel”, estão se mostrando como um engano, uma trágica ilusão, à luz do momento específico da falta de água no deserto.
A conclusão imediata do povo é que foi uma tolice. Daí o constrangimento e o susto de Moises “Que farei por este povo? Por pouco não me apedrejam!”. Com efeito, há momentos e circunstâncias da vida pessoal e social que motivam a mesma pergunta: por que tudo isso? O que está acontecendo nada tem a ver com os pressupostos anteriores e o seu desenvolvimento! Mai ainda, parece que a atualidade é negação deles e da caminhada feita. Será que foi ilusão. Será que Deus me (nos) abandonou? “O Senhor está no meio de nós, ou não”
Esta experiência é comum a muitos místicos que no caminho de aproximação a Deus experimentam todo do contrário daquilo que de tal processo é licito esperar. Sentem em si mesmo a falta de algo vital para a própria existência, ao ponto de duvidar se realmente estão no caminho certo ou no desvio, devido a um não sei que de involuntário que aconteceu muito além da própria intencionalidade, mas que de fato está criando e motiva a situação na qual eles estão.
Nestas circunstâncias tudo indica que Deus está renegando sua promessa. O desconcerto e o abalo são de tal magnitude que mexe com todo o ser da pessoa. São momentos humanamente terríveis, como o seria a falta de água no deserto. Cada pessoa pode imaginar a alcance desta experiência. Contudo, quando ela acontece, sempre a encontra não preparada e inadequada em sustentá-la devidamente.
A atitude primeira deverá ser a de Moises “Moises clamou ao Senhor”: interpelar diretamente o Senhor mesmo : Que fazer? A resposta só ele tem condição de oferecê-la.
Deus lembra a Moises o gesto prodigioso da divisão das águas no mar vermelho, como para dizer que a resposta terá uma saída inesperada, como foi então “Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai” e manda cumprir um gesto surpreendente “Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber”. E assim foi.
Cabe perguntar o porquê desta maneira de Deus agir. O que pretendia conseguir, comprovar, afirmar com esta sua atitude? Mais ainda, sabendo da fraqueza e da inconsistência do povo que libertou do Egito?
Uma resposta possível seria que o povo tomasse consciência da pouca consistência da confiança no Deus libertador, do Deus da Aliança e do Deus da Promessa, os três aspetos sobre os quais apóia ao correto relacionamento com Ele. Daí tomasse ciência da certeza de Deus como Senhor da historia e presente na caminhada do seu meio de toda dificuldade.
Com isso, afirmar a sua realidade como o Senhor fiel, que mantém a promessa feita aos pais. Promessa na qual sempre devem confiar e que situações como aquela que acabam de passar é oportunidade para comprovar como esta certeza esmorece se não prestam ou tomam as devidas providencias.
É a mesma lógica e advertência da segunda leitura.

2da leitura Rm 5,1-2.5-8

“Justificados pela fé”. Eis a famosa afirmação revolucionária de são Paulo. Somos constituídos justos perante de Deus “estamos em paz com Deus”, pelo nosso representante e mediador o “Senhor nosso Jesus Cristo”. É a afirmação central de todo o Novo Testamento, que revolucionou o entendimento sobre o cumprimento da missão de Jesus.
“Por ele- Jesus Cristo- tivemos acesso, pela fé, a esta graça”. O dom gratuito da justificação, realizado pela morte e ressurreição de Cristo, se torna eficaz na pessoa “pela fé”, pelo voto de confiança no doador e por aceitá-lo atuante e eficaz em nós, aqui e agora. Prova disso é se perceber, profundamente amados por um amor imerecido, desconcertante e surpreendente. O efeito é se sentir transformado e renovado interiormente, em paz com Deus e com todos. É o que Paulo chama de “nova criatura”.
É por esta “graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos” que sustenta e motiva a esperança futura, a “esperança da glória de Deus que (...) não decepciona”. É a esperança de que, com a implantação última e definitiva do reino de Deus com a volta do Ressuscitado, participaremos em forma plena da vida da Trindade pela qual “Deus será tudo em todos”(1Cor 15,28).
A causa disso é “porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. É o Espírito Santo, o Deus- Amor o Deus- Vida, que conduz Jesus até a entrega da própria vida na cruz “a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”.
É o amor conformado pela certeza e paixão pela verdade com respeito ao caminho indicado no desenvolvimento da missão. Caminho, que por um lado mexe com a vida pessoal e social já consolidada, abala a fé no Deus tradicionalmente elaborada e determinada nos seu por menores. Pelo outro lado, não hà outro caminho possível, não hà alternativa.
Este amor, conformado pela certeza, é selado e aprovado pela ação do Espírito Santo. Sua realização concreta se desenvolve na total gratuidade, que lhe confere o que é próprio do amor: a ação radicalmente desinteressada, sem vestígio de segundas intenções e totalmente orientada a favor dos homens.
Ela ressalta ainda mais quando estes não têm a menor condição de perceber algo do que está acontecendo a favor “ quando éramos ainda fracos,Cristo morreu pelos ímpios (...) a prova que deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. Portanto, não tinham condição nenhuma de entender e menos ainda de responder positivamente, ainda seja parcialmente.
Assim, a Amor puro, como aquele desenvolvido na total gratuidade, sustenta positivamente a tremenda experiência de solidão de Jesus. Os evangelhos relatam como ele a enfrenta com determinação e coragem, manifestando surpreendentemente equilíbrio humano, psicológico, moral e espiritual, pela presença do amor puro, ou seja, o Espírito santo.
Esta atitude está no fundo do relacionamento de Jesus com a samaritana, como o evangelho relata.

Evangelho Jo 4,5-42

É o diálogo entre dois pontos extremos. Por um lado o Messias, o filho de Deus, e pelo outro um sujeito com três prerrogativas que pioram as coisas: mulher, samaritana e pecadora. Mais ainda, em público. A reação dos discípulos é significativa “os discípulos ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher”.
A mulher manifesta seu preconceito religioso “Como é que tu, sendo judeu, pedes a beber a mim, que sou mulher samaritana?”. Jesus deixa cair a provocação e suscita a investigação da mulher e a perplexidade dela com respeito à sua identidade “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede”.
Não consigo discernir se a afirmação da mulher, a conclusão da conversa sobre a água, “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tinha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” seja uma resposta de conveniência, de ironia, de curiosidade ou a abertura interior para um novo entendimento.
De toda maneira é Jesus que provoca o passo seguinte “Vai chamar teu marido e volta aqui”, pelo qual ela descobre em Jesus um profeta: “Senhor, vejo que és um profeta”. Portanto, coloca para ele um assunto muito debatido, e só um profeta poderia responder corretamente “Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”.
A resposta de Jesus “... Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura” centraliza o lugar do culto na pessoa e tem como sua correta expressão a atitude interior. A adoração do Pai "em espírito e verdade” não é um culto que rejeita a manifestação pública e exterior, mas o culto que se desenvolve sob o impulso do Espírito e na verdade de Jesus e que faz da pessoa o verdadeiro testemunha da ação e presença de Deus, em continuação da missão de Cristo.
A resposta de Jesus abre um novo horizonte e sustenta uma perspectiva renovadora, capaz de sair do beco sem saída. Ela suscitou na mulher a consideração de que, tal vez, este desconhecido judeu, possa ter a ver alguma coisa com o Cristo “Sei que o Messias vai chegar”. E, conseguintemente, manifesta a expectativa com respeito ao específico contributo do mesmo “Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas”.
Motivo suficiente para que Jesus abra o jogo, e revele abertamente sua identidade “Sou eu, que estou falando contigo”. O impacto foi muito grande, com certeza ela não esperava colocação alguma dste tipo.A reacao dela è muito significativa "A mulher deixou o cântaro e foi à cidade dizendo ao povo”. Tomada por uma intuição singular, quase certeza, foi proclamando “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?”. Contudo, o testemunho dela, com respeito à condição profética de Jesus, foi suficientemente forte para atrair a atenção do povo sobre a pessoa de Jesus “Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus por causa da palavra da mulher que testemunhava: Ele me disse tudo o que fiz”.
Foi o passo intermédio para chegar ao ponto final: a conversão e a adesão a Cristo “E disseram a mulher: Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo”.
Enorme a distancia entre o momento inicial e o final do relato. Ele indica o caminho e o processo de conversão. Sem entrar em maiores considerações, contrasta tudo isso com a atitude e o dialogo de Jesus com os discípulos. Estes ficam totalmente à margem do processo, pois, não entendem nada do que está acontecendo.
Mas também o dialogo manifesta que para eles o caminho de conversão tem outras mediações, outro conteúdo, outro caminho.

domingo, 13 de março de 2011

2do DOMINGO DA QUARESMA-A-(20-03-11)

1ª leitura Gn 12,4-4ª

Esclarecida a finalidade e os meio oportunos para o desenvolvimento da missão (1º domingo da Quaresma), começa a viagem. Ponto de referencia importante é a experiência de Abrão “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar”. A proposta è pelo menos desconcertante para um casal de anciãos, pois, trata- se de começar um novo caminho, abandonar hábitos e costumes consolidados; abandonar casa e afetos familiares para uma meta indefinida que será revelada no caminhar mesmo.
A sustentar o chamado está uma promessa entusiasmante e, ao mesmo tempo, mais desconcertante ainda em consideração da velhice e esterilidade do casal: “Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma benção”.
O Senhor carrega sobre as costas de Abrão uma responsabilidade singular: “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”. Com esta afirmação Deus indica que a família de Abrão será modelo para todas as famílias da terra, em virtude do cumprimento da promessa que fará dela- uma família estéril na atualidade - um grande povo abençoado numeroso como as estrelas no céu e os grãos de areia da praia do mar.
É uma passagem surpreendente, estrepitosa e maravilhosa, realizada quando devido à idade e à condição irreversível do ponto de vista humana, como a esterilidade, há coragem e ousadia em esperar no futuro garantido pela promessa de Deus.
A promessa nunca se cumprirá plenamente na condição terrena. O mesmo Abrão, depois das diferentes provações, viu o nascer de pessoas que futuramente darão origem ao povo da promessa. A promessa sempre será promessa.
Contudo, haverá condições para perceber que a condição atual é participação de algo maior que configura a realidade da promessa. Com isso, há a certeza que a promessa não é fantasia ou simples projeção do desejo humano. Esta participação encherá o coração de alegria e selará a convicção que valeu confiar ousadamente na promessa do Senhor.
Cabe perguntar se a crise que atinge muitos núcleos familiares, não encontre sua motivação exatamente por se terem fechados sobre si mesmos, no âmbito dos relacionamentos protegidos pelo ambiente, pelos afetos entre parentes e amigos, cercando a própria vivencia como por um muro de proteção, contra todo o que podia modificar o equilíbrio alcançado.
O preço é a esterilidade. Uma vida que não gera vida nos outros, nem para si mesmo. A vida se seca como árvore sem água... Daí a caída em todo comportamento permissivo, auto referencial, voltado a procurar emoções e manter uma espécie de sentido da vida e uma “segurança” que terá efeito contrário.
O salmo reza “Mesmo no tempo da velhice darão frutos, cheios de seiva e de folhas verdejantes” (Sl 91,15). A condição é a obediência
“Abrão partiu, como o Senhor lhe havia dito”. Quais sentimentos, quais emoções, que certezas e duvidas carregasse consigo não se sabe. Só deu voto de confiança a Deus e foi embora. Ele é chamado no Novo Testamento como pai da fé.
Aceitar o chamado de Deus é a resposta a um dom transformador da própria vida, como frisa a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 1,8b-10

A prisão de Paulo abateu Timóteo. Na vida passamos por muitos abatimentos. Provações, dificuldades, obstáculos imprevistos etc., geram desconforto, abatimento, um sentimento de mal estar que questiona o exercício e o desenvolvimento da missão.
Paolo e dirige ao amigo “Caríssimo: sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus”. Propor a morte e ressurreição de Cristo -é o Evangelho de Paulo- como eixo do correto relacionamento com Deus, raiz e fonte da salvação da pessoa e da humanidade, encontrará em todo lugar e em todo tempo incompreensões a adversidades, pela subversão da vida pessoal e social que isso acarreta.
Contudo, lembra a Timóteo “Deus nos salvou e nos chamou a uma vocação santa”. Um chamado pelo qual está no mundo mas não pertence ao mundo. É santo, é separado do mundo. Não pelos próprios méritos, mas pela graça de Deus oferecida gratuitamente no evento da morte e ressurreição de Jesus “graça, que nos foi dada em Cristo Jesus (...) revelada gora, pela manifestação do nosso salvador, Jesus Cristo”.
É o dom que revela e manifesta Jesus Cristo como salvador, pelo fato que Ele representa Deus perante a humanidade e, também, representa a humanidade caída no nível mais baixo (“o Verbo se fez carne”,ou seja, humanidade corrompida, mesmo não sendo pecador) perante Deus Pai.
Portanto, representante e representado estão estritamente unidos, de maneira que o que acontece no primeiro é como se estivesse acontecendo no segundo. Vale especificar que não se trata de substituição, pois, a pessoa substituída, dizemos assim, sai da cena. Pelo contrario, representante e representado caminham juntos.
“Ele não só destruiu a morte...”. Com a entrada do pecado, entrou a morte no mundo. Com a morte do pecado, pois, não consegui dobrar Jesus à suas expectativas e desejos. Portanto, o pecado perdeu o seu poder, a morte é desligada dele e é vencida, mesmo passando por ela. Prova disso é a marca dos pregos e o lado aberto, sinal de morte. Eles não desaparecem nem são fechados, mas são esvaziados do poder da morte e manifestam a vida surpreendente na pessoa do ressuscitado.
“... como também fez brilhar a vida e a imortalidade pro meio de Evangelho”, ou seja, por meio do evento da ressurreição. Cabe especificar que morte e ressurreição estão intima e profundamente ligados pelo amor. Não são eventos separados. O amor da entrega, pela resistência ao pecado “até o fim”, é o mesmo amor pelo qual o Espírito e o Pai ressuscitam Jesus Cristo em. Em virtude disso “faz brilhar a vida e a imortalidade”.
Aquele brilho e imortalidade que acompanhou a transfiguração.

Evangelho Mt, 17,1-9

“Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha”. São os mesmos três que chamará consigo para rezar na quinta feira-santa, no jardim das oliveiras. A alta montanha sempre faz referencia ao lugar da manifestação de Deus.
“E foi transfigurado diante deles...” Evento desconcertante e surpreendente, também porque lhes apareceram “Moises e Elias, conversando com Jesus” O primeiro representa a Lei (a Constituição, diríamos hoje), da vida social e pessoal do povo, expressão da Aliança com Deus. O segundo, a atividade profética, cuja missão era chamar constantemente o povo ao respeito da Aliança na interpretação e execução correta da Lei.
Lei e Profetas conversam sobre a entrega de Jesus em Jerusalém. Deus Pai e o Espírito Santo manifestam o seu consentimento. O segundo, como “nuvem luminosa os cobriu com suas sombras” consagrando-o como o novo profeta. O primeiro, com as palavras do profeta Isaias, que apontam ao Servo de Javé. Ele, Jesus, deverá entregar sua vida para o resgate do povo “Este é o meu Filho, amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o” Jesus será a nova Lei. A nova Lei será a entrega incondicional, gratuita e desinteressada. E o Espírito a força e a dinâmica do amor na qual e pela qual se entrega.
Merece destaque a atitude de Pedro “Senhor é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer três tendas: uma para ti, outra para Moises e outra para Elias”. Ela revela que foi bem longe de entender o significado do que estava acontecendo. Ficou fascinado do mesmo, e quis como reter o tempo e os acontecimentos. Ficar com os dois teria significado renunciar à missão. Por outro lado, que mais podia desejar se não permanecer como espectador perante tal manifestação. Ela apaga totalmente as expectativas e desejos dos homens. Se Jesus tivesse cumprido a indicação de Pedro, sua missão teria esvanecida. Nesse sentido, a intervenção de Pedro tem uma dimensão demoníaca, apesar das aparências contrárias.
A manifestação do Pai e do Espírito os deixou assustados, o desconcerto foi grande “ficaram muitos assustados e caíram com o rosto em terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: levantai-vos, e não tenhais medo”. A incompreensibilidade do evento e a resposta negativa à colocação de Pedro os deixaram sem entender o que realmente estava acontecendo. Acrescenta-se a manifestação divina, a voz e a nuvem. Então, o abalo foi total.
Contudo, Jesus tem duas atitudes importantes. Primeira, se acerca os levanta da prostração, manifestação de adoração e de desconcerto ao mesmo tempo, e os anima a não ter medo. Nenhuma palavra de demérito, de chamada de atenção, de desilusão com respeito à atitude deles. Jesus entende a dificuldade deles. Os anima a não ficar com o rosto em terra, sinal de submissão, os levanta, fala para eles de não ter medo, pois, devem caminhar com ele não como simples espectadores, mas como colaboradores, depois dos eventos aos quais a transfiguração aponta.
Jesus consciente de tudo isso ordenou “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dentre os mortos”. Só então terão plena ciência do que significou participar da transfiguração.
Mas apesar disso, não entenderam. Prova está que no momento da cruz ficaram totalmente abalados e de nada serviu participar do evento tão grandioso e significativo. Tudo isso diz muito com respeito às etapas e aos eventos que acompanham a aproximação à experiência e divinização da humanidade de Jesus, ou seja, ao nosso mesmo processo que Jesus antecipou na sua pessoa. Chegar a ele e com ele, e, sobretudo, estar nele passa pelo escândalo da cruz que nem o evento tão importante como a transfiguração consegue diminuir ou amenizar.
Pelo contrario, o evangelho de Lucas, depois de ter relatado o mesmo evento, frisa “Então ele- Jesus- tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”(Lc 9,51). A transfiguração confirmou o caminho que já havia discernido nas tentações. O incentiva e motiva entrar diretamente no desconcerto com a certeza de que ele faz parte do processo da ressurreição.