sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Comentário do 3ro domingo da Quaresma ( 7-03-10)
1ª leitura Ex 3,1-8a. 13-15
Eis relatado o correto relacionamento do ser humano- Moises- com Deus. A iniciativa é sempre de Deus, quem se manifesta de maneira surpreendente “a sarça que não se consome”. Parece-me que não podemos esperar uma sarçaa por cada uma das 6,5 bilhões de pessoas que existem. Contudo, Deus chama cada pessoa à comunhão consigo fogo do amor que não se consome. Com efeito, a pessoa tem afinidade com Deus, por ser criada a imagem e semelhança Dele. Portanto, a sarça indica, também, a meta, o destino, dela. A pessoa existe porque criada por Deus e chamada a se tornar realidade que não se consome pela comunhão com Ele.
Moises ao se aproximar da sarça e observar atentamente a estranheza dela, desencadeia a ação especifica de Deus pela qual é envolvido na dinâmica que fará dele o que a historia registrará na memória e no texto. Dessa forma, Moises se encontra com o mistério da própria existência e nela percebe a voz, o chamado, de Deus “Moises! Moises! Ele respondeu: aqui estou”. O contacto está feito., e com ele a percepção de Deus absolutamente transcendente e Santo por um lado, e a humildade de própria condição humana pelo outro. Deus chama, ao passo que mantém a distancia “Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é uma terra santa” como condição para estabelecer a correta comunhão. Comunhão na diversidade!
Deus se apresenta como “Eu sou o Deus de teus pais...”. O Deus da promessa e presente na história. Grande deve ter sido a surpresa de Moises. A longa escravidão levava pensar que Deus tinha se esquecido da promessa e abandonado o povo ao seu infeliz destino. Contudo, Moises reage “cobriu o rosto, pois temia olhar para Deus” Na concepção comum, ninguém podia ver a Deus e permanecer vivo. Será possível vê-lo após a morte, por aquele cuja vida será uma sarça que não se consome por participar do amor de Deus, para o resgate da humanidade toda.
Deus manifesta seu projeto libertador e vontade de cumprir a promessa com o envio de Moises à missão: “Eu vi a aflição do meu povo (...). Desci para libertá-lo (...) para uma terra onde corre leite e mel” Ele investe a pessoa de Moises como representante Dele.
A reação de Moises é o apavoramento. Tentará de se desfazer da missão, motivando e argumentando de maneira de oferecer a Deus a justificação do pedido de desistência. Deus desmantelará ponto por ponto toda resistência, e, enfim, Moises não terá como recusar. (Interessante ler o texto até 4,13).
No dialogo com Deus, comparece por parte de Moises o pedido de credenciamento perante o povo. Daí a pergunta; “Qual é o seu nome?” Conhecer o nome era ter certeza da intervenção de Deus ,quando e onde fora invocado. Era como ter poder e domínio sobre Ele. Deus foge da armadilha com a resposta: “Eu Sou aquele que sou”. Outras traduções rezam: Eu sou aquele que está presente e salva. Com isso, Deus não revela a totalidade do mistério e da essência Dele- o nome-, mas garante a permanente presença Dele e sua ação salvadora no meio do povo. É esta realidade que conforma o significado do nome. Mesmo mantendo o mistério de sua realidade última e definitiva como Deus, verdade salvadora do nome deve ser lembrada, invocada “Este é o meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração”. É importante considerar que lembrar o nome é a maneira de atualizar sua presença e sua ação salvadora, não é o simples lembrar o sujeito individual de um acontecimento, mas o sujeito ligado ao evento cuja ação e efeito não ficam no passado, mas são atualizados. Por isso o nome deve der lembrado de geração em geração.
A sarça, que não se consome, é prefiguração de Cristo, come comentaremos na 2da leitura,
2da leitura 1Cor 10,1-6.10-12
“Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” Alerta importante para toda pessoa que acha estar bem com Deus. Ela é motivada por três fatores: a) pela experiência do próprio Paulo; b) pelo desvio do correto relacionamento do povo para com Deus; c) pela memória da experiência do povo, após a libertação do Egito rumo à terra prometida, permanentemente tentado de voltar atrás.
São Paulo faz explicita referencia a isso “não quero que ignoreis o seguinte: Os nossos pais estiveram (...) foram batizados em Moises (...), e todos comeram (... ) e todos beberam (...). No entanto, a maior parte deles desagradou a Deus, pois morreram e ficaram no deserto”. Impressionante a continua repetição de “todos”, frisando que aquela experiência alcançou todas as pessoas, nenhuma excluída. Indistintamente, todas foram mergulhadas nos efeitos da passagem do mar vermelho com Moises. Todas experimentaram a passagem da escravidão (Egito) à libertação para que, alimentadas com o mesmo “alimento (...) e bebida espiritual; de fato, bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava- e esse rochedo era Cristo-“ , fizessem da liberdade em Cristo a marca registrada da nova sociedade na terra prometida, prévio assumir, na experiência da caminhada no deserto, todas as providencias para não tornar a implantar,de novo, a escravidão do Egito na nova terra prometida. Por isso, ele os exortará; “Irmãos, fostes chamados ( libertados) para serdes livres” (Gl 5,13).
A alerta mira a que “não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto”. As coisas más consistem, fundamentalmente, nas murmurações: “Não murmureis, como algum deles murmuraram” cujos efeitos foi impossibilitar a chegada do povo à terra prometida, “ e por isso foram mortos”.
A raiz da murmuração é a desconfiança no cumprimento da promessa de Deus; a dúvida com respeito à presença Dele no meio da caminhada; não enxergar a marca Dele nos eventos que vão acontecendo. Pelo contrário, o que acontece parece demonstrar que Ele se esqueceu da promessa e até abandonou o povo. Entra então o desanimo, a frustração, a decepção, a defraudação, próprio de que se sente como traído e enganado. Daí, o voltar as costas a Deus , o agir conforme outros critérios,o abandonar o caminho e voltar para trás. Inúmeras vezes o povo desejou voltar ao Egito,lamentando ter saído.
“Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” Trata-se do cuidado nas circunstâncias e situações que, pelo seu conteúdo de provação,revelarão a real consistência da e confiança- em última analise do amor- a Deus por ser Deus, e não simplesmente por aquilo que Dele podemos receber e desfrutar. Tal vez, seja isso mesmo o sentido das provações, e com elas tomar ciência de que o nosso amor para com ele não é gratuito, desinteressado, como o Dele para conosco, mas sempre está como poluído pelo interesse pessoal, pelo retorno, pela troca, pela obrigação. Então a caminhada no deserto, com suas provações, é a maneira de Deus purificar o nosso relacionamento para com Ele para torná-lo como o Dele para conosco, participe daquela gratuidade que constitui a característica da verdadeira liberdade pela qual fomos libertados de todo mal e da escravidão do pecado.
Essa liberdade no amor purificado tem seu teste no que o evangelho vai considerar.
Evangelho Lc 13,1-9
“Vieram algumas pessoas trazendo noticias a Jesus” Trata-se de dois acontecimentos que, no entendimento geral, formam motivados pelo pecado, pela culpa, das vítimas. Jesus desmancha este critério: “ Vós pensais (...). Eu vos digo que não” Este posicionamento deve ter abalado e perturbado o mundo interior deles, tanto era radicada a convicção de que era essa mesma a causa.
Perante o desconcerto Jesus- como é costume dele- não dá explicação nenhuma, não argumenta o porquê da mudança de critério. Só pede uma atitude de conversão, que comporta confiança nele e aceitar que Deus, através dele, está oferecendo um novo entendimento, que vai muito além do que eles pensavam como um Deus que castiga as faltas e os pecados deles, condenando-os à exclusão do Reino.
Mais ainda, para tornar mais difícil as coisas, acrescenta “Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Cabe imaginar o abalo total deles. Não só a mudança de critério já é um esforço não indiferente, mas a falta dela torna dramática o futuro deles: a morte, ou seja, o afastamento da comunhão com Deus, da salvação.
Parece-me que as resistência ao processo de conversão é sustentado pelos mesmos motivos que experimentou Moises: estar perante de perspectivas e de exigências que ultrapassam toda experiência e entendimento humano . Tal vez, só alguma forma de “domínio” ou pelo menos de “controle” sobre a realidade de Deus- o nome- poderia incentivar e animar a entrada no processo. Mas, Jesus, de jeito nenhum oferece elementos nessa direção. Portanto, eis a importância da alerta de são Paulo na 2da leitura com respeito aos que acham estar de pé- estar bem- perante de Deus: conferir se os critérios da comunhão com Deus são corretos ou não.
O texto frisa a urgência da conversão, não pode demorar. A vida de quem não produz os frutos que Deus espera legitimamente “ Foi procurar figos e não encontrou” está marcada por a terrível sentença: “Corta-a!”. Contudo, em atenção ao vinhateiro que se esmerará de maneira singular e radical “Vou cavar em volta dela e colocar adubo” sustentado por um voto de confiança em oferecer mais uma chance, “Pode ser que venha a dar fruto”, a sentença é adiada por um breve tempo “ deixa a figueira este ano”, frisando, dessa forma, a urgência da conversão.
“Se não der, então tu a cortarás”, porque ela está inutilizando a terra, não está aproveitando dos alimentos e do bem na qual está plantada. Como não pensar no batismo que nos implanta em Deus, no adubo da Eucaristia, da Palavra, do testemunho dos cristãos etc.? Avaliar e providenciar são o próprio da Quaresma.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Comentário do 2º Domingo da Quaresma (28/02/2010)
2do DOM. DA QURARESMA - C
1ª leitura Gn 15,5-12.17-18
É o texto muito conhecido, para quem tem familiaridade com a Bíblia, da renovação da promessa e do estabelecimento da Aliança por parte de Deus. Depois do chamado de Abrão, para caminhar rumo à nova terra (a terra prometida) e se tornar pai da descendência numerosa como as estrelas do céu e o numero de grãos de areia na praia do mar (ele e a mulher não tinham filhos e já de idade avançada), após muitos anos, não há sinal de resposta, de cumprimento da promessa. A demora sempre é uma provação. É nesse contexto que destaca o texto.
A iniciativa é de Deus “O Senhor conduziu Abrão para fora e lhe disse ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!”. Pede algo impossível, como contar as miríades das estrelas do firmamento, no céu do deserto completamente limpo. Dessa forma, coloca Abrão frente à sua radical incapacidade. Coisa desanimadora, se não for pela profunda humildade dele em aceitar os próprios limites. E Deus acrescenta “Assim será a tua descendência”. Com estas palavras renova a promessa, não especificando o tempo, o lugar e a circunstância do seu cumprimento. Eles serão determinados por Deus, pois fogem a todo desejo e expectativa de Abrão.
“Abrão teve fé no Senhor, que considerou isso como justiça”. Abrão não reclama pela demora no cumprimento da promessa, mas renova o voto de confiança. Esta é experiência comum de toda pessoa, de todos os tempos e de todos os lugares, que toma a serio e confia na promessa de Deus. Às vezes a demora é tão grande, que a impaciência e a desconfiança se transformam em frustração e defraudação. Não foi assim para Abrão, que renovou sua confiança. E o Senhor “considerou isso como justiça” porque reconhece a realidade dos dois e o correto relacionamento entre eles: Deus é Deus e o homem é homem.
Deus renova, com a promessa da descendência, a posse da terra. “Senhor Deus, como poderei saber que vou possuí-la?” Com a confiança interior- de coração-, Abrão coloca a exigência da razão “... como poderei saber...”?. Deus responde “ Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates” e sela, com a celebração, o pacto, conforme o costume daquele tempo: seccionar uns animais, passar no meio deles, significando que aquela será a sorte de quem não respeitar o combinado no pacto.
Notável é observar que só Deus passa entre os animais “apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre os animais divididos” Impressionante: é um pacto entre desigual! Só Deus se compromete. O estupor e a maravilha de Abrão são tão grandes que o introduz como num “sono profundo, e grande e misterioso terror”. Portanto, é a magnitude, a grandeza da revelação que gera a específica atitude de Abrão (O sono,na Bíblia é ,também, lugar da revelação de Deus).
O que diz este sono profundo, este grande e misterioso terror de Abrão, à experiência de Deus de cada pessoa que, como Abrão, confia, dá seu voto de confiança, à promessa Dele?
No sono percebemos de forma passiva- sem nenhum esforço ou atividade consciente- algo com referencia ao nosso mundo interior. Nele, somos como tomados por algo que não pertence à esfera do raciocínio e do consciente. Melhor, nos pertence só como mistério e de maneira misteriosa... Algo que, quando se torna consciente, pelo menos no caso de Abrão, não pode que suscitar grande e misterioso terror, pela imensidade da revelação por um lado e pela pequenez de Abrão pelo outro.
Tal vez, vale especificar que o mistério não se refere simplesmente ao desconhecido, mas à realidade misteriosa de Deus que envolve, acompanha, está presente e no qual se pode confiar. Parece-me que toda experiência de Deus lida com estes extremos.
Experiência que revela a verdade indicada por Paulo na segunda leitura.
2ª leitura Fl 3,17-4,1
“Nós somos cidadãos do céu” em virtude da participação no mistério, que se manifestou no evento da morte e ressurreição de Jesus, que selou a Aliança Nova e Eterna e nos é participado pela mesma fé que teve Abrão, por acreditar em Jesus como nosso representante perante o Pai.
Conclusão: já estamos sentados no céu. É o que diz Paulo na carta aos Efésios: “Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus, em virtude de nossa união com Jesus Cristo” (2,6). Contudo, “De lá aguardamos o nosso Salvador... Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso...” Portanto, há um futuro e um presente entrelaçados, pelo qual o futuro não é só futuro, mas já é presente e vice-versa . Esta percepção surge do intimo, do profundo do mundo interior, em toda pessoa que assume o estilo de vida de Jesus (pode acontecer, também, numa pessoa que se diz ateu ou uma não cristã, se assumir o estilo de vida)
Portanto, a afirmação de são Paulo: “continuai firmes no Senhor” se refere ao estilo de vida Dele, não- evidentemente- a uma fé só de boca para fora, ou à simples recepção do batismo ou dos outros sacramentos, sem a resolução e determinação para o correspondente estilo de vida. É a firmeza de quem sempre deverá lutar contra a tentação do estilo de vida oposto: “o fim deles é a perdição, o deus deles é o estomago, a gloria deles está no que é vergonhoso e só pensam em coisas terrenas”. O estilo oposto manifesta que “se comportam como inimigos da cruz de Cristo”. Inimigos por desconfiar, não valorizar ou não aceitar o que Jesus nos ganhou com sua morte na cruz, em termos de transformação no profundo do ser. Para colocar uma comparação, é como a reconstrução de um corpo perfeito após o atropelo esmagador. Portanto, o estilo de vida que não condiz, tem sua causa última na desconfiança e desvalorização já dita.
Dai, que a imploração, a insistência e até o choro de são Paulo “Sede meus imitadores... e observai... Já vos disse muitas vezes, e agora o repito, chorando” , traduzem os autênticos e profundos sentimentos dele, com respeito aos cristão de boca para fora, ou que acham suficiente cumprir algumas obrigações religiosas... Sentimentos de grande sofrimento, por pessoas que nem estão aí- do ponto de vista cristã- e não se dão conta (ou não querem se dar conta!)do prejuízo que carregam consigo mesmos e, conseqüentemente, pelos outros.
A quaresma é uma oportunidade privilegiada para uma revisão deste tipo.
A combinação futuro e presente, e vice-versa, se manifesta na pessoa de Jesus com a transfiguração que comentaremos a continuação.
Evangelho Lc 9,28b-36
“Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar” São os mesmos três que chamará consigo para rezar na quinta feira-santa, no jardim das oliveiras. Detalhe muito significativo. A oração os introduz tanto na transfiguração, assim como no momento dramático da paixão Que singular e desconcertante combinação! Gostaríamos somente da primeira e de jeito nenhum da segunda. Mas Deus é assim, combina os dois.
Eis, então, o surpreendente evento pelo qual se revela a profunda realidade de Jesus e, com ela, a manifestação do Pai: “Este é meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz” e do Espírito Santo: “... apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra”. Para eles, os três apóstolos, será uma experiência inesquecível, e não é para menos. Os quatro evangelhos a relata e o mesmo Pedro se lembrará dela na sua carta. Esta manifestação é antecipo da ressurreição, pois, manifesta não só a realidade de Jesus como Deus, ma o destino da própria natureza humana e, com ela, o destino de todo homem e de toda obra criada por Deus.
“Eis, (...) Moises e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus ia sofrer em Jerusalém” Singularíssima, surpreendente e desconcertante este binômio de glória e morte. A Lei (a Constituição, diríamos hoje) é fundamento da vida social e pessoal do povo, expressão da Aliança com Deus.
A atividade dos profetas, representada pelo profeta Elias, cuja missão, era chamar constantemente o povo ao respeito da Aliança na interpretação e execução correta da Lei. Lei e profetas conversam sobre a entrega de Jesus em Jerusalém. Assim, a glória, a manifestação do que é especifico de Deus na pessoa de Jesus, se manifesta exatamente no que é totalmente contrário ao entendimento e expectativa humana. Nesta perspectiva, Jesus se faz portador e assume sobre si mesmo a glória que estava sobre os dois, a glória de Deus: “... viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele” Assim, a glória de Deus é passada a Jesus e terá sua plena manifestação na entrega nas festas de Páscoa. A Lei (Moises) e os Profetas (Elias) saem da cena, do “palanque”, “estes homens se iam afastando”, e fica Jesus sozinho. Ele será a nova Lei e o profeta por excelência, que levará à plenitude o cumprimento do projeto do Pai, com a ação do Espírito Santo
Deus Pai manifesta o seu consentimento com as palavras do profeta Isaias, que apontam ao Servo de Javé, que deverá entregar sua vida para o resgate do povo “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” ( a nova Lei). A “nuvem que os cobriu com sua sombra” é a presença do Espírito ( o novo Profeta). A nova lei será a entrega incondicional, gratuita e desinteressada. E o Espírito será a força e a dinâmica do amor na qual e pela qual a entrega se torna manifestação da glória de Deus Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Merecem destaque as atitudes dos três apóstolos: “Estavam com muito sono”. O sono os dominará, também, no momento dramático no jardim das Oliveiras. Tal vez seja uma maneira para indicar que nem estavam aí e a dificuldade de entenderem o alcance e o significado do acontecimento e, portanto, de sintonizarem com ele. De fato, Pedro fez uma colocação em virtude da qual manifestou que percebeu somente o aspecto deslumbrante do evento, ao ponto tal que se Jesus tivesse acolhido o convite, teria fracassado a missão dele. ( Nesse sentido o demônio estava nele!).É então que o evangelista anota: “Pedro não sabia o que estava dizendo”.
Além do sono e do devaneio, foram tomado pelo medo: “Ele ( Pedro) estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem”. Evidentemente, o texto está indicando que não tinham nenhuma condição de sintonizar e menos de assumir o que Pedro estava propondo. Cabe frisar das experiências bem diferentes do sono e do grande e misterioso terror experimentado por Abrão na 1ª leitura, d sono e o medo dos discípulos neste texto. O que faz a diferença é a fé- Abrão- e o discípulo- ainda- perdido...
A experiência da transfiguração deve ter sido traumática para os apóstolos, pois, “ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto”. Contudo, não desistiram de caminhar com Jesus. Este é o grande mérito deles!(e deve ser o nosso!). Após a ressurreição a transfiguração se tornará um dos grandes eventos da predicação deles. Tudo isso diz muito para o discipulado de cada um de nós.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Comentário do 1º Domingo da Quaresma (21/02/2010)
1o DOM DA QUARESMA-C
1ª leitura Dt.26,4-10
A fé dos israelitas se apoiava no que Deus havia feito concretamente por eles no decorrer da história. O texto lembra: “Os egípcios nos maltrataram (...). Clamamos ao Senhor ( ...) e o Senhor ouviu (...) nos tirou do Egito com mão poderosa e braço estendido (...) E nos conduziu e este lugar e nos deu esta terra, onde corre leite e mel”. O texto, é o fruto amadurecido da reflexão e da meditação com respeito à libertação da escravidão do Egito, à caminhada pelo deserto e à chegada na terra prometida. A chegada testemunha o cumprimento da promessa de Deus, do dom da terra “onde corre leite e mel”, uma metáfora que aponta a benção em termos de frutos abundantes e gostosos para todos, assim como de paz e de harmonia entre eles.
A QUARESMA é a caminhada anual de toda a Igreja e de cada pessoa. Ela começa com o dom da libertação da escravidão do Egito, ou seja, do mal e do pecado. Dom que Jesus já nos ganhou e que marca a identidade profunda de cada pessoa como filho de Deus, como discípulo de Jesus e morada do Espírito Santo. No começo do caminho da quaresma é preciso se re-apropriar destas verdades que muitas vezes esquecemos, não valorizamos ou não damos a devida importância.
A QUARESMA, caracterizada pelos 40 dias (sinal de um tempo demorado, praticamente a vida toda), é a caminhada do homem livre para viver, fortalecer, consolidar e levar à plenitude o dom da libertação, ganhado com a saída do mal e do pecado. Nesta caminhada,quem conduz é Deus: “Ele nos tirou do Egito (...) e nos conduziu a este lugar” Trata-se, então, de caminhar humildemente, no dia- a –dia, com o nosso Deus, conforme a bela expressão de Mq.6,8.
A QUARESMA tem seu ponto de chegada na terra “onde corre leite e mel”, meta na qual o sonho se torna experiência de vida bem sucedida, de realização pessoal e social, de plenitude etc., se faz realidade, para partir rumo a outro sonho. São famosas as palavras de Hermann Hesse: “Há de se encontrar o seu próprio sonho para que o caminho seja fácil. Mas não existe sonho perpétuo. Todo sonho deixa lugar o novo sonho, e não pode querer reter algum” É uma dinâmica inesgotável, sendo que Deus é a “terra prometida”.
“Por isso, agora trago os primeiros frutos da terra que me deste, Senhor. Depois (...) tu te inclinarás em adoração diante dele ”A experiência se torna motivo de ação de graças, de agradecimento, pelos frutos - os primeiros, depois haverá outros- por ter confiado e caminhado nas indicações do Senhor, por ter agido conforme ao dom da libertação de homens livres, por ter vencido as tentações de voltar atrás ou de mudar de rumo nos momentos difíceis das provações e das dificuldades.
O gesto de se inclinar em adoração é reconhecer que valeu confiar na ação libertadora, valeu a fidelidade da firmeza e da perseverança na caminhada . Portanto, é preciso reconhecer a verdade e o certo da promessa de Deus, assim, como o autêntico sentido e destino da existência. A promessa é como o farol que ilumina e indica os critérios, a filosofia da vida e a maneira de se comportar no dia- a dia.
Evidentemente, como cristãos, a libertação do pecado e do mal, o caminho no dia- a- dia, a terra prometida e os (primeiros) frutos encontram na vida, na missão e na entrega de Jesus o caminho, porque Ele é verdade e vida, como comentaremos no texto da 2da leitura.
2da leitura Rm 10,8-13
“Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” Vale frisar que são Paulo apresenta sempre Jesus a partir da ressurreição, não a partir da concepção , do nascimento (...) até a ressurreição. Começa do fim. Por quê? Porque o fim manifesta quem é realmente Jesus, o significado e a importância da vida e da missão dele. Jesus é percebido na sua verdadeira essência a partir do evento da ressurreição, em virtude do qual é constituído, pelo Pai e pelo Espírito Santo, Senhor do céu e da terra. Evento estritamente ligado e inseparável da morte na cruz. Evento motivado pelo amor que, por sua singularidade, desconcerta radicalmente todo critério de entendimento e toda possível experiência no âmbito humano.
“Boca... e coração” caminha juntos. A primeira para confessar, ou melhor, testemunhar; e o segundo como adesão e entrega sincera ao que Jesus fez , e faz hoje, para mim, como meu representante perante do Pai. É conhecido o refrão: “a boca fala do que o coração está cheio” É isso mesmo! Tudo começa no coração tocado pela GRATUIDADE DO DOM de Deus, pela morte e ressurreição de Jesus. (A quaresma é se deixar tocar mais profundamente por esse dom)
“É crendo no coração que se alcança a justiça”. Isso significa que o coração humilde e confiante, pela gratuidade do dom-os efeitos da morte e ressurreição de Jesus-, experimenta em si mesmo o que é ser justo e perdoado perante de Deus Pai, graças à entrega do Filho e à ação do Espírito Santo nele. É este dom que o torna justo, algo impossível à vontade, à força e desejo simplesmente humanos. A justiça é de Deus, é doada por Ele.
A nós simplesmente ( mas não é tão simples!) acolher e acreditar no dom. É o que deve acontecer em cada santa Missa. É correto rezar depois da Consagração “Anunciamos a tua (a minha ) morte; proclamamos a tua (a minha) ressurreição; vinde ( já estás presente ) Senhor Jesus” É o conteúdo mais importante e primeiro da fé!
Mais importante, ainda, é ter consciência que tudo isso é condição previa para entender a Palavra de Deus no seu correto significado, na sua abrangência e nas suas conseqüências éticas e comportamentais na pessoa (e na sociedade). Com efeito, “A palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração” O que entende com isso são Paulo? O texto escrito? Impossível, o texto é um elemento externo à pessoa. ( Na época em que escreveu, ainda não existiam os 4 Evangelhos e os s textos do Novo Testamentos,assim como os conhecemos hoje!)Não pode ser outra coisa que o dom gratuito do evento, do qual falamos acima, acolhido pela fé no próprio mundo interior- o coração e a inteligência-.
Portanto, “Essa palavra é a palavra da fé, que nos pregamos” não é o texto escrito, mas o evento da morte e ressurreição de Jesus. Mais ainda, é o estilo de vida dele (retomaremos este aspecto comentando evangelho) que culmina com o evento pascal. Portanto, “É crendo no coração (...) e confessando a fé com a boca que se consegue a salvação” aqui e agora. É este o evento da Palavra, do qual surgem e brotam os diferentes textos bíblicos do Novo Testamento, como testemunho de que “Todo aquele que nele crer não ficará confundido”.
Entendendo com mais profundidade e convicção tudo isso, a pessoa se identifica cada vez mais com Jesus e assume o estilo de vida Dele.
Evangelho Lc 4,1-13
O texto é paralelo ao de Mt 4,1-11,cujo comento está no blog sob o titulo “Tentações”, antes dos comentários deste domingo. Portanto, não vou repetir, mas acrescentar outras considerações.
As respostas às tentações visam desfazer no povo as idéias erradas com respeito a Deus e o agir Dele, que são a causa de todo o mal, do permanecer no pecado e na escravidão, apesar da experiência libertadora.
Elas indicam os tópicos da conversão permanente no dia-a-dia, que determinam o estilo de vida, do qual tocamos na 2da leitura. Portando, a conversão não é simples aplicação de normas de comportamento estabelecidas com anterioridade. É algo que a ultrapassa, e do qual o mesmo Jesus é testemunha “foi dito... porém eu vos digo” (Mt 5,21 e seguintes) e exemplo: “ Eu também não te condeno.Podes ir, e de agora em diante não peques mais”(Jo 8,11). Concretamente, é reinterpretação das normas e das leis, como resultado de adesão interior- coração e inteligência- ao evento da morte e ressurreição de Jesus (atualizado na Missa)e a circunstância concreta, visando e finalidade pela qual Jesus se entregou: “ Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia”(Jo 10,10).
A conversão, portanto, é um processo continuo e criativo que responde a três exigências que deverão se integrar uma nas outras, como fichas do mosaico, para satisfazer a característica de “vida em abundancia” pela qual Jesus se entregou.
a) “Eis o homem!” A quem Pilatos está indicando? A um homem que acaba de ser chicoteado e prestes a ser crucificado “para que todos tenham vida em abundância”. A conversão está nesta direção. Eis, então, a pergunta: Estou me tornando mais humano? Estou neste processo de hominização?, ou seja, estou assumindo os critérios de Jesus do que é ser verdadeiro homem?
b) A sociedade se trona mais humana, mais justa, mais ética, mais fraternal (é mais do que democrática), no respeito das diferenças e da dignidade de cada cultura?
c) A criação, o mundo é preservado e conservado nas suas exigências ecológicas?
São três perguntas que desdobram a vivencia do Amor e constituem a verdade de Deus sobre as pessoas, sobre a sociedade e a criação. Amor que encontrou tenaz oposição e rejeição até na cruz. Amor pelo qual Jesus não se dobrou, e, portanto, carregou as conseqüências que sabemos, porque, ultrapassando a trágica rejeição, enxergou a “força da vida indestrutível” (Hb 7,16).
É o amor que motiva e sustenta Jesus na grande luta que o acompanhará no desenvolvimento de sua ação pastoral. Amor incompreensível para quem pensa a Deus, e pretende servi-lo, a partir do entendimento que Jesus desmanchou. Amor que condenou ele à solidão mais radical, por ter carregado com a desconfiança até a rejeição -o pecado- do homem. Amor que o capacitou proferindo as últimas famosas palavras antes de morrer. Amor que justifica perante o Pai os que o rejeitam, e que subjetivamente se sentirão tais, após a ressurreição, se aceitarão de coração sincero e com inteligência humilde o significado e o alcance do evento. Amor que é já experimentar a ressurreição, ou seja, a força da vida indestrutível.
O estilo de vida é a dinâmica da morte e ressurreição, incluída no Amor na sua expressão mais alta. A QUARESMA é para aperfeiçoar e aprofundar essa mesma dinâmica.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
A TENTAÇÃO
No começo da Quaresma, me parece importante a reflexão e o entendimento do significado das tentações de Jesus no deserto. Elas oferecem a chave interpretativa do agir e da missão dele. Eis,então, o texto que elaborei para o curso de Cristologia.
Jesus começa sua atividade pastoral com o Batismo no Jordão. Ele é ungido pelo Espírito Santo, para assumir a missão do Servo de Javé.
Lucas acrescenta que, no deserto Jesus é guiado pelo Espírito. É o Espírito em Jesus e com Jesus, o primeiro dos dois atores da tentação, uma vez que Jesus e o Espírito são as duas mãos do agir de Deus.
O Espírito leva Jesus ao deserto, lugar de solidão, de falta de conforto, de encontro com a realidade mais profunda de Si mesmo. É aí onde ressalta sua verdadeira identidade, aquilo que sinceramente é. Aí não há barreiras para desvelar plenamente a Si mesmo e a Deus.
Guiado pelo Espírito, jejuou 40 dias. Quarenta é um número simbólico, indica um tempo prolongado e um processo demorado. Há coisas que por sua seriedade e profundidade precisam de tempo. O jejum leva Jesus ao enfraquecimento físico: O texto afirma que Ele sente fome, porém isto o torna lúcido, para desarmar as ciladas do diabo, e determinado, forte e firme, para não entrar nelas e sair vitorioso do confronto.
No batismo, acaba de assumir a missão. Mas, ficam as perguntas: Com que meios? De que maneira desenvolver essa missão?
A tentação se refere não ao objetivo da missão, isto é, à libertação do pecado e à salvação do homem, mas aos meios e caminhos para alcançá-la. Propondo meios e caminhos errados, o diabo consegue o fracasso da missão de Jesus.
O segundo grande ator é o diabo, ou melhor, é Jesus mesmo enquanto homem, raciocinando e pensando o seu agir de homem, desligado e afastado do Espírito. Seria o homem pecador do qual Ele assumiu a condição e a solidariedade com o batismo no Jordão, sem se tornar tal! Ele percebe, na sua pessoa, o que é ser “pecador”. A palavra “diabo” indica o que divide, afasta. Jesus mesmo chama Pedro de Satanás, pouco após a profissão de fé deste em Jesus como Messias, quando diz: “ Vá embora Satanás, você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8, 33). São as mesmas palavras que Jesus usa como resposta à terceira tentação: “Vá embora Satanás” (Mc 4, 10). Então, o diabo é o mesmo homem que pensa e age afastado, separado, não levando em conta o pensamento e a vontade de Deus. Não é preciso pensar em um bicho solto que anda por aí... Para a cultura e a mentalidade da época, cai muito bem a figura de um ser diferente que dialoga com Jesus.
Talvez, a realidade mais certa é que Jesus sente no mais profundo de Si mesmo, todo o peso e o conflito de um desdobramento: por um lado, a união entre Ele e o Espírito em virtude de sua realidade divina e, por outro lado, a realidade humana do homem pecador, afastado de Deus e não ligado à ação do Espírito, que acaba de assumir solidariamente e que manifesta toda sua força e poder sedutor (É o que são Paulo designará mais tarde como “homem espiritual” x, “homem carnal”, isto é, a oposição entre Espírito e carne). O tempo demorado, o ambiente, o jejum rigoroso indicam que não foram as tentações coisa de pouca conta, nem que foi fácil vencê-las só porque Ele é o Filho de Deus. Cabe precisar que Jesus vencerá a batalha - “Então o diabo o deixou” (Mc 4,10) -, mas a tentação voltará no tempo oportuno. Quando? Poucos minutos antes de morrer: a última tentação - “A outros salvou. Que Se salve a Si mesmo, se de fato é o Messias de Deus, o Escolhido! (...) Se Tu és o rei dos judeus, salva-te a Ti mesmo!” (Lc 23,35-37). A guerra será vencida na cruz e selada pela ressurreição.
Importantíssimo é não perder de vista que, nas tentações, está em jogo a pretensão de Jesus ser acreditado e aceito como Filho de Deus. Aos olhos dos homens, afastados de Deus, Ele tem que provar que realmente O é!!!
Só que para os homens, o que eles entendem e esperam de Deus como Messias (ungido por Deus) é bem diferente daquilo que Jesus e o Espírito estão prontos a passar. Daí a tensão e o conflito.
Assim, a primeira tentação revela que os homens esperam que Deus resolva, com um passe de mágica, as urgentes necessidades básicas do dia-a-dia: fome, saúde, desemprego, etc.
Com efeito, o povo quer sinais, milagres. Se Deus é poderoso, por que não faz? Se não fez, não é Deus. Jesus oferecerá alguns sinais, milagres e, ao mesmo tempo, recomendará de mantê-los em segredo, de não divulgá-los (trata-se do chamado segredo messiânico), porque o significado verdadeiro deles só seriam revelados com a morte e ressurreição Dele, não antes. Antes seriam mal interpretados e mal entendidos! (É o que acontece, também hoje, desligando os sinais da morte e ressurreição!) Cair na tentação significaria descompromissar os homens da prática do amor e da justiça na história e no dia-a-dia, através da qual o pão chegaria à mesa de todos, assim, como a satisfação das exigências básicas. Afastando a prática do amor e a justiça, Deus seria mantido afastado deles, e eles continuariam na mesmice.
Jesus antepõe a Palavra. Não desconsidera a importância do pão, mas antecede a ele a Palavra, que, se acolhida, o permite chegar a todas as mesas.
A segunda tentação: "Joga-te para baixo” (Mt 4,6) - da parte mais alta do Templo. Aí está Deus no templo, e Ele vai se manifestar. Sendo Filho, Deus não vai permitir que se machuque; e todos, vendo que Ele é salvo por Deus, acreditarão imediatamente em Sua mensagem. Que melhor oportunidade para tirar dúvidas quanto à pretensão de Jesus ser Filho de Deus! Até pouco antes de morrer é exigida esta intervenção para a demonstração de que realmente é Filho de Deus: “Confiou em Deus; que Deus o livre agora, se é que O ama! Pois Ele disse: Eu sou Filho de Deus” (Mt 27,43). (Com efeito, o Pai que entrega o Filho, e o Filho que aceita ser entregue pelo Pai é, talvez, a afirmação mais escandalosa de todo o Novo Testamento!) Mas, será que a intimidade e o amor Pai-Filho é assegurada por uma intervenção desse tipo? Do ponto de vista humano é isso mesmo. Contudo, quantos pais fazem isso para não perder algo que lhes pertence radicalmente e do qual precisam! Quantos filhos, tirados do perigo, após um momento de gratidão e de “conversão”, voltam ao mesmo ou até nem estão aí! Por outro lado, o grande apego pais-filhos, filhos-pais não seria sinal do falso amor?
Será que a confiança em Deus depende de gestos grandiosos e surpreendentes? A parábola do rico que pede ser ressuscitado, convencido que, em virtude disso, os irmãos, ainda vivos na terra, se converteriam, ensina: “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos” (Lc 16, 27-31).
Cair na tentação teria sido a manifestação do poder grandioso e surpreendente, porém, inútil e estéril.
Inútil, porque o temor reverencial que suscitaria frente ao poderoso geraria, por um lado, distanciamento e, por outro, a falsa comunhão típica do inferior para com o superior chamados a conviverem juntos.
Estéril, porque a capacidade do amor ao próximo ficaria cercada das exigências do “amor” entre pai e filho. Esse amor se tornaria uma barreira intransponível, o contrário do que Jesus afirmara: “Quem ama mais seu pai ou sua mãe do que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Cercar o amor é torná-lo estéril.
Para o homem descompromissado, indiferente ao projeto de salvação da humanidade inteira, é certo cercar o amor dentro dos próprios familiares, parentes, amigos e viver a “realidade” de Deus como emoção pela grandiosa e surpreendente intervenção Dele.
A terceira tentação. O diabo deixa as primeiras motivações - “Se és Filho de Deus” - e abre o jogo - "Olha o mundo, suas riquezas e glória”- (Mt 4,8). “Eu Te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser” (Lc 4,6).
Poder e glória foram dados ao homem por Deus mesmo -“Tu (Deus) o fizeste pouco menos que um deus, e o coroaste de glória e esplendor. Tu o fizeste reinar sobre as obras de Tuas mãos e sob os pés dele tudo colocaste” (Sl8, 6-7). Pelo teor da colocação, o diabo-homem se apropria deles de maneira indébita, isto é, como dono e Senhor deles. Desvirtuou, assim, a característica dom e de seu sentido de participação e cooperação no amor à ação criadora e recriadora de Deus, rumo à comunhão com Ele. Daí que o homem se tornou “diabo”, ou seja, elemento de afastamento, de separação de Deus. E as conseqüências são um mundo escravizado por todo tipo de mentira e engano.
Para o homem descompromissado com o sonho e projeto de Deus, e fundamentalmente individualista, é bom o poder e a afirmação do próprio “eu” em termos de riqueza, poder, fartura, alegria, elogios, etc. É o que eles mais aprovam, admiram e desejam. Não é certo que o sonho de muitos (todos?!) é ficar rico?
Cair na tentação seria aprovar um sistema de governo e de poder que teria mantido os homens na mesmice. Todo aquele que mexer com isso sofrerá sérias rejeições.
As tentações revelam o ídolo que está nos homens, isto é, a imagem de Deus construída por eles mesmos.
Os homens querem um Deus poderoso, que resolva, com mágica, as necessidades deles; que legitime seu ser Deus com intervenções surpreendentes e grandiosas, deixando as coisas como estão, sem compromisso nenhum para com Ele, a não ser para resolver, de forma mágica, caso por caso – individualmente –, as exigências básicas da vida, do dia-a-dia, e de sentir a presença poderosa Dele, quando o invocar para tirá-los dos apertos. A troca (a promessa) é a maneira concreta de administrar o relacionamento com Ele.
Esta visão de Deus é incompatível com a visão de Deus que tem Jesus. O conflito o levará à cruz. À pergunta inicial: como desenvolver a missão? Abraçando a cruz.
Comentário do 6º Domingo do Tempo Comum (14/02/2010)
6º DOMINGO do T.C. - Ano C
1ª Leitura Jr 17,5-8
A tradição espiritual apresenta a existência humana como oportunidade de escolha entre dois caminhos opostos: o da obediência à Lei que conduz à vida; e o da indiferença, da rebelião, que leva à morte. Eis, então, se configurar o homem bendito por um lado e o homem maldito pelo outro.
“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” Com as palavras, “força na carne humana”, o texto entende a realidade do homem circunscrita à sua natureza, ou seja, à inteligência, à vontade, à memória, ao sentimento, ao coração que determinam o seu ser, a visão de si mesmo, as características de sua atividade, a percepção da realidade dos outros, do mundo e do destino de tudo e de todos no horizonte simplesmente humano. Esta atitude gera afastamento de Deus nas suas múltiplas formas de indiferença, de desvalorização, de repudio à auto-revelação de Deus ( no A.T. por meio da Lei, como expressão da Aliança, e no N.T., da pessoa e missão de Jesus).
É alerta pelos que hoje se definem indiferentes, agnósticos ou até ateus. Este fenômeno está crescendo vertiginosamente no mundo de hoje. O levantamento feito no Rio no2002 apontava a uma porcentagem de 2,8% dos entrevistados, nos 2009 já era o 7,8%...
Mas, cabe considerar que, se por um lado o motivo são as rápidas mudanças culturais e sociais, pelo outro, é preciso analisar seriamente se bispos, padres e leigos comprometidos sabemos reformular os conteúdos da Fe, rever a prática pastoral e, assim, oferecer uma resposta compreensível e plausível ao mundo de hoje.
De todas as maneiras, as conseqüências são dramáticas: “como o cardo no deserto, ele não vê chegar a floração” Com outras palavras, não vê chegar o bem, no sentido de que fala mais alto a esterilidade da própria atitude, assim como a incapacidade e a impossibilidade de vê-lo. Conseguentemente, acaba para se amoldar “prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada”
Terá os efeitos contrários o homem bendito porque “confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor”, pois, ele “ é como a árvore plantada junto à águas... não teme a chegada do calor... e nunca deixa de dar frutos” A confiança e a esperança caminham juntos. De que esperança se trata? Qual é o conteúdo específico dela, que motiva o voto de confiança? ( Entre parêntesis cabe perguntar: o homem de hoje em quem, em que coloca sua esperança e sua confiança? Na pessoa de Jesus? Na vinda do Reino, do novo céu, da nova terra aqui e agora, na qual triunfará a justiça, o direito e a fraternidade universal? Confia e espera na promessa de Deus? Tal vez, mas só após a morte, na vida eterna? Em qual esperança investe a própria vida e ativa suas energias pessoais e sociais? Nas promessas de Deus? Nos laboratórios genéticos para um futuro vencedor até da morte, ou pelo menos que prolonga a vida? No positivismo da ciência? Há uma esperança na vida do dia-a-dia, na história que não defraude? Qual o horizonte, inclusive o limite- se há-, dessa esperança confiante?)
São todas perguntas de grande porte cujas respostas do ponto de vista simplesmente humano por um lado ou estreitamente teológica pelo outro, desafiam a esperança e a confiança de todo ser humano.
Contudo, a Palavra de Deus tem a pretensão de oferecer uma resposta definitiva, merecedora de confiança, baseada na promessa de Deus cumprida com a ressurreição de Jesus. É o conteúdo da 2da leitura.
2ª leitura. 1Cor 15,12.16-20
“Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” Mais uma vez é apresentado o ponto central da fe cristã, como já sabemos.
“Eis que faço novas todas as coisas”Ap.21,5ª. As primícias foram a ressurreição de Jesus. O amor em virtude do qual Jesus, conforme a vontade amorosa do Pai e pela força do amor do Espírito Santo, se entregou ,é o mesmo que gera participação da humanidade dele na vida divina e conseqüentemente faz dela uma realidade nova. Realidade que tem, ao mesmo tempo, elementos de continuidade e descontinuidade com a vida humana anterior. É o mesmo corpo (continuidade), mas não o idêntico corpo (descontinuidade). É uma continuidade transformada, melhor, aperfeiçoada.
Sabemos que ninguém esperava, após a crucificação, um evento deste tipo. Surpreendeu a todos. Nem foi fácil relatar o que realmente aconteceu e, menos ainda, aprofundar o alcance do evento, que ficará para sempre envolvido no mistério de Amor da Trindade. Os relatos evangélicos são uma tentativa de dar razão de uma experiência de amor entre os discípulos e Jesus, em termos de confiança, de seguimento dele, de adesão à sua pessoa e à sua palavra, de entrega...
Naqueles cuja confiança, seguimento, adesão e entrega ficou aquém do devido, ficaram perplexos com o evento da ressurreição. Daí, a pregação deles suscitará a reação de são Paulo: “Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dizer ente vós que não há ressurreição dos mortos” Com efeito, a ressurreição é face do amor que abrange simultaneamente esta e a outra vida após a morte. Diz Moltmann (um teólogo alemão de fama mundial) que o amor pelo qual é resgatada a vida corporal após a morte, é o mesmo amor que dá sentido profundo a nossa existência nesta terra, no dia -a- dia. Acreditar na ressurreição é acreditar no amor praticado até o fim, como Jesus “os amou até o fim” em sentido temporal, até o último momento, em sentido de entrega total e em sentido de que ele é o amor em sentido pleno, total. Depois dele e fora dele não há amor. Então, todo amor autentico e verdadeiramente humano tem nele sua origem e seu fim. E nesse sentido se torna divino.
“Se é para esta vida que pusemos nossa esperança em Cristo, nós somos - de todos os homens- os mais dignos de compaixão” Portanto, se a esperança está circunscrita aos critérios humanos, no sentido só de pretender encontrar em Cristo o apoio e a sustentação perante as dificuldades humanas do dia-a-dia, é porque se confia no horizonte simplesmente humano, como indicava a 1ª leitura. Daí o motivo da compaixão, à qual se refere são Paulo, pelo engano, pela ilusão que acarreta, e enfim pela confiança e esperança mal colocadas em Cristo e, portanto, inútil.
O que significa colocar a esperança em Cristo, ou simplesmente nesta vida , o evangelho o indica concretamente.
Evangelho Lc 6,17.20-2
“Jesus desceu da montanha com os discípulos” A montanha é o lugar da revelação do Pai, da intimidade e familiaridade com Deus. Portanto, Jesus teve uma especial comunhão com o Pai e com os discípulos na montanha. Descendo “num lugar plano. Ali estavam muitos (outros) de seus discípulos e grande multidão de gente...” O que Jesus coloca para eles tem relação com essa experiência, e particularmente como se quisesse se dirigir a eles em primeiro lugar, pois “ levantando os olhos para os seus discípulos”. Esse levantar os olhos para eles soa como se quisesse fixar suas palavras na alma deles.
“Bem-aventurados vós... ai de vós... ” Eis indicadas as benções de Deus em contraposição das benções do mundo. Duas realidades inconciliáveis. No entendimento do homem que confia só no homem (1ª leitura), o certo são as segundas, pois, eles constituem o sonho e o desejo de toda pessoa. Quantas pessoas vivem, almejam e fazem deles o motivo, o fim, do próprio dia -a- dia. Contudo, Jesus alerta: não é por ai o caminho da salvação para a pessoa e para a humanidade toda.
Cabe se perguntar: as bem-aventuranças são o ponto de chegada ou o ponto de partida para o discípulo? Tal vez, as duas. São ponto de partida, no sentido de não desprezar, não ter medo, não fugir delas, como seria a primeira reação de todo ser humano. Portanto, é preciso topar com elas, na forma e na medida em que as circunstâncias e a fidelidade à causa de Jesus o exigem.
São, também, ponto que acompanha o dia- a- dia, no sentido de não ficar surpreendido do que irá acontecer em termos de sofrer pobreza, fome, choro e rejeição por parte dos homens, pois ,fazem parte da experiência , misteriosa e sincera, da verdade que acompanha a caminhada com Ele.
São, também, o ponto de chegada, de uma meta que estará sempre na frente como um imã. Com efeito, a vivencia disso tem em si mesma uma dinâmica que leva mergulhar, cada vez mais profundamente, no insondável e inesgotável mistério de comunhão com Deus. Daí, a alegria no presente frisada pelo texto: “ Alegrai-vos, nesse dia” É, também, antecipo de algo muito maior que se manifestará no futuro , no dia último e definitivo da manifestação de Jesus com a sua vinda na glória “e exultai pois será grande a vossa recompensa no céu”
Acreditar na morte e ressurreição de Jesus e nossa também como indicam a 2da leitura, é fonte da coragem, e com ela, da necessária determinação e firmeza para entrar nas bem-aventuranças e não desviar, ou voltar atrás, nos momentos difíceis da provação.
Tudo isso, sustenta e motivam a confiança e a esperança, próprias da ação do Espírito Santo que- como mestre interior- faz enxergar o que ultrapassa o entendimento e a experiência humana. Esta experiência fortalece a determinação de permanecer no caminho, apesar de todos os pesares. É participação da comunhão e intimidade com Deus, com outras palavras, da salvação. Assim, o mistério de Deus se atualiza na pessoa: o humano se torna divino , Deus se humaniza na pessoa e a humanidade- a comunidade- se torna o templo do Senhor.