1ª leitura Lv 1-2.17-18
Este trecho faz parte da lei da santidade e anuncia o fundamental dessa lei: “sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. O termo santidade, aplicado a Deus, significa “separado” de todo aquilo que não condiz com a sua realidade verdadeira e profunda. Deus é Amor puro, então, ele em quanto amor é separado de todo aquilo não é.
A ordem de ser santo corresponde ao chamado fundamental que já Eva escutou, pela falação da serpente, e que está no coração de todo ser humano “sereis como Deus” (Gn 3,5). Este chamado suscitou a imediata adesão dela. Pois, quem não desejaria ser tal?
O desafio, de então e de hoje, está em como chegar. O caminho é indicado por Deus mesmo. Ele se coloca como termo de referencia “porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. O que enganou Eva, e engana também hoje, foi a auto referencia. Pretendeu chegar colocando o próprio entendimento, a própria percepção, o próprio critério de discernimento e se deixou seduzir deles “A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois, era atraente para os olhos e desejável para se alcançar conhecimento (do bem e do mal)” (Gn 3,6).
Eis então as indicações e o caminho para se tornar “como Deus”. “Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornes culpado de pecado por causa dele. Não procures vingança, nem guardes rancor dos teus compatriotas. Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”.
Com certeza, toda pessoa gostaria de assumir para valer estas indicações. Percebe-se que são certas e que levariam ao crescimento humano e espiritual significativo. Mas, cabe a pergunta: como é possível ficar livre do ódio, do desejo de vingança, da mágoa, pela ofensa recebida?
O exemplo na frente è a pessoa de Jesus. Na cruz, pouco antes de morrer, pronuncio as famosas palavras: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Como pude, em força de que conseguiu se sobrepuser da própria trágica condição daquele momento? Não acredito que a resposta seja simplesmente: porque era Filho de Deus, portanto, para ele era mais fácil, como obvio e natural, porém, impossível para toda pessoas humana. De fato, ele se colocou no mesmo nível dos homens, colocou como entre parêntesis sua condição divina... Então?
Pois bem, acredito que a compaixão e a misericórdia a favor da humanidade tão perdida e incapaz de compreender o verdadeiro caminho da paz, do resgate à vida nova “Jesus chorou sobre ela - Jerusalém- Se neste dia também tu conhecesses o que pode traze a paz! Mas isto agora está oculto aos teus olhos”( Lc 19,42), falou mais alto dos sofrimentos que a mesma sociedade estava lhe infligindo.
É a amor sincero para a salvação e a certeza de estar realizando-a, que fez perceber nele o horizonte e realidade da “ vida indestrutível”(Hb 7,16) para ele a para a humanidade. Ao mesmo tempo, foi tomado por um sentimento de pena e de sofrimento para com a humanidade mais intenso dos próprios sofrimentos humanos e de perder de vista a presença do Pai, que foram causa de uma morte tão rápida.
“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” Jesus se ama a si mesmo se amando no outro. Tal vez, diria Jesus “o outro sou eu... perdendo-me no outro, me encontro mais identificado, crescido e completo no meu ser pessoal”.
Só no Espírito Santo è possível isso, como indica a segunda leitura.
2da leitura 1Cor 3,16-23
O cristão consciente sabe do dom de Deus para com ele. A aceitação o constitui santo, pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, atualizada pela ação do Espírito Santo. Eis, então, a afirmação de Paulo mostra surpresa pelos coríntios ter perdido a referencia: “Acaso não sabeis que sois o santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?”.
O fato deles serem constituídos como santuário de Deus, “vós sois esse santuário”, pelo pressuposto da morte e ressurreição de Jesus, deveria conferir e mergulhar eles na sabedoria da cruz e se distanciarem da sabedoria do mundo.
Paulo não especifica, contudo, cabe pensar que o insuficiente distanciamento do mundo, ou a insuficiente clareza da missão e pessoa de Jesus, assim como a insegurança, o medo, a indeterminação no acolher o dom de Cristo faz deles pessoas ambíguas.
Em virtude disso, eles ficam por um lado e pelo outro, se alternando de um ponto para outro. Eis, então, a causa da tensão e da divisão entre eles: “eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, eu sou de Cefas...”. Divisão que não deveria subsistir porque quem transmitiu o dom é Cristo. Pois, é Cristo que morreu na cruz, não Paulo, Apolo, ou Cefas, ou outros que destacam na vida da comunidade.
Paulo retoma o contraste ente a sensatez e a insensatez com respeito à sabedoria do mundo e a sabedoria da cruz. Com isso, mostra que a divisão na comunidade tem sua origem exatamente por não tomar em devida consideração, e ter suficiente clareza, do radical contraste entre as duas sabedorias. Causa disso, é perder o ponto de referencia fundamental do evento da cruz de Cristo e sua ressurreição.
Muita divisão è causada pela falsa sabedoria do mundo que não condiz com a verdadeira da cruz. Portanto, o apostolo alerta sobre a urgência e necessidade de se determinar pela verdadeira. Pois, Paulo tem consciência de que Cristo escolheu a sabedoria da cruz não porque não conheça a sabedoria do mundo, mas o contrario por que a conhece muito bem. “O Senhor conhece os pensamentos dos sábios; sabe que são vãos”.
Desta forma, oferece o porquê e o meio para acabar com ela. E acrescenta uma visão global e sintética de todo o evento da criação que inclui tudo e todos. Ele é redesenhado à luz da sabedoria da cruz, pois, a sabedoria do mundo não tem elementos para elaborá-la nem condição para apresentá-la.
Em primeiro termino, negativamente, indica “Ninguém ponhas a sua glória em homem algum”, pois, o único no qual se gloriar é a pessoa de Cristo e a sabedoria da cruz, como acabava de afirmar pouco antes. E depois acrescenta “Com efeito, tudo vos pertence: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus”. É uma visão surpreendente, Não são apresenta um quadro de comunhão, que supera de muito todas as divisões presentes na comunidade, mas integra tudo e todo na comunhão e participação na vida de Deus. Enxerga o acontecer definitivo do reino de Deus e a vida plena, na qual tudo e todas estão chamados.
Este futuro já se faz presente na pratica e no ensino de Jesus.
Evangelho Mt 5,38-48
É a continuação do evangelho da semana passada. Portanto está na mesma lógica: “Vós ouvistes o que foi dito (...). Eu, porém, vos digo”, e persegue o mesmo objetivo.
Se esta alternativa é o cumprimento pleno da Lei e dos profetas, qual é a inteligência intrínseca de tudo isso? o fio que amarra e perpassa todos elas? Parece-me que o ponto focal é o outro, o que ele é e necessita para se tornar um homem livre e capacitado para amar. Não se trata de oferecer o que ele gosta, mas o que ele precisa, e vezes são o que não gosta... Com outras palavras, trata-se de fazer própria a necessidade humana, psicológica, moral e espiritual do outro, de se aproximar dele e de elegê-lo como próximo.
Com efeito, sintonizar com as exigências e necessidades do outro e torná-lo próximo é condição para servi-lo. Desta forma ele é o âmbito e o meio da salvação, mesmo que isso passe pelo estilo de vida indicado pela bem- aventurança, pela incompreensão até a cruz, como foi experiência de Cristo. Mais ainda. O servir tem em si mesmo a luz da vida e o sal da existência que confere sabor a tudo e a todo.
Merece destaque a afirmação “Amai aos vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” Parece uma coisa impossível, pela limitação de nossa condição humana. Achamos que está bem para Jesus, pois ele é o filho de Deus, mas para o comum mortal é demais...
Contudo, Jesus é de outra opinião. Ele insiste argumentando “se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis. Os cobradores de impostos (...). Os pagãos não fazem a mesma coisa?”. A bíblia pastoral traduz em vez de “recompensa”, “gratuidade, “que gratuidade é essa?”. Desta forma, oferece um horizonte de compreensão centrado sobre uma atitude que, em primeiro termo, foi a de Jesus para com cada um de nós e para com toda a humanidade: a gratuidade.
Tudo é graça, tudo é dom, pelo o agir de Deus na pessoa de Jesus a nosso favor “Mas Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, quando ainda éramos pecadores”( Rm5,8). Ainda éramos mortos no pecado quando ele se entregou gratuitamente por nós e nos salvou. Também, o que ele oferece cada dia na palavra e nos sacramentos é graça, é gratuidade, que pode ser aceito e compreendido ou não, mas, de toda maneira, é oferecido e realizado objetivamente.
Só na percepção e vivencia sincera deste dom é possível a atitude indicada e vivenciada por Jesus. Não somos nós que em primeiro termo amamos a ele, mas ele nos amou primeiro, e nos amou gratuitamente: amor puro.
A gratuidade é ao mesmo tempo recompensa da ação. No fazer o bem, na pratica do amor gratuito, já esta nele a recompensa. Não precisa de outra. Nesse sentido, recompensa e gratuidade apontam a mesma realidade do Amor.
Com efeito, é esse Amor de Cristo por nós que nos torna filhos de Deus. Este dom gratuito devolvido a Deus na mesma pratica e a favor do outro nos mantém e acrescenta a dignidade de filhos. Com certeza traça o caminho da perfeição e da aceitação do convite feito por Jesus “Portanto, sede perfeitos como o vosso pai celeste é perfeito”, O impossível se torna realidade.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
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