1ª leitura Eclo 15,16-21
“Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir”. O texto afirma a liberdade do homem e a conseqüência da escolha dele. É o que caracteriza o próprio da pessoa. Há muita sensibilidade em guardar e custodiar esta liberdade. Ela é o que ninguém pode desrespeitar ou violar. Com efeito, “para o que quiseres tu podes estender a mão” É a determinação do livre arbítrio, do qual a pessoa deverá responder.
Contudo, o texto orienta a escolha de maneira muito marcante, elencando os atributos do Senhor “A sabedoria do Senhor é imensa, ele é forte e poderoso e tudo vê continuamente. Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do homem”
Uma apresentação com este conteúdo deixa pouca margem à alternativa. Parece difícil não escolher o Senhor “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás”. O livre arbítrio leva à vida se está em sintonia com os mandamentos e a confiança na promessa do Senhor.
A complacência do Senhor está voltada para os que o temem, os que confiam na presença dele, os que guardam os mandamentos e atuam coerentemente a eles. Pois, “Ele – o Senhor conhece todas as obras do homem”. A preocupação de não desagradar a ele, pela sintonia amorosa com a pessoa dele a sua vontade, conformam o temor do Senhor. Não é submissão forçada, obrigada, mas escolha de submeter os próprios critérios de entendimento, as próprias escolhas do dia-a-dia, em sintonia com o estilo de vida indicados pelos mandamentos e a vontade dele. Nesse sentido, eles te guardam, custodiam a tua integridade, a tua fidelidade, ao Senhor e protegem a tua existência, rumo à qualidade de vida mais plena e consistente.
Contudo, cabe perguntar: por que, então, o homem escolhe o contrário? Por que tanta dificuldade em aceitar e observar os mandamentos, que em si mesmos são expressão e conteúdo da sabedoria, da força e do poder de Deus mesmo? Por que o texto se aprimora de indicar e alertar “Não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licencia de pecar”?
Não é só para dar sentido ao livre arbítrio. Nem para criar as condições do exercício dele, como simples atividade da pessoa, para a qual tanto faz escolher uma postura ou outra. O livre arbítrio não é só possibilidade de escolha “de”: estou livre de estar sentado ou de caminhar; de comer ou de jejuar... “de”... “de”etc., mas condição “para”. Assim o livre arbítrio é condição de escolha para amar, para servir, para o bem, ou seja, para crescer na dinâmica da plenitude do amor.
Rejeitar, ou desprezar, é agir como se Deus não existisse ou não se tivesse manifestado. É se tornar ímpio, é fazer profissão de ateu, é rejeitar a Deus. Portanto, Deus quer “tolerância zero” para com o pecado, pois, não deu licencia para ele, bem conhecendo os limites e a fraqueza do homem.
Assim, no entendimento de Deus o livre arbítrio é determinação para a vida. A dificuldade acima indicada deve-se ao fato que o “para” amar e servir do ponto da experiência de Deus é ligado ao paradoxo da sabedoria divina, e, mais especificadamente, da cruz como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 2,6-10
“Entre os perfeitos nós falamos de sabedoria”. Paulo afirma que só pode falar dela entre cristãos maduros. Mas, esta não é a condição dos coríntios. De fato, com suas divisões, tornam-se incapazes de compreender a sabedoria de Deus “Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória”.
É a sabedoria que provem da vida trinitária, como deixa entender a referencia que ela está em Deus desde a eternidade. Ela não bate com a “sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que, afinal, estão votados à destruição”. Esta sabedoria do mundo e dos poderosos lida com o mal, a morte, a impiedade e o pecado, aos quais faz referencia primeira leitura.
A oposição entre as duas sabedorias é tão radical e contrastante que se o mundo e os poderosos “a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória”. Cabe a pergunta: por que entrou por meio a cruz? Era preciso chegar a tão extremo?
O estilo de vida proposto por Jesus mexe profundamente com a concepção da vida pessoal, familiar, social e religiosa consolidada da tradição e da teologia do tempo. Foi uma bomba. Já desde os inícios de sua missão, como relata o evangelho de Lucas com o discurso programático na sinagoga de Nazaré, faltava pouco que fosse despenhado...
Mas, pior ainda, ele pretendia se apresentar como o Messias esperado, como o enviado de Deus. Até deixou entender ser o filho do Deus Altíssimo: uma blasfêmia merecedora de morte. E a cruz, ao entender deles, foi confirmação do repudio de Deus deste falso profeta de Nazaré.
No desenvolvimento da missão, perante a crescente oposição, ele não mudou nada do ensino dele, pelo contrário reafirmou com mais determinação o seu conteúdo. Simplesmente porque este era o caminho certo do resgate, da salvação, do acontecer do reino de Deus esperado. Era a verdade não adiável e insubstituível.
Esta teimosia, firmeza e determinação o levaram carregar sobre si mesmo toda a desconfiança o desprezo, a ignomínia a e a incompreensão de todos, com outras palavras, o pecado. Preferiu morrer que abrir mão, não por orgulho, evidentemente, mas pelo Amor. O Amor de quem tem a certeza do que faz e da verdade do que está fazendo, como única resposta valida às exigências de libertação, de fraternidade e de vida em plenitude.
Eis, então as palavras de Paulo “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu”. Os que o amam são os “perfeitos”, aqueles que se deixaram e se deixam tocar no dia-a-dia- pelos efeitos daquela morte e ressurreição, que sela a bondade e a verdade da sabedoria.
Neles, este processo é atribuído à ação do Espírito Santo “A nós- os perfeitos, não em sentido ético, evidentemente – Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus”.
É este mesmo Espírito que motiva as palavras e sustenta a proposta de Jesus no Evangelho.
Evangelho Mt 5,17-37
Jesus sabe que vai mexer de maneira profunda e radical com respeito às colunas que sustentam a vida e a identidade do povo de Israel. Então, se posiciona e alerta os ouvintes “Não penseis que vim abolir a lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-hles pleno cumprimento(...) nem uma só letra ou virgula serão tirada da lei, sem que tudo se cumpra”. Com isso, os prepara ao desconcerto de suas afirmações e ,ao mesmo tempo, a terem o coração aberto para escutar.
Coloca um segundo ponto, que resume o sentido e a finalidade de sua intervenção “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”. Afirmação muito polêmica. Os mestres da Lei e os fariseus eram os teólogos e os rigorosos cumpridores das indicações destes. Eram as referencias da vida religiosa e social do povo. Eram eles que indicavam e praticavam as normas da “justiça”, que configura o perfeito temente de Deus.
Com certeza terão se perguntado: Quem é este que pretende indicar outro caminho? Com qual autoridade faz isso? Como é possível passar por cima deles, de uma teologia e pratica tão consolidada? E outras perguntas que daí decorre...
Jesus convida os ouvintes a se distanciarem do ensino oficial. Não estabelece um novo grupo de pessoas que faça de intermediário entre ele e a consciência individual. Só acolher de coração aberto e com inteligência Ele e seu ensino. Ele sabe que tudo isso será causa de diferentes entendimentos e mal entendidos. Por outro lado, já estava constatando isso dentro do restrito numero dos apóstolos, pois, havia incompreensões e brigas entre eles.
Contudo, Jesus procede com grande coragem, ousadia e determinação “Ouvistes que foi dito (...). Eu. Porém, vos digo”. Daí decorre uma serie de indicações sobre aspectos específicos do relacionamento consigo mesmo, entre as pessoas, com respeito ao matrimonio e a fidelidade nele, e para com Deus. (o texto do evangelho se estende à vingança, à violência, à prepotência e desrespeito do que é correto, e ao amor aos inimigos).
Se esta alternativa é o cumprimento pleno da Lei e dos profetas, qual é a inteligência intrínseca de tudo isso? O fio que amarra e perpassam todas elas? Parece-me que o ponto focal é o “outro”, o que ele é e necessita para se tornar um homem livre e capacitado para amar. Não se trata de fazer o que ele gosta, mas o que ele precisa, e , as vezes, é o que não gosta...
Com outras palavras. Trata-se de fazer própria a necessidade humana, psicológica, moral e espiritual do outro, se deixar iluminar pelo Espírito Santo com respeito ao serviço mais adequado que podemos e temos condição de oferecer e assim criar comunhão e comunidade, aquela família humana que, ao mesmo tempo, se torna templo de Deus pela pratica da caridade.
Nesse sentido, é preciso vigiar sobre si mesmo, pelas forças adversas e contraria que é o comodismo, a indiferença, o preconceito, o medo, que são como membros do corpo resistentes a entrar nessa. Portanto, é preciso cortá-los com determinação.
É preciso cuidar do sentimento sincero de amor entre homem e mulher no matrimonio, extensivo a quem, tal vez involuntariamente, foi ofendido. Nesse âmbito, precisa atenção em dominar e controlar a tirania das paixões...
Nesta ótica uma palavra resume tudo isso: servir em vez de ser servido. O outro, a quem servimos, é o âmbito e o meio de nossa salvação, mesmo que isso passe pelo estilo de vida indicado pela bem- aventurança, pela incompreensão até a cruz, como foi a experiência de Cristo. Mais ainda. O servir tem em si mesmo a luz da vida e o sal da existência que confere sabor à vida.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
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