No começo da Quaresma, me parece importante a reflexão e o entendimento do significado das tentações de Jesus no deserto. Elas oferecem a chave interpretativa do agir e da missão dele. Eis,então, o texto que elaborei para o curso de Cristologia.
Jesus começa sua atividade pastoral com o Batismo no Jordão. Ele é ungido pelo Espírito Santo, para assumir a missão do Servo de Javé.
Lucas acrescenta que, no deserto Jesus é guiado pelo Espírito. É o Espírito em Jesus e com Jesus, o primeiro dos dois atores da tentação, uma vez que Jesus e o Espírito são as duas mãos do agir de Deus.
O Espírito leva Jesus ao deserto, lugar de solidão, de falta de conforto, de encontro com a realidade mais profunda de Si mesmo. É aí onde ressalta sua verdadeira identidade, aquilo que sinceramente é. Aí não há barreiras para desvelar plenamente a Si mesmo e a Deus.
Guiado pelo Espírito, jejuou 40 dias. Quarenta é um número simbólico, indica um tempo prolongado e um processo demorado. Há coisas que por sua seriedade e profundidade precisam de tempo. O jejum leva Jesus ao enfraquecimento físico: O texto afirma que Ele sente fome, porém isto o torna lúcido, para desarmar as ciladas do diabo, e determinado, forte e firme, para não entrar nelas e sair vitorioso do confronto.
No batismo, acaba de assumir a missão. Mas, ficam as perguntas: Com que meios? De que maneira desenvolver essa missão?
A tentação se refere não ao objetivo da missão, isto é, à libertação do pecado e à salvação do homem, mas aos meios e caminhos para alcançá-la. Propondo meios e caminhos errados, o diabo consegue o fracasso da missão de Jesus.
O segundo grande ator é o diabo, ou melhor, é Jesus mesmo enquanto homem, raciocinando e pensando o seu agir de homem, desligado e afastado do Espírito. Seria o homem pecador do qual Ele assumiu a condição e a solidariedade com o batismo no Jordão, sem se tornar tal! Ele percebe, na sua pessoa, o que é ser “pecador”. A palavra “diabo” indica o que divide, afasta. Jesus mesmo chama Pedro de Satanás, pouco após a profissão de fé deste em Jesus como Messias, quando diz: “ Vá embora Satanás, você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8, 33). São as mesmas palavras que Jesus usa como resposta à terceira tentação: “Vá embora Satanás” (Mc 4, 10). Então, o diabo é o mesmo homem que pensa e age afastado, separado, não levando em conta o pensamento e a vontade de Deus. Não é preciso pensar em um bicho solto que anda por aí... Para a cultura e a mentalidade da época, cai muito bem a figura de um ser diferente que dialoga com Jesus.
Talvez, a realidade mais certa é que Jesus sente no mais profundo de Si mesmo, todo o peso e o conflito de um desdobramento: por um lado, a união entre Ele e o Espírito em virtude de sua realidade divina e, por outro lado, a realidade humana do homem pecador, afastado de Deus e não ligado à ação do Espírito, que acaba de assumir solidariamente e que manifesta toda sua força e poder sedutor (É o que são Paulo designará mais tarde como “homem espiritual” x, “homem carnal”, isto é, a oposição entre Espírito e carne). O tempo demorado, o ambiente, o jejum rigoroso indicam que não foram as tentações coisa de pouca conta, nem que foi fácil vencê-las só porque Ele é o Filho de Deus. Cabe precisar que Jesus vencerá a batalha - “Então o diabo o deixou” (Mc 4,10) -, mas a tentação voltará no tempo oportuno. Quando? Poucos minutos antes de morrer: a última tentação - “A outros salvou. Que Se salve a Si mesmo, se de fato é o Messias de Deus, o Escolhido! (...) Se Tu és o rei dos judeus, salva-te a Ti mesmo!” (Lc 23,35-37). A guerra será vencida na cruz e selada pela ressurreição.
Importantíssimo é não perder de vista que, nas tentações, está em jogo a pretensão de Jesus ser acreditado e aceito como Filho de Deus. Aos olhos dos homens, afastados de Deus, Ele tem que provar que realmente O é!!!
Só que para os homens, o que eles entendem e esperam de Deus como Messias (ungido por Deus) é bem diferente daquilo que Jesus e o Espírito estão prontos a passar. Daí a tensão e o conflito.
Assim, a primeira tentação revela que os homens esperam que Deus resolva, com um passe de mágica, as urgentes necessidades básicas do dia-a-dia: fome, saúde, desemprego, etc.
Com efeito, o povo quer sinais, milagres. Se Deus é poderoso, por que não faz? Se não fez, não é Deus. Jesus oferecerá alguns sinais, milagres e, ao mesmo tempo, recomendará de mantê-los em segredo, de não divulgá-los (trata-se do chamado segredo messiânico), porque o significado verdadeiro deles só seriam revelados com a morte e ressurreição Dele, não antes. Antes seriam mal interpretados e mal entendidos! (É o que acontece, também hoje, desligando os sinais da morte e ressurreição!) Cair na tentação significaria descompromissar os homens da prática do amor e da justiça na história e no dia-a-dia, através da qual o pão chegaria à mesa de todos, assim, como a satisfação das exigências básicas. Afastando a prática do amor e a justiça, Deus seria mantido afastado deles, e eles continuariam na mesmice.
Jesus antepõe a Palavra. Não desconsidera a importância do pão, mas antecede a ele a Palavra, que, se acolhida, o permite chegar a todas as mesas.
A segunda tentação: "Joga-te para baixo” (Mt 4,6) - da parte mais alta do Templo. Aí está Deus no templo, e Ele vai se manifestar. Sendo Filho, Deus não vai permitir que se machuque; e todos, vendo que Ele é salvo por Deus, acreditarão imediatamente em Sua mensagem. Que melhor oportunidade para tirar dúvidas quanto à pretensão de Jesus ser Filho de Deus! Até pouco antes de morrer é exigida esta intervenção para a demonstração de que realmente é Filho de Deus: “Confiou em Deus; que Deus o livre agora, se é que O ama! Pois Ele disse: Eu sou Filho de Deus” (Mt 27,43). (Com efeito, o Pai que entrega o Filho, e o Filho que aceita ser entregue pelo Pai é, talvez, a afirmação mais escandalosa de todo o Novo Testamento!) Mas, será que a intimidade e o amor Pai-Filho é assegurada por uma intervenção desse tipo? Do ponto de vista humano é isso mesmo. Contudo, quantos pais fazem isso para não perder algo que lhes pertence radicalmente e do qual precisam! Quantos filhos, tirados do perigo, após um momento de gratidão e de “conversão”, voltam ao mesmo ou até nem estão aí! Por outro lado, o grande apego pais-filhos, filhos-pais não seria sinal do falso amor?
Será que a confiança em Deus depende de gestos grandiosos e surpreendentes? A parábola do rico que pede ser ressuscitado, convencido que, em virtude disso, os irmãos, ainda vivos na terra, se converteriam, ensina: “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos” (Lc 16, 27-31).
Cair na tentação teria sido a manifestação do poder grandioso e surpreendente, porém, inútil e estéril.
Inútil, porque o temor reverencial que suscitaria frente ao poderoso geraria, por um lado, distanciamento e, por outro, a falsa comunhão típica do inferior para com o superior chamados a conviverem juntos.
Estéril, porque a capacidade do amor ao próximo ficaria cercada das exigências do “amor” entre pai e filho. Esse amor se tornaria uma barreira intransponível, o contrário do que Jesus afirmara: “Quem ama mais seu pai ou sua mãe do que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Cercar o amor é torná-lo estéril.
Para o homem descompromissado, indiferente ao projeto de salvação da humanidade inteira, é certo cercar o amor dentro dos próprios familiares, parentes, amigos e viver a “realidade” de Deus como emoção pela grandiosa e surpreendente intervenção Dele.
A terceira tentação. O diabo deixa as primeiras motivações - “Se és Filho de Deus” - e abre o jogo - "Olha o mundo, suas riquezas e glória”- (Mt 4,8). “Eu Te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser” (Lc 4,6).
Poder e glória foram dados ao homem por Deus mesmo -“Tu (Deus) o fizeste pouco menos que um deus, e o coroaste de glória e esplendor. Tu o fizeste reinar sobre as obras de Tuas mãos e sob os pés dele tudo colocaste” (Sl8, 6-7). Pelo teor da colocação, o diabo-homem se apropria deles de maneira indébita, isto é, como dono e Senhor deles. Desvirtuou, assim, a característica dom e de seu sentido de participação e cooperação no amor à ação criadora e recriadora de Deus, rumo à comunhão com Ele. Daí que o homem se tornou “diabo”, ou seja, elemento de afastamento, de separação de Deus. E as conseqüências são um mundo escravizado por todo tipo de mentira e engano.
Para o homem descompromissado com o sonho e projeto de Deus, e fundamentalmente individualista, é bom o poder e a afirmação do próprio “eu” em termos de riqueza, poder, fartura, alegria, elogios, etc. É o que eles mais aprovam, admiram e desejam. Não é certo que o sonho de muitos (todos?!) é ficar rico?
Cair na tentação seria aprovar um sistema de governo e de poder que teria mantido os homens na mesmice. Todo aquele que mexer com isso sofrerá sérias rejeições.
As tentações revelam o ídolo que está nos homens, isto é, a imagem de Deus construída por eles mesmos.
Os homens querem um Deus poderoso, que resolva, com mágica, as necessidades deles; que legitime seu ser Deus com intervenções surpreendentes e grandiosas, deixando as coisas como estão, sem compromisso nenhum para com Ele, a não ser para resolver, de forma mágica, caso por caso – individualmente –, as exigências básicas da vida, do dia-a-dia, e de sentir a presença poderosa Dele, quando o invocar para tirá-los dos apertos. A troca (a promessa) é a maneira concreta de administrar o relacionamento com Ele.
Esta visão de Deus é incompatível com a visão de Deus que tem Jesus. O conflito o levará à cruz. À pergunta inicial: como desenvolver a missão? Abraçando a cruz.
Meu querido Pe.
ResponderExcluirAinda no MCC e em outros lugares vimos ainda o inexistente (nos dias de hoje) fazendo muitas confusões nas mentes dos homens.
Esse acreditar ainda é causa de muitas controvérsias, porém fico feliz em engrossar o coro de que ele é como um cão acorrentado que late e que só pode ferir alguém, se este se aproximar dele.
Deus criou o homem no amor e para o amor, logo é próprio do homem amar, assim como a luz para iluminar.
Em nossos corações pulsam essa verdade, mas, revelada diante dos nossos olhos vemos que é um vôo muito difícil de fazer e encontramos latente as evidências de nossas fragilidades.
Essa evidência é encontrada desde os primeiros passos da humanidade sobre a terra, que só pode ser entendida através da revelação.
Essa revelação nos diz que o homem é bom, mas encontra-se mal, isso quer dizer que o homem não é doente, mas está doente.
Essa doença é encontrada desde muito tempo, os santos Padres da Igreja já fizeram um estudo sobre isso e São Maximo o Confessor chegou a conclusão que a raiz de todos os pecado vem de uma doença chamada Filáucia.
Filáucia – (philía + autos) é o amor de uma pessoa por si mesma.
Talvez alguém pense: isso parece ser uma espécie de egoísmo, mas não é.
Trata-se apenas de uma virtude, o amor próprio não é invenção do diabo, é uma invenção de Deus, pertence à natureza sadia do homem.
Jesus vai dizendo (Mt. 22,37-39), amar a Deus sobre todas as coisas, Amar o próximo como a ti mesmo (Lv. 19,18) e por fim, amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado, um amor sadio.
Mas esse amor torna-se doentio e egoísta quando, colocamos o nosso amor em primeiro lugar, o que São João nos alerta. Deus nos amou primeiro e o nosso amor tem que ser uma resposta, um segundo passo e não o primeiro passo. Ai esta a diferença entre amor sadio e amor egoísta.
Santo Agostinho nos ensina que, o homem foi feito para responder o amor de Deus, ele diz:
“Senhor, fizestes-nos para vós e nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em vós”.
Esse amor está sendo usado de forma prejudicial ao homem, e tem o poder de perverter todas as coisas, e tentamos criar obras baseadas nesse amor desordenado.
São Máximo descreve que essa doença afetou nossos primeiros pais, ou seja, o homem volta suas costas para Deus, para sua luz, e mergulha na matéria em busca de uma felicidade sem Deus.
Porque desse discurso?
Continuaremos na segunda leitura (risos)
Continuação...
ResponderExcluirPara que possamos entender as tentações no deserto passadas por Jesus, para reforçar o que o Pe. João Luis acabara de afirmar. Principalmente a respeito da inexistência do diabo,uma vez que está preso aguardando o desenrolar da história..
A Filáucia possui três filhas, (três maus pensamentos) que vem desse amor desordenado, esses pensamentos foram àqueles pensamentos que o demônio tentou Jesus no deserto.
1ª tentação o diabo disse: “se és filho de Deus, mande que essa pedra se transforme em pão” (Lc. 4,3) – GULA (loucura do estomago), buscar a felicidade através da ingestão de alimentos.
2ª tentação o diabo disse: “eu te darei todo este poder e as riquezas desses reinos, pois a mim é que foram dados, e eu os posso dar a quem eu quiser. Portanto, se te prostares diante de mim, tudo será teu (Lc. 4,6-7)” – AVAREZA (riquezas) é fazer o dinheiro e poder a fonte de nossa salvação, alcançar a paz e a segurança acumulando bens.
3ª tentação o diabo disse: “se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Ele dará ordens aos seus anhos a teu respeito para que te guardem” (Lc. 4,9-11) – VAIDADE (que pode ser traduzida por vangloria), ou seja, uma glória vazia, ou ainda, presunção que uma forma de vaidade.
Segundo os primeiros padres da igreja é o mesmo que dizer faça-nos um show.
Observando o sermão da montanha, Jesus nos fala dos exercícios a respeito desses três itens, que a igreja chama de “práticas quaresmais” – esmolas, oração e jejum.
Doenças (tentação no deserto) Terapia (Sermão da Montanha)
Gula Jejum
Avareza Esmolas
Vaidade Oração
Podemos assim concluir que:
- Jesus sofreu no deserto os males do homem
- Jesus usou daquilo que Ele iria nos ensinar mais tarde
Evágrio nos explica assim:
Entre os demônios que se opõem à prática (das virtudes), os primeiro a fazerem guerra são os que se dedicam aos prazeres da gula, os que insinuam em nós a avareza e os que nos estimulam a buscar a vaidade que vem dos homens. Todos os outros vêm depois destes e acolhem aqueles que formam por eles feridos.
Nosso Senhor nos ensina que para superar tudo isso, ou seja, afastar de nós esses pensamentos, precisamos exercitar as terapias, por isso o Sermão da Montanha. Uma carta linda do Amor de Deus para com os homens e o caminho para tirar de nós esses pensamento desordenados.
«Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto [...], onde era tentado pelo diabo»
ResponderExcluirRecordemos que o primeiro Adão foi expulso do paraíso para o deserto, para que a nossa atenção se concentre na maneira como o segundo Adão (1Cor 15, 45) regressa do deserto ao paraíso. Vede, com efeito, como a primeira condenação é desenredada, depois de ter sido enredada, como são restabelecidos os benefícios divinos sobre os vestígios dos benefícios antigos. Adão vem de uma terra virgem, Cristo vem da Virgem; aquele foi feito à imagem de Deus, Este é a imagem de Deus (Col 1, 15); aquele foi colocado acima de todos os animais irracionais, Este acima de todos os seres vivos. Por uma mulher veio a insensatez, por uma virgem a sabedoria; a morte veio de uma árvore, a vida pela cruz. Um, despido das vestes espirituais, concebeu para si uma veste de folhas de árvore; o Outro, despido da veste deste mundo, deixou de desejar uma veste material (Jo 19, 23).
Adão foi expulso do deserto, Cristo vem do deserto; porque Ele sabia onde se encontrava o condenado que queria reconduzir ao paraíso, já liberto do seu pecado. [...] Aquele que tinha perdido a rota que seguia no paraíso não era capaz de reencontrar a rota perdida no deserto, sem ter quem o guiasse. As tentações são numerosas, o esforço com vista à virtude é difícil, é fácil dar passos em falso e cair no erro. [...] Sigamos pois a Cristo, conforme está escrito: «É ao Senhor vosso Deus que deveis temer e seguir» (Dt 13, 5). [...] Sigamos, pois, os Seus passos, e poderemos passar do deserto ao paraíso.