“Isto diz o Senhor sobre Ciro, seu ungido”. O profeta oferece uma visão retrospectiva, após a libertação do povo do desterro de Babilônia. Foi o rei Ciro quem decretou o retorno do resto do povo à terra natal, libertando-o da escravidão.
O que chama de imediato a atenção é atribuir condição de “ungido” a um rei estrangeiro. Um estrangeiro indicado pelo Senhor como messias, como enviado por ele, ultrapassa toda imaginação e expectativa do povo de Israel.“Tomei-o pela mão”. O Senhor age para com ele como se fosse o próprio familiar, o próprio filho.
Isso mostra a absoluta liberdade e determinação de Deus com respeito aos esquemas preconcebidos em conduzir sua ação salvadora para com o seu povo. Os caminhos Dele são diferentes dos caminhos dos homens, como lembrava a primeira leitura do 25º domingo: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra” (Is 55,8-9).
Ele age com duas finalidades.
A primeira, afirmar sua identidade “ Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus (...). Eu sou o Senhor, não há outro”. E também o senhorio Dele sobre todos os povos “para que todos saibam, de oriente ao ocidente, que fora de mim outro não existe”.
A segunda “Por causa de meu servo Jacó e do meu eleito Israel”. Pela causa da Aliança estabelecida com o povo no Sinai. Com esta atitude, Deus chama o povo para que se conscientize da nova realidade, e entre sintonia com ela.
Ele liberta e reconstrói o seu povo por fidelidade à Aliança, pois a fidelidade faz parte da sua essência profunda.
Ao mesmo tempo chama o povo para que colabore em atingir a meta, a finalidade da Aliança; pois, a universalidade dela e a experiência da salvação que ela traz fazem parte do sentido da unção do rei Ciro. Ele é chamado “ para submeter os povos ao seu domínio, dobrar o orgulho dos reis, abrir todas as portas à sua marcha, e para não deixar trancar os portões”.
A ação do domínio dele sobre os povo é finalizada à integração, á união de todos os povos: abrir as portas e não trancá-las; criar fraternidade e não dividir, separar e dominar. Se essa é a missão conferida por Deus a um rei pagão, mais ainda vale para o povo eleito, constituído pela ação do mesmo rei.
Cabe frisar que o rei Ciro não tem consciência desta eleição, de ser ungido pelo Senhor: “Armei-te guerreiro, sem me reconheceres”. Ele age como rei comum, como rei conquistador dentro dos hábitos e das funções que lhes são próprias. Sua preocupação é a guerra e a vitória.
A eleição como “ungido” do Senhor foge à sua percepção. Contudo, ele se torna o instrumento da vontade de Deus para reerguer o povo de Israel e para testemunhar a abertura universal do Senhor para com todos os povos. “Vossos caminhos não são como os meus caminhos” lembra o profeta acima. Caminhos de desconcertante abertura, coragem; caminhos que trilham a ousadia da criatividade visando as atitudes, as leis que estabelecem a convivência fraternal na justiça e no direito.
As atitudes convenientes que produzem frutos adequados são indicadas na segunda leitura.
2da leitura 1Ts 1,1-5b
Paulo se dirige aos membros da comunidade afirmando que “ o nosso evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo; e isso com toda abundancia”.O termo abundancia remite a quantidade e a qualidade além do necessário, à fartura.
Portanto, eles estão como que mergulhados, submersos no evangelho (como o peixe no mar), na palavra e experimentando a força do Espírito. Palavra e Espírito são as duas mãos de Deus com as quais Ele atua na criação, na história e em cada pessoa. Essencial é abrir a inteligência, o sentimento, o coração e se deixar modelar por estas duas mãos.
Santo Agustinho, tomando exemplo do trabalho do oleiro, dirá que o cristão é modelado pela Palavra e cozido pelo fogo do Espírito, entendendo por este último a firmeza e a tenacidade nas provações e dificuldades. Paulo aponta a três aspectos que qualificam a bondade deste processo:
* “a atuação da vossa fé”. Em primeiro lugar no mundo interior do cristão. A profundidade da palavra e a força do Espírito geram a transformação ontológica, do ser mais intimo e profundo da pessoa, do qual brota todo pensamento, palavra e ação. Com outras palavras, é como se nascesse nele um novo ser purificado dos pecados, restabelecido na aliança e amizade com Deus, preenchido da vida eterna- a comunhão com o Senhor-. Ela se percebe como outra pessoa, renovada e regenerada, capaz de se perdoar suas faltas e pecados e profundamente identificada com Cristo Jesus.
* “o esforço da vossa caridade”. Por caridade não entende, de jeito nenhum, a esmola ou a boa ação. Mas a capacidade de se esvaziar de si mesmo, de colocar em segundo plano os próprios projetos, as próprias idéias etc., para prestar atenção e disponibilizar-se ao que o outro precisa.
O eixo da vida é o outro. Mais exatamente, o que ele precisar para se desenvolver e crescer humana e espiritualmente de maneira que se torne capaz, por sua vez, de repetir a mesma atitude, a mesma dinâmica para com outros. Forma-se como uma espiral que se expande gradativa e qualitativamente envolvendo mais e mais pessoas, e transformando a realidade social nos cânones da justiça e do direito, como expressão do acontecer do reino de Deus.
O “esforço” é necessário para sair de si mesmo e romper o egoísmo, a acomodação, a comodidade que acompanha cada momento a vida de todo ser humano, e desmotiva ou desanima o exercício da caridade, nos termos indicados.
*“firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo”. A esperança está alicerçada em Cristo, dependendo sua consistência do grau de comunhão, de intimidade e de familiaridade com Ele. Daí a certeza de participar do mesmo futuro, do mesmo destino, da gloria de Deus na qual o homem Jesus foi introduzido, e em virtude da qual foi constituído Cristo. A firmeza designa aquela convicção interior consistente e inabalável, que fala mais alto perante de toda duvida e de toda proposta alternativa.
Este testemunho é motivo de agradecimento a Deus por parte de Paulo “Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações”. Agradecimento que se torna louvor pelo cumprimento da promessa de Deus.
Pela comunhão em Cristo, se participa da sabedoria dele, como mostra o evangelho.
Evangelho Mt 22,15-21
Por pare dos fariseus a rejeição de Jesus é firme e determinada, ao ponto de planejar “um plano para apanhar Jesus em alguma palavra”. Eles se aproximam de Jesus com hipocrisia, elogiando sua pessoa e atitudes “Mestre, sabemos (...). Dize-nos, pois, o que pensas: é licito ou não pagar impostos a Cesar?”. Se Jesus responder sim ou não teria caído na armadilha. Com isso, haveria motivo para ser condenado pelas autoridades do povo ou para os invasores romanos.
Em primeiro lugar Jesus evidencia a atitude deles “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?” .Entre parêntesis cabe frisar que a atitude que menos tolera Jesus é a hipocrisia: mostrar o que não é, ou ocultar o que é, com o intento de passar uma imagem que não corresponde à verdadeira estrutura da personalidade.
A resposta de Jesus é muito conhecida: “Daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. A moeda apresentada tendo a inscrição do César pertence a César. Portanto, Jesus indica devolver o que pertence a César e, em virtude disso, tem direito de receber. Jesus vai ao fio lógico das coisas assim como elas se apresentam e são. Ninguém pode negar a verdade e a legitimidade da resposta.
Mas Jesus aproveita e “pega carona” e acrescentando o que ninguém esperava: “e a Deus o que é de Deus”. Os fariseus, pela rigorosa e minuciosa observância da Lei, eram entre aqueles tidos como modelo da vivência religiosa. Eles mesmos se consideravam os primeiros destinatários do reino de Deus, que o esperado Messias devia implantar. Portanto, era forte neles a convicção de pertencer a Deus e de merecer a entrada no Reino.
Eis, então, a cobrança de Jesus de dar Deus o que é de Deus. A continuação o texto anota “Ao ouvirem isso, ficaram maravilhados e, deixando-o, foram- se embora”, sem ulteriores considerações ou explicações. Cabe se perguntar: ficaram maravilhados pela resposta sábia e arguta, que não permitiu alcançar o objetivo deles? Foram embora porque não tinham como replicar?
Foram embora pelo absurdo da colocação de Jesus aos ouvidos deles? Pois, eles com o cumprimento da Lei - de maneira tão rigorosa e minuciosa - estavam devolvendo a Deus o que ele esperava, manifestando a adesão incondicionada à sua vontade. Que maneira mais oportuna e conveniente de “dar a Deus o que é de Deus” senão respeitando até os menores detalhes a Lei que Ele mesmo deu? Que podia mais exigir deles?
Cabe supor que eles ficaram mais convencidos ainda, da distorção da vontade de Deus nas palavras e nas atitudes de Jesus. De fato, não desistiram do propósito de condená-lo, como demonstram os eventos da Páscoa. Tudo isso, apesar Jesus afirmasse que não veio para abolir a Lei, mas para levá-la a sua perfeicção, que ela deve ser cumprida detalhadamente, porque ajuda alcançar o fim pela qual foi promulgada, e assim devolver a Deus o que lhe pertence pela prática da justiça, do direito no horizonte do amor e a vinda do reino. Apesar disso, não conseguiu a confiança deles.
Prevaleu neles, como expressão da fidelidade aDeus, a rigorosa observancia da Lei ao pe da letra. Faltou neles a inteligencia de enxergar o fim da Lei, à qual submeter as normas da mesma. Um perigo não só daqueles tempos, mas também de hoje, ficar no pe da lei do direito canonico o do dogma...
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