O texto faz parte das muitas normas que orientam a maneira certa de cumprir as exigências da Aliança. Estrangeiros, viúvas e os órfãos constituem a tríade por antonomásia das pessoas mais expostas à exploração. Elas são as pessoas mais indefensas e mais necessitadas de ajuda para sobreviver e, portanto, as mais vulneráveis a todo tipo de exploração e de chantagem.
Daí a ordem do Senhor “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito”. A experiência do Egito é mais valida da argumentação para desistir de toda ação maldosa para com as pessoas menos favorecidas. De fato, não há como experimentar na própria pele o sofrimento, a humilhação, os maus tratos físicos, psicológicos e morais, para se sensibilizar devidamente.
Portanto, ativar para com as mesmas a compaixão e a misericórdia, é imitar o Senhor. Pois, se eles clamarem “por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso. - Palavra do Senhor” . É cumprir com as exigências da Aliança.
Dos sofrimentos que os atingem, eles - os estrangeiros, as viúvas e os órfãos - não têm como sair. Não têm a quem pedir ajuda, senão invocar a intervenção do Senhor “Se os maltratardes gritarão por mim e eu ouvirei o seu clamor”. Deus é atento, não distraído nem indiferente o insensível.
Mais ainda, manifesta sua desconformidade com a desconcertante expressão “Minha cólera, então, se inflamará...”. Pois, a participação de Deus aos sofrimentos deles é tão sincera e profunda que gera Nele um estado emocional intenso, veemente - manifestação da enorme indignação - até o ponto de pronunciar uma sentencia duríssima contra eles “... e eu vos matarei de espada: vossas mulheres ficarão viúvas e órfãos os vossos filhos”.
Pelo desrespeito às exigências da Aliança, faltará a eles o amparo, a benção de Deus, única maneira para sustentar e motivar o relacionamento de fraternidade, na observância do direito e da justiça. Com isso, Deus os alerta que se encontrarão na mesma condição daqueles que estão prejudicando sem piedade.
Será como voltar na mesma condição da escravidão do Egito, sinônimo do mal e do pecado. Será como se nunca tivesse acontecido a libertação e a saída do país: de novo morte, viúvas e órfãos...
O Senhor acrescenta mais uma ordem “( ...) não sejas usurário (...). Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque são misericordioso”. A impiedade da usura tira a condição de viver como ser humano. O coração do usurário se endurece como pedra, se desumaniza. E a vítima é desumanizada até o ponto de não ter condição nem de dormir pelo frio.
O texto é de grande atualidade. A exploração dos estrangeiros, a falta de atenção aos fracos, etc. compõem o quadro social bem conhecido.
Com tristeza cabe constatar como a palavra do Senhor permaneça periférica em conformar e sustentar o relacionamento interpessoal e social. As advertências do Senhor caíram como no vazio. O relacionamento com Ele fica esvaziado de sua força transformadora e renovadora. A manifestação da fé nele é só funcional aos próprios projetos, muitas vezes simplesmente egocêntricos. E, portanto, destrói todo o que Deus espera em virtude de sua contínua ação amorosa e do pacto estabelecido no Sinai.
Contudo, a segunda leitura insiste em não desistir do caminho certo.
2da leitura 1Ts 1,5c-10
O apostolo descreve o pano de fundo da vivencia da comunidade, assim como o testemunho dos membros dela. Paulo se dirige aos integrantes da mesma traçando o perfil e a expectativa deles “como vos convertestes, abandonando os falsos deuses, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, esperando dos céus o seu Filho (...): Jesus, que nos livra do castigo que está por vir”.
Eles “acolhendo a palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações”, se tornaram “imitadores nossos e do Senhor (...) e modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia”. Assim, a força do Espírito Santo e a maneira de proceder de Paulo para com eles, deram consistência e firmeza à fé deles, ao ponto do testemunho deles ser reconhecido abertamente “pois, as pessoas mesmas contam como vós nos acolhestes e como vos convertestes”.
Este processo de crescimento e de fortalecimento se dá pela palavra. Devidamente acolhida torna a pessoa capaz de receber o novo e surpreendente da vida, morte e ressurreição de Jesus. Ela da coragem para permanecer no novo, como quem quer compreender e descobrir o que ele traz, por intuir que algo valioso é apresentado.
A esta abertura e coragem é sustentada pelo Mestre interior - o Espírito Santo – quem revela o significado e a importância do que é apresentado e aquece o coração pela beleza, pela profundidade e o sentido do mistério que se faz presente e no qual a pessoa é introduzida e envolvida.
Isso é acompanhado por “tantas tribulações”. O mesmo Paulo da testemunho do que ele teve que sofrer dentro e fora da comunidade, dos perigos e das diferentes e múltiplas dificuldades. É impressionante de como Paulo faz frente a elas com coragem, sofrimento e sem pensar de ficar com um pé atrás. Elas são os que dão consistência e solidez à fé, como o fogo da consistência à cerâmica, para que se consolide para sempre, sem desgaste no decorrer do tempo.
Com certeza, a percepção do destino, do ponto de chegada da vida, da história da humanidade e da criação teve um papel determinante. Pois, a morte e a ressurreição de Cristo foram como uma janela ao respeito.
O evento da Páscoa e a volta de Jesus ao Pai no céu passaram a certeza do retorno dele e do significado último e definitivo da segunda vinda de Jesus Cristo. Eles estão aguardando e “esperando dos céus (...) Jesus, que nos livra do castigo que está por vir”.
O destino e a vinda de Jesus tomaram consistência na consciência deles. Por isso, se “tornarem imitadores nossos - Paulo - e do Senhor”. Portanto, assumir a mesma missão, a mesma pratica de vida, a mesma filosofia da existência, a mesma dinâmica de morte e ressurreição nas diferentes e múltiplas circunstâncias, é condição para perceber a verdade do mesmo destino e o ponto final da história e da criação.
Tudo isso não é fruto do raciocínio, da especulação racional da inteligência humana particularmente dotada, mas a vivencia do amor, como Cristo nos amou.
É a isso que aponta o Evangelho.
Evangelho Mt 22,34-40
Não havia bom relacionamento entre fariseus e saduceus. Os primeiros rigorosos e minuciosos cumpridores da Lei acreditam na ressurreição dos mortos e são tenazes opositores dos invasores romanos. Os saduceus são mais, dizemos assim, liberais. A eles interessa o dinheiro, não lhes importa colaborar com os romanos e não acreditam na ressurreição. Em fim, dois mundos bem diferentes e briguentos, dentro do povo da Aliança.
Portanto, os fariseus “ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus” e, talvez, acharam de encontrar em Jesus um aliado. “Então eles se reuniram em grupo, e um deles perguntou a Jesus para experimentá-lo” com o intento de conferir se podiam confiar nele e agregá-lo ao seu círculo, ser o teólogo e mestre deles.
E colocam para Jesus a pergunta clássica e fundamental “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”. Jesus responde com palavras muito conhecidas também para nós “ ‘Amaras o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda atua alma, e de todo teu entendimento!’Esse é o maior e o primeiro mandamento...”.
Definir este o maior e o primeiro, é estabelecer que o ponto de partida e a nascente é o amor a Ele, como resposta por Ele ter amado primeiro cada pessoa e a humanidade toda “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou seu Filho como vitima de reparação pelos nosso pecados”(1Jo 4,10). Perder esta referencia é partir com o pé errado.
“... O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”. É semelhante porque é parecido, quase igual. Pois, contem elementos e características iguais ou parecidas ao primeiro mandamento. Estabelece-se uma ligação muito forte, mas também a diferença: o primeiro é o centro e o segundo está mai perto ou mai longe, dependendo das características de sua realização. Mas nunca estará no mesmo nível e menos ainda poderá substituí-lo.
Faz pouco tempo tive oportunidade de ler um texto hebraico que apresenta a tradução do segundo mandamento nestes termos “Amarás para o teu próximo como para te mesmo”. E acrescenta “A Lei não pede de amar o próximo, pede de amar para o próximo. Nesta sutil diferença, tal vez, esteja toda a Lei”
Para o autor, “Amarás o Senhor...” se refere só a Deus. Conseqüentemente o texto completo soa assim: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma (...) Amarás para o teu próximo como para te mesmo”. A mudança é notável.Amarás o Senhor porque primeiro ele te amou, como acima. Portanto, a primeira atitude para com Deus é se deixar amar por Ele. É atitude “passiva”, no sentido de ser simplesmente o destinatário e receptor que se deixar envolver com todo o coração com toda alma e com todo o entendimento. Em virtude disso, experimenta-se na e pela fé o amor Dele em termos de remissão dos pecados, do restabelecimento da nova e eterna aliança e de participação à vida eterna, antecipação da glória futura. É o que nos passa a celebração da Eucaristia.
Então, amar o Senhor para o teu próximo não é simplesmente desejar o crescimento humano e espiritual para ele. É torná-lo consciente que o amor para com ele- que está acontecendo por se aproximar conforme ao mandamento de Jesus “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15,12)-, é mesmo amor de Cristo que o envolve e o faz mergulhar no mistério de Deus. Eis, pois, a finalidade “de amar o Senhor... e o amaràs para o teu próximo”: perceber de ser amado por Deus e se motivar para o compromisso evangelizador a favor dos outros.
Esta atitude é, ao mesmo tempo, a maneira de amar a si mesmo “... amarás como para te mesmo”. Com efeito, devolvendo o dom a Deus no amor para o meu próximo, acrescento a comunhão e a intimidade com Deus mesmo, cresço humana e espiritualmente na glória de Deus. O dom recebido é como o sangue que corre nas artérias. Correndo nelas, benéfica as artérias mesmas e o corpo todo simultaneamente. Mais ainda, esta atitude é condição para amar o próximo e a si mesmo simultaneamente, ou seja, para o crescimento humano e espiritual dos dois.
Portanto, “Amarás o Senhor teu Deus...” é colocar Deus como eixo, como ponto de referencia central, pois, ele é caridade. Por outro lado,“Amarás para o teu próximo como para te mesmo” indica que os dois- o próximo e te mesmo- são beneficiados ao mesmo tempo. Assim, Deus permanece Deus e o homem glorificado por e para Ele.
“Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.Porque para viver em plenitude cada pessoa precisa amar e ser amado, e vice versa.
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