segunda-feira, 29 de outubro de 2012

FESTA DE TODOS OS SANTOS -B- (04-11-12)


1ª Leitura Ap 7,2-4.9-14

O anjo de Deus marca “na fronte os servos do nosso Deus” antes da ação transformadora da terra e do universo. É a “marca do Deus vivo” com a qual Deus reconhece a autenticidade e valor daqueles que agiram como seus servos. É a marca da esperança, de quem aguarda a intervenção de Deus em favor de seu povo, preservando-o da tragédia que está para acontecer.

Obedientes e cumpridores das exigências da Aliança eles deram testemunho de fidelidade ao projeto de Deus. Ser marcados significa, também, pertencer a Ele como Senhor da Vida, do qual tudo procede e ao qual tudo tem sua meta e seu fim.

Os 144.000 é um número simbólico. É 12x12x1000, que na linguagem bíblica significa todos. Com efeito, há “uma multidão imensa de gente de todas as nações,tribos,povos e línguas, e que ninguém podia contar”. 
A salvação é para todos, pois, a vontade de Deus é que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Por diferentes caminhos os efeitos da morte e ressurreição de Jesus Cristo atingem a humanidade toda e encontram pessoas que acolhem e vivem em sintonia com o evento (morte e ressurreição).

O texto se refere ao que acontecerá no final da história, com a volta do Ressuscitado, como Jesus mesmo prometeu antes de voltar ao Pai. É um texto escatológico que descreve, de maneira simbólica, a última e definitiva intervenção de Deus sobre a criação, a humanidade e a história, o que comumente chamamos fim do mundo, na qual “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).

Estavam de pé”, atitude de respeito e de prontidão. Eles manifestam com suas roupas e palmas a realidade e a condição de servos “trajavam vestes brancas... pois, lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”. As vestes se tornaram brancas, não pelo correto comportamento deles, pois todo ser humano é imperfeito e pecador, mas por acreditar nos efeitos da morte e ressurreição do Cordeiro - de Jesus -.

 Foi por esta fé que assumiram a condição de novas criaturas. O inciso: “Traziam palmas na mão” indica que foram fieis até o martírio, pois, “Esses são os que vieram da grande tribulação” derramaram o próprio sangue. Assim, os servos de Deus aqui descritos são aqueles que fizeram a radical opção de servir ao projeto de Deus, por confiar integralmente Nele.

Notável  o testemunho deles: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. Reconhecem que Deus, sacrificando o próprio filho - o Cordeiro que tira o pecado do mundo - é origem e causa da salvação deles, por terem aceitado e interiorizado este presente Dele. Com isso se tornaram novas criaturas e os motivou seguirem com determinação o Cordeiro, até o martírio.

Portanto, no final dos tempos, proclamam “com voz forte” o certo e a conveniência daquela determinação que, por passar pelo crivo das provações e perseguições, fez deles participantes da mesma glorificação do Cordeiro.

Eis traçado o perfil do caminho de santidade. Todo cristão é chamado a ela por aceitar o dom de Deus, selado pelo Batismo, alimentado pela Eucaristia e vivenciado na prática do Evangelho no dia- a- dia. A santidade se manifesta no fato de que  a Boa Noticia do Evangelho se torna Boa Realidade nos relacionamentos familiares, na comunidade, no serviço, na convivência da sociedade civil, na preocupação pela justiça e o direito entre os povos,ou seja, nos relacionamentos do dia-a-dia.

Mas, também, o caminho de santidade é forjado pela oposição de pessoas e instituições que pensam e agem de maneira contrária. Daí o choque, o conflito e até o martírio que configura a realidade do santo. Contudo, muitas vezes o conflito é motivo de desistência, razão pelo qual muitos deixam a caminhada. E outros, nem de longe pensam em permanecer nisso.

O que determina a pessoa nesse caminho de santidade é indicado na 2da leitura.

2ª Leitura 1 Jo 3,1-3

O ponto de partida é o “grande presente de amor (que) o Pai nos deu” com a entrega do próprio Filho, o Cordeiro que tira o pecado do mundo. A aceitação e a interiorização dessa verdade leva acreditar nos efeitos atualizados daquela entrega. Assim, ela nos torna filhos de Deus.

Com ênfase o texto frisa: “e nós os somos!” como para afirmar o que ultrapassa de muito toda expectativa e imaginação: a passagem de pecadores, afastados e inimigos de Deus a filhos, pois, somos filhos no Filho!

Eis, então, o grande presente pelo qual os pecados da desconfiança, da superficialidade, da desvalorização, do desinteresse, da oposição e até da rejeição, da promessa e da ação de Deus são desmanchados. Em virtude disso, é resgatada a amizade, a familiaridade, a comunhão com Deus, a dignidade de filhos por meio do Filho.

Então, ser chamado de filho de Deus é um presente. Indica profunda intimidade com o agir e pensar de Deus. Naquele que é reconhecido como filho de Deus transparece a união tão intensa com Ele ao ponto dele  ser semelhante, perceber a misteriosa presença de Deus. É como se Deus assumisse a forma humana nele. Pois, o amante e o amado se unem no amor.

O conteúdo específico e fundamental da fé é exatamente isso! Ela sustenta e alimenta a esperança de maneira tal que “Todo o que espera nele...” por acreditar nos efeitos do presente, do dom, “purifica-se a si mesmo”. Eis, portanto, o processo de purificação interior, quando a pessoa se coloca em total,humilde e sincera transparência no mais profundo dela, com esse surpreendente dom de Deus.

Desta forma, recuperamos nossa identidade, nosso verdadeiro ser e o sentido profundo de nossa existência que se desdobra, com satisfação plena, nos acontecimentos e nas atitudes coerentes do dia-a-dia. Isso nos leva a intuir que a filiação divina transcende o simples cumprimento de preceitos éticos e morais, pois, eles manifestam o grau, a intensidade da adesão filial.

O texto acrescenta algo ainda mais surpreendente "como também ele é puro". Parece uma meta impossível, e como tal é descartada de antemão... Contudo, é algo que nos fascina, motiva a esperança, sustenta um futuro não impossível, considerando que Ele assumiu nossa condição humana e caminha conosco.

Entre outras coisas, essa meta oferece sonhar alto para que a vida tenha aquele horizonte e futuro que dá sentido ao presente e sustenta cada atitude coerente. Tudo isso é oferecido por esse “grande presente de amor que o Pai nos deu”. Já somos filhos, porém, quando formos como Jesus, o veremos como Ele é, então, alcançaremos nosso potencial maior, seremos verdadeiramente nós mesmos, um “eu” íntegro, não dividido,  em Jesus Cristo.

Por outro lado, sabemos que nem todos compartilham esse entendimento. O texto define estes como “mundo”, que não “conheceu o Pai”. Por outro lado, o “mundo” não é estranho a nós mesmos, mais age e toma conta de nós em determinados momentos e circunstâncias. Daí, então, a necessidade de voltar à purificação, ou seja, ativar o processo de conversão permanente, mergulhando, com renovada fé, no grande presente de Amor através da Palavra e os Sacramentos, especialmente da Missa.

Esta atitude de perseverança, de confiança, habilitará repetir em nossa vida e na sociedade a vivencia das Bem aventuranças.

Evangelho Mt 5,1-12ª

É o famoso texto das bem-aventuranças. Como soaria o texto substituindo o termo bem-aventurado por parabéns? Pois disso mesmo se trata. Jesus ensina aos discípulos o que merece ser parabenizado “ Jesus começou a ensiná-los”.

Mas, parabéns de que? Por serem pobres, aflitos, mansos, por promover a paz num mundo hostil... Por serem perseguidos, caluniados etc.? Quem se atreveria falar isso a uma pessoa nessa situação? Parabenizamos todo o contrário... Como entender isso?Estamos no pleno paradoxo do Evangelho: a verdade se manifesta no seu contrário.

 Jesus fala para aqueles que assumiram para valer a causa dele, a missão dele “... por causa de mim". Eles assumiram a causa como resposta de amor ao grande amor do qual falamos na 2da leitura. Trata-se de pessoas profundamente tocadas e transformadas por este amor. Em virtude disso, o viver delas é Cristo, é se tornar, com humildade, testemunhas da continuação da presença de Cristo na história e nas circunstâncias concretas do dia-a-dia.

Nesse sentido Jesus está passando para eles o que é, e será, a experiência Dele no desenvolvimento da missão. Assim, o discípulo experimentará tudo o que Ele experimentou como homem, como pessoa, como Filho do Pai. Experimentará o que é ser homem, o que é ser pessoa e o que é ser filho de Deus - filho no Filho, como tocamos na 2da leitura. Dai os parabéns.

Assim, o texto pode ser entendido como a peneira que discerne até que ponto o cristão é realmente discípulos de Jesus. É evidenciado, assim, o grau de percepção e da vivência “do grande presente de amor que o Pai nos deu” (2da leitura), bem como a consistência, ou menos, da realidade de filhos de Deus.

O texto deve ser assumido como um todo. Não dá para pensar uma bem-aventurança desligada da outra. Não dá, por exemplo, ter fome e sede de justiça e ter um coração com segundos fins, um coração impuro...

Assim, o entusiasmo por uma bem-aventurança e a frieza para com a outra, a prática significativa de uma e a prática insignificante da outra, determinam concretamente o espaço da conversão no processo de recepção do grande presente de amor e da identificação em Cristo.

Tudo isso nos diz que o processo de santificação é inesgotável. Acompanha-nos a vida toda e constitui a experiência da profunda alegria nessa vida, mesmo passando pelas dificuldades e provações que o texto aponta: “Alegrai-vos e exultai” se refere aqui e agora porque, misteriosamente, esse tipo de sofrimento tem em si mesmo essa verdade.

É se alegrar interiormente pelo sentido de plenitude e satisfação de quem experimenta o acontecido como oportunidade de crescimento, de integração, de identificação com o que é ser pessoa bem sucedida e, na transparência, enxergar a presença que faz dela e de Cristo uma realidade só, mantendo as devidas diferenças.

Cabe destacar que não é pela observância ou cumprimento das bem-aventuranças que ganhamos ou merecemos o céu. É o contrario. O cumprimento delas manifesta que já o céu está em nós, pela vivência de filhos de Deus.


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