terça-feira, 2 de outubro de 2012

27mo DOMINGO DO T.C.-B- (07-10- 12)


1ª leitura Gn 2,18-24

“Não é bom que o homem esteja só”. Deus deseja o bem para a obra das suas mãos, e ficar só não alcança o objetivo. Então “Vou dar-lhe uma auxiliar”, pois a solidão se vence pelo auxílio de alguém semelhante  e apropriado para completar a carência que a individualidade tem em si mesma.
Conforme a própria vontade Deus trouxe “a Adão para ver como os chamaria”, animais selvagens e as aves do céu “todo o ser vivo teria o nome que Adão lhe desse”. Dar o nome é manifestar ter conhecimento da essência e domínio sobre o nomeado. É tomar posse dele.
Esta operação não deu resultado esperado e “Adão não encontrou uma auxiliar semelhante a ele”. Mas indica também que a posse, o possuir, não é o caminho para alcançar o auxilio que o homem precisa, e, portanto, encontrar o que completa o ser e com ele a harmonia e a felicidade.
Contudo o desejo de possuir marca profundamente o ser humano. Para muitos se torna o elemento principal e o sentido do próprio viver. Pois, confere condição de dispor à vontade, de não depender de outros e, pelo contrário, fazer que outros dependam. Assim, o poder se torna uma forma de domínio impressionante sobre as pessoas, alem de dispor de vantagens e bens materiais a outros inalcançáveis.
Mas que tipo de relacionamento pose subsistir entre quem possui e outro que não tem nada e precisa depender, até do necessário para viver?  É impossível o relacionamento de auxílio e complementaridade do jeito que o ser humano precisa e Deus quer para ele. Pelo contrário, desencadeia todo tipo de violência, injustiça, lutas fratricidas, guerras, e morte prematura.
O antídoto ao desejo de possuir é considerar tudo como dom, como presente de Deus.  Só reflete que a mesma vida, a existência, é dom de Deus. Algo tão evidente e tão pouco preso em consideração, e facilmente esquecido em nome do afã de encontrar seguranças no possuir o que for preciso, e mais ainda para retê-lo custe o que custar. Só a vida foge deste controle e domínio com a morte, e isso constitui motivo de ânsia e de medo.
Deus criou um ser com igual dignidade do homem “da costela tirada de Adão, o Senhor Deus formou a mulher e conduziu-a a Adão”, pois a colocou ao lado dele, não para lhe impor o nome e dominar sobre ela, mas para ele reconhecer nela o auxílio que precisava. Pois, não era cópia dele, era diferente, mas tinha afinidade muito grande “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne”.
Não será objeto de posse. Seria esvaziar a dignidade dela e, por conseguinte, também a própria. É o dom de Deus, como é dom do mesmo modo a vida do homem. E devem ser mantidos como dom um para o outro. No momento que um quiser possuir o outro, em sentido de domínio, se tornaria impossível o relacionamento correto.
“Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”. Realizará uma união que chegará a ser gradativamente uma só carne, ou seja, se estabelecerá o vínculo familiar - deixarão pai e mãe para se tornarem pai e mãe de outras criaturas - tão forte e consistente como se fosse uma só realidade. Será uma união que não suprime as diferenças nem desmancha a solidão.
Será o triunfo do dom permanentemente, renovado e atualizado de um para o outro, dom que se torna extensivo para com os filhos e cuja dinâmica, como uma espiral em constante expansão, abrange toda a humanidade, se percebendo como parte viva e responsável dela.
A dinâmica própria da realidade do dom é participação da realidade de Deus, dom por excelência à humanidade. Ela tem sua manifestação singular na pessoa de Jesus Cristo, como manifesta a segunda leitura.

2da leitura Hb 2,9-11

O dom maior para o outro é a entrega da própria vida para o bem dele. É o que fez Jesus. O autor da carta testemunha “nós o vemos coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte”. Exatamente pela entrega, os que acreditam no dom - nos efeitos da morte e ressurreição – o percebem corado de glória. Pois, a morte dele foi dom de Deus, “graça de Deus em favor de todos”.
Depois de amadurecida reflexão sobre a morte e ressurreição de Jesus, o autor sintetiza a importância e profundidade do evento com uma afirmação muito expressiva e oportuna: “Convinha, de fato, que aquele, por quem e para quem todas as coisas existem (...)”, se refere ao Pai criador á qual toda criação toda está  voltada, e nele tem o seu destino.
Isso porque o Pai “(...) desejou conduzir muitos filhos à glória”, A glória é a manifestação da santidade de Deus. O plano de Deus é que todos os homens participem dela, sejam mergulhados nela e se preencham da santidade de Deus, para que tenham vida em abundância, na consolidação e vivência do reino de Deus entre eles. Assim a glória de Deus é o homem vivente, e a vida do homem é louvar a Deus (S. Irineu).
Para isso Deus escolheu o povo de Israel e fez o que é registrado no antigo testamento. Mas o povo foi infiel à aliança e desviou do caminho se autocondenando. A fidelidade cheia de amor de Deus insistiu em perseguir o cumprimento da promessa. Por isso “convinha (...) levasse o iniciador da salvação à consumação, por meio de sofrimentos”.
“Convinha” - era oportuno, certo e justo para atingir a metapara a salvação da humanidade toda que o Filho, cuja encarnação inicia o processo de salvação, o levasse à consumação - ao pleno cumprimento - pela entrega de si mesmo.
“por meio do sofrimento”. Não se trata de sofrimento pelo sofrimento, come se fosse necessário, mas da profundidade e grandeza do amor que ensinando o caminho da salvação não podia desviar ou renegá-lo, custasse o que custasse.
 Mais ainda, representando com a sua pessoa a humanidade toda e resistindo até o fim, estava regatando do caminho errado e da desconfiança a mesma humanidade que o estava condenando. Paradoxalmente a sua morte se tornava vida e justificação perante o Pai dos mesmos que o estavam condenando, e de todos aqueles que em continuação acreditassem nele.
Assim, o elemento que propriamente salva não é o sofrimento, mas o amor puro - sem segundas intenções - e desinteressado, pois, deixa completamente livre os destinatários - a humanidade toda - de acolhê-lo ou não.
Tanto Jesus, o Santificador, quanto os santificados, são descendentes do mesmo ancestral; por esta razão, ele não se envergonha de os chamar irmãos”. Com efeito, do ponto de vista humano, Jesus teria que se envergonhar de ter irmãos que o traíram e renegaram. Que tipo de irmãos são estes?
Contudo, olhando para eles a partir do efeito da morte e ressurreição, os percebe como justificados perante o Pai, partícipes da mesma vida divina, e, portanto, descendentes do mesmo ancestral, ou seja, de Deus mesmo.
O ponto de observação é a partir do que Deus em Jesus realizou a favor da humanidade, como efeito do dom de si mesmo, do amor mais puro e elevado. É neste contexto que o evangelho encaixa o matrimônio.

Evangelho Mc 10,2-16

Os fariseus provam Jesus perguntando com respeito ao divorcio “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. Direto, Jesus aponta à causa “Foi por causa da dureza do vosso coração” e acrescenta que desde a criação não era essa a intenção de Deus.
O que causou a dureza de coração? O que torna um coração humano, de carne, como pedra? Fundamentalmente se dobrar sobre si mesmo, atendendo aos próprios sentimentos, emoções, desejos e vontade, se tornando egoísta. Por conseguinte não escuta outro senão si mesmo. Torna-se surdo e desinteressado à voz do Senhor e aos seus preceitos e leis.
Os outros que acompanham o dia-a-dia, gradativamente se tornam como objeto, coisa, em função de si mesmo, sobre as quais exercitar o próprio domínio e ao serviço da própria vontade. Nesta condição é impossível o amor.
Escutar, acolher e servir à realização do outro de maneira que ele seja autenticamente si mesmo e, portanto, capacitado a se doar a outros, perpetuando a mesma dinâmica entre as pessoas e realizar a felicidade plena, a vida em abundância nele, é praticar o amor. Evidentemente, se precisa despojamento de si mesmo e ver na realização do outro a felicidade de si mesmo.
É o que acontece no relacionamento entre Deus Pai e o Filho. A criação do homem e da mulher era finalizada a que participassem da mesma dinâmica, assim que a felicidade deles acrescentasse também a felicidade de Deus. Então, o amor entre marido e sua esposa se torna realidade de Deus neles.
Eis o sentido da afirmação “Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”. Portanto não se trata simplesmente do um momento cultual do matrimônio no qual homem e mulher se prometem amor e fidelidade. Aquele é só o momento inicial.
O elo de Deus com eles é o processo de purificação, o caminhar conjuntamente entre eles e Deus, que partindo do fato que “não são dois, mas uma só carne” vai crescendo a integração dos sentimentos, do desejo de autenticidade mútua, da vontade de contribuir positivamente em assumir a verdade de si mesmo, de passar serenidade, confiança e respeito não só entre familiares e amigos, mas a todo ser humano, a humanidade toda da qual se percebe parte viva e integrante etc. Este processo não se pode desmanchar ou separar, sob pena de se afastar de Deus, pois, sustenta o vínculo sacramental da indissolubilidade.
Todos sabem o desafiador problema da pastoral devido à enorme distância entre o matrimônio celebrado por costume social, por hábito religioso e as condições para que seja realmente o que Deus pensou. E como tudo isso origina divórcio e fracasso da união sacramental.
Jesus aproveita da presença das crianças para colocar as atitudes delas como condição para receber o reino de Deus “quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. Assim, no correto relacionamento esposo e esposa se desvela e acontece o reino de Deus, reino de paz, de harmonia e de justiça. Portanto é preciso conservar no relacionamento as atitudes de confiança, transparência e simplicidade própria delas. Só colocar duas ou três crianças e vê-las brincar para ter ideias e comparar como deve se a atitudes dos adultos para com Deus, entre os esposos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário