1ª leitura Is 53,10-11
O trecho é tomado do
quarto cântico do Servo Sofredor - na liturgia o cântico todo é lido na Sexta
feira Santa - e relata a paixão e os sofrimentos do Servo. “O Senhor quis macerá-lo com sofrimento”. No primeiro momento,
impressiona a vontade do Senhor de querer macerá-lo. É uma atitude cruel e bem
longe de todo sentimento de humanidade. Não combina com o que se espera de
Deus.
Também a motivação deixa perplexo: “Oferecendo sua vida em expiação (...) fará
cumprir com êxito a vontade do Senhor”. Expiar é próprio de quem paga a
dívida do outro e, se isso é legal pela generosidade e gratuidade escolhida
livremente, por que, nesse caso, deve ser por meio de maceração pelos
sofrimetos? Era preciso tudo isso? Não havia outra forma, outro caminho menos
cruel?
O servo carreguerá
sobre si as culpas dos homens, que são incontáveis. A culpa deles é a
indiferença, distração, desinteresse, desvalorização, desprezo ou rejeição com
respeito ao que o Servo estava indicando como caminho de Deus para atualizar a
salvaçao no presente e assim implantar as condiçoes para eles descubrirem o
tesouro do Reino de Deus, com antecipação do último dia, quando Deus o
instruirá de forma completa e definitiva.
Com outras palavras a
atitude deles manifesta o triunfo do pecado, pois, antes de ser o comportamento
errado porque contrário aos mandamentos e às leis do Senhor, é se deixar levar
pela desconfiança e o que foi citado acima. O pecado é de ordem teológica,
contra Deus - “Foi contra vós, só contra
vós, que eu pequei” (Sl 50,6) - antes de ético.
Este pecado teológico é
tão dramático nas suas consequências porque os homens acham ser engano e desvio
seguir as indicações do Servo, pois, para eles, isso conduziria a renegar a
Deus mesmo. No entendimento deles, seria professar ateismo. O Servo está
agindo, aos olhos deles, como ímpio que pretende atribuir a si próprio as
características do Messias.
Portanto, é merecedor
do repúdio na sua máxima expressão “macerá-lo
com sofrimentos”. Rejeitado daquela forma, mostra a magnitude e gravidade
do pecado que cai sobre as costas do Servo. Ele mesmo não sendo pecador, pelo
contrário é justo, carrega sobre si mesmo toda a violência do pecado. Ele
assume a condição de pecador, merecedor do castigo. Neste sentido, ele
representa perante o Senhor, todos os pecadores ha humanidade e assume o
castigo que eles merecem.
Com isso, ele está
expiando com o sofrimento a culpa deles de não confiar em Deus, que na pessoa
do Servo estava oferecendo o caminho da salvação. Ele expia pelo fato que não
abriu mão a vontade dos que o estavam macerando, pois tinha a certeza do
caminho da verdade dele pelo que diz respeito à salvação. Prefere morrer que
trair o Caminho, porque é Verdade e Vida para aqueles mesmos que o estavam
massacrando.
Desta forma “Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros
homens, carregando sobre si suas culpas”. Não cedendo ao pecado, esvaziou o
poder e a força do mesmo. O pecado
masacrou até a morte o corpo dele, mas nao dobrou a ele, sua pessoa, pois se
manteve íntegro e justo.
Assim que a vitória
dele sobre o pecado, em virtude da representação, é a vitória da humanidade que
nele está redimida, resgatada e justificada perante o Senhor. Mesmo que eles
não acreditassem no Servo, ele - o Servo
– pela representação, os tornou justos. O mesmo sangue do repudio é o que
justifica os que o repudiam. Ninguém, nenhuma reflexão ou projeto humano,nem de
longe, podia pensar algo semelhante. Só um amor que supera toda imaginação e
expectativa podia agir desta maneira.
Pela força e virtude
desse amor, o Servo “terá descendência
duradoura, e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor”, ou seja, a
salvação de todos aqueles que, com gratidão e convicção, aceitar o dom do
reperesentante.
Pelo Servo em quanto
tal “Por esta vida de sofrimento,
alcançarà luz e uma ciência perfeita”. Vale repetir que não se trata do
sofimento pelo sofrimento, mas do amor que sustentou a coragem e a determinação
de sofrer como sofreu, de aceitar a representação para a salvação dos desconfiados
nele, até o ponto de agir como agiram.
A segunda leitura
retoma o mesmo evento.
2da leitura Hb 4,14-16
Para o povo de Israel o
sumo sacerdote desenvolvia, entre outras, uma função indispensável e
imprescindível no dia do perdão dos pecados. Era o dia de penitência e jejum de
todo o povo. Era o único dia do ano em que, com uma liturgia especifica, só ele
(o sumo sacerdote) entrava, não sem temor, na presença de Deus, no tabernáculo
- a parte mais sagrada do templo - onde Deus apoiava seus pés e era considerado
como o umbigo do mundo, que ligava céu e terra.
No tempo de Jesus, o
tabernáculo já não continha a Arca da Aliança, destruída séculos atrás com a
profanação do Templo. Em lugar dela, havia umas placas de ouro que o sumo
sacerdote ungia com o polegar molhado no sangue dos animais sacrificados. Com
este gesto, eram perdoados os pecados do povo.
Com a morte de Jesus,
na sua pessoa se unem sacerdote e vítima. Ele oferece si mesmo a Deus e o
sangue não é mais os dos aminais, mas dele. Com isso, ele entrou, não no
santuário do templo de Jerusalém, mas no santuário do Céu. Portanto, o autor da
carta afirma “Temos um sumo sacerdote,
que entrou no cèu, Jesus, o Filho de Deus”.
O Filho de Deus, pela
encarnação e o batismo no Jordão, se tornou um de nós, solidário com a
humanidade pecadora, no sentido que se colocou no mesmo nível dos pecadores,
mesmo não tendo pecado nenhum. Nesta condição, foi “capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado
em tudo como nós...”.
Entendeu na própria pele
a amplitude e a consistência da fraqueza humana, pois, sofreu conosco o que ela
traz consigo em sentido de limite, de carência, de insatisfação, de inquietude,
de ânsia, de vazio, de pobreza, de desconforto, de cansaço, de desconcerto, de
feridas, etc.
“...
com exceçao do pecado”, pois, ele não se tornou
pecado. Não foi força e motivo para duvidar do certo e da verdade do que estava
atuando. Não se tornou motivo de depressão, de desânimo, de desilusão nem de se
sentir defraudado e, portanto, de desconfiar de que o Pai teria cumprido a
promessa de instaurar o reino. Foi para frente e ponto. Talvez não soubesse da
ressurreição - e nisso encontramos Jesus muito perto de nossa experiência e
sentimento humanos - mas com certeza não
duvidou da fidelidade da promessa do Pai!
Portanto, eis a exortação “Aproximemo-nos então, com toda confiança, do trono da graça (...)”. Aproximar-se
com confiança é abrir o coração e a mente ao dom dos efeitos da morte e
ressurreição, pelo qual “Deus nos
ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus, em virtude de nossa união com
Jesus Cristo” (Ef 2,6), pois já estamos lá com Cristo, em Deus.
“(...)
para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento
oportuno”. Pela fraqueza – constitutiva de
cada ser humano – nao faltarão momentos de prova e tentação, até chegar ao
ponto de estar muito próximo de “chutar o balde”. Pois por esta aproximação
confiante, não faltará neste momento a intervenção misericordiosa - o auxílio
oportuno – para não cair no pecado.
Será o momento da
autêntica conversão, uma reviravolta, como a indicada pelo evangelho.
Evangelho Mc 10,35-45
“
Tiago e João (...) foram a Jesus e lhe disseram (...)Deixa-nos sentar a tua
direita e o outro a tua esquerda, quando estiveres na tua glória!”. Evidentemente,
estavam pensando no fututo deles a partir da instalação do reino de Deus e da
glória de Jesus como rei e Messias. Parece-me que Jesus fica surpreendido ao
ponto que reage serenamente: “Vós não
sabeis o que pedis”, constatando que eles estavam totalmente ‘fora da
onda’.
Jesus e os discípulos
estão em duas sintonias bem diferentes. São dois mundos completamente opostos.
É impressionante a solidão de Jesus, assim como a paciência e a tenácia em os
instruir e fazer entender o conteúdo, o
caminho e o trágico desfecho da missão dele.
Assim, ele coloca duas
perguntas com respeito ao próprio batismo e ao cálice que deve beber, as quais
os dois apóstolos respondem positivamente sem ter a menor noção do que a
realmente Jesus está aludindo, pois, está se referindo a sua morte na cruz; “glóoria” bem diferente daquela que
esperavam.
A conclusão de Jesus é
responder que, com certeza, também eles passarão pelo martírio, pois ele o
enfrentará chegando a Jerusalém, mas foge da sua competência responder positivamente
ao pedido deles, pois, sentar a direita e a esquerda dele no Reino “É para aqueles a quem foi reservado”.
Com outras palavras
Jesus se refere àqueles que, entendendo e se identificando com a sua pessoa e
missão, serão como outros ‘Jesus’ ao longo da história. Não será questão de
poder, de prestígio, de honra humana, mas de sintonia e fidelidade à missão que
determinará estar sentado ou não ao seu lado.
Os outros dez
discipulos ouviram o pedido de Tiago e João e se indignaram, pois participavam
das mesmas espectativas. Pode-se imaginar o alvoroço entre eles... Pois, Jesus
aproveita do momento para instruir os doze, especificando que o que eles pensam
e esperam os levaria a ser como chefes das nações que as oprimem e os grandes
as tiranizam. De nada adiantaria a missão dele.
Ordena uma nova visão e
filosofia de vida “Mas, entre vós, não
deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser
primeiro, seja o escravo de todos”. Com certeza devem ter ficados
desnorteados e incrédulos, pois deu uma reviravolta de cento e oitenta graus no
entendimento deles.
Pois, ser ‘grande’ e
‘primeiro’ é a meta e ambição de todos, já que uma vida bem sucedida é medida
nestes critérios. A maneira para chegar é exatamente o contrario daquela que
Jesus indica e propõe aos doze. Portanto, Jesus procura imediatamente em que
sentido é preciso assumir a indicaçao dele “
Porque o Filho do Homem nao veio para ser servido, mas para servir e dar sua
vida como resgate para muitos”.
Assim, se tornar servo
ou escravo do outro, não é se expôr a arbitrariedade e abuso, que normalmente o
patrão exercitava sobre o servidor ou escavo, mas as condições e a prática de vida que o tornaria livre e
regenerado de todo o que o oprime e faz dele um ser desumano, vazio, injusto, dominador,
tirano, etc., enfim, um ser humano infeliz.
Para este objetivo ser atingido vale até
“dar a vida” como Jesus mostrará com
sua chegada em Jerusalém. Ser primeiro e grande se manifestará com o evento da
ressurreição, que já está misteriosa e eficazmente presente na prática do amor,
pela qual se entrega ao resgate do ou
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