domingo, 21 de fevereiro de 2010

Comentário do 2º Domingo da Quaresma (28/02/2010)

2do DOM. DA QURARESMA - C

1ª leitura Gn 15,5-12.17-18

É o texto muito conhecido, para quem tem familiaridade com a Bíblia, da renovação da promessa e do estabelecimento da Aliança por parte de Deus. Depois do chamado de Abrão, para caminhar rumo à nova terra (a terra prometida) e se tornar pai da descendência numerosa como as estrelas do céu e o numero de grãos de areia na praia do mar (ele e a mulher não tinham filhos e já de idade avançada), após muitos anos, não há sinal de resposta, de cumprimento da promessa. A demora sempre é uma provação. É nesse contexto que destaca o texto.

A iniciativa é de Deus “O Senhor conduziu Abrão para fora e lhe disse ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!”. Pede algo impossível, como contar as miríades das estrelas do firmamento, no céu do deserto completamente limpo. Dessa forma, coloca Abrão frente à sua radical incapacidade. Coisa desanimadora, se não for pela profunda humildade dele em aceitar os próprios limites. E Deus acrescenta “Assim será a tua descendência”. Com estas palavras renova a promessa, não especificando o tempo, o lugar e a circunstância do seu cumprimento. Eles serão determinados por Deus, pois fogem a todo desejo e expectativa de Abrão.

“Abrão teve fé no Senhor, que considerou isso como justiça”. Abrão não reclama pela demora no cumprimento da promessa, mas renova o voto de confiança. Esta é experiência comum de toda pessoa, de todos os tempos e de todos os lugares, que toma a serio e confia na promessa de Deus. Às vezes a demora é tão grande, que a impaciência e a desconfiança se transformam em frustração e defraudação. Não foi assim para Abrão, que renovou sua confiança. E o Senhor “considerou isso como justiçaporque reconhece a realidade dos dois e o correto relacionamento entre eles: Deus é Deus e o homem é homem.

Deus renova, com a promessa da descendência, a posse da terra. “Senhor Deus, como poderei saber que vou possuí-la?” Com a confiança interior- de coração-, Abrão coloca a exigência da razão “... como poderei saber...”?. Deus responde Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates” e sela, com a celebração, o pacto, conforme o costume daquele tempo: seccionar uns animais, passar no meio deles, significando que aquela será a sorte de quem não respeitar o combinado no pacto.

Notável é observar que só Deus passa entre os animais “apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre os animais divididos” Impressionante: é um pacto entre desigual! Só Deus se compromete. O estupor e a maravilha de Abrão são tão grandes que o introduz como num “sono profundo, e grande e misterioso terror”. Portanto, é a magnitude, a grandeza da revelação que gera a específica atitude de Abrão (O sono,na Bíblia é ,também, lugar da revelação de Deus).

O que diz este sono profundo, este grande e misterioso terror de Abrão, à experiência de Deus de cada pessoa que, como Abrão, confia, dá seu voto de confiança, à promessa Dele?

No sono percebemos de forma passiva- sem nenhum esforço ou atividade consciente- algo com referencia ao nosso mundo interior. Nele, somos como tomados por algo que não pertence à esfera do raciocínio e do consciente. Melhor, nos pertence só como mistério e de maneira misteriosa... Algo que, quando se torna consciente, pelo menos no caso de Abrão, não pode que suscitar grande e misterioso terror, pela imensidade da revelação por um lado e pela pequenez de Abrão pelo outro.

Tal vez, vale especificar que o mistério não se refere simplesmente ao desconhecido, mas à realidade misteriosa de Deus que envolve, acompanha, está presente e no qual se pode confiar. Parece-me que toda experiência de Deus lida com estes extremos.

Experiência que revela a verdade indicada por Paulo na segunda leitura.

2ª leitura Fl 3,17-4,1

Nós somos cidadãos do céu” em virtude da participação no mistério, que se manifestou no evento da morte e ressurreição de Jesus, que selou a Aliança Nova e Eterna e nos é participado pela mesma fé que teve Abrão, por acreditar em Jesus como nosso representante perante o Pai.

Conclusão: já estamos sentados no céu. É o que diz Paulo na carta aos Efésios: “Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus, em virtude de nossa união com Jesus Cristo” (2,6). Contudo, “De lá aguardamos o nosso Salvador... Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso...” Portanto, há um futuro e um presente entrelaçados, pelo qual o futuro não é só futuro, mas já é presente e vice-versa . Esta percepção surge do intimo, do profundo do mundo interior, em toda pessoa que assume o estilo de vida de Jesus (pode acontecer, também, numa pessoa que se diz ateu ou uma não cristã, se assumir o estilo de vida)

Portanto, a afirmação de são Paulo: “continuai firmes no Senhor” se refere ao estilo de vida Dele, não- evidentemente- a uma fé só de boca para fora, ou à simples recepção do batismo ou dos outros sacramentos, sem a resolução e determinação para o correspondente estilo de vida. É a firmeza de quem sempre deverá lutar contra a tentação do estilo de vida oposto: “o fim deles é a perdição, o deus deles é o estomago, a gloria deles está no que é vergonhoso e só pensam em coisas terrenas”. O estilo oposto manifesta que “se comportam como inimigos da cruz de Cristo”. Inimigos por desconfiar, não valorizar ou não aceitar o que Jesus nos ganhou com sua morte na cruz, em termos de transformação no profundo do ser. Para colocar uma comparação, é como a reconstrução de um corpo perfeito após o atropelo esmagador. Portanto, o estilo de vida que não condiz, tem sua causa última na desconfiança e desvalorização já dita.

Dai, que a imploração, a insistência e até o choro de são Paulo “Sede meus imitadores... e observai... Já vos disse muitas vezes, e agora o repito, chorando” , traduzem os autênticos e profundos sentimentos dele, com respeito aos cristão de boca para fora, ou que acham suficiente cumprir algumas obrigações religiosas... Sentimentos de grande sofrimento, por pessoas que nem estão aí- do ponto de vista cristã- e não se dão conta (ou não querem se dar conta!)do prejuízo que carregam consigo mesmos e, conseqüentemente, pelos outros.

A quaresma é uma oportunidade privilegiada para uma revisão deste tipo.

A combinação futuro e presente, e vice-versa, se manifesta na pessoa de Jesus com a transfiguração que comentaremos a continuação.

Evangelho Lc 9,28b-36

“Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar” São os mesmos três que chamará consigo para rezar na quinta feira-santa, no jardim das oliveiras. Detalhe muito significativo. A oração os introduz tanto na transfiguração, assim como no momento dramático da paixão Que singular e desconcertante combinação! Gostaríamos somente da primeira e de jeito nenhum da segunda. Mas Deus é assim, combina os dois.

Eis, então, o surpreendente evento pelo qual se revela a profunda realidade de Jesus e, com ela, a manifestação do Pai: “Este é meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz” e do Espírito Santo: “... apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra”. Para eles, os três apóstolos, será uma experiência inesquecível, e não é para menos. Os quatro evangelhos a relata e o mesmo Pedro se lembrará dela na sua carta. Esta manifestação é antecipo da ressurreição, pois, manifesta não só a realidade de Jesus como Deus, ma o destino da própria natureza humana e, com ela, o destino de todo homem e de toda obra criada por Deus.

“Eis, (...) Moises e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus ia sofrer em Jerusalém” Singularíssima, surpreendente e desconcertante este binômio de glória e morte. A Lei (a Constituição, diríamos hoje) é fundamento da vida social e pessoal do povo, expressão da Aliança com Deus.

A atividade dos profetas, representada pelo profeta Elias, cuja missão, era chamar constantemente o povo ao respeito da Aliança na interpretação e execução correta da Lei. Lei e profetas conversam sobre a entrega de Jesus em Jerusalém. Assim, a glória, a manifestação do que é especifico de Deus na pessoa de Jesus, se manifesta exatamente no que é totalmente contrário ao entendimento e expectativa humana. Nesta perspectiva, Jesus se faz portador e assume sobre si mesmo a glória que estava sobre os dois, a glória de Deus: “... viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele” Assim, a glória de Deus é passada a Jesus e terá sua plena manifestação na entrega nas festas de Páscoa. A Lei (Moises) e os Profetas (Elias) saem da cena, do “palanque”, “estes homens se iam afastando”, e fica Jesus sozinho. Ele será a nova Lei e o profeta por excelência, que levará à plenitude o cumprimento do projeto do Pai, com a ação do Espírito Santo

Deus Pai manifesta o seu consentimento com as palavras do profeta Isaias, que apontam ao Servo de Javé, que deverá entregar sua vida para o resgate do povo “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” ( a nova Lei). A “nuvem que os cobriu com sua sombra” é a presença do Espírito ( o novo Profeta). A nova lei será a entrega incondicional, gratuita e desinteressada. E o Espírito será a força e a dinâmica do amor na qual e pela qual a entrega se torna manifestação da glória de Deus Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Merecem destaque as atitudes dos três apóstolos: “Estavam com muito sono”. O sono os dominará, também, no momento dramático no jardim das Oliveiras. Tal vez seja uma maneira para indicar que nem estavam aí e a dificuldade de entenderem o alcance e o significado do acontecimento e, portanto, de sintonizarem com ele. De fato, Pedro fez uma colocação em virtude da qual manifestou que percebeu somente o aspecto deslumbrante do evento, ao ponto tal que se Jesus tivesse acolhido o convite, teria fracassado a missão dele. ( Nesse sentido o demônio estava nele!).É então que o evangelista anota: “Pedro não sabia o que estava dizendo”.

Além do sono e do devaneio, foram tomado pelo medo: “Ele ( Pedro) estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem”. Evidentemente, o texto está indicando que não tinham nenhuma condição de sintonizar e menos de assumir o que Pedro estava propondo. Cabe frisar das experiências bem diferentes do sono e do grande e misterioso terror experimentado por Abrão na 1ª leitura, d sono e o medo dos discípulos neste texto. O que faz a diferença é a fé- Abrão- e o discípulo- ainda- perdido...

A experiência da transfiguração deve ter sido traumática para os apóstolos, pois, “ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto”. Contudo, não desistiram de caminhar com Jesus. Este é o grande mérito deles!(e deve ser o nosso!). Após a ressurreição a transfiguração se tornará um dos grandes eventos da predicação deles. Tudo isso diz muito para o discipulado de cada um de nós.

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