1ª leitura Gn 2,18-24
“Não é bom que o homem
esteja só”. Deus deseja o bem para a obra das suas mãos, e ficar só não
alcança o objetivo. Então “Vou dar-lhe
uma auxiliar”, pois a solidão se vence pelo auxílio de alguém semelhante e apropriado para completar a carência que a
individualidade tem em si mesma.
Conforme a própria vontade Deus trouxe “a Adão para ver como os chamaria”, animais selvagens e as aves do
céu “todo o ser vivo teria o nome que
Adão lhe desse”. Dar o nome é manifestar ter conhecimento da essência e
domínio sobre o nomeado. É tomar posse dele.
Esta operação não deu resultado esperado e “Adão não encontrou uma auxiliar semelhante a
ele”. Mas indica também que a posse, o possuir, não é o caminho para alcançar
o auxilio que o homem precisa, e, portanto, encontrar o que completa o ser e
com ele a harmonia e a felicidade.
Contudo o desejo de possuir marca profundamente o ser
humano. Para muitos se torna o elemento principal e o sentido do próprio viver.
Pois, confere condição de dispor à vontade, de não depender de outros e, pelo
contrário, fazer que outros dependam. Assim, o poder se torna uma forma de
domínio impressionante sobre as pessoas, alem de dispor de vantagens e bens
materiais a outros inalcançáveis.
Mas que tipo de relacionamento pose subsistir entre quem
possui e outro que não tem nada e precisa depender, até do necessário para
viver? É impossível o relacionamento de
auxílio e complementaridade do jeito que o ser humano precisa e Deus quer para
ele. Pelo contrário, desencadeia todo tipo de violência, injustiça, lutas
fratricidas, guerras, e morte prematura.
O antídoto ao desejo de possuir é considerar tudo como dom,
como presente de Deus. Só reflete que a
mesma vida, a existência, é dom de Deus. Algo tão evidente e tão pouco preso em
consideração, e facilmente esquecido em nome do afã de encontrar seguranças no
possuir o que for preciso, e mais ainda para retê-lo custe o que custar. Só a
vida foge deste controle e domínio com a morte, e isso constitui motivo de
ânsia e de medo.
Deus criou um ser com igual dignidade do homem “da costela tirada de Adão, o Senhor Deus
formou a mulher e conduziu-a a Adão”, pois a colocou ao lado dele, não para
lhe impor o nome e dominar sobre ela, mas para ele reconhecer nela o auxílio
que precisava. Pois, não era cópia dele, era diferente, mas tinha afinidade
muito grande “Desta vez, sim, é osso dos
meus ossos e carne de minha carne”.
Não será objeto de posse. Seria esvaziar a dignidade dela e,
por conseguinte, também a própria. É o dom de Deus, como é dom do mesmo modo a
vida do homem. E devem ser mantidos como dom um para o outro. No momento que um
quiser possuir o outro, em sentido de domínio, se tornaria impossível o
relacionamento correto.
“Por isso, o homem
deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”. Realizará
uma união que chegará a ser gradativamente uma só carne, ou seja, se
estabelecerá o vínculo familiar - deixarão pai e mãe para se tornarem pai e mãe
de outras criaturas - tão forte e consistente como se fosse uma só realidade.
Será uma união que não suprime as diferenças nem desmancha a solidão.
Será o triunfo do dom permanentemente, renovado e atualizado
de um para o outro, dom que se torna extensivo para com os filhos e cuja
dinâmica, como uma espiral em constante expansão, abrange toda a humanidade, se
percebendo como parte viva e responsável dela.
A dinâmica própria da realidade do dom é participação da
realidade de Deus, dom por excelência à humanidade. Ela tem sua manifestação
singular na pessoa de Jesus Cristo, como manifesta a segunda leitura.
2da leitura Hb 2,9-11
O dom maior para o outro é a entrega da própria vida para o
bem dele. É o que fez Jesus. O autor da carta testemunha “nós o vemos coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte”. Exatamente
pela entrega, os que acreditam no dom - nos efeitos da morte e ressurreição – o
percebem corado de glória. Pois, a morte dele foi dom de Deus, “graça de Deus em favor de todos”.
Depois de amadurecida reflexão sobre a morte e ressurreição
de Jesus, o autor sintetiza a importância e profundidade do evento com uma
afirmação muito expressiva e oportuna: “Convinha,
de fato, que aquele, por quem e para quem todas as coisas existem (...)”,
se refere ao Pai criador á qual toda criação toda está voltada, e nele tem o seu destino.
Isso porque o Pai “(...)
desejou conduzir muitos filhos à glória”, A glória é a manifestação da
santidade de Deus. O plano de Deus é que todos os homens participem dela, sejam
mergulhados nela e se preencham da santidade de Deus, para que tenham vida em
abundância, na consolidação e vivência do reino de Deus entre eles. Assim a
glória de Deus é o homem vivente, e a vida do homem é louvar a Deus (S.
Irineu).
Para isso Deus escolheu o povo de Israel e fez o que é
registrado no antigo testamento. Mas o povo foi infiel à aliança e desviou do
caminho se autocondenando. A fidelidade cheia de amor de Deus insistiu em
perseguir o cumprimento da promessa. Por isso “convinha (...) levasse o iniciador da salvação à consumação, por meio
de sofrimentos”.
“Convinha” - era
oportuno, certo e justo para atingir a meta
– para a salvação da humanidade toda que o Filho, cuja encarnação inicia o
processo de salvação, o levasse à consumação - ao pleno cumprimento - pela
entrega de si mesmo.
“por meio do sofrimento”. Não se trata de sofrimento pelo
sofrimento, come se fosse necessário, mas da profundidade e grandeza do amor
que ensinando o caminho da salvação não podia desviar ou renegá-lo, custasse o
que custasse.
Mais ainda, representando
com a sua pessoa a humanidade toda e resistindo até o fim, estava regatando do
caminho errado e da desconfiança a mesma humanidade que o estava condenando.
Paradoxalmente a sua morte se tornava vida e justificação perante o Pai dos
mesmos que o estavam condenando, e de todos aqueles que em continuação
acreditassem nele.
Assim, o elemento que propriamente salva não é o sofrimento,
mas o amor puro - sem segundas intenções - e desinteressado, pois, deixa
completamente livre os destinatários - a humanidade toda - de acolhê-lo ou não.
“Tanto Jesus, o
Santificador, quanto os santificados, são descendentes do mesmo ancestral; por
esta razão, ele não se envergonha de os chamar irmãos”. Com efeito, do
ponto de vista humano, Jesus teria que se envergonhar de ter irmãos que o
traíram e renegaram. Que tipo de irmãos são estes?
Contudo, olhando para eles a partir do efeito da morte e
ressurreição, os percebe como justificados perante o Pai, partícipes da mesma
vida divina, e, portanto, descendentes do mesmo ancestral, ou seja, de Deus
mesmo.
O ponto de observação é a partir do que Deus em Jesus
realizou a favor da humanidade, como efeito do dom de si mesmo, do amor mais
puro e elevado. É neste contexto que o evangelho encaixa o matrimônio.
Evangelho Mc 10,2-16
Os fariseus provam Jesus perguntando com respeito ao
divorcio “Moisés permitiu escrever uma
certidão de divórcio e despedi-la”. Direto, Jesus aponta à causa “Foi por causa da dureza do vosso coração” e
acrescenta que desde a criação não
era essa a intenção de Deus.
O que causou a dureza de coração? O que torna um coração
humano, de carne, como pedra? Fundamentalmente se dobrar sobre si mesmo,
atendendo aos próprios sentimentos, emoções, desejos e vontade, se tornando
egoísta. Por conseguinte não escuta outro senão si mesmo. Torna-se surdo e
desinteressado à voz do Senhor e aos seus preceitos e leis.
Os outros que acompanham o dia-a-dia, gradativamente se
tornam como objeto, coisa, em função de si mesmo, sobre as quais exercitar o
próprio domínio e ao serviço da própria vontade. Nesta condição é impossível o
amor.
Escutar, acolher e servir à realização do outro de maneira
que ele seja autenticamente si mesmo e, portanto, capacitado a se doar a
outros, perpetuando a mesma dinâmica entre as pessoas e realizar a felicidade
plena, a vida em abundância nele, é praticar o amor. Evidentemente, se precisa
despojamento de si mesmo e ver na realização do outro a felicidade de si mesmo.
É o que acontece no relacionamento entre Deus Pai e o Filho.
A criação do homem e da mulher era finalizada a que participassem da mesma
dinâmica, assim que a felicidade deles acrescentasse também a felicidade de
Deus. Então, o amor entre marido e sua esposa se torna realidade de Deus neles.
Eis o sentido da afirmação “Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”. Portanto não se
trata simplesmente do um momento cultual do matrimônio no qual homem e mulher
se prometem amor e fidelidade. Aquele é só o momento inicial.
O elo de Deus com eles é o processo de purificação, o
caminhar conjuntamente entre eles e Deus, que partindo do fato que “não são dois, mas uma só carne” vai
crescendo a integração dos sentimentos, do desejo de autenticidade mútua, da
vontade de contribuir positivamente em assumir a verdade de si mesmo, de passar
serenidade, confiança e respeito não só entre familiares e amigos, mas a todo
ser humano, a humanidade toda da qual se percebe parte viva e integrante etc.
Este processo não se pode desmanchar ou separar, sob pena de se afastar de
Deus, pois, sustenta o vínculo sacramental da indissolubilidade.
Todos sabem o desafiador problema da pastoral devido à
enorme distância entre o matrimônio celebrado por costume social, por hábito
religioso e as condições para que seja realmente o que Deus pensou. E como tudo
isso origina divórcio e fracasso da união sacramental.
Jesus aproveita da presença das crianças para colocar as
atitudes delas como condição para receber o reino de Deus “quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”.
Assim, no correto relacionamento esposo e esposa se desvela e acontece o reino
de Deus, reino de paz, de harmonia e de justiça. Portanto é preciso conservar
no relacionamento as atitudes de confiança, transparência e simplicidade
própria delas. Só colocar duas ou três crianças e vê-las brincar para ter
ideias e comparar como deve se a atitudes dos adultos para com Deus, entre os
esposos.
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