6º DOMINGO do T.C. - Ano C
1ª Leitura Jr 17,5-8
A tradição espiritual apresenta a existência humana como oportunidade de escolha entre dois caminhos opostos: o da obediência à Lei que conduz à vida; e o da indiferença, da rebelião, que leva à morte. Eis, então, se configurar o homem bendito por um lado e o homem maldito pelo outro.
“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” Com as palavras, “força na carne humana”, o texto entende a realidade do homem circunscrita à sua natureza, ou seja, à inteligência, à vontade, à memória, ao sentimento, ao coração que determinam o seu ser, a visão de si mesmo, as características de sua atividade, a percepção da realidade dos outros, do mundo e do destino de tudo e de todos no horizonte simplesmente humano. Esta atitude gera afastamento de Deus nas suas múltiplas formas de indiferença, de desvalorização, de repudio à auto-revelação de Deus ( no A.T. por meio da Lei, como expressão da Aliança, e no N.T., da pessoa e missão de Jesus).
É alerta pelos que hoje se definem indiferentes, agnósticos ou até ateus. Este fenômeno está crescendo vertiginosamente no mundo de hoje. O levantamento feito no Rio no2002 apontava a uma porcentagem de 2,8% dos entrevistados, nos 2009 já era o 7,8%...
Mas, cabe considerar que, se por um lado o motivo são as rápidas mudanças culturais e sociais, pelo outro, é preciso analisar seriamente se bispos, padres e leigos comprometidos sabemos reformular os conteúdos da Fe, rever a prática pastoral e, assim, oferecer uma resposta compreensível e plausível ao mundo de hoje.
De todas as maneiras, as conseqüências são dramáticas: “como o cardo no deserto, ele não vê chegar a floração” Com outras palavras, não vê chegar o bem, no sentido de que fala mais alto a esterilidade da própria atitude, assim como a incapacidade e a impossibilidade de vê-lo. Conseguentemente, acaba para se amoldar “prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada”
Terá os efeitos contrários o homem bendito porque “confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor”, pois, ele “ é como a árvore plantada junto à águas... não teme a chegada do calor... e nunca deixa de dar frutos” A confiança e a esperança caminham juntos. De que esperança se trata? Qual é o conteúdo específico dela, que motiva o voto de confiança? ( Entre parêntesis cabe perguntar: o homem de hoje em quem, em que coloca sua esperança e sua confiança? Na pessoa de Jesus? Na vinda do Reino, do novo céu, da nova terra aqui e agora, na qual triunfará a justiça, o direito e a fraternidade universal? Confia e espera na promessa de Deus? Tal vez, mas só após a morte, na vida eterna? Em qual esperança investe a própria vida e ativa suas energias pessoais e sociais? Nas promessas de Deus? Nos laboratórios genéticos para um futuro vencedor até da morte, ou pelo menos que prolonga a vida? No positivismo da ciência? Há uma esperança na vida do dia-a-dia, na história que não defraude? Qual o horizonte, inclusive o limite- se há-, dessa esperança confiante?)
São todas perguntas de grande porte cujas respostas do ponto de vista simplesmente humano por um lado ou estreitamente teológica pelo outro, desafiam a esperança e a confiança de todo ser humano.
Contudo, a Palavra de Deus tem a pretensão de oferecer uma resposta definitiva, merecedora de confiança, baseada na promessa de Deus cumprida com a ressurreição de Jesus. É o conteúdo da 2da leitura.
2ª leitura. 1Cor 15,12.16-20
“Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” Mais uma vez é apresentado o ponto central da fe cristã, como já sabemos.
“Eis que faço novas todas as coisas”Ap.21,5ª. As primícias foram a ressurreição de Jesus. O amor em virtude do qual Jesus, conforme a vontade amorosa do Pai e pela força do amor do Espírito Santo, se entregou ,é o mesmo que gera participação da humanidade dele na vida divina e conseqüentemente faz dela uma realidade nova. Realidade que tem, ao mesmo tempo, elementos de continuidade e descontinuidade com a vida humana anterior. É o mesmo corpo (continuidade), mas não o idêntico corpo (descontinuidade). É uma continuidade transformada, melhor, aperfeiçoada.
Sabemos que ninguém esperava, após a crucificação, um evento deste tipo. Surpreendeu a todos. Nem foi fácil relatar o que realmente aconteceu e, menos ainda, aprofundar o alcance do evento, que ficará para sempre envolvido no mistério de Amor da Trindade. Os relatos evangélicos são uma tentativa de dar razão de uma experiência de amor entre os discípulos e Jesus, em termos de confiança, de seguimento dele, de adesão à sua pessoa e à sua palavra, de entrega...
Naqueles cuja confiança, seguimento, adesão e entrega ficou aquém do devido, ficaram perplexos com o evento da ressurreição. Daí, a pregação deles suscitará a reação de são Paulo: “Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dizer ente vós que não há ressurreição dos mortos” Com efeito, a ressurreição é face do amor que abrange simultaneamente esta e a outra vida após a morte. Diz Moltmann (um teólogo alemão de fama mundial) que o amor pelo qual é resgatada a vida corporal após a morte, é o mesmo amor que dá sentido profundo a nossa existência nesta terra, no dia -a- dia. Acreditar na ressurreição é acreditar no amor praticado até o fim, como Jesus “os amou até o fim” em sentido temporal, até o último momento, em sentido de entrega total e em sentido de que ele é o amor em sentido pleno, total. Depois dele e fora dele não há amor. Então, todo amor autentico e verdadeiramente humano tem nele sua origem e seu fim. E nesse sentido se torna divino.
“Se é para esta vida que pusemos nossa esperança em Cristo, nós somos - de todos os homens- os mais dignos de compaixão” Portanto, se a esperança está circunscrita aos critérios humanos, no sentido só de pretender encontrar em Cristo o apoio e a sustentação perante as dificuldades humanas do dia-a-dia, é porque se confia no horizonte simplesmente humano, como indicava a 1ª leitura. Daí o motivo da compaixão, à qual se refere são Paulo, pelo engano, pela ilusão que acarreta, e enfim pela confiança e esperança mal colocadas em Cristo e, portanto, inútil.
O que significa colocar a esperança em Cristo, ou simplesmente nesta vida , o evangelho o indica concretamente.
Evangelho Lc 6,17.20-2
“Jesus desceu da montanha com os discípulos” A montanha é o lugar da revelação do Pai, da intimidade e familiaridade com Deus. Portanto, Jesus teve uma especial comunhão com o Pai e com os discípulos na montanha. Descendo “num lugar plano. Ali estavam muitos (outros) de seus discípulos e grande multidão de gente...” O que Jesus coloca para eles tem relação com essa experiência, e particularmente como se quisesse se dirigir a eles em primeiro lugar, pois “ levantando os olhos para os seus discípulos”. Esse levantar os olhos para eles soa como se quisesse fixar suas palavras na alma deles.
“Bem-aventurados vós... ai de vós... ” Eis indicadas as benções de Deus em contraposição das benções do mundo. Duas realidades inconciliáveis. No entendimento do homem que confia só no homem (1ª leitura), o certo são as segundas, pois, eles constituem o sonho e o desejo de toda pessoa. Quantas pessoas vivem, almejam e fazem deles o motivo, o fim, do próprio dia -a- dia. Contudo, Jesus alerta: não é por ai o caminho da salvação para a pessoa e para a humanidade toda.
Cabe se perguntar: as bem-aventuranças são o ponto de chegada ou o ponto de partida para o discípulo? Tal vez, as duas. São ponto de partida, no sentido de não desprezar, não ter medo, não fugir delas, como seria a primeira reação de todo ser humano. Portanto, é preciso topar com elas, na forma e na medida em que as circunstâncias e a fidelidade à causa de Jesus o exigem.
São, também, ponto que acompanha o dia- a- dia, no sentido de não ficar surpreendido do que irá acontecer em termos de sofrer pobreza, fome, choro e rejeição por parte dos homens, pois ,fazem parte da experiência , misteriosa e sincera, da verdade que acompanha a caminhada com Ele.
São, também, o ponto de chegada, de uma meta que estará sempre na frente como um imã. Com efeito, a vivencia disso tem em si mesma uma dinâmica que leva mergulhar, cada vez mais profundamente, no insondável e inesgotável mistério de comunhão com Deus. Daí, a alegria no presente frisada pelo texto: “ Alegrai-vos, nesse dia” É, também, antecipo de algo muito maior que se manifestará no futuro , no dia último e definitivo da manifestação de Jesus com a sua vinda na glória “e exultai pois será grande a vossa recompensa no céu”
Acreditar na morte e ressurreição de Jesus e nossa também como indicam a 2da leitura, é fonte da coragem, e com ela, da necessária determinação e firmeza para entrar nas bem-aventuranças e não desviar, ou voltar atrás, nos momentos difíceis da provação.
Tudo isso, sustenta e motivam a confiança e a esperança, próprias da ação do Espírito Santo que- como mestre interior- faz enxergar o que ultrapassa o entendimento e a experiência humana. Esta experiência fortalece a determinação de permanecer no caminho, apesar de todos os pesares. É participação da comunhão e intimidade com Deus, com outras palavras, da salvação. Assim, o mistério de Deus se atualiza na pessoa: o humano se torna divino , Deus se humaniza na pessoa e a humanidade- a comunidade- se torna o templo do Senhor.
Ola padre, meu santo marido consegiu me incluir em sua lista, ele esta dizendo que participar é muito pra ele, vamos dar tenpo ao tempo.
ResponderExcluirAbraços
Graça
Pe João:
ResponderExcluirTudo bem?
Estou sentindo sua falta no Skipe. Padre o Senhor está acopanhando a CF desse ano, caso o sr. esteja podia fazer uma pequena e breve reflexão voltada para as crianças, confesso que não estou conseguindo um linguajar infantil para esplanar essa Campanha dentro do:
Ver - julgar e agir.
Um abraço cheio de saudades.
Nalva