1ª
leitura Jr 31,7-9
“Tornei-me
um pai para Israel, e Efraim è o meu primogênito”. Não estranharia
se o coração de Deus explodisse de
alegria, pois reencontrou sua paternidade para com o povo eleito, e este último
sua relação de primogenitura para com o seu Deus.
Depois do afastamento e
do exílio por ter renegado a aliança, abandonado o caminho do Senhor para
seguir outros caminhos propostos pelos deuses estrangeiros contrários a tradição do povo, eis o retorno.
O tempo do exílio e do afastamento foi de grande sofrimento por parte do povo
que não encontrou o que esperava, ficou perdido, desiludido, defraudado, como
órfão e sem esperança.
Ter desconfiado da
promessa e do caminho do Senhor, ou simplesmente ter sido enganado por
propostas mais sedutoras, porque fáceis e compreensíveis ao próprio
raciocínio e controle humano, lançou o
povo no fracasso.
Esta lastimável
condição por um lado moveu no Senhor a
compaixão e a misericórdia a favor do
resto do povo -“ o resto de Israel” -
que lembrando-se da tradição e da
promessa implora: “ Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel”.
E o Senhor responde
positivamente. “Eis que eu os trarei do
país do norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. Para o Senhor
não ha demarcação ou confins, pois, ele è atento a toda pessoa que o honra,
mesmo more muito longe do centro de Israel. Com eles quer formar o novo povo
renovando e transformando todos, inclusive os que eram considerados como
excluídos porque pecadores o impuros “entre
eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”.
“São
uma multidão os que retornam”. Não è difícil
imaginar a alegria de Deus, depois da dispersão e amargura do afastamento do
povo, que participa a todos indistintamente “Exultai
de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai cantai e dizei:
‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel”.
O Senhor proclama o
novo povo como o “ primeiro das nações”, para
que seja referência e modelo para outros, assim que se sintam motivados e
atraídos em imitá-lo, entrando na aliança e assumindo pra valer a lei o caminho
correspondente. È convite a conversão universal.
Com isso para todos há
esperança, seja qual for a lastimável condição em que se encontrem, é só
dirigir o olhar e o coração a nova realidade que esta surgindo, pela graça e
fidelidade do Senhor a sua promessa. Os desanimados, desesperados, os que têm
na frente deles um futuro sombrio sem esperança, podem encontrar a luz, um
sentido para a própria existência, e, com eles, a felicidade e a exultação no
Senhor pela sua surpreendente e inesperada misericórdia.
“Eles
chegarão entre lá grimas e eu os receberei entre preces”. Contraste
entre dor e louvor. Será o momento da transformação e renovação, experiência de
salvação e motivo de revigoramento do sentido da vida, destinada a realização
plena e alegria sem fim.
Perante as repetidas
infidelidades do povo O Senhor não desistirá de se tornar “pai para Israel” e fazer de Efraim “o meu primogênito”, com o envio do seu Filho para desenvolver a
função de sumo sacerdote a favor do povo e da humanidade toda, como mostra a
segunda leitura.
2da
leitura Hb 5,1-6
O trecho apresenta a
figura do sumo-sacerdote “tirado do meio
dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus”. Trata-se
de um homem cuja virtude e característica è “ter
compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado
de fraqueza”.
Notável o fato que não
lhe è exigida a perfeição do conhecimento e da conduta, mas só o necessário
para perceber a ignorância, o desconhecimento da Lei por parte dos outros - do
povo - e a consciência dos próprios erros e imperfeições.
Estes limites não são
tomados em consideração para humilhar, deprimir, desvalorizar e considerar como
indigna a sua pessoa, mas para sustentar e valorizar a compaixão, virtude pela
qual sabe sintonizar e compreender os erros e a fraquezas dos outros. Assim um
aspecto negativo e limitativo se torna um elemento positivo a favor do povo.
A humildade dele o torna
apto para desenvolver sua principal missão “Por
isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelo pecado do povo, quanto pelos seus
próprios”. Trata-se do sacrifício de expiação pelo qual a vida sacrificada
do animal se torna meio de perdão e justificação dele e dos pecadores –do povo
em geral- perante de Deus.
A condição de
sumo-sacerdote è atribuído por Deus com um chamado específico, como foi para
Aarão. Ninguém pode se apropriar o direito de constituir se mesmo ou outros a
tal ofício “ Ninguém deve atribuir-se
esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão”. Este exercício è
próprio e específico de Deus por meio do culto presidido pelo sumo-sacerdote no
dia -único no ano - do perdão dos pecados, no qual, sacrificadas as vítimas,
com o sangue delas derramado sobre o altar e aspergido o povo, ungiam-se as placas de ouro no
sacrário do templo.
Aquela figura de
sumo-sacerdote era prefiguração de Cristo, que com o sacrifício na cruz se
tornou ao mesmo tempo vítima e sacerdote. Não ofereceu o sangue dos animais,
mas o seu próprio, ofereceu não as vítimas do sacrifício, mas a sua pessoa na
entrega de si mesmo. Não entrou no sacrário do templo, pelo contrário o
desmanchou - sinal disso o véu do templo que se rasgou totalmente ; mas, entrou
no sacrário do céu, a direita de Deus Pai.
Este evento vale
retroativamente, até Adão, e para todas as gerações futuras, até vinda D’Ele,
mas o efeito è atualizado ao longo dos séculos na Eucaristia. Portando, não
deverá ser repetido anualmente como o era para o sumo-sacerdote antes deles no
dia do perdão dos pecados, mas è o especifico de cada celebração, seja quando
for.
Aos olhos do Pai e do
Espírito este evento confere a Jesus a condição de sumo-sacerdote. Pois, “Deste modo, também Cristo não se atribuiu a
si mesmo a honra de ser sumo-sacerdote (...)”, pois ele se entregou por
amor não em virtude do que lhe foi encarregado cumprir contra sua vontade e por
obediência. Não se atribuiu outra missão senão ser fiel ao amor pela humanidade
em sintonia com a vontade do Pai e a dinâmica do Espírito.
Foi por esse amor que
foi gerado a nova vida, com o seu corpo martirizado, pela ressurreição, como
Jesus Cristo. “Tu és o meu Filho, eu hoje
te gerei” se refere não e encarnação, mas a ressurreição. A ressurreição è
geração a nova vida, pois por ele e nela objetivamente toda a humanidade foi e
continua ser regenerada. Este “hoje” è
a ação eterna e permanente de Deus na história até o fim dos tempos, atravésda
ação da Igreja.
Com isso Jesus Cristo
assume as características da misteriosa e singular figura de Melquisedec “Tu és sacerdote para sempre, na ordem de
Melquisedec”. Esta pessoa, sacerdote de Deus e rei da paz que se apresenta
a Abraão e o abençoa em nome de Deus, è um sujeito sem Pai nem mãe nem
descendência, mas única e exclusivamente relacionado com o Deus Altíssimo.
Tal vez, algo disso
deve ter sido percebido pelo cego mendigo do evangelho, considerando a atitude
dele para com Jesus e os obstáculos do povo.
Evangelho
Mc 10, 46-52
Jesus está “junto com seus discípulos e uma grande
multidão” saindo de Jericó. Eles
constituem barreira e obstáculo para
o cego mendigo chegar perto do Senhor. As palavras que dirigem ao mesmo, após
Jesus ordenar que o chamassem, “Coragem,
levanta-te, Jesus te chama” manifestam a carência de coragem e de fé deles.
Estão simplesmente
projetando a condição deles sobre o cego, pois, “Muitos o repreendiam para que se calasse”. O cego não precisava de
coragem nem de ser chamado por Jesus. Coragem tinha de sobra até desafiar a
repreensão deles, e ele mesmo estava chamando Jesus com gritos insistentes “Mas ele gritava mais ainda: ‘Filho de Davi,
tem piedade de mim!’”.
Quando Jesus abriu
espaço, o cego se levantou “jogou o
manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Determinação firme e rápida que
manifesta a confiança de encontrar em Jesus resposta positiva ao pedido “Mestre, que eu veja!”.
Como e por quais
caminhos chegou aquilo que Jesus reconhecerá como fé, não è dito, somente o
relato registra esta condição. Com certeza direta o indiretamente ouviu falar
dele como Messias e o que foi passado para ele tocou profundamente e
transformou o seu mundo interior, pois faltava sò se colocar na frente, na
presença de Jesus.
Chegado o momento, com
todo empenho e força não deixou cair a oportunidade, pois manifestou a sua
confiança no Messias - o filho de Davi - e suplicou “tem piedade de mim!”. Estas são palavras própria do filho que
dirige ao pai, voltando para casa depois de se afastar dele, para ser
acolhido de novo, como integrante da
família da qual se tinha afastado, com o amor que só o pai sabe oferecer.
A pergunta de Jesus “O que queres que eu te faça?” pode ser
entendida como retórica, pois, Jesus
sabia bem o que o cego lhe pediria. Mas è também a oportunidade de
evidenciar como a transformação do mundo interior do cego - que pelo
entendimento de então está ligado a sua condição de pecador - aponta a certeza
de se perceber purificado, transformado e regenerado pela palavra e o
ensinamento de Jesus, ao ponto de considerar que a esta libertação está
associada a cura da cegueira “Mestre que
eu veja!”.
Manifesta-se a
realidade da conversão, daí a necessidade de estar na frente de Jesus e a
determinação de chegar a ele contra toda oposição e obstáculo, para que ele
coloque como o selo definitivo do que aconteceu nele. Paradoxalmente nada disso
aconteceu naqueles de rodeavam Jesus e estavam perto dele...
No cego não se trata simplesmente de acreditar
no poder de cura, pela cura que o Senhor manifesta com seus milagres, mas de algo
mai profundo e radical do poder e da verdade da palavra e do ensino dele. È o
que Jesus confirmou com a resposta “Vai,
a tua fé te curou”, fé não tanto na sua pessoa quanto no poder eficaz de
sua palavra.
“No
mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho”. Entendida
a verdade não dá para deixá-la, portanto, se mantém no mesmo caminho do Senhor.
Não está mais “sentado a beira do caminho”, mas tendo-o enxergado entra nele
para ficar e caminhar nele conduza aonde o conduzir, pois, è o caminho da
verdade.
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