segunda-feira, 29 de outubro de 2012

FESTA DE TODOS OS SANTOS -B- (04-11-12)


1ª Leitura Ap 7,2-4.9-14

O anjo de Deus marca “na fronte os servos do nosso Deus” antes da ação transformadora da terra e do universo. É a “marca do Deus vivo” com a qual Deus reconhece a autenticidade e valor daqueles que agiram como seus servos. É a marca da esperança, de quem aguarda a intervenção de Deus em favor de seu povo, preservando-o da tragédia que está para acontecer.

Obedientes e cumpridores das exigências da Aliança eles deram testemunho de fidelidade ao projeto de Deus. Ser marcados significa, também, pertencer a Ele como Senhor da Vida, do qual tudo procede e ao qual tudo tem sua meta e seu fim.

Os 144.000 é um número simbólico. É 12x12x1000, que na linguagem bíblica significa todos. Com efeito, há “uma multidão imensa de gente de todas as nações,tribos,povos e línguas, e que ninguém podia contar”. 
A salvação é para todos, pois, a vontade de Deus é que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Por diferentes caminhos os efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo atingem a humanidade toda e encontram pessoas que acolhem e vivem em sintonia com o evento (morte e ressurreição).

O texto se refere ao que acontecerá no final da história, com a volta do Ressuscitado, como Jesus mesmo prometeu antes de voltar ao Pai. É um texto escatológico que descreve, de maneira simbólica, a última e definitiva intervenção de Deus sobre a criação, a humanidade e a história, o que comumente chamamos fim do mundo, na qual “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).

Estavam de pé”, atitude de respeito e de prontidão. Eles manifestam com suas roupas e palmas a realidade e a condição de servos “trajavam vestes brancas... pois, lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”. As vestes se tornaram brancas, não pelo correto comportamento deles, pois todo ser humano é imperfeito e pecador, mas por acreditar nos efeitos da morte e ressurreição do Cordeiro - de Jesus -.

 Foi por esta fé que assumiram a condição de novas criaturas. O inciso: “Traziam palmas na mão” indica que foram fieis até o martírio, pois, “Esses são os que vieram da grande tribulação” derramaram o próprio sangue. Assim, os servos de Deus aqui descritos são aqueles que fizeram a radical opção de servir ao projeto de Deus, por confiar integralmente Nele.

Notável  o testemunho deles: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. Reconhecem que Deus, sacrificando o próprio filho - o Cordeiro que tira o pecado do mundo - é origem e causa da salvação deles, por terem aceitado e interiorizado este presente Dele. Com isso se tornaram novas criaturas e os motivou seguirem com determinação o Cordeiro, até o martírio.

Portanto, no final dos tempos, proclamam “com voz forte” o certo e a conveniência daquela determinação que, por passar pelo crivo das provações e perseguições, fez deles participantes da mesma glorificação do Cordeiro.

Eis traçado o perfil do caminho de santidade. Todo cristão é chamado a ela por aceitar o dom de Deus, selado pelo Batismo, alimentado pela Eucaristia e vivenciado na prática do Evangelho no dia- a- dia. A santidade se manifesta no fato de que  a Boa Noticia do Evangelho se torna Boa Realidade nos relacionamentos familiares, na comunidade, no serviço, na convivência da sociedade civil, na preocupação pela justiça e o direito entre os povos,ou seja, nos relacionamentos do dia-a-dia.

Mas, também, o caminho de santidade é forjado pela oposição de pessoas e instituições que pensam e agem de maneira contrária. Daí o choque, o conflito e até o martírio que configura a realidade do santo. Contudo, muitas vezes o conflito é motivo de desistência, razão pelo qual muitos deixam a caminhada. E outros, nem de longe pensam em permanecer nisso.

O que determina a pessoa nesse caminho de santidade é indicado na 2da leitura.

2ª Leitura 1 Jo 3,1-3

O ponto de partida é o “grande presente de amor (que) o Pai nos deu” com a entrega do próprio Filho, o Cordeiro que tira o pecado do mundo. A aceitação e a interiorização dessa verdade leva acreditar nos efeitos atualizados daquela entrega. Assim, ela nos torna filhos de Deus.

Com ênfase o texto frisa: “e nós os somos!” como para afirmar o que ultrapassa de muito toda expectativa e imaginação: a passagem de pecadores, afastados e inimigos de Deus a filhos, pois, somos filhos no Filho!

Eis, então, o grande presente pelo qual os pecados da desconfiança, da superficialidade, da desvalorização, do desinteresse, da oposição e até da rejeição, da promessa e da ação de Deus são desmanchados. Em virtude disso, é resgatada a amizade, a familiaridade, a comunhão com Deus, a dignidade de filhos por meio do Filho.

Então, ser chamado de filho de Deus é um presente. Indica profunda intimidade com o agir e pensar de Deus. Naquele que é reconhecido como filho de Deus transparece a união tão intensa com Ele ao ponto dele  ser semelhante, perceber a misteriosa presença de Deus. É como se Deus assumisse a forma humana nele. Pois, o amante e o amado se unem no amor.

O conteúdo específico e fundamental da fé é exatamente isso! Ela sustenta e alimenta a esperança de maneira tal que “Todo o que espera nele...” por acreditar nos efeitos do presente, do dom, “purifica-se a si mesmo”. Eis, portanto, o processo de purificação interior, quando a pessoa se coloca em total,humilde e sincera transparência no mais profundo dela, com esse surpreendente dom de Deus.

Desta forma, recuperamos nossa identidade, nosso verdadeiro ser e o sentido profundo de nossa existência que se desdobra, com satisfação plena, nos acontecimentos e nas atitudes coerentes do dia-a-dia. Isso nos leva a intuir que a filiação divina transcende o simples cumprimento de preceitos éticos e morais, pois, eles manifestam o grau, a intensidade da adesão filial.

O texto acrescenta algo ainda mais surpreendente "como também ele é puro". Parece uma meta impossível, e como tal é descartada de antemão... Contudo, é algo que nos fascina, motiva a esperança, sustenta um futuro não impossível, considerando que Ele assumiu nossa condição humana e caminha conosco.

Entre outras coisas, essa meta oferece sonhar alto para que a vida tenha aquele horizonte e futuro que dá sentido ao presente e sustenta cada atitude coerente. Tudo isso é oferecido por esse “grande presente de amor que o Pai nos deu”. Já somos filhos, porém, quando formos como Jesus, o veremos como Ele é, então, alcançaremos nosso potencial maior, seremos verdadeiramente nós mesmos, um “eu” íntegro, não dividido,  em Jesus Cristo.

Por outro lado, sabemos que nem todos compartilham esse entendimento. O texto define estes como “mundo”, que não “conheceu o Pai”. Por outro lado, o “mundo” não é estranho a nós mesmos, mais age e toma conta de nós em determinados momentos e circunstâncias. Daí, então, a necessidade de voltar à purificação, ou seja, ativar o processo de conversão permanente, mergulhando, com renovada fé, no grande presente de Amor através da Palavra e os Sacramentos, especialmente da Missa.

Esta atitude de perseverança, de confiança, habilitará repetir em nossa vida e na sociedade a vivencia das Bem aventuranças.

Evangelho Mt 5,1-12ª

É o famoso texto das bem-aventuranças. Como soaria o texto substituindo o termo bem-aventurado por parabéns? Pois disso mesmo se trata. Jesus ensina aos discípulos o que merece ser parabenizado “ Jesus começou a ensiná-los”.

Mas, parabéns de que? Por serem pobres, aflitos, mansos, por promover a paz num mundo hostil... Por serem perseguidos, caluniados etc.? Quem se atreveria falar isso a uma pessoa nessa situação? Parabenizamos todo o contrário... Como entender isso?Estamos no pleno paradoxo do Evangelho: a verdade se manifesta no seu contrário.

 Jesus fala para aqueles que assumiram para valer a causa dele, a missão dele “... por causa de mim". Eles assumiram a causa como resposta de amor ao grande amor do qual falamos na 2da leitura. Trata-se de pessoas profundamente tocadas e transformadas por este amor. Em virtude disso, o viver delas é Cristo, é se tornar, com humildade, testemunhas da continuação da presença de Cristo na história e nas circunstâncias concretas do dia-a-dia.

Nesse sentido Jesus está passando para eles o que é, e será, a experiência Dele no desenvolvimento da missão. Assim, o discípulo experimentará tudo o que Ele experimentou como homem, como pessoa, como Filho do Pai. Experimentará o que é ser homem, o que é ser pessoa e o que é ser filho de Deus - filho no Filho, como tocamos na 2da leitura. Dai os parabéns.

Assim, o texto pode ser entendido como a peneira que discerne até que ponto o cristão é realmente discípulos de Jesus. É evidenciado, assim, o grau de percepção e da vivência “do grande presente de amor que o Pai nos deu” (2da leitura), bem como a consistência, ou menos, da realidade de filhos de Deus.

O texto deve ser assumido como um todo. Não dá para pensar uma bem-aventurança desligada da outra. Não dá, por exemplo, ter fome e sede de justiça e ter um coração com segundos fins, um coração impuro...

Assim, o entusiasmo por uma bem-aventurança e a frieza para com a outra, a prática significativa de uma e a prática insignificante da outra, determinam concretamente o espaço da conversão no processo de recepção do grande presente de amor e da identificação em Cristo.

Tudo isso nos diz que o processo de santificação é inesgotável. Acompanha-nos a vida toda e constitui a experiência da profunda alegria nessa vida, mesmo passando pelas dificuldades e provações que o texto aponta: “Alegrai-vos e exultai” se refere aqui e agora porque, misteriosamente, esse tipo de sofrimento tem em si mesmo essa verdade.

É se alegrar interiormente pelo sentido de plenitude e satisfação de quem experimenta o acontecido como oportunidade de crescimento, de integração, de identificação com o que é ser pessoa bem sucedida e, na transparência, enxergar a presença que faz dela e de Cristo uma realidade só, mantendo as devidas diferenças.

Cabe destacar que não é pela observância ou cumprimento das bem-aventuranças que ganhamos ou merecemos o céu. É o contrario. O cumprimento delas manifesta que já o céu está em nós, pela vivência de filhos de Deus.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

30mo DOMINGO DO T.O.-B-(28-10-12)



 1ª leitura Jr 31,7-9

“Tornei-me um pai para Israel, e Efraim è o meu primogênito”.  Não estranharia se o coração de Deus explodisse de alegria, pois reencontrou sua paternidade para com o povo eleito, e este último sua relação de primogenitura para com o seu Deus.

Depois do afastamento e do exílio por ter renegado a aliança, abandonado o caminho do Senhor para seguir outros caminhos propostos pelos deuses estrangeiros  contrários a tradição do povo, eis o retorno. O tempo do exílio e do afastamento foi de grande sofrimento por parte do povo que não encontrou o que esperava, ficou perdido, desiludido, defraudado, como órfão e sem esperança.

Ter desconfiado da promessa e do caminho do Senhor, ou simplesmente ter sido enganado por propostas mais sedutoras, porque fáceis e compreensíveis ao próprio raciocínio  e controle humano, lançou o povo no fracasso.

Esta lastimável condição por um lado moveu no Senhor  a compaixão e a misericórdia  a favor do resto do povo -“ o resto de Israel” - que lembrando-se  da tradição e da promessa  implora: “ Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel”.

E o Senhor responde positivamente. “Eis que eu os trarei do país do norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. Para o Senhor não ha demarcação ou confins, pois, ele è atento a toda pessoa que o honra, mesmo more muito longe do centro de Israel. Com eles quer formar o novo povo renovando e transformando todos, inclusive os que eram considerados como excluídos porque pecadores o impuros “entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”.

“São uma multidão os que retornam”. Não è difícil imaginar a alegria de Deus, depois da dispersão e amargura do afastamento do povo, que participa a todos indistintamente “Exultai de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai cantai e dizei: ‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel”.

O Senhor proclama o novo povo como o “ primeiro das nações”, para que seja referência e modelo para outros, assim que se sintam motivados e atraídos em imitá-lo, entrando na aliança e assumindo pra valer a lei o caminho correspondente. È convite a conversão universal.

Com isso para todos há esperança, seja qual for a lastimável condição em que se encontrem, é só dirigir o olhar e o coração a nova realidade que esta surgindo, pela graça e fidelidade do Senhor a sua promessa. Os desanimados, desesperados, os que têm na frente deles um futuro sombrio sem esperança, podem encontrar a luz, um sentido para a própria existência, e, com eles, a felicidade e a exultação no Senhor pela sua surpreendente e inesperada misericórdia.

“Eles chegarão entre lá grimas e eu os receberei entre preces”. Contraste entre dor e louvor. Será o momento da transformação e renovação, experiência de salvação e motivo de revigoramento do sentido da vida, destinada a realização plena e alegria sem fim.

Perante as repetidas infidelidades do povo O Senhor não desistirá de se tornar “pai para Israel” e fazer de Efraim “o meu primogênito”, com o envio do seu Filho para desenvolver a função de sumo sacerdote a favor do povo e da humanidade toda, como mostra a segunda leitura.

2da leitura Hb 5,1-6

O trecho apresenta a figura do sumo-sacerdote “tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus”. Trata-se de um homem cuja virtude e característica è “ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza”.

Notável o fato que não lhe è exigida a perfeição do conhecimento e da conduta, mas só o necessário para perceber a ignorância, o desconhecimento da Lei por parte dos outros - do povo - e a consciência dos próprios erros e imperfeições.

Estes limites não são tomados em consideração para humilhar, deprimir, desvalorizar e considerar como indigna a sua pessoa, mas para sustentar e valorizar a compaixão, virtude pela qual sabe sintonizar e compreender os erros e a fraquezas dos outros. Assim um aspecto negativo e limitativo se torna um elemento positivo a favor do povo.

A humildade dele o torna apto para desenvolver sua principal missão “Por isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelo pecado do povo, quanto pelos seus próprios”. Trata-se do sacrifício de expiação pelo qual a vida sacrificada do animal se torna meio de perdão e justificação dele e dos pecadores –do povo em geral- perante de Deus.

A condição de sumo-sacerdote è atribuído por Deus com um chamado específico, como foi para Aarão. Ninguém pode se apropriar o direito de constituir se mesmo ou outros a tal ofício “ Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão”. Este exercício è próprio e específico de Deus por meio do culto presidido pelo sumo-sacerdote no dia -único no ano - do perdão dos pecados, no qual, sacrificadas as vítimas, com o sangue delas derramado sobre o altar e aspergido  o povo, ungiam-se as placas de ouro no sacrário do templo.

Aquela figura de sumo-sacerdote era prefiguração de Cristo, que com o sacrifício na cruz se tornou ao mesmo tempo vítima e sacerdote. Não ofereceu o sangue dos animais, mas o seu próprio, ofereceu não as vítimas do sacrifício, mas a sua pessoa na entrega de si mesmo. Não entrou no sacrário do templo, pelo contrário o desmanchou - sinal disso o véu do templo que se rasgou totalmente ; mas, entrou no sacrário do céu, a direita de Deus Pai.

Este evento vale retroativamente, até Adão, e para todas as gerações futuras, até vinda D’Ele, mas o efeito è atualizado ao longo dos séculos na Eucaristia. Portando, não deverá ser repetido anualmente como o era para o sumo-sacerdote antes deles no dia do perdão dos pecados, mas è o especifico de cada celebração, seja quando for.

Aos olhos do Pai e do Espírito este evento confere a Jesus a condição de sumo-sacerdote. Pois, “Deste modo, também Cristo não se atribuiu a si mesmo a honra de ser sumo-sacerdote (...)”, pois ele se entregou por amor não em virtude do que lhe foi encarregado cumprir contra sua vontade e por obediência. Não se atribuiu outra missão senão ser fiel ao amor pela humanidade em sintonia com a vontade do Pai e a dinâmica do Espírito.

Foi por esse amor que foi gerado a nova vida, com o seu corpo martirizado, pela ressurreição, como Jesus Cristo. “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei” se refere não e encarnação, mas a ressurreição. A ressurreição è geração a nova vida, pois por ele e nela objetivamente toda a humanidade foi e continua ser regenerada. Este “hoje” è a ação eterna e permanente de Deus na história até o fim dos tempos, atravésda ação da Igreja.

Com isso Jesus Cristo assume as características da misteriosa e singular figura de Melquisedec “Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec”. Esta pessoa, sacerdote de Deus e rei da paz que se apresenta a Abraão e o abençoa em nome de Deus, è um sujeito sem Pai nem mãe nem descendência, mas única e exclusivamente relacionado com o Deus Altíssimo.

Tal vez, algo disso deve ter sido percebido pelo cego mendigo do evangelho, considerando a atitude dele para com Jesus e os obstáculos do povo.

Evangelho Mc 10, 46-52

Jesus está “junto com seus discípulos e uma grande multidão” saindo de Jericó. Eles constituem barreira e obstáculo para o cego mendigo chegar perto do Senhor. As palavras que dirigem ao mesmo, após Jesus ordenar que o chamassem, “Coragem, levanta-te, Jesus te chama” manifestam a carência de coragem e de fé deles.

Estão simplesmente projetando a condição deles sobre o cego, pois, “Muitos o repreendiam para que se calasse”. O cego não precisava de coragem nem de ser chamado por Jesus. Coragem tinha de sobra até desafiar a repreensão deles, e ele mesmo estava chamando Jesus com gritos insistentes “Mas ele gritava mais ainda: ‘Filho de Davi, tem piedade de mim!’”.

Quando Jesus abriu espaço, o cego se levantou “jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Determinação firme e rápida que manifesta a confiança de encontrar em Jesus resposta positiva ao pedido “Mestre, que eu veja!”.

Como e por quais caminhos chegou aquilo que Jesus reconhecerá como fé, não è dito, somente o relato registra esta condição. Com certeza direta o indiretamente ouviu falar dele como Messias e o que foi passado para ele tocou profundamente e transformou o seu mundo interior, pois faltava sò se colocar na frente, na presença de Jesus.

Chegado o momento, com todo empenho e força não deixou cair a oportunidade, pois manifestou a sua confiança no Messias - o filho de Davi - e suplicou “tem piedade de mim!”. Estas são palavras própria do filho que dirige ao pai, voltando para casa depois de se afastar dele, para ser acolhido  de novo, como integrante da família da qual se tinha afastado, com o amor que só o pai sabe oferecer.

A pergunta de Jesus “O que queres que eu te faça?” pode ser entendida como retórica, pois, Jesus  sabia bem o que o cego lhe pediria. Mas è também a oportunidade de evidenciar como a transformação do mundo interior do cego - que pelo entendimento de então está ligado a sua condição de pecador - aponta a certeza de se perceber purificado, transformado e regenerado pela palavra e o ensinamento de Jesus, ao ponto de considerar que a esta libertação está associada a cura da cegueira “Mestre que eu veja!”.

Manifesta-se a realidade da conversão, daí a necessidade de estar na frente de Jesus e a determinação de chegar a ele contra toda oposição e obstáculo, para que ele coloque como o selo definitivo do que aconteceu nele. Paradoxalmente nada disso aconteceu naqueles de rodeavam Jesus e estavam perto dele...

 No cego não se trata simplesmente de acreditar no poder de cura, pela cura que o Senhor manifesta com seus milagres, mas de algo mai profundo e radical do poder e da verdade da palavra e do ensino dele. È o que Jesus confirmou com a resposta “Vai, a tua fé te curou”, fé não tanto na sua pessoa quanto no poder eficaz de sua palavra.

“No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho”. Entendida a verdade não dá para deixá-la, portanto, se mantém no mesmo caminho do Senhor. Não está mais “sentado a beira do caminho”, mas tendo-o enxergado entra nele para ficar e caminhar nele conduza aonde o conduzir, pois, è o caminho da verdade.





terça-feira, 16 de outubro de 2012

29no DOMINGO DO T.C.-B- (21-10-12)


1ª leitura Is 53,10-11

O trecho é tomado do quarto cântico do Servo Sofredor - na liturgia o cântico todo é lido na Sexta feira Santa - e relata a paixão e os sofrimentos do Servo. “O Senhor quis macerá-lo com sofrimento”. No primeiro momento, impressiona a vontade do Senhor de querer macerá-lo. É uma atitude cruel e bem longe de todo sentimento de humanidade. Não combina com o que se espera de Deus.
Também  a motivação deixa perplexo: “Oferecendo sua vida em expiação (...) fará cumprir com êxito a vontade do Senhor”. Expiar é próprio de quem paga a dívida do outro e, se isso é legal pela generosidade e gratuidade escolhida livremente, por que, nesse caso, deve ser por meio de maceração pelos sofrimetos? Era preciso tudo isso? Não havia outra forma, outro caminho menos cruel?
O servo carreguerá sobre si as culpas dos homens, que são incontáveis. A culpa deles é a indiferença, distração, desinteresse, desvalorização, desprezo ou rejeição com respeito ao que o Servo estava indicando como caminho de Deus para atualizar a salvaçao no presente e assim implantar as condiçoes para eles descubrirem o tesouro do Reino de Deus, com antecipação do último dia, quando Deus o instruirá de forma completa e definitiva.
Com outras palavras a atitude deles manifesta o triunfo do pecado, pois, antes de ser o comportamento errado porque contrário aos mandamentos e às leis do Senhor, é se deixar levar pela desconfiança e o que foi citado acima. O pecado é de ordem teológica, contra Deus - “Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei” (Sl 50,6) - antes de ético.
Este pecado teológico é tão dramático nas suas consequências porque os homens acham ser engano e desvio seguir as indicações do Servo, pois, para eles, isso conduziria a renegar a Deus mesmo. No entendimento deles, seria professar ateismo. O Servo está agindo, aos olhos deles, como ímpio que pretende atribuir a si próprio as características do Messias.
Portanto, é merecedor do repúdio na sua máxima expressão “macerá-lo com sofrimentos”. Rejeitado daquela forma, mostra a magnitude e gravidade do pecado que cai sobre as costas do Servo. Ele mesmo não sendo pecador, pelo contrário é justo, carrega sobre si mesmo toda a violência do pecado. Ele assume a condição de pecador, merecedor do castigo. Neste sentido, ele representa perante o Senhor, todos os pecadores ha humanidade e assume o castigo que eles merecem.
Com isso, ele está expiando com o sofrimento a culpa deles de não confiar em Deus, que na pessoa do Servo estava oferecendo o caminho da salvação. Ele expia pelo fato que não abriu mão a vontade dos que o estavam macerando, pois tinha a certeza do caminho da verdade dele pelo que diz respeito à salvação. Prefere morrer que trair o Caminho, porque é Verdade e Vida para aqueles mesmos que o estavam massacrando.
Desta forma “Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas”. Não cedendo ao pecado, esvaziou o poder e a força do mesmo. O pecado masacrou até a morte o corpo dele, mas nao dobrou a ele, sua pessoa, pois se manteve íntegro e justo.
Assim que a vitória dele sobre o pecado, em virtude da representação, é a vitória da humanidade que nele está redimida, resgatada e justificada perante o Senhor. Mesmo que eles não acreditassem no Servo, ele  - o Servo – pela representação, os tornou justos. O mesmo sangue do repudio é o que justifica os que o repudiam. Ninguém, nenhuma reflexão ou projeto humano,nem de longe, podia pensar algo semelhante. Só um amor que supera toda imaginação e expectativa podia agir desta maneira.
Pela força e virtude desse amor, o Servo “terá descendência duradoura, e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor”, ou seja, a salvação de todos aqueles que, com gratidão e convicção, aceitar o dom do reperesentante.
Pelo Servo em quanto tal “Por esta vida de sofrimento, alcançarà luz e uma ciência perfeita”. Vale repetir que não se trata do sofimento pelo sofrimento, mas do amor que sustentou a coragem e a determinação de sofrer como sofreu, de aceitar a representação para a salvação dos desconfiados nele, até o ponto de agir como agiram.
A segunda leitura retoma o mesmo evento.

2da leitura Hb 4,14-16

Para o povo de Israel o sumo sacerdote desenvolvia, entre outras, uma função indispensável e imprescindível no dia do perdão dos pecados. Era o dia de penitência e jejum de todo o povo. Era o único dia do ano em que, com uma liturgia especifica, só ele (o sumo sacerdote) entrava, não sem temor, na presença de Deus, no tabernáculo - a parte mais sagrada do templo - onde Deus apoiava seus pés e era considerado como o umbigo do mundo, que ligava céu e terra.
No tempo de Jesus, o tabernáculo já não continha a Arca da Aliança, destruída séculos atrás com a profanação do Templo. Em lugar dela, havia umas placas de ouro que o sumo sacerdote ungia com o polegar molhado no sangue dos animais sacrificados. Com este gesto, eram perdoados os pecados do povo.
Com a morte de Jesus, na sua pessoa se unem sacerdote e vítima. Ele oferece si mesmo a Deus e o sangue não é mais os dos aminais, mas dele. Com isso, ele entrou, não no santuário do templo de Jerusalém, mas no santuário do Céu. Portanto, o autor da carta afirma “Temos um sumo sacerdote, que entrou no cèu, Jesus, o Filho de Deus”.
O Filho de Deus, pela encarnação e o batismo no Jordão, se tornou um de nós, solidário com a humanidade pecadora, no sentido que se colocou no mesmo nível dos pecadores, mesmo não tendo pecado nenhum. Nesta condição, foi “capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós...”.
Entendeu na própria pele a amplitude e a consistência da fraqueza humana, pois, sofreu conosco o que ela traz consigo em sentido de limite, de carência, de insatisfação, de inquietude, de ânsia, de vazio, de pobreza, de desconforto, de cansaço, de desconcerto, de feridas, etc.
“... com exceçao do pecado”, pois, ele não se tornou pecado. Não foi força e motivo para duvidar do certo e da verdade do que estava atuando. Não se tornou motivo de depressão, de desânimo, de desilusão nem de se sentir defraudado e, portanto, de desconfiar de que o Pai teria cumprido a promessa de instaurar o reino. Foi para frente e ponto. Talvez não soubesse da ressurreição - e nisso encontramos Jesus muito perto de nossa experiência e sentimento humanos -  mas com certeza não duvidou da fidelidade da promessa do Pai!
 Portanto, eis a exortação “Aproximemo-nos então, com toda confiança, do trono da graça (...)”. Aproximar-se com confiança é abrir o coração e a mente ao dom dos efeitos da morte e ressurreição, pelo qual “Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus, em virtude de nossa união com Jesus Cristo” (Ef 2,6), pois já estamos lá com Cristo, em Deus.
“(...) para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno”. Pela fraqueza – constitutiva de cada ser humano – nao faltarão momentos de prova e tentação, até chegar ao ponto de estar muito próximo de “chutar o balde”. Pois por esta aproximação confiante, não faltará neste momento a intervenção misericordiosa - o auxílio oportuno – para não cair no pecado.
Será o momento da autêntica conversão, uma reviravolta, como a indicada pelo evangelho.

Evangelho Mc 10,35-45

“ Tiago e João (...) foram a Jesus e lhe disseram (...)Deixa-nos sentar a tua direita e o outro a tua esquerda, quando estiveres na tua glória!”. Evidentemente, estavam pensando no fututo deles a partir da instalação do reino de Deus e da glória de Jesus como rei e Messias. Parece-me que Jesus fica surpreendido ao ponto que reage serenamente: “Vós não sabeis o que pedis”, constatando que eles estavam totalmente ‘fora da onda’.
Jesus e os discípulos estão em duas sintonias bem diferentes. São dois mundos completamente opostos. É impressionante a solidão de Jesus, assim como a paciência e a tenácia em os instruir e fazer entender  o conteúdo, o caminho e o trágico desfecho da missão dele.
Assim, ele coloca duas perguntas com respeito ao próprio batismo e ao cálice que deve beber, as quais os dois apóstolos respondem positivamente sem ter a menor noção do que a realmente Jesus está aludindo, pois, está se referindo a sua morte na cruz; “glóoria” bem diferente daquela que esperavam.
A conclusão de Jesus é responder que, com certeza, também eles passarão pelo martírio, pois ele o enfrentará chegando a Jerusalém, mas foge da sua competência responder positivamente ao pedido deles, pois, sentar a direita e a esquerda dele no Reino “É para aqueles a quem foi reservado”.
Com outras palavras Jesus se refere àqueles que, entendendo e se identificando com a sua pessoa e missão, serão como outros ‘Jesus’ ao longo da história. Não será questão de poder, de prestígio, de honra humana, mas de sintonia e fidelidade à missão que determinará estar sentado ou não ao seu lado.
Os outros dez discipulos ouviram o pedido de Tiago e João e se indignaram, pois participavam das mesmas espectativas. Pode-se imaginar o alvoroço entre eles... Pois, Jesus aproveita do momento para instruir os doze, especificando que o que eles pensam e esperam os levaria a ser como chefes das nações que as oprimem e os grandes as tiranizam. De nada adiantaria a missão dele.
Ordena uma nova visão e filosofia de vida “Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser primeiro, seja o escravo de todos”. Com certeza devem ter ficados desnorteados e incrédulos, pois deu uma reviravolta de cento e oitenta graus no entendimento deles.
Pois, ser ‘grande’ e ‘primeiro’ é a meta e ambição de todos, já que uma vida bem sucedida é medida nestes critérios. A maneira para chegar é exatamente o contrario daquela que Jesus indica e propõe aos doze. Portanto, Jesus procura imediatamente em que sentido é preciso assumir a indicaçao dele “ Porque o Filho do Homem nao veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate para muitos”.
Assim, se tornar servo ou escravo do outro, não é se expôr a arbitrariedade e abuso, que normalmente o patrão exercitava sobre o servidor ou escavo, mas as condições  e a prática de vida que o tornaria livre e regenerado de todo o que o oprime e faz dele um ser desumano, vazio, injusto, dominador, tirano, etc., enfim, um ser humano infeliz.
Para este objetivo ser atingido vale até “dar a vida” como Jesus mostrará com sua chegada em Jerusalém. Ser primeiro e grande se manifestará com o evento da ressurreição, que já está misteriosa e eficazmente presente na prática do amor, pela qual se entrega ao resgate do ou

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

28vo DOMINGO DO T.C.-B- (14-10-12)



1a leitura Sb 7,7-1

Os estudiosos afirmam que este trecho è uma releitura da oração de Salomão (1Rs 3,6-13; Sb 9,1-11) “Orei (...); supliquei, e veio a mim o espírito da sabedoria”. O rei è consciente que prudência e sabedoria não lhe pertencem. Ele manifesta atitude de humildade, aceitação da verdade de si mesmo, e de Deus Senhor da prudência e da sabedoria.
È a maneira correta de estar na presencia de Deus, pois, faz o homem receptivo do dom que Deus outorga a todo ser humano sincero e autentico consigo mesmo. Tal vez surpreenda de que o rei peça estes dons, pois, em virtude do cargo já deveria os ter e, portanto, os  exercer em forma costumeira e certa.
Não è assim, pois, ele participa da comum condição dos seres humanos. Portanto, a meta e as condições para alcançar o que pede e conseguir resultados satisfatórios são os de todos. O que è do rei è patrimônio de todos.
“Amei-a,  mas que a saúde e a beleza, e quis possuí-la mais que luz, pois o esplendor que ela irradia não se apaga”. A inteligencia do rei ficou deslumbrada e o coração cheio de vida em abundancia, atè desejar viver en funçao dela, como si fosse propriedade do próprio ser profundo. Tornou-se algo tao envolvente e gratificante da ser preferida sobre todas as coisas.
Assim, “Preferi a Sabedoria aos cetros e tronos (...) a ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois, ao seu lado (...)”. È o bem maior, não há outro que o supere. Para governar o rei precisa poder e de dinheiro. Afirmar que prefere a Sabedoria a eles è surpreendente, e passa a ideia de tão grande seja o dom dela.
Ela è o que pediu Salomão em Gabaom quando, apavorado de ter que governar sendo tao jovem, Deus lhe apareceu em sonho prometendo-lhe dar o que pedisse. O normal para um rei era pedir poder, dinheiro e vitória sobre os inimigos. Mas Salomão pediu “dá ao teu servo um coração que saiba escutar” (1Rs 3,9), para discernir o bem do mal.
Deus parabenizou Salomão por ter pedido corretamente. A continuação não só lhe deu sabedoria - pela qual ficou famoso na história -, mas também dinheiro, o esplendor do reino e a vitória sobre os inimigos. Tal vez se refira a isso as palavras “Todos os bens me vieram com ela, pois uma riqueza incalculável está em suas mãos”.
A sabedoria não è simplesmente amplitude da instrução, mas a agudeza a capacidade de discernir, pois tudo è sujeito a ambiguidade, ou seja, è mistura de certo e de errado. Portanto, discernir corretamente è manifestação da sabedoria, poi ela oferece critérios para isso.
A primeira atitude de o sábio è escutar, com todo o coração, com toda a alma e todo o ser, e perceber da melhor maneira possível a profundidade da colocação, a inquietude, o desejo e a meta, no pleno respeito do que è apresentado.
Mesmo que a colocação seja muito diferente e longe do próprio mondo e filosofia de vida, o analise serena e detalhada sem nenhuma forma de preconceito ou de presunção de ter que necessariamente responder, ajuda compreender a diversidade e a complexidade do existente, e admitir, se for o caso, a incapacidade e impossibilidade de responder. Haverá simplesmente a humildade de propor caminhos de busqueda.
Contudo, haverá condição também de discernir  elementos que conformam os valores e os desvaleres com respeito a finalidade e meta da existência. No caso especifico são constituídos e oferecidos pela revelaçao de Deus, através de sua Palavra, do evento de Jesus Cristo, e a vida de cada ser humano que, pela misteriosa presença da força e dinâmica transcendente, aponta a realização da justiça, dos valores éticos que constroem o direito e a fraternidade universal.
Portanto a sabedoria è ligada à profundidade da vida e ao sentido da existência, e orienta para o futuro bem sucedido. Ela tem como referencia central a pessoa de Jesus Cristo, pois ele è o centro de toda a criação, a qual a mesma è atraída, como deixa perceber a segunda leitura.

2da leitura Hb 4,12-13

 “A palavra de Deus è viva, eficaz”. De imediato o pensamento vai ao texto escrito, pois, ele è lido como palavra de Deus em toda celebração. Contudo, o texto è só o veiculo, o meio, para transmitir e informar com respeito do que è classificado como vida.
A vida se desenvolve em eventos dinâmicos que continuamente lutam  atè o extremo - agonia - com o seu contrario: a morte. Eventos que investem a pessoa toda. Entao, “a palavra de Deus viva” è a pessoa.  Mas a pessoa è vida e participa de algo maior, da qual procede: o mistério. Assim “a palavra de Deus viva” è, também, mistério. E sendo Deus amor, ela è o mistério de amor que misteriosamente sae dele mesmo e gera a vida de cada pessoa, das criaturas e de todo o que existe.
“A palavra de Deus è viva” porque amor. Este misterioso amor se fez evento na passoa de Jesus de Nazarè, pois “a Palavra de fez carne”(Jo 1,14) e por sua vez se tornou Cristo com sua morte e resurreiçao. Vida que triunfou sobre a morte e a desmanchou. Portanto, não è só “viva”, mas também “eficaz”, pois, por um lado derruba o maior inimigo, a morte, e pelo outro oferece vida em abundancia, a participação plena na vida de Deus. Ponto central è que a Palavra de Deus viva e eficaz, personificada em Jesus Cristo, abrange todo homem. Com efeito, Jesus Cristo representa no seu ponto final por ser criadas imagem e semelhança de Deus.
Assim, Jesus Cristo oferece a toda pessoa as condições para entrar - de forma livre e consciente - no processo pelo qual se desvela, com mais clareza e profundidade, o que é se tornar cada vez mais semelhante a Deus, por ter sido constituído como tal pela representação e mediação operada por Jesus Cristo mesmo.
Este processo se manifestara pela ética em sintonia com a lei aperfeiçoada por Cristo e a pratica das Ben aventurança que o mesmo indicou estilo de vida de quem descobre os valores do Reino de Deus e vive deles na alegria e plenitude da vida sem fim.
O processo è constante purificação e crescimento na semelhança, pois, è entrar na espiral em continua expansão e aprofundamento, ao mesmo tempo na transcendência e imanência, que envolve a afeta a pessoa toda.
Dai que a Palavra de Deus viva, eficaz desenvolve sua missão de “espada de dois gumes” que penetrando ate no mais profundo e insondável do ser “penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas” julga, corta , purifica e confere nova vida aos”pensamentos e as intenções do coração”.
Com sua descida do céu na realidade humana Jesus Cristo se tornou tão intimo e solidário a cada ser humano que “não ha criatura que possa ocultar-se diante dela”, pois - vale repetir- é palavra viva e eficaz do amor na sua manifestação mais alta e radical imprimida no DNA de cada ser humano.
Pode sim, a pessoa manter indiferença, distração, desinteresse, desvalorização, desprezo ou rejeição, com outras palavras, pecar contra Deus “Foi contra vos, só contra vos, que eu pequei” (Sl 50,6). Contudo, “è a ela - a palavra -que devemos prestar contas” para que esta vida na terra seja bem sucedida, em abundância, como antecipo e penhor da ressurreição. Pois, è já participar da salvação que se manifestará plenamente com a vinda de Jesus Cristo no fim dos tempos.
A insatisfação de não ter alcançado a salvação e a inquietude de encontrar uma resposta de como chegar a ela,  move o jovem a encontrar Jesus, como relata o evangelho

Evangelho Mc 10,17-30

O texto è muito conhecido como o do jovem rico. “Veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele -Jesus – e perguntou (...)”. Devia estar muito angustiado e sofrendo interiormente, com pressa e determinação de receber uma resposta resolutiva que achava só Jesus pudesse dar.
“(...) Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?”.Trata-se de ganhar o premio como fruto de fazer  o que ainda não lhe era permitido saber, mas que certeza o “ Bom Mestre” vai lhe indicar. Chama a atenção que antes de entrar no assunto Jesus especifique “Porque me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém”.
Será que não tinha consciência disso por ser ele mesmo Deus? O quis destacar  simplesmente que a nascente da bondade está em Deus, independentemente de sua especifica condição? O que toda bondade procede como dom de Deus?
Os mandamentos procedem da bondade de Deus. Portanto, Jesus lhe pergunta se os pratica recebendo resposta positiva “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. Um rico eticamente correto, mas no profundo insatisfeito consigo mesmo. A ética associada à riqueza deixa a pessoa incompleta, permanentemente carente de algo pelo qual se sente urgida de se dirigir ao mestre para resolver.
“Jesus olhou para ele com amor”. Sabia que a riqueza era obstáculo para conseguir o que a ética  sustentava e estimulava no mundo interior do rico. Jesus não bate de frente com a riqueza, pois discursar não adiantaria.
Prefere o caminho do acolhimento pleno e incondicionado, que manifesta,  também, o pleno e incondicionado  olhar “ para ele com amor”,  esperando abater a barreira erguida pela riqueza, antes de apresentar a proposta. Assim, o rico, receptivo da atitude de Jesus para com ele e sustentado pela confiança no Bom Mestre, deveria compreender o alcance da desconcertante proposta, e com coragem se tornar discípulo dele “vem e segue-me!”
“ Mas(...), ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico”. Ele tinha pedido a Jesus o que devia fazer para ganhar a vida eterna, e a resposta é deixar tudo o que tem. Sentiu-se faltar o chão debaixo dos pés, também  por ser opinião comum considerar a riqueza como favor e benção de Deus. Com certeza não esperava de jeito nenhum uma saída deste tipo.
Também Jesus deve ter ficado desiludido. A especial atenção dele merecia adesão confiante. Os discípulos ficaram admirados e desconcertados à explicação de Jesus com respeito a impossibilidade do rico entrar no reino dos céus “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no Reino de Deus!”.
Não é difícil  imaginar o alvoroço interior deles, procurar um sentido ao seguimento de Jesus motivado pela esperança de participar do reino, o sentimento de se sentir defraudados. Desta situação interior a pergunta “Então, quem pode ser salvo?”.
“Jesus olhou para eles”,  parece-me que os fixou como fez como o rico, querendo passar o que tinham percebido do relacionamento dele como mesmo. È também para transmitir a firmeza do próprio ser e da verdade da afirmação que “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.
Evidentemente “tudo é possível” não é arbitrariedade, ma consequência da fidelidade de Deus à promessa, mai ainda ao amor que a sustenta. Trata-se do mesmo amor, que então como hoje, se torna misericórdia na pessoa de Jesus a favor de cada pessoa e da humanidade. A passagem do impossível ao possível será experiência de quem segue Jesus ate o fim, incluindo o escândalo da cruz.
A confiança e a perseverança terão sua recompensa surpreendente. É a resposta de Jesus  aos apóstolos  “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”, entrando assim na nova sabedoria que substitui aquela simplesmente humana.
A recompensa terá a ver com esta realidade - hoje -, assim como o mundo futuro. Pois a vida eterna que já experimentarão aqui “com perseguições” será revelada em toda sua grandiosidade “no mundo futuro” quando a gloria de Deus preencher toda a realidade  humana e a criação assim que Deus será “tudo em todos”(1Cor 15,28). Ai será a manifesta a Sabedoria que Salomão enxergou (primeira leitura)




terça-feira, 2 de outubro de 2012

27mo DOMINGO DO T.C.-B- (07-10- 12)


1ª leitura Gn 2,18-24

“Não é bom que o homem esteja só”. Deus deseja o bem para a obra das suas mãos, e ficar só não alcança o objetivo. Então “Vou dar-lhe uma auxiliar”, pois a solidão se vence pelo auxílio de alguém semelhante  e apropriado para completar a carência que a individualidade tem em si mesma.
Conforme a própria vontade Deus trouxe “a Adão para ver como os chamaria”, animais selvagens e as aves do céu “todo o ser vivo teria o nome que Adão lhe desse”. Dar o nome é manifestar ter conhecimento da essência e domínio sobre o nomeado. É tomar posse dele.
Esta operação não deu resultado esperado e “Adão não encontrou uma auxiliar semelhante a ele”. Mas indica também que a posse, o possuir, não é o caminho para alcançar o auxilio que o homem precisa, e, portanto, encontrar o que completa o ser e com ele a harmonia e a felicidade.
Contudo o desejo de possuir marca profundamente o ser humano. Para muitos se torna o elemento principal e o sentido do próprio viver. Pois, confere condição de dispor à vontade, de não depender de outros e, pelo contrário, fazer que outros dependam. Assim, o poder se torna uma forma de domínio impressionante sobre as pessoas, alem de dispor de vantagens e bens materiais a outros inalcançáveis.
Mas que tipo de relacionamento pose subsistir entre quem possui e outro que não tem nada e precisa depender, até do necessário para viver?  É impossível o relacionamento de auxílio e complementaridade do jeito que o ser humano precisa e Deus quer para ele. Pelo contrário, desencadeia todo tipo de violência, injustiça, lutas fratricidas, guerras, e morte prematura.
O antídoto ao desejo de possuir é considerar tudo como dom, como presente de Deus.  Só reflete que a mesma vida, a existência, é dom de Deus. Algo tão evidente e tão pouco preso em consideração, e facilmente esquecido em nome do afã de encontrar seguranças no possuir o que for preciso, e mais ainda para retê-lo custe o que custar. Só a vida foge deste controle e domínio com a morte, e isso constitui motivo de ânsia e de medo.
Deus criou um ser com igual dignidade do homem “da costela tirada de Adão, o Senhor Deus formou a mulher e conduziu-a a Adão”, pois a colocou ao lado dele, não para lhe impor o nome e dominar sobre ela, mas para ele reconhecer nela o auxílio que precisava. Pois, não era cópia dele, era diferente, mas tinha afinidade muito grande “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne”.
Não será objeto de posse. Seria esvaziar a dignidade dela e, por conseguinte, também a própria. É o dom de Deus, como é dom do mesmo modo a vida do homem. E devem ser mantidos como dom um para o outro. No momento que um quiser possuir o outro, em sentido de domínio, se tornaria impossível o relacionamento correto.
“Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”. Realizará uma união que chegará a ser gradativamente uma só carne, ou seja, se estabelecerá o vínculo familiar - deixarão pai e mãe para se tornarem pai e mãe de outras criaturas - tão forte e consistente como se fosse uma só realidade. Será uma união que não suprime as diferenças nem desmancha a solidão.
Será o triunfo do dom permanentemente, renovado e atualizado de um para o outro, dom que se torna extensivo para com os filhos e cuja dinâmica, como uma espiral em constante expansão, abrange toda a humanidade, se percebendo como parte viva e responsável dela.
A dinâmica própria da realidade do dom é participação da realidade de Deus, dom por excelência à humanidade. Ela tem sua manifestação singular na pessoa de Jesus Cristo, como manifesta a segunda leitura.

2da leitura Hb 2,9-11

O dom maior para o outro é a entrega da própria vida para o bem dele. É o que fez Jesus. O autor da carta testemunha “nós o vemos coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte”. Exatamente pela entrega, os que acreditam no dom - nos efeitos da morte e ressurreição – o percebem corado de glória. Pois, a morte dele foi dom de Deus, “graça de Deus em favor de todos”.
Depois de amadurecida reflexão sobre a morte e ressurreição de Jesus, o autor sintetiza a importância e profundidade do evento com uma afirmação muito expressiva e oportuna: “Convinha, de fato, que aquele, por quem e para quem todas as coisas existem (...)”, se refere ao Pai criador á qual toda criação toda está  voltada, e nele tem o seu destino.
Isso porque o Pai “(...) desejou conduzir muitos filhos à glória”, A glória é a manifestação da santidade de Deus. O plano de Deus é que todos os homens participem dela, sejam mergulhados nela e se preencham da santidade de Deus, para que tenham vida em abundância, na consolidação e vivência do reino de Deus entre eles. Assim a glória de Deus é o homem vivente, e a vida do homem é louvar a Deus (S. Irineu).
Para isso Deus escolheu o povo de Israel e fez o que é registrado no antigo testamento. Mas o povo foi infiel à aliança e desviou do caminho se autocondenando. A fidelidade cheia de amor de Deus insistiu em perseguir o cumprimento da promessa. Por isso “convinha (...) levasse o iniciador da salvação à consumação, por meio de sofrimentos”.
“Convinha” - era oportuno, certo e justo para atingir a metapara a salvação da humanidade toda que o Filho, cuja encarnação inicia o processo de salvação, o levasse à consumação - ao pleno cumprimento - pela entrega de si mesmo.
“por meio do sofrimento”. Não se trata de sofrimento pelo sofrimento, come se fosse necessário, mas da profundidade e grandeza do amor que ensinando o caminho da salvação não podia desviar ou renegá-lo, custasse o que custasse.
 Mais ainda, representando com a sua pessoa a humanidade toda e resistindo até o fim, estava regatando do caminho errado e da desconfiança a mesma humanidade que o estava condenando. Paradoxalmente a sua morte se tornava vida e justificação perante o Pai dos mesmos que o estavam condenando, e de todos aqueles que em continuação acreditassem nele.
Assim, o elemento que propriamente salva não é o sofrimento, mas o amor puro - sem segundas intenções - e desinteressado, pois, deixa completamente livre os destinatários - a humanidade toda - de acolhê-lo ou não.
Tanto Jesus, o Santificador, quanto os santificados, são descendentes do mesmo ancestral; por esta razão, ele não se envergonha de os chamar irmãos”. Com efeito, do ponto de vista humano, Jesus teria que se envergonhar de ter irmãos que o traíram e renegaram. Que tipo de irmãos são estes?
Contudo, olhando para eles a partir do efeito da morte e ressurreição, os percebe como justificados perante o Pai, partícipes da mesma vida divina, e, portanto, descendentes do mesmo ancestral, ou seja, de Deus mesmo.
O ponto de observação é a partir do que Deus em Jesus realizou a favor da humanidade, como efeito do dom de si mesmo, do amor mais puro e elevado. É neste contexto que o evangelho encaixa o matrimônio.

Evangelho Mc 10,2-16

Os fariseus provam Jesus perguntando com respeito ao divorcio “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. Direto, Jesus aponta à causa “Foi por causa da dureza do vosso coração” e acrescenta que desde a criação não era essa a intenção de Deus.
O que causou a dureza de coração? O que torna um coração humano, de carne, como pedra? Fundamentalmente se dobrar sobre si mesmo, atendendo aos próprios sentimentos, emoções, desejos e vontade, se tornando egoísta. Por conseguinte não escuta outro senão si mesmo. Torna-se surdo e desinteressado à voz do Senhor e aos seus preceitos e leis.
Os outros que acompanham o dia-a-dia, gradativamente se tornam como objeto, coisa, em função de si mesmo, sobre as quais exercitar o próprio domínio e ao serviço da própria vontade. Nesta condição é impossível o amor.
Escutar, acolher e servir à realização do outro de maneira que ele seja autenticamente si mesmo e, portanto, capacitado a se doar a outros, perpetuando a mesma dinâmica entre as pessoas e realizar a felicidade plena, a vida em abundância nele, é praticar o amor. Evidentemente, se precisa despojamento de si mesmo e ver na realização do outro a felicidade de si mesmo.
É o que acontece no relacionamento entre Deus Pai e o Filho. A criação do homem e da mulher era finalizada a que participassem da mesma dinâmica, assim que a felicidade deles acrescentasse também a felicidade de Deus. Então, o amor entre marido e sua esposa se torna realidade de Deus neles.
Eis o sentido da afirmação “Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”. Portanto não se trata simplesmente do um momento cultual do matrimônio no qual homem e mulher se prometem amor e fidelidade. Aquele é só o momento inicial.
O elo de Deus com eles é o processo de purificação, o caminhar conjuntamente entre eles e Deus, que partindo do fato que “não são dois, mas uma só carne” vai crescendo a integração dos sentimentos, do desejo de autenticidade mútua, da vontade de contribuir positivamente em assumir a verdade de si mesmo, de passar serenidade, confiança e respeito não só entre familiares e amigos, mas a todo ser humano, a humanidade toda da qual se percebe parte viva e integrante etc. Este processo não se pode desmanchar ou separar, sob pena de se afastar de Deus, pois, sustenta o vínculo sacramental da indissolubilidade.
Todos sabem o desafiador problema da pastoral devido à enorme distância entre o matrimônio celebrado por costume social, por hábito religioso e as condições para que seja realmente o que Deus pensou. E como tudo isso origina divórcio e fracasso da união sacramental.
Jesus aproveita da presença das crianças para colocar as atitudes delas como condição para receber o reino de Deus “quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. Assim, no correto relacionamento esposo e esposa se desvela e acontece o reino de Deus, reino de paz, de harmonia e de justiça. Portanto é preciso conservar no relacionamento as atitudes de confiança, transparência e simplicidade própria delas. Só colocar duas ou três crianças e vê-las brincar para ter ideias e comparar como deve se a atitudes dos adultos para com Deus, entre os esposos.