1ª leitura Dt 11,18. 26-28.32
Pelo teor da colocação as indicações são determinantes e decisivas para a vida bem sucedida. A posta em jogo è a vida ou a morte, a benção ou a maldição “Eis que eu ponho diante e di vós benção e maldição”.
São indicações tão importantes que Moises se preocupa em frisar que elas devem ser acolhidas assim de conformar a inteligência e o coração da pessoa e do povo “Incuti estas minhas palavras em vosso coração e em vossa alma”. O fato de mandar “incutir” significa que o processo não é espontâneo nem surge pelo dinamismo intrínseco no ser da pessoa, como se fosse o desenvolvendo de um processo natural. Pelo contrário, è algo que exige esforço, uma determinação da vontade que deve vencer resistências.
De fato a recomendação que segue, manifesta o perigo devido a essas resistências de se esquecer delas, ou pelo menos, de se afastar “amarrai-as, como sinal, em vossas mãos e colocai-as como faixas sobre a testa”. Isso indica toda dificuldade em assimilá-las no coração e na alma, o que o processo vital pretende alcançar.
Contudo, fica esclarecido que a benção depende “se obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus” assim como a maldição" se desobedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus e vos afastardes do caminho”.
O motivo da desobediência e do afastamento è para “seguirdes outros deuses que não conheceis”. Mas, surge a pergunta: como podem e o que motiva eles deixarem o Deus que conhecem, do qual experimentou a presença, a ação libertadora, que caminhou com eles no deserto até chegar a terra prometida, a favor de uns deuses desconhecidos? Ninguém de bom senso faria isso. Contudo, è o que aconteceu no passado e irá acontecer no futuro.
A resposta há de encontrá-la na característica do Deus de Israel em contraposição aos outros deuses. São duas filosofias diferentes e contrapostas. Os deuses são produtos da obra e dos critérios humanos. Eles respondem as expectativas e desejos do povo. Alem disso, se tornam como instrumentos nas mãos da classe dirigente e, portanto, um necessário apoio ao interesses, desejo, prestigio de poder deles, para submeter a vontade e a obediência do povo. Quantas vezes se usa da imagem de Deus, do seu poder e vontade para dominar com maior sucesso e facilidades a situação sócio-política a vantagem da autoridade constituída!
Pelo contrario, o deus de Israel liberta de tudo isso, e carrega a responsabilidade e a liberdade sobre os ombros de cada pessoa. As autoridades devem exercer a própria função como serviço à causa da justiça e do direito a favor do pobre, do indefeso etc. Mas é exatamente o contrario do que elas fazem.
Por outro lado o povo prefere delegar para outros toda responsabilidade. Ao povo interessa pão e diversão, não responsabilidade nem preocupação para outros, se não foram familiares ou amigos e mantendo em primeiro lugar a própria conveniência. Para ele Deus é só invocado quando passar por situações que não tem remédio nem saída. E então, espera dele o milagre como expressão da divindade e ponto. Fica fora de toda exigência de compromisso e de responsabilidade.
Por isso que Moises recomenda “Tende, pois, grande cuidado em cumprir todos os preceitos e decretos que hoje vos ponho”, porque só desta maneira poderá experimentar a bondade e a eficácia da ação de Deus a favor dele.
As norma e leis praticadas corretamente conformam a justiça, tema da segunda leitura.
2da leitura Rm 3,21-25a.28
Infelizmente o povo desvirtuou o sentido profundo da lei. Fez dela uma mera referencia exterior, o simples cumprimento da letra, às vezes de forma muito exigente até tornar impossível e a execução para muitas pessoas. O cumprimento dela tornava as pessoas justas perante de Deus e, portanto, merecedora de participar do reino de Deus com a vinda do Messias.
“Agora (...) a justiça de Deus se manifestou (...) se realiza mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que têm fé”. A fé como diz aos Hebreus “è um modo de já possuir o que se espera a convicção acerca de realidades que não se vêem” (1,1). Esperamos a salvação a realização do resgate do pecado e a libertação da força sedutora da tentação.
Pois bem, a fé faz perceber esta realidade como já em nós, como verdade já atuante que conforma a realidade do novo ser transformado por esse dom. Ela tem sua origem na morte e ressurreição de Jesus. Tudo isso nos permite perceber o amor que está nele, o amor que nos mergulha em Deus, como realidade que não se vê, mas que preenche a pessoa.
E’ o que Paulo chama de justiça de Deus “a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo”, pela quais todos estão justificados porque “não há distinção: todos pecaram e estão privados da graça de Deus”. A justiça se realizou pelo fato de que “Deus destinou Jesus Cristo ser, por seu próprio sangue, instrumento de expiação mediante a realidade da fé”.
Jesus mesmo teve que acionar sua fé na promessa do Pai. Aconteça o que acontecer no desenvolvimento da missão, de toda maneira, o Pai irá cumprir a obra e implantar o reino. Tal vez, Jesus não sabia se depois da morte ia acontecer a ressurreição. Pois, sua morte teria seria um evento muito diferente da nossa experiência. Ter a anterior certeza de que três dias depois estaria vivo, faz do evento da morte como uma espécie “brincadeira”, tirando dela toda aquela seriedade e dramaticidade que há nela...
Assim, Jesus deve ter colocado sua certeza na promessa do Pai. Portanto, teve fé na vontade do Pai, que não deixaria a morte e o mal trinfar. Por outro lado, a verdade do amor, que sustentou sua missão e especialmente seu momento final- “os amou até o fim” (Jo 13,1)-, já fazia enxergar no próprio horizonte vivencial “o poder de uma vida indestrutível” (Hb 7,16).
Tudo isso aproxima Jesus a nossa experiência. Não temos a certeza do que acontecerá conosco após a morte. Esta incerteza é motivo de ânsia e de medo por parte das pessoas. A certeza está no Pai, que resgatou a Cristo e assim, regatará também os seguidores dele. O que sustenta é a promessa, a esperança. A fé è já a maneira de possuir esta promessa.
As últimas palavras do texto “Com efeito, julgamos que o homem é justiçado pela fé, sem a prática da lei judaica” colocam como base do correto relacionamento com Deus o dom oferecido pelos efeitos da morte e ressurreição. É o dom do amor na sua pura e maior expressão e consistência.
Esta realidade è o pano de fundo de toda ação do discípulo. O amor recebido que sustenta e motiva o amor e o agir no dia-a-dia e em toda circunstância.
É o que o Evangelho exige.
Evangelho Mt 7,21-27
Jesus com estas palavras finais conclui o sermão da montanha. O ponto focal é colocar “em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”. A vontade está intima e profundamente ligada a “quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática”. Com efeito, a lei do amor é uma maneira de se relacionar consigo mesmo, com os outros, de vivenciar a vida pessoal e social, incluindo o respeito à natureza, e de agir coerentemente.
Para os ouvintes Jesus evidenciará o equivoco que eles carregam consigo com respeito à vontade do Pai e sua prática “Naquele dia”, quando será implantado o reino definitivo com a chegada do Messias, dia muito esperado, “muitos vão me dizer: Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? (...) que expulsamos demônios? (...) que fizemos milagres?”.
No entendimento comum, agir desta forma è a garantia de estar com Deus, de ter para com ele o relacionamento correto e, portanto, ser merecedores da entrada no reino. Como se pode pensar diferentemente por parte do povo e dos mesmos que expulsam demônios e fazem milagres em nome do Senhor?
Grande deve ter sido a surpresa, pela resposta de Jesus feita publicamente: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal”. O desconcerto deve ter sido total. Contudo, o critério é implantado com toda clareza. Deus é “pratica do bem”, outra maneira para dizer que é amor. Não deve trazer em engano o que tradicionalmente se consideram expressões da verdadeira religiosidade: a oração, a pregação, os milagres e a expulsão dos demônios.
O bem, conforme a vontade do Pai, está na pessoa quem “ouve estas minhas palavras e as põe em prática”. Jesus alerta que nisso está a diferença entre o certo e a pessoa “sem juízo”, o tolo. O primeiro é como se construísse a casa sobre rocha e o segundo sobre areia.
Os dois perceberão os diferentes resultados quando chegar todo tipo de provações e dificuldade no desenvolvimento da missão, cujos efeitos são parangonados a quem constrói sobre a rocha e quem sobre a areia, cujas conseqüências são perfeitamente previsíveis. Pois, “Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa”.
Para o primeiro, apesar das fortes abalos e turbulência, será experiência de salvação; para os segundo, o contrário “sua ruim será completa”.
Eis, então, a importância, como frisava a primeira leitura, de “Incutir” este sermão na mente e no coração dos ouvintes e de motivá-lo à prática de sua exigência, O que está em jogo é questão de vida ou de morte, de salvação ou de condenação.
O que Jesus explicitará com sua palavra e obras será a atuação nos diferentes contextos e situações daquilo que disse e ensinou. Ele acreditou nisso de maneira Tão firme que preferiu morrer que desistir ou desviar.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
8o DOMINGO DO TEMPO COMUM-A-(27-02-11)
1ª leitura Is 49,14-15
Às vezes, em nível pessoal, familiar ou social acontecem coisas que de jeito nenhum se esperava acontecessem. São eventos tão dramáticos e desconcertantes, motivo de abalo é muito profundo nas pessoas. Mais ainda, se os atingidos são pessoas retas, honestas, laboriosas, dedicadas ao bem a favor dos necessitados. É entendimento geral que não mereciam, de jeito nenhum, que acontecesse.
Até Deus è chamado em causa: como pude acontecer? Como e por que Deus deixou que isso acontecesse? Se ele é Pai, se o atingido não fez mal nenhum, pelo contrario, fez o bem, por que caiu sobre ele tal desgraça?
Então, no interior surge a pergunta: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim”. Faltou aquela proteção que muitas vezes a Escritura garante a todo fiel que caminha corretamente no caminho de Deus?
A resposta do Senhor não da razão do porque, simplesmente se limita garantir que não se esqueceu. Usa uma argumentação tomada do amor da mãe para com o próprio filho “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre?”. Argumentação de forte impacto emotivo e sentimental, que toca a profunda sensibilidade de cada pessoa e suscita a imediata resposta de que em absoluto não pode acontecer. E se, tal vez, tivesse de acontecer, seria uma monstruosidade imperdoável.
Pois, bem é o que Deus quer deixar entender. E acrescenta “Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti". Com isso, o Senhor pretende infundir no animo das pessoas a certeza de uma presença incontestável, apesar dos sinais contrários e da desilusão dos interessados e atingidos pela desgraça.
Cabe especificar que o texto- segundo cântico do servo de Javé- se dirige ao povo desconsolado pela deportação e pela escravidão em terra estrangeira. Portanto, as perguntas com respeito ao abandono e ao esquecimento por parte de Deus, revelam um estado de suportarão chegando ao extremo das possibilidades humanas.
Se Deus tem tão grande preocupação e tamanha sensibilidade, por que demorou tanto na intervenção? Por que deixou que o povo experimentasse um tão grande abatimento e desmoralização ao ponto de duvidar da maneira que duvidou com respeito a Ele?
Não é dado para saber. Não há resposta certa. Tal vez seja para o necessário período constrangimento e de sofrimento, para tomar consciência dos próprios erros e pecados... Só é reafirmada a vontade de intervir e de manifestar a consistência desse amor.
Eis, então, a resposta do Senhor, sua preocupação amorosa por meio da intervenção deste servo enviado para restaurar a vida e a esperança do povo.
A pessoa resgatada do desanimo, da duvida de ser esquecida por Deus, e, por outro lado, envolvida pelo amor dele, é capacitada para responde, como administrador fiel, ao dom recebido.
É o tema da 2da leitura.
2ª leitura 1 Cor 4,1-5
“Que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Servidores e administradores, as duas pernas do caminhar da ação evangelizadora, pela qual são conhecidos como discípulos de Jesus no mundo. O apóstolo neste trecho frisa mais o segundo aspecto, o de administrador dos mistérios de Deus “o que se exige dos administradores é que sejam fieis”.
A fidelidade consiste em passar todas as informações e testemunhos necessários para que o evento da morte e ressurreição de Jesus seja aceito, entendido e envolva, com a sua plenitude de amor, as pessoas que se abrem a esta novidade desconcertante de Deus Pai, que na pessoa do Filho Jesus resgata a humanidade e cada pessoa da escravidão do pecado, estabelece uma nova aliança na prática do amor e a certeza de participar já hoje da vida eterna, cuja manifestação plena será nos final dos tempos.
Isso é o resumo sintético do mistério do qual o apostolo é administrador. Ser fiel no desenvolvimento desta tarefa é, ao mesmo tempo, ser servidos de Cristo. Porque para isso veio Cristo ao mundo.
Depois o texto muda de registro. A reflexão se dirige sobre o aspecto e a experiência pessoal de Paulo, inclusive do relacionamento consigo, em sentido de despreocupação de se julgar “Nem eu me julgo a mi mesmo”. Manifesta uma liberdade desconcertante com respeito aos outros e em especial com o tribunal humano, pelo fato que “a minha consciência não me acusa de nada”, ou seja, tem a certeza de ter feito tudo o que podia e sabia fazer..
Contudo, detalhe importante, “não é por isso que eu posso ser considerado justo”. Pois, há uma realidade de justiça que ultrapassa a consideração e a consciência pessoal que, pelo teor da afirmação, está em Deus: “Quem me julga é o Senhor”. Esta justiça não está relacionada à fidelidade ao mandato, pois, a fidelidade é expressão que a justiça foi acolhida, e vivenciada como ação transformadora pessoal e conteúdo do mandato. A justiça está em Deus, pois, é deus mesmo. Portanto, só Ele pode julgar o grau dela, a autenticidade dela, o valor dela, transmitido pela ação evangelizadora de Paulo. (Contudo, ela ultrapassa a objetividade da avaliação, pois, Paulo sabe que Ele o torna justo pela sua entrega de Amor e no Amor).
Daí duas indicações: “não queirais julgar antes do tempo”, ou seja, não ter pressa com respeito à certeza e à segurança que são o Senhor pode oferecer. Por conseguinte “ Aguardai que o Senhor venha”, pois, só então será manifesta toda a verdade da obra realizada pelo apóstolo. Portanto, é preciso prudência e humildade, outra duas característica da vida do apostolo
“Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações”. Com a vinda do Senhor, tudo se tornará transparente e límpido. Os últimos vestígios do pecado serão destruídos. Não haverá situações ocultas, misteriosas, indecifráveis nem projetos escondidos no profundo do ser, pois, tudo será envolvido na luz da verdade e do amor.
“Então cada um receberá de Deus o louvor que tiver merecido”. Notável que não acena a condenação nenhuma, mas só ao premio, evidentemente, relacionado à pureza e à fidelidade do serviço do administrador.
É esta consciência, filosofia de vida e jeito de viver, que tornará possível o estilo de vida no dia- a- dia proposto pelo evangelho.
Evangelho Mt 6,24-34
Em primeiro lugar, o texto alerta da incompatibilidade entre Deus e o dinheiro, não porque os dois não sirvam à vida da pessoa. Pois, Deus é realidade imprescindível, e o dinheiro meio necessário para viver harmoniosamente. O incompatível é pretender servir aos dois, no sentido que toca ao homem se determinar a quem pretende colocar no primeiro lugar e servir como valor maior da própria vida e objetivo da própria caminhada “Não podeis servir a dois senhores (...). Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
A coisa é evidente na nossa experiência de todos os dias. Pois, ao dinheiro é ligado o poder, o prestigio, a realização de muitos desejos etc., que fazem do eu individual o poderoso e administrador absoluto da própria existência, até o ponto de praticar toda injustiça e abuso. Exatamente o contrário da realidade de Deus – Amor.
Evidentemente, o dinheiro proporciona muita segurança frente às múltiplas necessidades da vida. Sem dinheiro a vida é impossível e se torna desumana. O servir aos dois senhores- Deus e o dinheiro- significa segurança pelo lado humano e, também, do acolhimento no reino de Deus.
Esta associação é desfeita. Em primeiro lugar indica: “buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”. Servir a Deus é exatamente isso. Buscar o que misteriosa e escondidamente já está presente, como tesouro, como pérola preciosa. A ética do amor manifestada em Cristo até suas últimas conseqüências indicam o caminho e os meios adequados.
Em segundo lugar convida observar o que acontece na ordem da criação e especificamente da natureza. Como as coisas são animada e sustentadas por uma ordem que garante aos animais e a vegetação o necessário para viver com dignidade e para desenvolver a função pela qual foram criadas “Olhai os pássaros(...) Olhai como crescem os lírios dos campos(...). Portanto, não vos preocupeis, dizendo: O que vamos comer?(...) Os pagãos è que procuram essas coisas” . Evidentemente, não se trata do incentivo ao relaxamento, ao desinteresse, mas, simplesmente, de se ocupar para ter vestido, alimento etc., não se pré-ocupar, os seja, antecipar uma ocupação que atrapalha e torna vão o empenho e o esforço da busca do reino de Deus e sua justiça.
Então, a correta ocupação para as necessidades materiais serão percebidas também elas como dom e como acréscimo: “e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo”. Tudo isso se deve à misteriosa e presente providencia de Deus.
O final do texto recolhe muito do bom senso e da sabedora popular. Viver o presente com o pé no chão e enfrentar as dificuldades do momento com bom senso e com espírito de fé no horizonte da missão que lhe foi confiada, traduz o correto posicionamento que todo discípulo deve buscar com paciência e humildade “Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua preocupações. Para cada dia bastam seus próprios problemas”.
Às vezes, em nível pessoal, familiar ou social acontecem coisas que de jeito nenhum se esperava acontecessem. São eventos tão dramáticos e desconcertantes, motivo de abalo é muito profundo nas pessoas. Mais ainda, se os atingidos são pessoas retas, honestas, laboriosas, dedicadas ao bem a favor dos necessitados. É entendimento geral que não mereciam, de jeito nenhum, que acontecesse.
Até Deus è chamado em causa: como pude acontecer? Como e por que Deus deixou que isso acontecesse? Se ele é Pai, se o atingido não fez mal nenhum, pelo contrario, fez o bem, por que caiu sobre ele tal desgraça?
Então, no interior surge a pergunta: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim”. Faltou aquela proteção que muitas vezes a Escritura garante a todo fiel que caminha corretamente no caminho de Deus?
A resposta do Senhor não da razão do porque, simplesmente se limita garantir que não se esqueceu. Usa uma argumentação tomada do amor da mãe para com o próprio filho “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre?”. Argumentação de forte impacto emotivo e sentimental, que toca a profunda sensibilidade de cada pessoa e suscita a imediata resposta de que em absoluto não pode acontecer. E se, tal vez, tivesse de acontecer, seria uma monstruosidade imperdoável.
Pois, bem é o que Deus quer deixar entender. E acrescenta “Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti". Com isso, o Senhor pretende infundir no animo das pessoas a certeza de uma presença incontestável, apesar dos sinais contrários e da desilusão dos interessados e atingidos pela desgraça.
Cabe especificar que o texto- segundo cântico do servo de Javé- se dirige ao povo desconsolado pela deportação e pela escravidão em terra estrangeira. Portanto, as perguntas com respeito ao abandono e ao esquecimento por parte de Deus, revelam um estado de suportarão chegando ao extremo das possibilidades humanas.
Se Deus tem tão grande preocupação e tamanha sensibilidade, por que demorou tanto na intervenção? Por que deixou que o povo experimentasse um tão grande abatimento e desmoralização ao ponto de duvidar da maneira que duvidou com respeito a Ele?
Não é dado para saber. Não há resposta certa. Tal vez seja para o necessário período constrangimento e de sofrimento, para tomar consciência dos próprios erros e pecados... Só é reafirmada a vontade de intervir e de manifestar a consistência desse amor.
Eis, então, a resposta do Senhor, sua preocupação amorosa por meio da intervenção deste servo enviado para restaurar a vida e a esperança do povo.
A pessoa resgatada do desanimo, da duvida de ser esquecida por Deus, e, por outro lado, envolvida pelo amor dele, é capacitada para responde, como administrador fiel, ao dom recebido.
É o tema da 2da leitura.
2ª leitura 1 Cor 4,1-5
“Que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Servidores e administradores, as duas pernas do caminhar da ação evangelizadora, pela qual são conhecidos como discípulos de Jesus no mundo. O apóstolo neste trecho frisa mais o segundo aspecto, o de administrador dos mistérios de Deus “o que se exige dos administradores é que sejam fieis”.
A fidelidade consiste em passar todas as informações e testemunhos necessários para que o evento da morte e ressurreição de Jesus seja aceito, entendido e envolva, com a sua plenitude de amor, as pessoas que se abrem a esta novidade desconcertante de Deus Pai, que na pessoa do Filho Jesus resgata a humanidade e cada pessoa da escravidão do pecado, estabelece uma nova aliança na prática do amor e a certeza de participar já hoje da vida eterna, cuja manifestação plena será nos final dos tempos.
Isso é o resumo sintético do mistério do qual o apostolo é administrador. Ser fiel no desenvolvimento desta tarefa é, ao mesmo tempo, ser servidos de Cristo. Porque para isso veio Cristo ao mundo.
Depois o texto muda de registro. A reflexão se dirige sobre o aspecto e a experiência pessoal de Paulo, inclusive do relacionamento consigo, em sentido de despreocupação de se julgar “Nem eu me julgo a mi mesmo”. Manifesta uma liberdade desconcertante com respeito aos outros e em especial com o tribunal humano, pelo fato que “a minha consciência não me acusa de nada”, ou seja, tem a certeza de ter feito tudo o que podia e sabia fazer..
Contudo, detalhe importante, “não é por isso que eu posso ser considerado justo”. Pois, há uma realidade de justiça que ultrapassa a consideração e a consciência pessoal que, pelo teor da afirmação, está em Deus: “Quem me julga é o Senhor”. Esta justiça não está relacionada à fidelidade ao mandato, pois, a fidelidade é expressão que a justiça foi acolhida, e vivenciada como ação transformadora pessoal e conteúdo do mandato. A justiça está em Deus, pois, é deus mesmo. Portanto, só Ele pode julgar o grau dela, a autenticidade dela, o valor dela, transmitido pela ação evangelizadora de Paulo. (Contudo, ela ultrapassa a objetividade da avaliação, pois, Paulo sabe que Ele o torna justo pela sua entrega de Amor e no Amor).
Daí duas indicações: “não queirais julgar antes do tempo”, ou seja, não ter pressa com respeito à certeza e à segurança que são o Senhor pode oferecer. Por conseguinte “ Aguardai que o Senhor venha”, pois, só então será manifesta toda a verdade da obra realizada pelo apóstolo. Portanto, é preciso prudência e humildade, outra duas característica da vida do apostolo
“Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações”. Com a vinda do Senhor, tudo se tornará transparente e límpido. Os últimos vestígios do pecado serão destruídos. Não haverá situações ocultas, misteriosas, indecifráveis nem projetos escondidos no profundo do ser, pois, tudo será envolvido na luz da verdade e do amor.
“Então cada um receberá de Deus o louvor que tiver merecido”. Notável que não acena a condenação nenhuma, mas só ao premio, evidentemente, relacionado à pureza e à fidelidade do serviço do administrador.
É esta consciência, filosofia de vida e jeito de viver, que tornará possível o estilo de vida no dia- a- dia proposto pelo evangelho.
Evangelho Mt 6,24-34
Em primeiro lugar, o texto alerta da incompatibilidade entre Deus e o dinheiro, não porque os dois não sirvam à vida da pessoa. Pois, Deus é realidade imprescindível, e o dinheiro meio necessário para viver harmoniosamente. O incompatível é pretender servir aos dois, no sentido que toca ao homem se determinar a quem pretende colocar no primeiro lugar e servir como valor maior da própria vida e objetivo da própria caminhada “Não podeis servir a dois senhores (...). Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
A coisa é evidente na nossa experiência de todos os dias. Pois, ao dinheiro é ligado o poder, o prestigio, a realização de muitos desejos etc., que fazem do eu individual o poderoso e administrador absoluto da própria existência, até o ponto de praticar toda injustiça e abuso. Exatamente o contrário da realidade de Deus – Amor.
Evidentemente, o dinheiro proporciona muita segurança frente às múltiplas necessidades da vida. Sem dinheiro a vida é impossível e se torna desumana. O servir aos dois senhores- Deus e o dinheiro- significa segurança pelo lado humano e, também, do acolhimento no reino de Deus.
Esta associação é desfeita. Em primeiro lugar indica: “buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”. Servir a Deus é exatamente isso. Buscar o que misteriosa e escondidamente já está presente, como tesouro, como pérola preciosa. A ética do amor manifestada em Cristo até suas últimas conseqüências indicam o caminho e os meios adequados.
Em segundo lugar convida observar o que acontece na ordem da criação e especificamente da natureza. Como as coisas são animada e sustentadas por uma ordem que garante aos animais e a vegetação o necessário para viver com dignidade e para desenvolver a função pela qual foram criadas “Olhai os pássaros(...) Olhai como crescem os lírios dos campos(...). Portanto, não vos preocupeis, dizendo: O que vamos comer?(...) Os pagãos è que procuram essas coisas” . Evidentemente, não se trata do incentivo ao relaxamento, ao desinteresse, mas, simplesmente, de se ocupar para ter vestido, alimento etc., não se pré-ocupar, os seja, antecipar uma ocupação que atrapalha e torna vão o empenho e o esforço da busca do reino de Deus e sua justiça.
Então, a correta ocupação para as necessidades materiais serão percebidas também elas como dom e como acréscimo: “e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo”. Tudo isso se deve à misteriosa e presente providencia de Deus.
O final do texto recolhe muito do bom senso e da sabedora popular. Viver o presente com o pé no chão e enfrentar as dificuldades do momento com bom senso e com espírito de fé no horizonte da missão que lhe foi confiada, traduz o correto posicionamento que todo discípulo deve buscar com paciência e humildade “Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua preocupações. Para cada dia bastam seus próprios problemas”.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
7o DOMINGO DO TEMPO COMUM-A-(20-02-11)
1ª leitura Lv 1-2.17-18
Este trecho faz parte da lei da santidade e anuncia o fundamental dessa lei: “sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. O termo santidade, aplicado a Deus, significa “separado” de todo aquilo que não condiz com a sua realidade verdadeira e profunda. Deus é Amor puro, então, ele em quanto amor é separado de todo aquilo não é.
A ordem de ser santo corresponde ao chamado fundamental que já Eva escutou, pela falação da serpente, e que está no coração de todo ser humano “sereis como Deus” (Gn 3,5). Este chamado suscitou a imediata adesão dela. Pois, quem não desejaria ser tal?
O desafio, de então e de hoje, está em como chegar. O caminho é indicado por Deus mesmo. Ele se coloca como termo de referencia “porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. O que enganou Eva, e engana também hoje, foi a auto referencia. Pretendeu chegar colocando o próprio entendimento, a própria percepção, o próprio critério de discernimento e se deixou seduzir deles “A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois, era atraente para os olhos e desejável para se alcançar conhecimento (do bem e do mal)” (Gn 3,6).
Eis então as indicações e o caminho para se tornar “como Deus”. “Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornes culpado de pecado por causa dele. Não procures vingança, nem guardes rancor dos teus compatriotas. Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”.
Com certeza, toda pessoa gostaria de assumir para valer estas indicações. Percebe-se que são certas e que levariam ao crescimento humano e espiritual significativo. Mas, cabe a pergunta: como é possível ficar livre do ódio, do desejo de vingança, da mágoa, pela ofensa recebida?
O exemplo na frente è a pessoa de Jesus. Na cruz, pouco antes de morrer, pronuncio as famosas palavras: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Como pude, em força de que conseguiu se sobrepuser da própria trágica condição daquele momento? Não acredito que a resposta seja simplesmente: porque era Filho de Deus, portanto, para ele era mais fácil, como obvio e natural, porém, impossível para toda pessoas humana. De fato, ele se colocou no mesmo nível dos homens, colocou como entre parêntesis sua condição divina... Então?
Pois bem, acredito que a compaixão e a misericórdia a favor da humanidade tão perdida e incapaz de compreender o verdadeiro caminho da paz, do resgate à vida nova “Jesus chorou sobre ela - Jerusalém- Se neste dia também tu conhecesses o que pode traze a paz! Mas isto agora está oculto aos teus olhos”( Lc 19,42), falou mais alto dos sofrimentos que a mesma sociedade estava lhe infligindo.
É a amor sincero para a salvação e a certeza de estar realizando-a, que fez perceber nele o horizonte e realidade da “ vida indestrutível”(Hb 7,16) para ele a para a humanidade. Ao mesmo tempo, foi tomado por um sentimento de pena e de sofrimento para com a humanidade mais intenso dos próprios sofrimentos humanos e de perder de vista a presença do Pai, que foram causa de uma morte tão rápida.
“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” Jesus se ama a si mesmo se amando no outro. Tal vez, diria Jesus “o outro sou eu... perdendo-me no outro, me encontro mais identificado, crescido e completo no meu ser pessoal”.
Só no Espírito Santo è possível isso, como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 3,16-23
O cristão consciente sabe do dom de Deus para com ele. A aceitação o constitui santo, pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, atualizada pela ação do Espírito Santo. Eis, então, a afirmação de Paulo mostra surpresa pelos coríntios ter perdido a referencia: “Acaso não sabeis que sois o santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?”.
O fato deles serem constituídos como santuário de Deus, “vós sois esse santuário”, pelo pressuposto da morte e ressurreição de Jesus, deveria conferir e mergulhar eles na sabedoria da cruz e se distanciarem da sabedoria do mundo.
Paulo não especifica, contudo, cabe pensar que o insuficiente distanciamento do mundo, ou a insuficiente clareza da missão e pessoa de Jesus, assim como a insegurança, o medo, a indeterminação no acolher o dom de Cristo faz deles pessoas ambíguas.
Em virtude disso, eles ficam por um lado e pelo outro, se alternando de um ponto para outro. Eis, então, a causa da tensão e da divisão entre eles: “eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, eu sou de Cefas...”. Divisão que não deveria subsistir porque quem transmitiu o dom é Cristo. Pois, é Cristo que morreu na cruz, não Paulo, Apolo, ou Cefas, ou outros que destacam na vida da comunidade.
Paulo retoma o contraste ente a sensatez e a insensatez com respeito à sabedoria do mundo e a sabedoria da cruz. Com isso, mostra que a divisão na comunidade tem sua origem exatamente por não tomar em devida consideração, e ter suficiente clareza, do radical contraste entre as duas sabedorias. Causa disso, é perder o ponto de referencia fundamental do evento da cruz de Cristo e sua ressurreição.
Muita divisão è causada pela falsa sabedoria do mundo que não condiz com a verdadeira da cruz. Portanto, o apostolo alerta sobre a urgência e necessidade de se determinar pela verdadeira. Pois, Paulo tem consciência de que Cristo escolheu a sabedoria da cruz não porque não conheça a sabedoria do mundo, mas o contrario por que a conhece muito bem. “O Senhor conhece os pensamentos dos sábios; sabe que são vãos”.
Desta forma, oferece o porquê e o meio para acabar com ela. E acrescenta uma visão global e sintética de todo o evento da criação que inclui tudo e todos. Ele é redesenhado à luz da sabedoria da cruz, pois, a sabedoria do mundo não tem elementos para elaborá-la nem condição para apresentá-la.
Em primeiro termino, negativamente, indica “Ninguém ponhas a sua glória em homem algum”, pois, o único no qual se gloriar é a pessoa de Cristo e a sabedoria da cruz, como acabava de afirmar pouco antes. E depois acrescenta “Com efeito, tudo vos pertence: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus”. É uma visão surpreendente, Não são apresenta um quadro de comunhão, que supera de muito todas as divisões presentes na comunidade, mas integra tudo e todo na comunhão e participação na vida de Deus. Enxerga o acontecer definitivo do reino de Deus e a vida plena, na qual tudo e todas estão chamados.
Este futuro já se faz presente na pratica e no ensino de Jesus.
Evangelho Mt 5,38-48
É a continuação do evangelho da semana passada. Portanto está na mesma lógica: “Vós ouvistes o que foi dito (...). Eu, porém, vos digo”, e persegue o mesmo objetivo.
Se esta alternativa é o cumprimento pleno da Lei e dos profetas, qual é a inteligência intrínseca de tudo isso? o fio que amarra e perpassa todos elas? Parece-me que o ponto focal é o outro, o que ele é e necessita para se tornar um homem livre e capacitado para amar. Não se trata de oferecer o que ele gosta, mas o que ele precisa, e vezes são o que não gosta... Com outras palavras, trata-se de fazer própria a necessidade humana, psicológica, moral e espiritual do outro, de se aproximar dele e de elegê-lo como próximo.
Com efeito, sintonizar com as exigências e necessidades do outro e torná-lo próximo é condição para servi-lo. Desta forma ele é o âmbito e o meio da salvação, mesmo que isso passe pelo estilo de vida indicado pela bem- aventurança, pela incompreensão até a cruz, como foi experiência de Cristo. Mais ainda. O servir tem em si mesmo a luz da vida e o sal da existência que confere sabor a tudo e a todo.
Merece destaque a afirmação “Amai aos vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” Parece uma coisa impossível, pela limitação de nossa condição humana. Achamos que está bem para Jesus, pois ele é o filho de Deus, mas para o comum mortal é demais...
Contudo, Jesus é de outra opinião. Ele insiste argumentando “se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis. Os cobradores de impostos (...). Os pagãos não fazem a mesma coisa?”. A bíblia pastoral traduz em vez de “recompensa”, “gratuidade, “que gratuidade é essa?”. Desta forma, oferece um horizonte de compreensão centrado sobre uma atitude que, em primeiro termo, foi a de Jesus para com cada um de nós e para com toda a humanidade: a gratuidade.
Tudo é graça, tudo é dom, pelo o agir de Deus na pessoa de Jesus a nosso favor “Mas Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, quando ainda éramos pecadores”( Rm5,8). Ainda éramos mortos no pecado quando ele se entregou gratuitamente por nós e nos salvou. Também, o que ele oferece cada dia na palavra e nos sacramentos é graça, é gratuidade, que pode ser aceito e compreendido ou não, mas, de toda maneira, é oferecido e realizado objetivamente.
Só na percepção e vivencia sincera deste dom é possível a atitude indicada e vivenciada por Jesus. Não somos nós que em primeiro termo amamos a ele, mas ele nos amou primeiro, e nos amou gratuitamente: amor puro.
A gratuidade é ao mesmo tempo recompensa da ação. No fazer o bem, na pratica do amor gratuito, já esta nele a recompensa. Não precisa de outra. Nesse sentido, recompensa e gratuidade apontam a mesma realidade do Amor.
Com efeito, é esse Amor de Cristo por nós que nos torna filhos de Deus. Este dom gratuito devolvido a Deus na mesma pratica e a favor do outro nos mantém e acrescenta a dignidade de filhos. Com certeza traça o caminho da perfeição e da aceitação do convite feito por Jesus “Portanto, sede perfeitos como o vosso pai celeste é perfeito”, O impossível se torna realidade.
Este trecho faz parte da lei da santidade e anuncia o fundamental dessa lei: “sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. O termo santidade, aplicado a Deus, significa “separado” de todo aquilo que não condiz com a sua realidade verdadeira e profunda. Deus é Amor puro, então, ele em quanto amor é separado de todo aquilo não é.
A ordem de ser santo corresponde ao chamado fundamental que já Eva escutou, pela falação da serpente, e que está no coração de todo ser humano “sereis como Deus” (Gn 3,5). Este chamado suscitou a imediata adesão dela. Pois, quem não desejaria ser tal?
O desafio, de então e de hoje, está em como chegar. O caminho é indicado por Deus mesmo. Ele se coloca como termo de referencia “porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. O que enganou Eva, e engana também hoje, foi a auto referencia. Pretendeu chegar colocando o próprio entendimento, a própria percepção, o próprio critério de discernimento e se deixou seduzir deles “A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois, era atraente para os olhos e desejável para se alcançar conhecimento (do bem e do mal)” (Gn 3,6).
Eis então as indicações e o caminho para se tornar “como Deus”. “Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornes culpado de pecado por causa dele. Não procures vingança, nem guardes rancor dos teus compatriotas. Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”.
Com certeza, toda pessoa gostaria de assumir para valer estas indicações. Percebe-se que são certas e que levariam ao crescimento humano e espiritual significativo. Mas, cabe a pergunta: como é possível ficar livre do ódio, do desejo de vingança, da mágoa, pela ofensa recebida?
O exemplo na frente è a pessoa de Jesus. Na cruz, pouco antes de morrer, pronuncio as famosas palavras: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Como pude, em força de que conseguiu se sobrepuser da própria trágica condição daquele momento? Não acredito que a resposta seja simplesmente: porque era Filho de Deus, portanto, para ele era mais fácil, como obvio e natural, porém, impossível para toda pessoas humana. De fato, ele se colocou no mesmo nível dos homens, colocou como entre parêntesis sua condição divina... Então?
Pois bem, acredito que a compaixão e a misericórdia a favor da humanidade tão perdida e incapaz de compreender o verdadeiro caminho da paz, do resgate à vida nova “Jesus chorou sobre ela - Jerusalém- Se neste dia também tu conhecesses o que pode traze a paz! Mas isto agora está oculto aos teus olhos”( Lc 19,42), falou mais alto dos sofrimentos que a mesma sociedade estava lhe infligindo.
É a amor sincero para a salvação e a certeza de estar realizando-a, que fez perceber nele o horizonte e realidade da “ vida indestrutível”(Hb 7,16) para ele a para a humanidade. Ao mesmo tempo, foi tomado por um sentimento de pena e de sofrimento para com a humanidade mais intenso dos próprios sofrimentos humanos e de perder de vista a presença do Pai, que foram causa de uma morte tão rápida.
“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” Jesus se ama a si mesmo se amando no outro. Tal vez, diria Jesus “o outro sou eu... perdendo-me no outro, me encontro mais identificado, crescido e completo no meu ser pessoal”.
Só no Espírito Santo è possível isso, como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 3,16-23
O cristão consciente sabe do dom de Deus para com ele. A aceitação o constitui santo, pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, atualizada pela ação do Espírito Santo. Eis, então, a afirmação de Paulo mostra surpresa pelos coríntios ter perdido a referencia: “Acaso não sabeis que sois o santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?”.
O fato deles serem constituídos como santuário de Deus, “vós sois esse santuário”, pelo pressuposto da morte e ressurreição de Jesus, deveria conferir e mergulhar eles na sabedoria da cruz e se distanciarem da sabedoria do mundo.
Paulo não especifica, contudo, cabe pensar que o insuficiente distanciamento do mundo, ou a insuficiente clareza da missão e pessoa de Jesus, assim como a insegurança, o medo, a indeterminação no acolher o dom de Cristo faz deles pessoas ambíguas.
Em virtude disso, eles ficam por um lado e pelo outro, se alternando de um ponto para outro. Eis, então, a causa da tensão e da divisão entre eles: “eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, eu sou de Cefas...”. Divisão que não deveria subsistir porque quem transmitiu o dom é Cristo. Pois, é Cristo que morreu na cruz, não Paulo, Apolo, ou Cefas, ou outros que destacam na vida da comunidade.
Paulo retoma o contraste ente a sensatez e a insensatez com respeito à sabedoria do mundo e a sabedoria da cruz. Com isso, mostra que a divisão na comunidade tem sua origem exatamente por não tomar em devida consideração, e ter suficiente clareza, do radical contraste entre as duas sabedorias. Causa disso, é perder o ponto de referencia fundamental do evento da cruz de Cristo e sua ressurreição.
Muita divisão è causada pela falsa sabedoria do mundo que não condiz com a verdadeira da cruz. Portanto, o apostolo alerta sobre a urgência e necessidade de se determinar pela verdadeira. Pois, Paulo tem consciência de que Cristo escolheu a sabedoria da cruz não porque não conheça a sabedoria do mundo, mas o contrario por que a conhece muito bem. “O Senhor conhece os pensamentos dos sábios; sabe que são vãos”.
Desta forma, oferece o porquê e o meio para acabar com ela. E acrescenta uma visão global e sintética de todo o evento da criação que inclui tudo e todos. Ele é redesenhado à luz da sabedoria da cruz, pois, a sabedoria do mundo não tem elementos para elaborá-la nem condição para apresentá-la.
Em primeiro termino, negativamente, indica “Ninguém ponhas a sua glória em homem algum”, pois, o único no qual se gloriar é a pessoa de Cristo e a sabedoria da cruz, como acabava de afirmar pouco antes. E depois acrescenta “Com efeito, tudo vos pertence: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus”. É uma visão surpreendente, Não são apresenta um quadro de comunhão, que supera de muito todas as divisões presentes na comunidade, mas integra tudo e todo na comunhão e participação na vida de Deus. Enxerga o acontecer definitivo do reino de Deus e a vida plena, na qual tudo e todas estão chamados.
Este futuro já se faz presente na pratica e no ensino de Jesus.
Evangelho Mt 5,38-48
É a continuação do evangelho da semana passada. Portanto está na mesma lógica: “Vós ouvistes o que foi dito (...). Eu, porém, vos digo”, e persegue o mesmo objetivo.
Se esta alternativa é o cumprimento pleno da Lei e dos profetas, qual é a inteligência intrínseca de tudo isso? o fio que amarra e perpassa todos elas? Parece-me que o ponto focal é o outro, o que ele é e necessita para se tornar um homem livre e capacitado para amar. Não se trata de oferecer o que ele gosta, mas o que ele precisa, e vezes são o que não gosta... Com outras palavras, trata-se de fazer própria a necessidade humana, psicológica, moral e espiritual do outro, de se aproximar dele e de elegê-lo como próximo.
Com efeito, sintonizar com as exigências e necessidades do outro e torná-lo próximo é condição para servi-lo. Desta forma ele é o âmbito e o meio da salvação, mesmo que isso passe pelo estilo de vida indicado pela bem- aventurança, pela incompreensão até a cruz, como foi experiência de Cristo. Mais ainda. O servir tem em si mesmo a luz da vida e o sal da existência que confere sabor a tudo e a todo.
Merece destaque a afirmação “Amai aos vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” Parece uma coisa impossível, pela limitação de nossa condição humana. Achamos que está bem para Jesus, pois ele é o filho de Deus, mas para o comum mortal é demais...
Contudo, Jesus é de outra opinião. Ele insiste argumentando “se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis. Os cobradores de impostos (...). Os pagãos não fazem a mesma coisa?”. A bíblia pastoral traduz em vez de “recompensa”, “gratuidade, “que gratuidade é essa?”. Desta forma, oferece um horizonte de compreensão centrado sobre uma atitude que, em primeiro termo, foi a de Jesus para com cada um de nós e para com toda a humanidade: a gratuidade.
Tudo é graça, tudo é dom, pelo o agir de Deus na pessoa de Jesus a nosso favor “Mas Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, quando ainda éramos pecadores”( Rm5,8). Ainda éramos mortos no pecado quando ele se entregou gratuitamente por nós e nos salvou. Também, o que ele oferece cada dia na palavra e nos sacramentos é graça, é gratuidade, que pode ser aceito e compreendido ou não, mas, de toda maneira, é oferecido e realizado objetivamente.
Só na percepção e vivencia sincera deste dom é possível a atitude indicada e vivenciada por Jesus. Não somos nós que em primeiro termo amamos a ele, mas ele nos amou primeiro, e nos amou gratuitamente: amor puro.
A gratuidade é ao mesmo tempo recompensa da ação. No fazer o bem, na pratica do amor gratuito, já esta nele a recompensa. Não precisa de outra. Nesse sentido, recompensa e gratuidade apontam a mesma realidade do Amor.
Com efeito, é esse Amor de Cristo por nós que nos torna filhos de Deus. Este dom gratuito devolvido a Deus na mesma pratica e a favor do outro nos mantém e acrescenta a dignidade de filhos. Com certeza traça o caminho da perfeição e da aceitação do convite feito por Jesus “Portanto, sede perfeitos como o vosso pai celeste é perfeito”, O impossível se torna realidade.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
6to DOMINGO DO TEMPO COMUM (13-02-11)
1ª leitura Eclo 15,16-21
“Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir”. O texto afirma a liberdade do homem e a conseqüência da escolha dele. É o que caracteriza o próprio da pessoa. Há muita sensibilidade em guardar e custodiar esta liberdade. Ela é o que ninguém pode desrespeitar ou violar. Com efeito, “para o que quiseres tu podes estender a mão” É a determinação do livre arbítrio, do qual a pessoa deverá responder.
Contudo, o texto orienta a escolha de maneira muito marcante, elencando os atributos do Senhor “A sabedoria do Senhor é imensa, ele é forte e poderoso e tudo vê continuamente. Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do homem”
Uma apresentação com este conteúdo deixa pouca margem à alternativa. Parece difícil não escolher o Senhor “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás”. O livre arbítrio leva à vida se está em sintonia com os mandamentos e a confiança na promessa do Senhor.
A complacência do Senhor está voltada para os que o temem, os que confiam na presença dele, os que guardam os mandamentos e atuam coerentemente a eles. Pois, “Ele – o Senhor conhece todas as obras do homem”. A preocupação de não desagradar a ele, pela sintonia amorosa com a pessoa dele a sua vontade, conformam o temor do Senhor. Não é submissão forçada, obrigada, mas escolha de submeter os próprios critérios de entendimento, as próprias escolhas do dia-a-dia, em sintonia com o estilo de vida indicados pelos mandamentos e a vontade dele. Nesse sentido, eles te guardam, custodiam a tua integridade, a tua fidelidade, ao Senhor e protegem a tua existência, rumo à qualidade de vida mais plena e consistente.
Contudo, cabe perguntar: por que, então, o homem escolhe o contrário? Por que tanta dificuldade em aceitar e observar os mandamentos, que em si mesmos são expressão e conteúdo da sabedoria, da força e do poder de Deus mesmo? Por que o texto se aprimora de indicar e alertar “Não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licencia de pecar”?
Não é só para dar sentido ao livre arbítrio. Nem para criar as condições do exercício dele, como simples atividade da pessoa, para a qual tanto faz escolher uma postura ou outra. O livre arbítrio não é só possibilidade de escolha “de”: estou livre de estar sentado ou de caminhar; de comer ou de jejuar... “de”... “de”etc., mas condição “para”. Assim o livre arbítrio é condição de escolha para amar, para servir, para o bem, ou seja, para crescer na dinâmica da plenitude do amor.
Rejeitar, ou desprezar, é agir como se Deus não existisse ou não se tivesse manifestado. É se tornar ímpio, é fazer profissão de ateu, é rejeitar a Deus. Portanto, Deus quer “tolerância zero” para com o pecado, pois, não deu licencia para ele, bem conhecendo os limites e a fraqueza do homem.
Assim, no entendimento de Deus o livre arbítrio é determinação para a vida. A dificuldade acima indicada deve-se ao fato que o “para” amar e servir do ponto da experiência de Deus é ligado ao paradoxo da sabedoria divina, e, mais especificadamente, da cruz como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 2,6-10
“Entre os perfeitos nós falamos de sabedoria”. Paulo afirma que só pode falar dela entre cristãos maduros. Mas, esta não é a condição dos coríntios. De fato, com suas divisões, tornam-se incapazes de compreender a sabedoria de Deus “Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória”.
É a sabedoria que provem da vida trinitária, como deixa entender a referencia que ela está em Deus desde a eternidade. Ela não bate com a “sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que, afinal, estão votados à destruição”. Esta sabedoria do mundo e dos poderosos lida com o mal, a morte, a impiedade e o pecado, aos quais faz referencia primeira leitura.
A oposição entre as duas sabedorias é tão radical e contrastante que se o mundo e os poderosos “a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória”. Cabe a pergunta: por que entrou por meio a cruz? Era preciso chegar a tão extremo?
O estilo de vida proposto por Jesus mexe profundamente com a concepção da vida pessoal, familiar, social e religiosa consolidada da tradição e da teologia do tempo. Foi uma bomba. Já desde os inícios de sua missão, como relata o evangelho de Lucas com o discurso programático na sinagoga de Nazaré, faltava pouco que fosse despenhado...
Mas, pior ainda, ele pretendia se apresentar como o Messias esperado, como o enviado de Deus. Até deixou entender ser o filho do Deus Altíssimo: uma blasfêmia merecedora de morte. E a cruz, ao entender deles, foi confirmação do repudio de Deus deste falso profeta de Nazaré.
No desenvolvimento da missão, perante a crescente oposição, ele não mudou nada do ensino dele, pelo contrário reafirmou com mais determinação o seu conteúdo. Simplesmente porque este era o caminho certo do resgate, da salvação, do acontecer do reino de Deus esperado. Era a verdade não adiável e insubstituível.
Esta teimosia, firmeza e determinação o levaram carregar sobre si mesmo toda a desconfiança o desprezo, a ignomínia a e a incompreensão de todos, com outras palavras, o pecado. Preferiu morrer que abrir mão, não por orgulho, evidentemente, mas pelo Amor. O Amor de quem tem a certeza do que faz e da verdade do que está fazendo, como única resposta valida às exigências de libertação, de fraternidade e de vida em plenitude.
Eis, então as palavras de Paulo “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu”. Os que o amam são os “perfeitos”, aqueles que se deixaram e se deixam tocar no dia-a-dia- pelos efeitos daquela morte e ressurreição, que sela a bondade e a verdade da sabedoria.
Neles, este processo é atribuído à ação do Espírito Santo “A nós- os perfeitos, não em sentido ético, evidentemente – Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus”.
É este mesmo Espírito que motiva as palavras e sustenta a proposta de Jesus no Evangelho.
Evangelho Mt 5,17-37
Jesus sabe que vai mexer de maneira profunda e radical com respeito às colunas que sustentam a vida e a identidade do povo de Israel. Então, se posiciona e alerta os ouvintes “Não penseis que vim abolir a lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-hles pleno cumprimento(...) nem uma só letra ou virgula serão tirada da lei, sem que tudo se cumpra”. Com isso, os prepara ao desconcerto de suas afirmações e ,ao mesmo tempo, a terem o coração aberto para escutar.
Coloca um segundo ponto, que resume o sentido e a finalidade de sua intervenção “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”. Afirmação muito polêmica. Os mestres da Lei e os fariseus eram os teólogos e os rigorosos cumpridores das indicações destes. Eram as referencias da vida religiosa e social do povo. Eram eles que indicavam e praticavam as normas da “justiça”, que configura o perfeito temente de Deus.
Com certeza terão se perguntado: Quem é este que pretende indicar outro caminho? Com qual autoridade faz isso? Como é possível passar por cima deles, de uma teologia e pratica tão consolidada? E outras perguntas que daí decorre...
Jesus convida os ouvintes a se distanciarem do ensino oficial. Não estabelece um novo grupo de pessoas que faça de intermediário entre ele e a consciência individual. Só acolher de coração aberto e com inteligência Ele e seu ensino. Ele sabe que tudo isso será causa de diferentes entendimentos e mal entendidos. Por outro lado, já estava constatando isso dentro do restrito numero dos apóstolos, pois, havia incompreensões e brigas entre eles.
Contudo, Jesus procede com grande coragem, ousadia e determinação “Ouvistes que foi dito (...). Eu. Porém, vos digo”. Daí decorre uma serie de indicações sobre aspectos específicos do relacionamento consigo mesmo, entre as pessoas, com respeito ao matrimonio e a fidelidade nele, e para com Deus. (o texto do evangelho se estende à vingança, à violência, à prepotência e desrespeito do que é correto, e ao amor aos inimigos).
Se esta alternativa é o cumprimento pleno da Lei e dos profetas, qual é a inteligência intrínseca de tudo isso? O fio que amarra e perpassam todas elas? Parece-me que o ponto focal é o “outro”, o que ele é e necessita para se tornar um homem livre e capacitado para amar. Não se trata de fazer o que ele gosta, mas o que ele precisa, e , as vezes, é o que não gosta...
Com outras palavras. Trata-se de fazer própria a necessidade humana, psicológica, moral e espiritual do outro, se deixar iluminar pelo Espírito Santo com respeito ao serviço mais adequado que podemos e temos condição de oferecer e assim criar comunhão e comunidade, aquela família humana que, ao mesmo tempo, se torna templo de Deus pela pratica da caridade.
Nesse sentido, é preciso vigiar sobre si mesmo, pelas forças adversas e contraria que é o comodismo, a indiferença, o preconceito, o medo, que são como membros do corpo resistentes a entrar nessa. Portanto, é preciso cortá-los com determinação.
É preciso cuidar do sentimento sincero de amor entre homem e mulher no matrimonio, extensivo a quem, tal vez involuntariamente, foi ofendido. Nesse âmbito, precisa atenção em dominar e controlar a tirania das paixões...
Nesta ótica uma palavra resume tudo isso: servir em vez de ser servido. O outro, a quem servimos, é o âmbito e o meio de nossa salvação, mesmo que isso passe pelo estilo de vida indicado pela bem- aventurança, pela incompreensão até a cruz, como foi a experiência de Cristo. Mais ainda. O servir tem em si mesmo a luz da vida e o sal da existência que confere sabor à vida.
“Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir”. O texto afirma a liberdade do homem e a conseqüência da escolha dele. É o que caracteriza o próprio da pessoa. Há muita sensibilidade em guardar e custodiar esta liberdade. Ela é o que ninguém pode desrespeitar ou violar. Com efeito, “para o que quiseres tu podes estender a mão” É a determinação do livre arbítrio, do qual a pessoa deverá responder.
Contudo, o texto orienta a escolha de maneira muito marcante, elencando os atributos do Senhor “A sabedoria do Senhor é imensa, ele é forte e poderoso e tudo vê continuamente. Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do homem”
Uma apresentação com este conteúdo deixa pouca margem à alternativa. Parece difícil não escolher o Senhor “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás”. O livre arbítrio leva à vida se está em sintonia com os mandamentos e a confiança na promessa do Senhor.
A complacência do Senhor está voltada para os que o temem, os que confiam na presença dele, os que guardam os mandamentos e atuam coerentemente a eles. Pois, “Ele – o Senhor conhece todas as obras do homem”. A preocupação de não desagradar a ele, pela sintonia amorosa com a pessoa dele a sua vontade, conformam o temor do Senhor. Não é submissão forçada, obrigada, mas escolha de submeter os próprios critérios de entendimento, as próprias escolhas do dia-a-dia, em sintonia com o estilo de vida indicados pelos mandamentos e a vontade dele. Nesse sentido, eles te guardam, custodiam a tua integridade, a tua fidelidade, ao Senhor e protegem a tua existência, rumo à qualidade de vida mais plena e consistente.
Contudo, cabe perguntar: por que, então, o homem escolhe o contrário? Por que tanta dificuldade em aceitar e observar os mandamentos, que em si mesmos são expressão e conteúdo da sabedoria, da força e do poder de Deus mesmo? Por que o texto se aprimora de indicar e alertar “Não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licencia de pecar”?
Não é só para dar sentido ao livre arbítrio. Nem para criar as condições do exercício dele, como simples atividade da pessoa, para a qual tanto faz escolher uma postura ou outra. O livre arbítrio não é só possibilidade de escolha “de”: estou livre de estar sentado ou de caminhar; de comer ou de jejuar... “de”... “de”etc., mas condição “para”. Assim o livre arbítrio é condição de escolha para amar, para servir, para o bem, ou seja, para crescer na dinâmica da plenitude do amor.
Rejeitar, ou desprezar, é agir como se Deus não existisse ou não se tivesse manifestado. É se tornar ímpio, é fazer profissão de ateu, é rejeitar a Deus. Portanto, Deus quer “tolerância zero” para com o pecado, pois, não deu licencia para ele, bem conhecendo os limites e a fraqueza do homem.
Assim, no entendimento de Deus o livre arbítrio é determinação para a vida. A dificuldade acima indicada deve-se ao fato que o “para” amar e servir do ponto da experiência de Deus é ligado ao paradoxo da sabedoria divina, e, mais especificadamente, da cruz como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 2,6-10
“Entre os perfeitos nós falamos de sabedoria”. Paulo afirma que só pode falar dela entre cristãos maduros. Mas, esta não é a condição dos coríntios. De fato, com suas divisões, tornam-se incapazes de compreender a sabedoria de Deus “Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória”.
É a sabedoria que provem da vida trinitária, como deixa entender a referencia que ela está em Deus desde a eternidade. Ela não bate com a “sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que, afinal, estão votados à destruição”. Esta sabedoria do mundo e dos poderosos lida com o mal, a morte, a impiedade e o pecado, aos quais faz referencia primeira leitura.
A oposição entre as duas sabedorias é tão radical e contrastante que se o mundo e os poderosos “a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória”. Cabe a pergunta: por que entrou por meio a cruz? Era preciso chegar a tão extremo?
O estilo de vida proposto por Jesus mexe profundamente com a concepção da vida pessoal, familiar, social e religiosa consolidada da tradição e da teologia do tempo. Foi uma bomba. Já desde os inícios de sua missão, como relata o evangelho de Lucas com o discurso programático na sinagoga de Nazaré, faltava pouco que fosse despenhado...
Mas, pior ainda, ele pretendia se apresentar como o Messias esperado, como o enviado de Deus. Até deixou entender ser o filho do Deus Altíssimo: uma blasfêmia merecedora de morte. E a cruz, ao entender deles, foi confirmação do repudio de Deus deste falso profeta de Nazaré.
No desenvolvimento da missão, perante a crescente oposição, ele não mudou nada do ensino dele, pelo contrário reafirmou com mais determinação o seu conteúdo. Simplesmente porque este era o caminho certo do resgate, da salvação, do acontecer do reino de Deus esperado. Era a verdade não adiável e insubstituível.
Esta teimosia, firmeza e determinação o levaram carregar sobre si mesmo toda a desconfiança o desprezo, a ignomínia a e a incompreensão de todos, com outras palavras, o pecado. Preferiu morrer que abrir mão, não por orgulho, evidentemente, mas pelo Amor. O Amor de quem tem a certeza do que faz e da verdade do que está fazendo, como única resposta valida às exigências de libertação, de fraternidade e de vida em plenitude.
Eis, então as palavras de Paulo “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu”. Os que o amam são os “perfeitos”, aqueles que se deixaram e se deixam tocar no dia-a-dia- pelos efeitos daquela morte e ressurreição, que sela a bondade e a verdade da sabedoria.
Neles, este processo é atribuído à ação do Espírito Santo “A nós- os perfeitos, não em sentido ético, evidentemente – Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus”.
É este mesmo Espírito que motiva as palavras e sustenta a proposta de Jesus no Evangelho.
Evangelho Mt 5,17-37
Jesus sabe que vai mexer de maneira profunda e radical com respeito às colunas que sustentam a vida e a identidade do povo de Israel. Então, se posiciona e alerta os ouvintes “Não penseis que vim abolir a lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-hles pleno cumprimento(...) nem uma só letra ou virgula serão tirada da lei, sem que tudo se cumpra”. Com isso, os prepara ao desconcerto de suas afirmações e ,ao mesmo tempo, a terem o coração aberto para escutar.
Coloca um segundo ponto, que resume o sentido e a finalidade de sua intervenção “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”. Afirmação muito polêmica. Os mestres da Lei e os fariseus eram os teólogos e os rigorosos cumpridores das indicações destes. Eram as referencias da vida religiosa e social do povo. Eram eles que indicavam e praticavam as normas da “justiça”, que configura o perfeito temente de Deus.
Com certeza terão se perguntado: Quem é este que pretende indicar outro caminho? Com qual autoridade faz isso? Como é possível passar por cima deles, de uma teologia e pratica tão consolidada? E outras perguntas que daí decorre...
Jesus convida os ouvintes a se distanciarem do ensino oficial. Não estabelece um novo grupo de pessoas que faça de intermediário entre ele e a consciência individual. Só acolher de coração aberto e com inteligência Ele e seu ensino. Ele sabe que tudo isso será causa de diferentes entendimentos e mal entendidos. Por outro lado, já estava constatando isso dentro do restrito numero dos apóstolos, pois, havia incompreensões e brigas entre eles.
Contudo, Jesus procede com grande coragem, ousadia e determinação “Ouvistes que foi dito (...). Eu. Porém, vos digo”. Daí decorre uma serie de indicações sobre aspectos específicos do relacionamento consigo mesmo, entre as pessoas, com respeito ao matrimonio e a fidelidade nele, e para com Deus. (o texto do evangelho se estende à vingança, à violência, à prepotência e desrespeito do que é correto, e ao amor aos inimigos).
Se esta alternativa é o cumprimento pleno da Lei e dos profetas, qual é a inteligência intrínseca de tudo isso? O fio que amarra e perpassam todas elas? Parece-me que o ponto focal é o “outro”, o que ele é e necessita para se tornar um homem livre e capacitado para amar. Não se trata de fazer o que ele gosta, mas o que ele precisa, e , as vezes, é o que não gosta...
Com outras palavras. Trata-se de fazer própria a necessidade humana, psicológica, moral e espiritual do outro, se deixar iluminar pelo Espírito Santo com respeito ao serviço mais adequado que podemos e temos condição de oferecer e assim criar comunhão e comunidade, aquela família humana que, ao mesmo tempo, se torna templo de Deus pela pratica da caridade.
Nesse sentido, é preciso vigiar sobre si mesmo, pelas forças adversas e contraria que é o comodismo, a indiferença, o preconceito, o medo, que são como membros do corpo resistentes a entrar nessa. Portanto, é preciso cortá-los com determinação.
É preciso cuidar do sentimento sincero de amor entre homem e mulher no matrimonio, extensivo a quem, tal vez involuntariamente, foi ofendido. Nesse âmbito, precisa atenção em dominar e controlar a tirania das paixões...
Nesta ótica uma palavra resume tudo isso: servir em vez de ser servido. O outro, a quem servimos, é o âmbito e o meio de nossa salvação, mesmo que isso passe pelo estilo de vida indicado pela bem- aventurança, pela incompreensão até a cruz, como foi a experiência de Cristo. Mais ainda. O servir tem em si mesmo a luz da vida e o sal da existência que confere sabor à vida.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
5o DOMINGO DO TEMPO COMUM-A-(06-02-11)
1ª leitura Is 58,7-10
O Senhor se dirige a todo integrante do povo de Deus: “Invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, ele dirá:“ Eis-me aqui ”. A invocação é expressão da familiaridade, da intimidade e da sintonia da pessoa com o Senhor. O atendimento è a prova que o Senhor está ao lado dela, que caminha com ela, e nele pode confiar, pela sua atitude correta em sintonia com a vontade dele. Esta atitude o qualifica como o servo fiel, o temente de Deus.
O Senhor indica uma dupla afirmação em si mesma contrária uma da outra, mas coincidentes em conformar a personalidade correta que o Senhor espera dos integrantes do seu povo. Indica o que deve evitar e o que deve fazer.
É preciso destruir “teus instrumentos de opressão, e deixares hábitos autoritários e a linguagem maldosa”. É a coerência ética fundamental de quem sintoniza e cumpre com o significado espiritual e último da Aliança. Por outro lado, é a maneira de vivenciar a libertação do mal e do pecado que caracterizou a saída da escravidão do Egito e deve ser mantida e aprofundada. Caso contrário, instrumentos, hábitos e língua constituem os canais e os meios pelos quais se retorna à escravidão do Egito...
Com efeito, é essencial perceber os instrumentos psicológicos, morais e humanos da opressão, que não dão espaço à pessoa ser ela mesma, no exercício do próprio entendimento e da própria liberdade. É preciso deixar o autoritarismo, ou seja, o serviço da autoridade em virtude do cargo pelo cargo, sem a devida motivação e argumentação que possa dar sentido e razão do porque da ordem. A língua não tem ossos, mas quebras os ossos. Quando ela visa destruir e desmanchar todo relacionamento com pessoas e situações que não condizem com o próprio gosto e a própria expectativa, a maldade e a infâmia tomaram conta do coração da pessoa.
Estas permanentes armadilhas podem ser vencidas só “se acolheres de coração o indigente e prestares socorro ao necessitado” É exercer a compaixão e a misericórdia. É sintonizar e fazer próprio o sofrimento do outro, em virtude da mesma dignidade humana e do coração sensível para com quem sofre.
Daí decorre com convicção e simplicidade acolher a ordem do senhor “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa pobre e peregrino. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes sua carne”. É o dito pela sabedoria popular :“o gostinho de fazer o bem sem olhar a quem”.
Em fazer o bem já esta a recompensa. Ela se manifesta desta forma “Então, brilhará tua luz como aurora e tua saúde há de recuperar-se depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá”. Luz, como expressão e manifestação da satisfação interior, da alegria, da segurança. E recuperação mais depressa da saúde, pois, a alegria e a serenidade interior tem repercussão ma saúde física, como é comprovado, também, cientificamente.
A vitória no dia-a-dia sobre o mal, que sempre acompanha cada momento da existência, é possível em virtude da adesão ao evento da cruz de Jesus, transmitido pela predicação na forma indicada pela segunda leitura.
2da leitura 1Cor 2,1-5
Paolo faz algumas considerações sobre o anuncio do mistério de Deus através de sua pregação. Do ponto de vista das considerações racionais e da sabedoria humana é um mistério mesmo o que Paulo apresenta: a salvação da pessoa ,e da humanidade toda, realizada pelo Crucificado na sesta feira da Páscoa...
Paulo é consciente da enorme dificuldade de compreensão e de aceitação por parte de todo ouvinte mergulhado na experiência e na ciência humana. Portanto, se posiciona com respeito à sabedoria humana “não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana”, porque sabe que não há condições nem argumentos contundentes para convencer e, menos ainda, para provar a bondade e veracidade do seu testemunho.
No fundo, a cruz-ressurreição é o paradoxo que foge de toda consideração humana. É paradoxo exatamente porque a sabedoria humana não tem condição de desvendar de maneira convincente o enigma que encerra: a verdade está no contrário do que aparece.
Contudo, ele afirma “estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor”. Evidentemente, porque percebe o risco do fracasso da própria pregação e, por outro lado, o não poder prescindir da verdade paradoxal da cruz. Daí a atitude de optar com determinação pela sabedoria- incompreensível- da cruz “não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado”.
Esta escolha tem um motivo especifico. Pois, o saber do mistério da cruz oferece às palavras e à pregação dele “não discursos persuasivos da sabedoria, mas uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens”. Entra em campo o que S. Agostinho chama de mestre interior: O Espírito Santo.
Com efeito, o Espírito Santo é o Amor que corre entre o Pai que entrega o Filho por Amor, e o Filho que aceita a vontade do Pai e por Amor se entrega. Tudo se realiza e se desenvolve no horizonte do Amor, ou seja, no Espírito Santo. O poder de Deus é, portanto, o poder do Amor, pois “Deus é Amor”, como afirma são João na sua primeira carta.
Amor diz relacionamento. Portanto, a qualidade do relacionamento da Trindade com a humanidade, manifesta na cruz de Cristo, faz perceber a imensidade deste Amor e seu poder transformador e ressuscitador do pecado e da morte.
É o que Paulo experimentou e que ele afirma explicitamente na carta aos Gálatas “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou”(2,20).
Fora deste horizonte de amor, a sabedoria da cruz se torna incompreensível e inaceitável. Portanto, todo discípulo tem que se ater a ela, não como discurso o argumentação erudita da sabedoria humana, mas como experiência a ser passada e transmitida como testemunho.
É a verdade frisada pelo evangelho.
Evangelho Mt 5, 13-16
É preciso ligar com o discurso das bem-aventuranças do domingo passado. O “alegrai-vos e exultai porque é grande a recompensa” nesta terra, que, pela atitude do discípulo, já se tornou para ele um pedaço do céu e constitui a luz e o sal dos quais o mundo precisa. Daí as palavras de Jesus “ Vós sois o sal da terra (...). Vos sois a luz do mundo”.
Mas a alerta de Jesus frisa a possibilidade e o perigo de que o sal se torne insosso “Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos?”. Perde sua força e com ela o sentido de ser sal, se esvaziou de sua função, se descaracterizou. O perigo se faz realidade no momento que a pregação e as atitudes do discípulo assumem os critérios da sabedoria humana da segunda leitura. Seria como se Jesus tivesse cedido às tentações no deserto, ou tivesse descido da cruz, pouco minutos antes de morrer.
A sedução da sabedoria humana, trocada pela sabedoria da cruz, é sempre atual. Pois ela terá sempre mais audiência, reunirá sempre mais adeptos, será sempre mais convincente do que a “lógica” da cruz, ou melhor, o paradoxo da cruz. Discípulos que procuram o próprio sucesso em ternos de reconhecimento das próprias virtudes oratórias, das próprias capacidades organizativas, das próprias condições de lideres etc., estão seriamente expostos em cair no perigo.
O trágico são as conseqüências “com que o salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens”. Trata-se do fracasso total, da insignificância... É o que a igreja está experimentando quando compactua com interesses políticos, financeiros, e outras realidades em contrasto com a lógica da cruz (Tem pano para manga!...).
“Vós sois a luz do mundo”. Luz porque a lógica da cruz é, ao mesmo tempo, ressurreição. A ressurreição não é um premio por entregar a própria vida, não é um super milagre para a conversão dos incrédulos... É a manifestação da mesma força e realidade profunda da entrega.
Por que se deveria colocar a lâmpada “debaixo de uma vasilha”? Tal vez, por medo da critica, da rejeição. Tal vez, pelo temor de perder amizades, vantagens ou outro bem. Tal vez, pela vergonha de se expor ao ridículo, à ironia dos que se apelam à sabedoria humana. Tal vez, por comodismo, por desconfiar sobre a eficácia da pregação etc. Tal vez, por se encontrar na solidão, como Jesus se encontrou com ela na cruz.
Eis, então, a exortação final “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras”. Notável é considerar que a luz é condição para perceber e ver as boas obras. Portanto, a luz da sabedoria de Deus- a cruz- permite enxergar as boas obras como realidades encharcadas daquele específico amor que a o evangelho chama de caridade. Elas refletem a luz da caridade, ou seja, Deus mesmo, pois “Deus é caridade”
Portanto, a conclusão: “e louvem o vosso Pai que está nos céus”. Tudo procede de Deus-Amor tudo converge Nele, tem nele o seu ponto de chegada como louvor de sua glória presente nas pessoas, nos corretos relacionamentos entre elas e na humanidade, e como prática do direito e da justiça.
O Senhor se dirige a todo integrante do povo de Deus: “Invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, ele dirá:“ Eis-me aqui ”. A invocação é expressão da familiaridade, da intimidade e da sintonia da pessoa com o Senhor. O atendimento è a prova que o Senhor está ao lado dela, que caminha com ela, e nele pode confiar, pela sua atitude correta em sintonia com a vontade dele. Esta atitude o qualifica como o servo fiel, o temente de Deus.
O Senhor indica uma dupla afirmação em si mesma contrária uma da outra, mas coincidentes em conformar a personalidade correta que o Senhor espera dos integrantes do seu povo. Indica o que deve evitar e o que deve fazer.
É preciso destruir “teus instrumentos de opressão, e deixares hábitos autoritários e a linguagem maldosa”. É a coerência ética fundamental de quem sintoniza e cumpre com o significado espiritual e último da Aliança. Por outro lado, é a maneira de vivenciar a libertação do mal e do pecado que caracterizou a saída da escravidão do Egito e deve ser mantida e aprofundada. Caso contrário, instrumentos, hábitos e língua constituem os canais e os meios pelos quais se retorna à escravidão do Egito...
Com efeito, é essencial perceber os instrumentos psicológicos, morais e humanos da opressão, que não dão espaço à pessoa ser ela mesma, no exercício do próprio entendimento e da própria liberdade. É preciso deixar o autoritarismo, ou seja, o serviço da autoridade em virtude do cargo pelo cargo, sem a devida motivação e argumentação que possa dar sentido e razão do porque da ordem. A língua não tem ossos, mas quebras os ossos. Quando ela visa destruir e desmanchar todo relacionamento com pessoas e situações que não condizem com o próprio gosto e a própria expectativa, a maldade e a infâmia tomaram conta do coração da pessoa.
Estas permanentes armadilhas podem ser vencidas só “se acolheres de coração o indigente e prestares socorro ao necessitado” É exercer a compaixão e a misericórdia. É sintonizar e fazer próprio o sofrimento do outro, em virtude da mesma dignidade humana e do coração sensível para com quem sofre.
Daí decorre com convicção e simplicidade acolher a ordem do senhor “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa pobre e peregrino. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes sua carne”. É o dito pela sabedoria popular :“o gostinho de fazer o bem sem olhar a quem”.
Em fazer o bem já esta a recompensa. Ela se manifesta desta forma “Então, brilhará tua luz como aurora e tua saúde há de recuperar-se depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá”. Luz, como expressão e manifestação da satisfação interior, da alegria, da segurança. E recuperação mais depressa da saúde, pois, a alegria e a serenidade interior tem repercussão ma saúde física, como é comprovado, também, cientificamente.
A vitória no dia-a-dia sobre o mal, que sempre acompanha cada momento da existência, é possível em virtude da adesão ao evento da cruz de Jesus, transmitido pela predicação na forma indicada pela segunda leitura.
2da leitura 1Cor 2,1-5
Paolo faz algumas considerações sobre o anuncio do mistério de Deus através de sua pregação. Do ponto de vista das considerações racionais e da sabedoria humana é um mistério mesmo o que Paulo apresenta: a salvação da pessoa ,e da humanidade toda, realizada pelo Crucificado na sesta feira da Páscoa...
Paulo é consciente da enorme dificuldade de compreensão e de aceitação por parte de todo ouvinte mergulhado na experiência e na ciência humana. Portanto, se posiciona com respeito à sabedoria humana “não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana”, porque sabe que não há condições nem argumentos contundentes para convencer e, menos ainda, para provar a bondade e veracidade do seu testemunho.
No fundo, a cruz-ressurreição é o paradoxo que foge de toda consideração humana. É paradoxo exatamente porque a sabedoria humana não tem condição de desvendar de maneira convincente o enigma que encerra: a verdade está no contrário do que aparece.
Contudo, ele afirma “estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor”. Evidentemente, porque percebe o risco do fracasso da própria pregação e, por outro lado, o não poder prescindir da verdade paradoxal da cruz. Daí a atitude de optar com determinação pela sabedoria- incompreensível- da cruz “não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado”.
Esta escolha tem um motivo especifico. Pois, o saber do mistério da cruz oferece às palavras e à pregação dele “não discursos persuasivos da sabedoria, mas uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens”. Entra em campo o que S. Agostinho chama de mestre interior: O Espírito Santo.
Com efeito, o Espírito Santo é o Amor que corre entre o Pai que entrega o Filho por Amor, e o Filho que aceita a vontade do Pai e por Amor se entrega. Tudo se realiza e se desenvolve no horizonte do Amor, ou seja, no Espírito Santo. O poder de Deus é, portanto, o poder do Amor, pois “Deus é Amor”, como afirma são João na sua primeira carta.
Amor diz relacionamento. Portanto, a qualidade do relacionamento da Trindade com a humanidade, manifesta na cruz de Cristo, faz perceber a imensidade deste Amor e seu poder transformador e ressuscitador do pecado e da morte.
É o que Paulo experimentou e que ele afirma explicitamente na carta aos Gálatas “Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou”(2,20).
Fora deste horizonte de amor, a sabedoria da cruz se torna incompreensível e inaceitável. Portanto, todo discípulo tem que se ater a ela, não como discurso o argumentação erudita da sabedoria humana, mas como experiência a ser passada e transmitida como testemunho.
É a verdade frisada pelo evangelho.
Evangelho Mt 5, 13-16
É preciso ligar com o discurso das bem-aventuranças do domingo passado. O “alegrai-vos e exultai porque é grande a recompensa” nesta terra, que, pela atitude do discípulo, já se tornou para ele um pedaço do céu e constitui a luz e o sal dos quais o mundo precisa. Daí as palavras de Jesus “ Vós sois o sal da terra (...). Vos sois a luz do mundo”.
Mas a alerta de Jesus frisa a possibilidade e o perigo de que o sal se torne insosso “Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos?”. Perde sua força e com ela o sentido de ser sal, se esvaziou de sua função, se descaracterizou. O perigo se faz realidade no momento que a pregação e as atitudes do discípulo assumem os critérios da sabedoria humana da segunda leitura. Seria como se Jesus tivesse cedido às tentações no deserto, ou tivesse descido da cruz, pouco minutos antes de morrer.
A sedução da sabedoria humana, trocada pela sabedoria da cruz, é sempre atual. Pois ela terá sempre mais audiência, reunirá sempre mais adeptos, será sempre mais convincente do que a “lógica” da cruz, ou melhor, o paradoxo da cruz. Discípulos que procuram o próprio sucesso em ternos de reconhecimento das próprias virtudes oratórias, das próprias capacidades organizativas, das próprias condições de lideres etc., estão seriamente expostos em cair no perigo.
O trágico são as conseqüências “com que o salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens”. Trata-se do fracasso total, da insignificância... É o que a igreja está experimentando quando compactua com interesses políticos, financeiros, e outras realidades em contrasto com a lógica da cruz (Tem pano para manga!...).
“Vós sois a luz do mundo”. Luz porque a lógica da cruz é, ao mesmo tempo, ressurreição. A ressurreição não é um premio por entregar a própria vida, não é um super milagre para a conversão dos incrédulos... É a manifestação da mesma força e realidade profunda da entrega.
Por que se deveria colocar a lâmpada “debaixo de uma vasilha”? Tal vez, por medo da critica, da rejeição. Tal vez, pelo temor de perder amizades, vantagens ou outro bem. Tal vez, pela vergonha de se expor ao ridículo, à ironia dos que se apelam à sabedoria humana. Tal vez, por comodismo, por desconfiar sobre a eficácia da pregação etc. Tal vez, por se encontrar na solidão, como Jesus se encontrou com ela na cruz.
Eis, então, a exortação final “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras”. Notável é considerar que a luz é condição para perceber e ver as boas obras. Portanto, a luz da sabedoria de Deus- a cruz- permite enxergar as boas obras como realidades encharcadas daquele específico amor que a o evangelho chama de caridade. Elas refletem a luz da caridade, ou seja, Deus mesmo, pois “Deus é caridade”
Portanto, a conclusão: “e louvem o vosso Pai que está nos céus”. Tudo procede de Deus-Amor tudo converge Nele, tem nele o seu ponto de chegada como louvor de sua glória presente nas pessoas, nos corretos relacionamentos entre elas e na humanidade, e como prática do direito e da justiça.
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