O que chama a atenção, de imediato, é o grande contraste entre a realidade de Deus e do homem. Por um lado a imensidade de Deus e, pelo ouro, a pobreza e humildade do homem.
Os primeiros quatro versículos descrevem a auto-manifestação de Deus com expressões que inculcam a transcendência divina, a excelsa e universal força de Deus “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; toda a terra está repleta de sua glória” Repetir três vezes “santo” é a maneira de indicar a absoluta imensidade e grandeza – com o termo pouco usado comumente, transcendência- de Deus, que supera sempre toda imaginação e expectativa humana. Manifestar-se como Deus dos exércitos, significa afirmar que nenhum poder e força humana podem contrastar ou vencer Ele.
É manifesto, dessa forma, o mistério de Deus que, por um lado, suscita temor e respeito por sua realidade infinita e, pelo outro, é surpreendentemente próximo ao homem, à sua criação. Assim, é ao mesmo tempo um Deus distante e próximo. A isso apontam as palavras “toda a terra está repleta de tua glória” Com efeito, falar da glória de Deus pode indicar a imensidade misteriosa de Deus, inalcançável à criatura. Nesse sentido, trata-se do Deus distante. Mas, também, é o Deus próximo, pois, algo dessa imensidade é percebida e manifesta na criação, nas pessoas e na convivência humana.
A continuação, eis a reação do homem e o envolvimento dele perante a manifestação de Deus. De imediato, surge nele o tremor e o sentimento de indignidade: “Ai de mim, estou perdido! Sou apenas um homem de lábios impuros, mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos” Na época, era entendimento comum que nenhum ser vivente podia ver a Deus e ficar vivo. Daí, a percepção de morte imediata: “estou perdido!” E, além disso, com a consciência da própria indignidade, porque “sou apenas um homem de lábios impuros”. Não é difícil imaginar o estado de animo, de apavoramento, de desconcerto, deste primeiro momento. Com efeito, toda verdadeira manifestação de Deus suscita na pessoa este sentimento e esta percepção.
Contudo, Deus de imediato age para envolver a pessoa na missão, na realização da vontade dele. Toda manifestação de Deus não tem simplesmente como finalidade a manifestação de si mesmo, da sua grandeza, de seu poder e de sua glória, mas a participação da missão a favor do povo. Em primeiro lugar perdoa a culpa e o pecado. Eis, então a brasa que, simbolicamente, “tocou minha boca, assim (...) desapareceu tua culpa, e teu pecado está perdoado”. Dessa forma, Deus de chama a pessoa à comunhão e amizade consigo, pois o perdão é sempre expressão do amor. E cria as condições para convidá-la à missão: “Quem enviarei? Quem ita por nós?”
A resposta é assumir a causa de Deus, que pretende realizar o resgate do povo à fidelidade da Aliança, por meio do seu representante, o profeta Isaias.
Será Jesus a palavra definitiva de Deus, para o resgate da humanidade como comentaremos na 2da leitura.
2ª leitura 1Cor 15, 1-11
São Paulo descreve a si mesmo como “o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. É pela graça de Deus que eu sou o que sou” Com efeito, ele foi purificado, como Isaias, pelo fogo da morte e ressurreição de Jesus na via de Damasco, ou seja, quando entendeu no coração o significado e a importância da morte e ressurreição do mesmo para ele. Escreverá na carta aos Gálatas “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou” Assim, passou de perseguidor à seguidor. A vida dele, a dedicação, a teimosia, os sofrimentos etc., dão testemunho da enorme mudança que a graça de Deus operou nele.
“Sua graça para comigo não foi estéril: a prova é que tenho trabalhado mais do que os outros apóstolos- não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo” O dom recebido é para ser passado a outros, através da pregação, do testemunho e o dom de si mesmo na caridade. Desta forma, a boa noticia do evangelho se torna boa realidade na vida pessoal, familiar e social dos que livremente se deixam tocar e envolver pelo dom.
A maneira para conservar e acrescentar o dom é passá-lo. Portanto, a missão não é uma obrigação, um dever, uma imposição, e, portanto, uma carga, um peso, mais um incomodo entre os muitos do dia -a- dia, mas o impulso da graça de comunicar e envolver outros na mesma realidade e dinâmica do dom. Então, a vida se torne uma realidade bem sucedida na fraternidade, na união, na construção de uma vida pessoal e social más condizente à realidade humana –divina, raiz verdadeira de toda existência. Dessa forma, vai- se conformando um estilo de vida que fecunda a existência, em contraposição à esterilidade e à perda do dom.
Cabe pensar se a causa de muitas desmotivações, desistências, abandonos da vida pastoral, da participação da igreja em geral, não tenha na falta da missão uma das suas causas principais. É certo que o habito individualista de entender e vivenciar a fé, leva considerar a missão como algo opcional, com respeito à salvação própria e de outros. De fato, a própria salvação está necessariamente ligada à transmissão do dom “o evangelho que vos preguei e que recebestes, e no qual estais firmes” e gera, por sua vez, salvação dos que o acolhem. É urgente abandonar a maneira individualista de entender a fé e a salvação. Ela constitui um ponto imprescindível no processo de conversão.
Ligado à transmissão e à missão está o correto entendimento da graça. “Por ele ( o evangelho) sois salvos, se o estais guardando tal qual ele vos foi pregado por mim. De outro modo, teríeis abraçado a fé em vão . São Paulo explicita o conteúdo específico dessa graça, que deve ser guardado e transmitido tal como ele o pregou. Trata-se, então, de algo de grande importância e especificamente “ que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras; e que apareceu...” Deve ser guardado a compreensão correta do que aconteceu em Jesus naquele evento, o que significou para ele, assim o como o por que, e de que maneira a pessoa e a humanidade está envolvida em tudo isso. Trata-se do alicerce, do fundamento,da fé. Toda missão nasce, se fundamenta e tem como seu fim último, na compreensão e no envolvimento de coração nesse evento de Jesus. Daí minha insistência em voltar em diferentes oportunidades e formas sobre o tema da morte e ressurreição. O Batismo, a chamada, a vocação cristã é participação e envolvimento nisso.
Evangelho Lc 5,1-11
Começando sua atividade pastoral, após o surpreendente inicio na sinagoga de Nazaré, (analisado nos domingos anteriores) Jesus teve uma grande adesão de público “a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus” O sucesso da pregação dele pode ter sido incentivo para procurar colaboradores, discípulos, multiplicadores do anuncio da proximidade do Reino. De fato, mais na frente, Jesus os enviará, de dois em dois, à missão com esta específica finalidade.
O texto não indica o critério da escolha. Só relata como foi. Jesus entrou na barca de Simão “pediu que se afastasse um pouco da margem” E foi atendido por Simão, pois, permitiu que acontecesse. Seja qual for o motivo de Simão, de fato realizou-se a aproximação. A continuação “(Jesus) Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões” Pedro ouviu a pregação. O que ele entendeu foi suficiente para um voto de confiança à palavra de Jesus, no meio da perplexidade por uma noite inteira de trabalho sem fruto algum “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”.
A eficácia surpreendente deixou a todos, Pedro, Tiago e João assustados. Pois, o evento estava revelando algo do mistério de Deus presente em Jesus. E como Isaias, na primeira leitura, a reação foi o espanto e o sentimento de indignidade: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” cuja profundidade e sinceridade manifestou-se por se tirar aos pés de Jesus “Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus” A resposta de Jesus “Não tenhas medo!” , deve ter soado como o elemento purificador do próprio pecado. Ela é sinal da compreensão, por parte de Jesus, da fragilidade e da vulnerabilidade humana.
Todos estão sujeitos a diferentes medos. Eles acompanham o dia-a-dia. O importante é ultrapassá-lo pela confiança na pessoa e na palavra de Jesus. Confiança que, de imediato, é sujeita ao novo teste, quando Jesus acrescenta “De hoje em diante tu serás pescador de homens” O que Pedro entendeu com estas palavras, o texto não diz. Com certeza, não aquilo que entendemos nós hoje as lendo. Assim, Pedro, que acaba de sair de um susto-surpresa, é investido de uma proposta- missão mais forte e comprometedora. Tal vez, Pedro terá se perguntado: o que é isso de “pescador de homens”?! À primeira incompreensão segue - de imediato- outra não menos desafiadora e incompreensível. Contudo, com base na experiência da primeira, aceita a segunda “Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”. Com certeza, seguir Jesus não é mole... é um caminhar com ele na constante surpresa e renovação da confiança.