segunda-feira, 19 de abril de 2010

4to DOMINGO DE PÁSCOA-C-(25-04-10)

1a Leitura At 13,14. 43-52

Lendo com atenção o texto e considerando o contexto, os atores e o que aconteceu, destaca o grande zelo missionário de Paulo e Barnabé. Sentiram-se motivados em deixar a própria terra para se dirigir a um povo e a pessoas desconhecidas “partindo de Perge, chegaram a Antioquia de Presidia”. É o efeito do evento da morte e ressurreição de Jesus- experimentado, no intimo da pessoa, como força transformadora do ser, e, conseqüentemente, assumido como eixo da própria existência e motivação do agir “...me amou e por mim se entregou” (Gl 2,20)dirá são Paulo.
O mesmo evento é como a seiva da atividade missionária deles. Tomam a iniciativa de “entrar na sinagoga em dia de sábado, sentaram-se”. A continuação Paulo pediu a palavra e se pus a pregar de maneira tão convincente que “Muito judeus e pessoas piedosas convertidas ao judaísmo seguiram Paulo e Barnabé” O sucesso foi tal que “No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra de Deus” suscitando a reação dos judeus que “ficaram cheio de inveja e, com blasfêmias, opunham-se ao que Paulo dizia”.
A coisa ficou complicada, pois, o choque produziu reação. O zelo deles, então, se tornou coragem e ousadia. Coragem para não fugir, não abandonar, e enfrentas as divergências. Eles, recém chegados, bateram de frente com os moradores judeus por mexerem com os convertidos por eles. Contudo, a coragem se tornou determinação: “Então com muita coragem, Paulo e Barnabé declararam” .No meio das dificuldades a determinação é a virtude principal, para não sucumbir e ter sucesso. “Estar em cima do muro” é assinar a própria derrota. Pode ser manifestação da insuficiente convicção, da pouca clareza do objetivo, do comodismo, do medo... É a alerta de que alguma coisa deve ser reavaliada e reconsiderada.
A coragem e a ousadia caminham juntas. Extremamente ousada é a colocação deles, pois, a aceitação dos pagãos, somente na base da fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e não na Lei de Moises do Antigo testamento, faz cair todo privilegio nacionalista como povo escolhido por Deus e herdeiro da promessa. Por isso, Paulo e Barnabé num primeiro momento dão destaque a eles, aos judeus, “Era preciso anunciar a palavra de Deus primeiro a vós”, pois, não desconhecem a importância do passado, mas acrescentam um toque de ironia “como a rejeitais e vos considerai indignos da vida eterna” e de provocação acrescentam: “ sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos. Porque esta é a ordem que o Senhor nos deu: (...)”.
(Esta atitude de Paulo e de Barnabé marca a mudança, de grande porte e conseqüências, de apertura definitiva aos pagãos. Atrevimento, ousadia e coragem fora de toda expectativa e imaginação, que estabelecerá o distanciamento do judaísmo por um lado, e o surgimento do cristianismo, pelo outro.)
Eis, então, a dupla e contraposta reação. Os pagãos “ficaram muito contentes (...) e glorificavam a palavra do Senhor”. Os judeus “provocaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé e expulsaram-nos”. Contudo, a semente foi implantada “ Os discípulos ficaram cheios de alegria e do Espírito Santo” Poderiam dizer: missão cumprida!
Cabe destacar a atitude de Paulo e Barnabé “sacudiram contra eles a poeira dos pés”, gesto simbolicamente impressionante pela mentalidade da época, pois, significa afastamento e ruptura irreconciliável. E “foram para a cidade de Icônio”. Não há registro de desistência, de desilusão, a missão continua. Com certeza, a sensibilidade, a vontade e o desejo deles de que a salvação fosse aceita por todos, judeus e pagãos, ficou provada, mas não ao ponto de desistir da missão e de recuar. É o testemunho da profundidade da permanência do efeito da morte e ressurreição de Jesus neles.
Efeito que expõe todo cristão à perseguição, como analisaremos na 2da leitura


2da leitura Ap 7,9.14b-17

O texto acentua bem a universalidade da salvação, que motivou a atitude de Paulo e de Barnabé: “Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar”. O destino - não no sentido de algo já predeterminado com anterioridade e do qual é impossível desviar-, a meta, da verdadeira realização em plenitude da humanidade faz parte do futuro possível, conforme à vontade de Deus, pelo oferecimento dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus.
Participar dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus é já antecipar deste futuro. Manifestação disso é a conduta pessoal e a prática de vida social em sintonia com a de Jesus. Ela vai na contramão à mentalidade e à ideologia da práxis dominante marcada pela corrupção, pela ganância, pelo hedonismo, pelo individualismo, pelo poder, pela exploração, em fim, por todo o que produz injustiça , sofrimento, desrespeito, prepotência e arrogância.
A pratica suscita o conflito, que atinge até os familiares e as pessoas mais próximas. Ela é motivo de grande tribulação “são os que vieram da grande tribulação”. Já Jesus tinha anunciado que aconteceria, mas todas as vezes que acontece o abalo não é de pouca conta. É nesse conflito que destaca o significado do inciso: “Lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro
A figura central do trecho é o Cordeiro imolado e vivente. É a representação de Jesus imolado na cruz e vivente pela ressurreição. Os que valorizaram este dom gratuito, “lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” , pois, tomaram consciência que a existência deles estava alicerçada sobre um novo ser, libertado do pecado e fortalecido pela intimidade e filiação divina. Eles perceberam como outra realidade que, tomando conta do coração, da inteligência e da vontade deles, motivou um estilo de vida diferente, com respeito ao estilo anterior. Ao mesmo tempo, os critérios de discernimento entre o certo e o errado foram bem diferentes dos de antes, assim como enxergaram horizontes mais profundos e envolventes, outra meta, outro destino, que ultrapassaram o mero entendimento humano .
Estes, perseverando a vida toda, eram os que “ Estavam de pé diante do Cordeiro; trajavam vestes brancas,e traziam palmas na mão(...) vieram da grande tribulação ”, pois, já nesta vida participaram da salvação pela fé nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, experimentaram sofrimentos pela grande tribulação e, dessa forma, mantiveram suas “vestes brancas” e alguns deles- os mártires- a custa da própria vida ( é o significado de trazer as palmas na mão). O sofrimento, o sangue derramado por eles tem afinidade com o sofrimento e o sangue do Cordeiro imolado. De alguma maneira é a prolongação do agir do Cordeiro na história.
Portanto, agora, eles participam da liturgia do céu “Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro (...) e lhe prestavam culto (...) Nunca mais terão fome, nem sede. Nem os molestará o sol nem algum calor ardente”. Experimentam a plenitude do processo pelo qual, tocados pela redenção oferecida pelo Cordeiro imolado na Páscoa, determinaram se mantiver neste dom apesar de todos os pesares. O Cordeiro que tirou o pecado deles, e que eles determinaram imitar como resposta de amor por ter sido amados, o encontram agora de novo como pastor na nova realidade, pastor que segura a vitória definitiva sobre todo mal “ Porque o Cordeiro(...) será o seu pastor e os conduzirá à fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos”.
A salvação está ao alcance de todos indistintamente, só que não é automática nem de rotina, mas exige a participação consciente e ativa no cultivo do correto relacionamento com Jesus.

Evangelho Jo 10,27-30

O relacionamento primeiro e imprescindível entre o pastor e a ovelha é a escuta “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. A primeira atitude do discípulo é escutar. Conhecido é o relato do evangelho no qual Maria, irmã de Marta, estava aos pés de Jesus escutando-O. Ele a aponta como quem “escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” ( Lc 10,42). A primeira forma de acolhimento é a escuta.
Ouvir é apenas uma atividade biológica, que não pede maior esforço. Escutar é diferente. É prestar atenção com atitude de amor para entender corretamente. É preciso escutar “com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com toda a sua mente” (Lc 10,27). A escuta, em virtude da dimensão amorosa, pressupõe o esvaziamento de si mesmo, sob pena de se enganar achando de estar escutando a Deus quando é simplesmente a projeção de si mesmo, dos próprios desejos etc. O mesmo vale para com o próximo. Escutar é muito mais desafiador - e difícil – do que parece.
É virtude amorosa de Deus, de Jesus, para conosco. Cabe pensar e meditar, que desde o silencio eterno Ele nos está escutando perfeitamente a cada um. Que ele está presente com todo o coração com toda a alma e com todo o ser a cada pessoa. Se assim não fosse o relacionamento seria impossível. De fato, a raiz do agnosticismo e do ateísmo tem nisso seu caldo de cultivo. Contudo, muitas vezes interpretamos o silencio Dele como esquecimento, indiferença ou ausência.
O preço da deficiente escuta é o deficiente seguimento, pelo inadequado conhecimento Dele, aquém do necessário. Portanto, é impedido ao Pastor exercer sua missão de dar a vida a todos em abundancia (Jo 10,10) “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão”. Vida eterna nesta vida temporal. A vida eterna é a qualidade da vida neste mundo, como antecipação da vida após a morte.
E ninguém vai arrancá-las de minha mão”. A expressão aponta o clima de violência e de conflito extremo gerado por quem, a toda costa, quer prevalecer sobre o outro com arrogância e prepotência. Parece- me que designa a atitude permanente do mal e do pecado que acompanha o dia -a- dia o conflito para com o discípulo, na tentativa de prevalecer. Eis, então, a missão e a presença do pastor na luta extrema, até o dom da própria vida, derrotando o adversário. No contexto da época a figura do pastor oferecia uma imagem muito apropriada e convincente da importância de confiar em quem constituía motivo de segurança, de acompanhamento certo, de orientação e de preservação do ma, rumo à existência bem sucedida. Figura que, hoje, poderia ser trocada por outras metáforas.
Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” De repente, é apresentada a figura do Pai como o “maior de todos” e portanto de Jesus. Também Ele comprometido, como Jesus, em não permitir que as ovelhas lhes sejam arrebatadas das mãos. É afirmada a diversidade entre o Pai e o Filho, no sentido que o Pai é maior e que as ovelhas pertencem a Ele “que me deu estas ovelhas”.
Mais, também, é frisado a unidade: “Eu e o Pai somos um”. Não é unidade de uniformidade, pois, o Pai é o Pai e o Filho é Filho, cada um com sua especificidade atribuições. O que os une é a missão de não permitir que o mal e o pecado prevaleçam, ao ponto das ovelhas serem arrancadas e arrebatadas da mão deles. A mão do Pai e do Filho desenvolve a mesma missão! São como uma só.
Portanto, a missão constrói a união, ao passo que é o eterno PRESENTE de Deus. Presente em sentido temporal, do transcorrer do tempo, e em sentido da gratuidade e de presencia ativa –. (É um ponto central da realidade Trinitária).
Portanto a missão dentro da comunidade e fora dela, dirigida aos indiferentes e afastados, aos marginalizados e excluídos do amor, da convivência, da fraternidade e solidariedade, no respeito às diversidades é condição para entrar na dinâmica de Deus e experimentar a comunhão e a presença Dele.

2 comentários:

  1. Padre,
    Adorei a explanação das leituras.
    Na primeira leitura vi o nacimento da igreja, onde Paulo e Barnabé dizem: “ sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos. Porque esta é a ordem que o Senhor nos deu: (...)”.
    Gostei também do esclarecimento do "Sacudir a poeira dos pés".

    Padre por favor continue esses comentários, mesmo da Itália e com nova missão.

    Que a Paz do Nosso Senhor estaja com você.

    Atenciosamente,
    Eduardo

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  2. Parabéns pelo seu dia no último domingo.
    Como esta no nova paróquia? Estamos com muitas saudades de você.
    Mande notícias.
    Abraços,
    Graça

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