domingo, 14 de fevereiro de 2010

Comentário do 1º Domingo da Quaresma (21/02/2010)

1o DOM DA QUARESMA-C

1ª leitura Dt.26,4-10

A fé dos israelitas se apoiava no que Deus havia feito concretamente por eles no decorrer da história. O texto lembra: “Os egípcios nos maltrataram (...). Clamamos ao Senhor ( ...) e o Senhor ouviu (...) nos tirou do Egito com mão poderosa e braço estendido (...) E nos conduziu e este lugar e nos deu esta terra, onde corre leite e mel”. O texto, é o fruto amadurecido da reflexão e da meditação com respeito à libertação da escravidão do Egito, à caminhada pelo deserto e à chegada na terra prometida. A chegada testemunha o cumprimento da promessa de Deus, do dom da terra “onde corre leite e mel”, uma metáfora que aponta a benção em termos de frutos abundantes e gostosos para todos, assim como de paz e de harmonia entre eles.

A QUARESMA é a caminhada anual de toda a Igreja e de cada pessoa. Ela começa com o dom da libertação da escravidão do Egito, ou seja, do mal e do pecado. Dom que Jesus já nos ganhou e que marca a identidade profunda de cada pessoa como filho de Deus, como discípulo de Jesus e morada do Espírito Santo. No começo do caminho da quaresma é preciso se re-apropriar destas verdades que muitas vezes esquecemos, não valorizamos ou não damos a devida importância.

A QUARESMA, caracterizada pelos 40 dias (sinal de um tempo demorado, praticamente a vida toda), é a caminhada do homem livre para viver, fortalecer, consolidar e levar à plenitude o dom da libertação, ganhado com a saída do mal e do pecado. Nesta caminhada,quem conduz é Deus: “Ele nos tirou do Egito (...) e nos conduziu a este lugar” Trata-se, então, de caminhar humildemente, no dia- a –dia, com o nosso Deus, conforme a bela expressão de Mq.6,8.

A QUARESMA tem seu ponto de chegada na terra “onde corre leite e mel”, meta na qual o sonho se torna experiência de vida bem sucedida, de realização pessoal e social, de plenitude etc., se faz realidade, para partir rumo a outro sonho. São famosas as palavras de Hermann Hesse: “Há de se encontrar o seu próprio sonho para que o caminho seja fácil. Mas não existe sonho perpétuo. Todo sonho deixa lugar o novo sonho, e não pode querer reter algum” É uma dinâmica inesgotável, sendo que Deus é a “terra prometida”.

“Por isso, agora trago os primeiros frutos da terra que me deste, Senhor. Depois (...) tu te inclinarás em adoração diante dele ”A experiência se torna motivo de ação de graças, de agradecimento, pelos frutos - os primeiros, depois haverá outros- por ter confiado e caminhado nas indicações do Senhor, por ter agido conforme ao dom da libertação de homens livres, por ter vencido as tentações de voltar atrás ou de mudar de rumo nos momentos difíceis das provações e das dificuldades.

O gesto de se inclinar em adoração é reconhecer que valeu confiar na ação libertadora, valeu a fidelidade da firmeza e da perseverança na caminhada . Portanto, é preciso reconhecer a verdade e o certo da promessa de Deus, assim, como o autêntico sentido e destino da existência. A promessa é como o farol que ilumina e indica os critérios, a filosofia da vida e a maneira de se comportar no dia- a dia.

Evidentemente, como cristãos, a libertação do pecado e do mal, o caminho no dia- a- dia, a terra prometida e os (primeiros) frutos encontram na vida, na missão e na entrega de Jesus o caminho, porque Ele é verdade e vida, como comentaremos no texto da 2da leitura.

2da leitura Rm 10,8-13

“Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” Vale frisar que são Paulo apresenta sempre Jesus a partir da ressurreição, não a partir da concepção , do nascimento (...) até a ressurreição. Começa do fim. Por quê? Porque o fim manifesta quem é realmente Jesus, o significado e a importância da vida e da missão dele. Jesus é percebido na sua verdadeira essência a partir do evento da ressurreição, em virtude do qual é constituído, pelo Pai e pelo Espírito Santo, Senhor do céu e da terra. Evento estritamente ligado e inseparável da morte na cruz. Evento motivado pelo amor que, por sua singularidade, desconcerta radicalmente todo critério de entendimento e toda possível experiência no âmbito humano.

Boca... e coração” caminha juntos. A primeira para confessar, ou melhor, testemunhar; e o segundo como adesão e entrega sincera ao que Jesus fez , e faz hoje, para mim, como meu representante perante do Pai. É conhecido o refrão: “a boca fala do que o coração está cheio” É isso mesmo! Tudo começa no coração tocado pela GRATUIDADE DO DOM de Deus, pela morte e ressurreição de Jesus. (A quaresma é se deixar tocar mais profundamente por esse dom)

“É crendo no coração que se alcança a justiça”. Isso significa que o coração humilde e confiante, pela gratuidade do dom-os efeitos da morte e ressurreição de Jesus-, experimenta em si mesmo o que é ser justo e perdoado perante de Deus Pai, graças à entrega do Filho e à ação do Espírito Santo nele. É este dom que o torna justo, algo impossível à vontade, à força e desejo simplesmente humanos. A justiça é de Deus, é doada por Ele.

A nós simplesmente ( mas não é tão simples!) acolher e acreditar no dom. É o que deve acontecer em cada santa Missa. É correto rezar depois da Consagração “Anunciamos a tua (a minha ) morte; proclamamos a tua (a minha) ressurreição; vinde ( já estás presente ) Senhor Jesus” É o conteúdo mais importante e primeiro da fé!

Mais importante, ainda, é ter consciência que tudo isso é condição previa para entender a Palavra de Deus no seu correto significado, na sua abrangência e nas suas conseqüências éticas e comportamentais na pessoa (e na sociedade). Com efeito, “A palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração” O que entende com isso são Paulo? O texto escrito? Impossível, o texto é um elemento externo à pessoa. ( Na época em que escreveu, ainda não existiam os 4 Evangelhos e os s textos do Novo Testamentos,assim como os conhecemos hoje!)Não pode ser outra coisa que o dom gratuito do evento, do qual falamos acima, acolhido pela fé no próprio mundo interior- o coração e a inteligência-.

Portanto, “Essa palavra é a palavra da fé, que nos pregamos” não é o texto escrito, mas o evento da morte e ressurreição de Jesus. Mais ainda, é o estilo de vida dele (retomaremos este aspecto comentando evangelho) que culmina com o evento pascal. Portanto, “É crendo no coração (...) e confessando a fé com a boca que se consegue a salvação aqui e agora. É este o evento da Palavra, do qual surgem e brotam os diferentes textos bíblicos do Novo Testamento, como testemunho de que “Todo aquele que nele crer não ficará confundido”.

Entendendo com mais profundidade e convicção tudo isso, a pessoa se identifica cada vez mais com Jesus e assume o estilo de vida Dele.

Evangelho Lc 4,1-13

O texto é paralelo ao de Mt 4,1-11,cujo comento está no blog sob o titulo “Tentações”, antes dos comentários deste domingo. Portanto, não vou repetir, mas acrescentar outras considerações.

As respostas às tentações visam desfazer no povo as idéias erradas com respeito a Deus e o agir Dele, que são a causa de todo o mal, do permanecer no pecado e na escravidão, apesar da experiência libertadora.

Elas indicam os tópicos da conversão permanente no dia-a-dia, que determinam o estilo de vida, do qual tocamos na 2da leitura. Portando, a conversão não é simples aplicação de normas de comportamento estabelecidas com anterioridade. É algo que a ultrapassa, e do qual o mesmo Jesus é testemunha “foi dito... porém eu vos digo” (Mt 5,21 e seguintes) e exemplo: “ Eu também não te condeno.Podes ir, e de agora em diante não peques mais”(Jo 8,11). Concretamente, é reinterpretação das normas e das leis, como resultado de adesão interior- coração e inteligência- ao evento da morte e ressurreição de Jesus (atualizado na Missa)e a circunstância concreta, visando e finalidade pela qual Jesus se entregou: “ Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia”(Jo 10,10).

A conversão, portanto, é um processo continuo e criativo que responde a três exigências que deverão se integrar uma nas outras, como fichas do mosaico, para satisfazer a característica de “vida em abundancia” pela qual Jesus se entregou.

a) “Eis o homem!” A quem Pilatos está indicando? A um homem que acaba de ser chicoteado e prestes a ser crucificado “para que todos tenham vida em abundância”. A conversão está nesta direção. Eis, então, a pergunta: Estou me tornando mais humano? Estou neste processo de hominização?, ou seja, estou assumindo os critérios de Jesus do que é ser verdadeiro homem?

b) A sociedade se trona mais humana, mais justa, mais ética, mais fraternal (é mais do que democrática), no respeito das diferenças e da dignidade de cada cultura?

c) A criação, o mundo é preservado e conservado nas suas exigências ecológicas?

São três perguntas que desdobram a vivencia do Amor e constituem a verdade de Deus sobre as pessoas, sobre a sociedade e a criação. Amor que encontrou tenaz oposição e rejeição até na cruz. Amor pelo qual Jesus não se dobrou, e, portanto, carregou as conseqüências que sabemos, porque, ultrapassando a trágica rejeição, enxergou a “força da vida indestrutível” (Hb 7,16).

É o amor que motiva e sustenta Jesus na grande luta que o acompanhará no desenvolvimento de sua ação pastoral. Amor incompreensível para quem pensa a Deus, e pretende servi-lo, a partir do entendimento que Jesus desmanchou. Amor que condenou ele à solidão mais radical, por ter carregado com a desconfiança até a rejeição -o pecado- do homem. Amor que o capacitou proferindo as últimas famosas palavras antes de morrer. Amor que justifica perante o Pai os que o rejeitam, e que subjetivamente se sentirão tais, após a ressurreição, se aceitarão de coração sincero e com inteligência humilde o significado e o alcance do evento. Amor que é já experimentar a ressurreição, ou seja, a força da vida indestrutível.

O estilo de vida é a dinâmica da morte e ressurreição, incluída no Amor na sua expressão mais alta. A QUARESMA é para aperfeiçoar e aprofundar essa mesma dinâmica.

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