domingo, 14 de fevereiro de 2010

Comentário do 1º Domingo da Quaresma (21/02/2010)

1o DOM DA QUARESMA-C

1ª leitura Dt.26,4-10

A fé dos israelitas se apoiava no que Deus havia feito concretamente por eles no decorrer da história. O texto lembra: “Os egípcios nos maltrataram (...). Clamamos ao Senhor ( ...) e o Senhor ouviu (...) nos tirou do Egito com mão poderosa e braço estendido (...) E nos conduziu e este lugar e nos deu esta terra, onde corre leite e mel”. O texto, é o fruto amadurecido da reflexão e da meditação com respeito à libertação da escravidão do Egito, à caminhada pelo deserto e à chegada na terra prometida. A chegada testemunha o cumprimento da promessa de Deus, do dom da terra “onde corre leite e mel”, uma metáfora que aponta a benção em termos de frutos abundantes e gostosos para todos, assim como de paz e de harmonia entre eles.

A QUARESMA é a caminhada anual de toda a Igreja e de cada pessoa. Ela começa com o dom da libertação da escravidão do Egito, ou seja, do mal e do pecado. Dom que Jesus já nos ganhou e que marca a identidade profunda de cada pessoa como filho de Deus, como discípulo de Jesus e morada do Espírito Santo. No começo do caminho da quaresma é preciso se re-apropriar destas verdades que muitas vezes esquecemos, não valorizamos ou não damos a devida importância.

A QUARESMA, caracterizada pelos 40 dias (sinal de um tempo demorado, praticamente a vida toda), é a caminhada do homem livre para viver, fortalecer, consolidar e levar à plenitude o dom da libertação, ganhado com a saída do mal e do pecado. Nesta caminhada,quem conduz é Deus: “Ele nos tirou do Egito (...) e nos conduziu a este lugar” Trata-se, então, de caminhar humildemente, no dia- a –dia, com o nosso Deus, conforme a bela expressão de Mq.6,8.

A QUARESMA tem seu ponto de chegada na terra “onde corre leite e mel”, meta na qual o sonho se torna experiência de vida bem sucedida, de realização pessoal e social, de plenitude etc., se faz realidade, para partir rumo a outro sonho. São famosas as palavras de Hermann Hesse: “Há de se encontrar o seu próprio sonho para que o caminho seja fácil. Mas não existe sonho perpétuo. Todo sonho deixa lugar o novo sonho, e não pode querer reter algum” É uma dinâmica inesgotável, sendo que Deus é a “terra prometida”.

“Por isso, agora trago os primeiros frutos da terra que me deste, Senhor. Depois (...) tu te inclinarás em adoração diante dele ”A experiência se torna motivo de ação de graças, de agradecimento, pelos frutos - os primeiros, depois haverá outros- por ter confiado e caminhado nas indicações do Senhor, por ter agido conforme ao dom da libertação de homens livres, por ter vencido as tentações de voltar atrás ou de mudar de rumo nos momentos difíceis das provações e das dificuldades.

O gesto de se inclinar em adoração é reconhecer que valeu confiar na ação libertadora, valeu a fidelidade da firmeza e da perseverança na caminhada . Portanto, é preciso reconhecer a verdade e o certo da promessa de Deus, assim, como o autêntico sentido e destino da existência. A promessa é como o farol que ilumina e indica os critérios, a filosofia da vida e a maneira de se comportar no dia- a dia.

Evidentemente, como cristãos, a libertação do pecado e do mal, o caminho no dia- a- dia, a terra prometida e os (primeiros) frutos encontram na vida, na missão e na entrega de Jesus o caminho, porque Ele é verdade e vida, como comentaremos no texto da 2da leitura.

2da leitura Rm 10,8-13

“Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” Vale frisar que são Paulo apresenta sempre Jesus a partir da ressurreição, não a partir da concepção , do nascimento (...) até a ressurreição. Começa do fim. Por quê? Porque o fim manifesta quem é realmente Jesus, o significado e a importância da vida e da missão dele. Jesus é percebido na sua verdadeira essência a partir do evento da ressurreição, em virtude do qual é constituído, pelo Pai e pelo Espírito Santo, Senhor do céu e da terra. Evento estritamente ligado e inseparável da morte na cruz. Evento motivado pelo amor que, por sua singularidade, desconcerta radicalmente todo critério de entendimento e toda possível experiência no âmbito humano.

“Boca... e coração” caminha juntos. A primeira para confessar, ou melhor, testemunhar; e o segundo como adesão e entrega sincera ao que Jesus fez , e faz hoje, para mim, como meu representante perante do Pai. É conhecido o refrão: “a boca fala do que o coração está cheio” É isso mesmo! Tudo começa no coração tocado pela GRATUIDADE DO DOM de Deus, pela morte e ressurreição de Jesus. (A quaresma é se deixar tocar mais profundamente por esse dom)

“É crendo no coração que se alcança a justiça”. Isso significa que o coração humilde e confiante, pela gratuidade do dom-os efeitos da morte e ressurreição de Jesus-, experimenta em si mesmo o que é ser justo e perdoado perante de Deus Pai, graças à entrega do Filho e à ação do Espírito Santo nele. É este dom que o torna justo, algo impossível à vontade, à força e desejo simplesmente humanos. A justiça é de Deus, é doada por Ele.

A nós simplesmente ( mas não é tão simples!) acolher e acreditar no dom. É o que deve acontecer em cada santa Missa. É correto rezar depois da Consagração “Anunciamos a tua (a minha ) morte; proclamamos a tua (a minha) ressurreição; vinde ( já estás presente ) Senhor Jesus” É o conteúdo mais importante e primeiro da fé!

Mais importante, ainda, é ter consciência que tudo isso é condição previa para entender a Palavra de Deus no seu correto significado, na sua abrangência e nas suas conseqüências éticas e comportamentais na pessoa (e na sociedade). Com efeito, “A palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração” O que entende com isso são Paulo? O texto escrito? Impossível, o texto é um elemento externo à pessoa. ( Na época em que escreveu, ainda não existiam os 4 Evangelhos e os s textos do Novo Testamentos,assim como os conhecemos hoje!)Não pode ser outra coisa que o dom gratuito do evento, do qual falamos acima, acolhido pela fé no próprio mundo interior- o coração e a inteligência-.

Portanto, “Essa palavra é a palavra da fé, que nos pregamos” não é o texto escrito, mas o evento da morte e ressurreição de Jesus. Mais ainda, é o estilo de vida dele (retomaremos este aspecto comentando evangelho) que culmina com o evento pascal. Portanto, “É crendo no coração (...) e confessando a fé com a boca que se consegue a salvação” aqui e agora. É este o evento da Palavra, do qual surgem e brotam os diferentes textos bíblicos do Novo Testamento, como testemunho de que “Todo aquele que nele crer não ficará confundido”.

Entendendo com mais profundidade e convicção tudo isso, a pessoa se identifica cada vez mais com Jesus e assume o estilo de vida Dele.

Evangelho Lc 4,1-13

O texto é paralelo ao de Mt 4,1-11,cujo comento está no blog sob o titulo “Tentações”, antes dos comentários deste domingo. Portanto, não vou repetir, mas acrescentar outras considerações.

As respostas às tentações visam desfazer no povo as idéias erradas com respeito a Deus e o agir Dele, que são a causa de todo o mal, do permanecer no pecado e na escravidão, apesar da experiência libertadora.

Elas indicam os tópicos da conversão permanente no dia-a-dia, que determinam o estilo de vida, do qual tocamos na 2da leitura. Portando, a conversão não é simples aplicação de normas de comportamento estabelecidas com anterioridade. É algo que a ultrapassa, e do qual o mesmo Jesus é testemunha “foi dito... porém eu vos digo” (Mt 5,21 e seguintes) e exemplo: “ Eu também não te condeno.Podes ir, e de agora em diante não peques mais”(Jo 8,11). Concretamente, é reinterpretação das normas e das leis, como resultado de adesão interior- coração e inteligência- ao evento da morte e ressurreição de Jesus (atualizado na Missa)e a circunstância concreta, visando e finalidade pela qual Jesus se entregou: “ Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia”(Jo 10,10).

A conversão, portanto, é um processo continuo e criativo que responde a três exigências que deverão se integrar uma nas outras, como fichas do mosaico, para satisfazer a característica de “vida em abundancia” pela qual Jesus se entregou.

a) “Eis o homem!” A quem Pilatos está indicando? A um homem que acaba de ser chicoteado e prestes a ser crucificado “para que todos tenham vida em abundância”. A conversão está nesta direção. Eis, então, a pergunta: Estou me tornando mais humano? Estou neste processo de hominização?, ou seja, estou assumindo os critérios de Jesus do que é ser verdadeiro homem?

b) A sociedade se trona mais humana, mais justa, mais ética, mais fraternal (é mais do que democrática), no respeito das diferenças e da dignidade de cada cultura?

c) A criação, o mundo é preservado e conservado nas suas exigências ecológicas?

São três perguntas que desdobram a vivencia do Amor e constituem a verdade de Deus sobre as pessoas, sobre a sociedade e a criação. Amor que encontrou tenaz oposição e rejeição até na cruz. Amor pelo qual Jesus não se dobrou, e, portanto, carregou as conseqüências que sabemos, porque, ultrapassando a trágica rejeição, enxergou a “força da vida indestrutível” (Hb 7,16).

É o amor que motiva e sustenta Jesus na grande luta que o acompanhará no desenvolvimento de sua ação pastoral. Amor incompreensível para quem pensa a Deus, e pretende servi-lo, a partir do entendimento que Jesus desmanchou. Amor que condenou ele à solidão mais radical, por ter carregado com a desconfiança até a rejeição -o pecado- do homem. Amor que o capacitou proferindo as últimas famosas palavras antes de morrer. Amor que justifica perante o Pai os que o rejeitam, e que subjetivamente se sentirão tais, após a ressurreição, se aceitarão de coração sincero e com inteligência humilde o significado e o alcance do evento. Amor que é já experimentar a ressurreição, ou seja, a força da vida indestrutível.

O estilo de vida é a dinâmica da morte e ressurreição, incluída no Amor na sua expressão mais alta. A QUARESMA é para aperfeiçoar e aprofundar essa mesma dinâmica.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A TENTAÇÃO

No começo da Quaresma, me parece importante a reflexão e o entendimento do significado das tentações de Jesus no deserto. Elas oferecem a chave interpretativa do agir e da missão dele. Eis,então, o texto que elaborei para o curso de Cristologia.


Jesus começa sua atividade pastoral com o Batismo no Jordão. Ele é ungido pelo Espírito Santo, para assumir a missão do Servo de Javé.


Lucas acrescenta que, no deserto Jesus é guiado pelo Espírito. É o Espírito em Jesus e com Jesus, o primeiro dos dois atores da tentação, uma vez que Jesus e o Espírito são as duas mãos do agir de Deus.


O Espírito leva Jesus ao deserto, lugar de solidão, de falta de conforto, de encontro com a realidade mais profunda de Si mesmo. É aí onde ressalta sua verdadeira identidade, aquilo que sinceramente é. Aí não há barreiras para desvelar plenamente a Si mesmo e a Deus.


Guiado pelo Espírito, jejuou 40 dias. Quarenta é um número simbólico, indica um tempo prolongado e um processo demorado. Há coisas que por sua seriedade e profundidade precisam de tempo. O jejum leva Jesus ao enfraquecimento físico: O texto afirma que Ele sente fome, porém isto o torna lúcido, para desarmar as ciladas do diabo, e determinado, forte e firme, para não entrar nelas e sair vitorioso do confronto.


No batismo, acaba de assumir a missão. Mas, ficam as perguntas: Com que meios? De que maneira desenvolver essa missão?


A tentação se refere não ao objetivo da missão, isto é, à libertação do pecado e à salvação do homem, mas aos meios e caminhos para alcançá-la. Propondo meios e caminhos errados, o diabo consegue o fracasso da missão de Jesus.


O segundo grande ator é o diabo, ou melhor, é Jesus mesmo enquanto homem, raciocinando e pensando o seu agir de homem, desligado e afastado do Espírito. Seria o homem pecador do qual Ele assumiu a condição e a solidariedade com o batismo no Jordão, sem se tornar tal! Ele percebe, na sua pessoa, o que é ser “pecador”. A palavra “diabo” indica o que divide, afasta. Jesus mesmo chama Pedro de Satanás, pouco após a profissão de fé deste em Jesus como Messias, quando diz: “ Vá embora Satanás, você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8, 33). São as mesmas palavras que Jesus usa como resposta à terceira tentação: “Vá embora Satanás” (Mc 4, 10). Então, o diabo é o mesmo homem que pensa e age afastado, separado, não levando em conta o pensamento e a vontade de Deus. Não é preciso pensar em um bicho solto que anda por aí... Para a cultura e a mentalidade da época, cai muito bem a figura de um ser diferente que dialoga com Jesus.


Talvez, a realidade mais certa é que Jesus sente no mais profundo de Si mesmo, todo o peso e o conflito de um desdobramento: por um lado, a união entre Ele e o Espírito em virtude de sua realidade divina e, por outro lado, a realidade humana do homem pecador, afastado de Deus e não ligado à ação do Espírito, que acaba de assumir solidariamente e que manifesta toda sua força e poder sedutor (É o que são Paulo designará mais tarde como “homem espiritual” x, “homem carnal”, isto é, a oposição entre Espírito e carne). O tempo demorado, o ambiente, o jejum rigoroso indicam que não foram as tentações coisa de pouca conta, nem que foi fácil vencê-las só porque Ele é o Filho de Deus. Cabe precisar que Jesus vencerá a batalha - “Então o diabo o deixou” (Mc 4,10) -, mas a tentação voltará no tempo oportuno. Quando? Poucos minutos antes de morrer: a última tentação - “A outros salvou. Que Se salve a Si mesmo, se de fato é o Messias de Deus, o Escolhido! (...) Se Tu és o rei dos judeus, salva-te a Ti mesmo!” (Lc 23,35-37). A guerra será vencida na cruz e selada pela ressurreição.

Importantíssimo é não perder de vista que, nas tentações, está em jogo a pretensão de Jesus ser acreditado e aceito como Filho de Deus. Aos olhos dos homens, afastados de Deus, Ele tem que provar que realmente O é!!!


Só que para os homens, o que eles entendem e esperam de Deus como Messias (ungido por Deus) é bem diferente daquilo que Jesus e o Espírito estão prontos a passar. Daí a tensão e o conflito.


Assim, a primeira tentação revela que os homens esperam que Deus resolva, com um passe de mágica, as urgentes necessidades básicas do dia-a-dia: fome, saúde, desemprego, etc.


Com efeito, o povo quer sinais, milagres. Se Deus é poderoso, por que não faz? Se não fez, não é Deus. Jesus oferecerá alguns sinais, milagres e, ao mesmo tempo, recomendará de mantê-los em segredo, de não divulgá-los (trata-se do chamado segredo messiânico), porque o significado verdadeiro deles só seriam revelados com a morte e ressurreição Dele, não antes. Antes seriam mal interpretados e mal entendidos! (É o que acontece, também hoje, desligando os sinais da morte e ressurreição!) Cair na tentação significaria descompromissar os homens da prática do amor e da justiça na história e no dia-a-dia, através da qual o pão chegaria à mesa de todos, assim, como a satisfação das exigências básicas. Afastando a prática do amor e a justiça, Deus seria mantido afastado deles, e eles continuariam na mesmice.


Jesus antepõe a Palavra. Não desconsidera a importância do pão, mas antecede a ele a Palavra, que, se acolhida, o permite chegar a todas as mesas.


A segunda tentação: "Joga-te para baixo” (Mt 4,6) - da parte mais alta do Templo. Aí está Deus no templo, e Ele vai se manifestar. Sendo Filho, Deus não vai permitir que se machuque; e todos, vendo que Ele é salvo por Deus, acreditarão imediatamente em Sua mensagem. Que melhor oportunidade para tirar dúvidas quanto à pretensão de Jesus ser Filho de Deus! Até pouco antes de morrer é exigida esta intervenção para a demonstração de que realmente é Filho de Deus: “Confiou em Deus; que Deus o livre agora, se é que O ama! Pois Ele disse: Eu sou Filho de Deus” (Mt 27,43). (Com efeito, o Pai que entrega o Filho, e o Filho que aceita ser entregue pelo Pai é, talvez, a afirmação mais escandalosa de todo o Novo Testamento!) Mas, será que a intimidade e o amor Pai-Filho é assegurada por uma intervenção desse tipo? Do ponto de vista humano é isso mesmo. Contudo, quantos pais fazem isso para não perder algo que lhes pertence radicalmente e do qual precisam! Quantos filhos, tirados do perigo, após um momento de gratidão e de “conversão”, voltam ao mesmo ou até nem estão aí! Por outro lado, o grande apego pais-filhos, filhos-pais não seria sinal do falso amor?


Será que a confiança em Deus depende de gestos grandiosos e surpreendentes? A parábola do rico que pede ser ressuscitado, convencido que, em virtude disso, os irmãos, ainda vivos na terra, se converteriam, ensina: “Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos” (Lc 16, 27-31).


Cair na tentação teria sido a manifestação do poder grandioso e surpreendente, porém, inútil e estéril.

Inútil, porque o temor reverencial que suscitaria frente ao poderoso geraria, por um lado, distanciamento e, por outro, a falsa comunhão típica do inferior para com o superior chamados a conviverem juntos.


Estéril, porque a capacidade do amor ao próximo ficaria cercada das exigências do “amor” entre pai e filho. Esse amor se tornaria uma barreira intransponível, o contrário do que Jesus afirmara: “Quem ama mais seu pai ou sua mãe do que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Cercar o amor é torná-lo estéril.


Para o homem descompromissado, indiferente ao projeto de salvação da humanidade inteira, é certo cercar o amor dentro dos próprios familiares, parentes, amigos e viver a “realidade” de Deus como emoção pela grandiosa e surpreendente intervenção Dele.


A terceira tentação. O diabo deixa as primeiras motivações - “Se és Filho de Deus” - e abre o jogo - "Olha o mundo, suas riquezas e glória”- (Mt 4,8). “Eu Te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser” (Lc 4,6).


Poder e glória foram dados ao homem por Deus mesmo -“Tu (Deus) o fizeste pouco menos que um deus, e o coroaste de glória e esplendor. Tu o fizeste reinar sobre as obras de Tuas mãos e sob os pés dele tudo colocaste” (Sl8, 6-7). Pelo teor da colocação, o diabo-homem se apropria deles de maneira indébita, isto é, como dono e Senhor deles. Desvirtuou, assim, a característica dom e de seu sentido de participação e cooperação no amor à ação criadora e recriadora de Deus, rumo à comunhão com Ele. Daí que o homem se tornou “diabo”, ou seja, elemento de afastamento, de separação de Deus. E as conseqüências são um mundo escravizado por todo tipo de mentira e engano.


Para o homem descompromissado com o sonho e projeto de Deus, e fundamentalmente individualista, é bom o poder e a afirmação do próprio “eu” em termos de riqueza, poder, fartura, alegria, elogios, etc. É o que eles mais aprovam, admiram e desejam. Não é certo que o sonho de muitos (todos?!) é ficar rico?


Cair na tentação seria aprovar um sistema de governo e de poder que teria mantido os homens na mesmice. Todo aquele que mexer com isso sofrerá sérias rejeições.


As tentações revelam o ídolo que está nos homens, isto é, a imagem de Deus construída por eles mesmos.


Os homens querem um Deus poderoso, que resolva, com mágica, as necessidades deles; que legitime seu ser Deus com intervenções surpreendentes e grandiosas, deixando as coisas como estão, sem compromisso nenhum para com Ele, a não ser para resolver, de forma mágica, caso por caso – individualmente –, as exigências básicas da vida, do dia-a-dia, e de sentir a presença poderosa Dele, quando o invocar para tirá-los dos apertos. A troca (a promessa) é a maneira concreta de administrar o relacionamento com Ele.


Esta visão de Deus é incompatível com a visão de Deus que tem Jesus. O conflito o levará à cruz. À pergunta inicial: como desenvolver a missão? Abraçando a cruz.

Comentário do 6º Domingo do Tempo Comum (14/02/2010)

6º DOMINGO do T.C. - Ano C

1ª Leitura Jr 17,5-8

A tradição espiritual apresenta a existência humana como oportunidade de escolha entre dois caminhos opostos: o da obediência à Lei que conduz à vida; e o da indiferença, da rebelião, que leva à morte. Eis, então, se configurar o homem bendito por um lado e o homem maldito pelo outro.

“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” Com as palavras, “força na carne humana”, o texto entende a realidade do homem circunscrita à sua natureza, ou seja, à inteligência, à vontade, à memória, ao sentimento, ao coração que determinam o seu ser, a visão de si mesmo, as características de sua atividade, a percepção da realidade dos outros, do mundo e do destino de tudo e de todos no horizonte simplesmente humano. Esta atitude gera afastamento de Deus nas suas múltiplas formas de indiferença, de desvalorização, de repudio à auto-revelação de Deus ( no A.T. por meio da Lei, como expressão da Aliança, e no N.T., da pessoa e missão de Jesus).

É alerta pelos que hoje se definem indiferentes, agnósticos ou até ateus. Este fenômeno está crescendo vertiginosamente no mundo de hoje. O levantamento feito no Rio no2002 apontava a uma porcentagem de 2,8% dos entrevistados, nos 2009 já era o 7,8%...

Mas, cabe considerar que, se por um lado o motivo são as rápidas mudanças culturais e sociais, pelo outro, é preciso analisar seriamente se bispos, padres e leigos comprometidos sabemos reformular os conteúdos da Fe, rever a prática pastoral e, assim, oferecer uma resposta compreensível e plausível ao mundo de hoje.

De todas as maneiras, as conseqüências são dramáticas: “como o cardo no deserto, ele não vê chegar a floração” Com outras palavras, não vê chegar o bem, no sentido de que fala mais alto a esterilidade da própria atitude, assim como a incapacidade e a impossibilidade de vê-lo. Conseguentemente, acaba para se amoldar “prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada”

Terá os efeitos contrários o homem bendito porque “confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor”, pois, ele “ é como a árvore plantada junto à águas... não teme a chegada do calor... e nunca deixa de dar frutos” A confiança e a esperança caminham juntos. De que esperança se trata? Qual é o conteúdo específico dela, que motiva o voto de confiança? ( Entre parêntesis cabe perguntar: o homem de hoje em quem, em que coloca sua esperança e sua confiança? Na pessoa de Jesus? Na vinda do Reino, do novo céu, da nova terra aqui e agora, na qual triunfará a justiça, o direito e a fraternidade universal? Confia e espera na promessa de Deus? Tal vez, mas só após a morte, na vida eterna? Em qual esperança investe a própria vida e ativa suas energias pessoais e sociais? Nas promessas de Deus? Nos laboratórios genéticos para um futuro vencedor até da morte, ou pelo menos que prolonga a vida? No positivismo da ciência? Há uma esperança na vida do dia-a-dia, na história que não defraude? Qual o horizonte, inclusive o limite- se há-, dessa esperança confiante?)

São todas perguntas de grande porte cujas respostas do ponto de vista simplesmente humano por um lado ou estreitamente teológica pelo outro, desafiam a esperança e a confiança de todo ser humano.

Contudo, a Palavra de Deus tem a pretensão de oferecer uma resposta definitiva, merecedora de confiança, baseada na promessa de Deus cumprida com a ressurreição de Jesus. É o conteúdo da 2da leitura.

2ª leitura. 1Cor 15,12.16-20

“Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” Mais uma vez é apresentado o ponto central da fe cristã, como já sabemos.

“Eis que faço novas todas as coisas”Ap.21,5ª. As primícias foram a ressurreição de Jesus. O amor em virtude do qual Jesus, conforme a vontade amorosa do Pai e pela força do amor do Espírito Santo, se entregou ,é o mesmo que gera participação da humanidade dele na vida divina e conseqüentemente faz dela uma realidade nova. Realidade que tem, ao mesmo tempo, elementos de continuidade e descontinuidade com a vida humana anterior. É o mesmo corpo (continuidade), mas não o idêntico corpo (descontinuidade). É uma continuidade transformada, melhor, aperfeiçoada.

Sabemos que ninguém esperava, após a crucificação, um evento deste tipo. Surpreendeu a todos. Nem foi fácil relatar o que realmente aconteceu e, menos ainda, aprofundar o alcance do evento, que ficará para sempre envolvido no mistério de Amor da Trindade. Os relatos evangélicos são uma tentativa de dar razão de uma experiência de amor entre os discípulos e Jesus, em termos de confiança, de seguimento dele, de adesão à sua pessoa e à sua palavra, de entrega...

Naqueles cuja confiança, seguimento, adesão e entrega ficou aquém do devido, ficaram perplexos com o evento da ressurreição. Daí, a pregação deles suscitará a reação de são Paulo: “Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dizer ente vós que não há ressurreição dos mortos” Com efeito, a ressurreição é face do amor que abrange simultaneamente esta e a outra vida após a morte. Diz Moltmann (um teólogo alemão de fama mundial) que o amor pelo qual é resgatada a vida corporal após a morte, é o mesmo amor que dá sentido profundo a nossa existência nesta terra, no dia -a- dia. Acreditar na ressurreição é acreditar no amor praticado até o fim, como Jesus “os amou até o fim” em sentido temporal, até o último momento, em sentido de entrega total e em sentido de que ele é o amor em sentido pleno, total. Depois dele e fora dele não há amor. Então, todo amor autentico e verdadeiramente humano tem nele sua origem e seu fim. E nesse sentido se torna divino.

“Se é para esta vida que pusemos nossa esperança em Cristo, nós somos - de todos os homens- os mais dignos de compaixão” Portanto, se a esperança está circunscrita aos critérios humanos, no sentido só de pretender encontrar em Cristo o apoio e a sustentação perante as dificuldades humanas do dia-a-dia, é porque se confia no horizonte simplesmente humano, como indicava a 1ª leitura. Daí o motivo da compaixão, à qual se refere são Paulo, pelo engano, pela ilusão que acarreta, e enfim pela confiança e esperança mal colocadas em Cristo e, portanto, inútil.

O que significa colocar a esperança em Cristo, ou simplesmente nesta vida , o evangelho o indica concretamente.

Evangelho Lc 6,17.20-2

“Jesus desceu da montanha com os discípulos” A montanha é o lugar da revelação do Pai, da intimidade e familiaridade com Deus. Portanto, Jesus teve uma especial comunhão com o Pai e com os discípulos na montanha. Descendo “num lugar plano. Ali estavam muitos (outros) de seus discípulos e grande multidão de gente...” O que Jesus coloca para eles tem relação com essa experiência, e particularmente como se quisesse se dirigir a eles em primeiro lugar, pois “ levantando os olhos para os seus discípulos”. Esse levantar os olhos para eles soa como se quisesse fixar suas palavras na alma deles.

“Bem-aventurados vós... ai de vós... ” Eis indicadas as benções de Deus em contraposição das benções do mundo. Duas realidades inconciliáveis. No entendimento do homem que confia só no homem (1ª leitura), o certo são as segundas, pois, eles constituem o sonho e o desejo de toda pessoa. Quantas pessoas vivem, almejam e fazem deles o motivo, o fim, do próprio dia -a- dia. Contudo, Jesus alerta: não é por ai o caminho da salvação para a pessoa e para a humanidade toda.

Cabe se perguntar: as bem-aventuranças são o ponto de chegada ou o ponto de partida para o discípulo? Tal vez, as duas. São ponto de partida, no sentido de não desprezar, não ter medo, não fugir delas, como seria a primeira reação de todo ser humano. Portanto, é preciso topar com elas, na forma e na medida em que as circunstâncias e a fidelidade à causa de Jesus o exigem.

São, também, ponto que acompanha o dia- a- dia, no sentido de não ficar surpreendido do que irá acontecer em termos de sofrer pobreza, fome, choro e rejeição por parte dos homens, pois ,fazem parte da experiência , misteriosa e sincera, da verdade que acompanha a caminhada com Ele.

São, também, o ponto de chegada, de uma meta que estará sempre na frente como um imã. Com efeito, a vivencia disso tem em si mesma uma dinâmica que leva mergulhar, cada vez mais profundamente, no insondável e inesgotável mistério de comunhão com Deus. Daí, a alegria no presente frisada pelo texto: “ Alegrai-vos, nesse dia” É, também, antecipo de algo muito maior que se manifestará no futuro , no dia último e definitivo da manifestação de Jesus com a sua vinda na glória “e exultai pois será grande a vossa recompensa no céu”

Acreditar na morte e ressurreição de Jesus e nossa também como indicam a 2da leitura, é fonte da coragem, e com ela, da necessária determinação e firmeza para entrar nas bem-aventuranças e não desviar, ou voltar atrás, nos momentos difíceis da provação.

Tudo isso, sustenta e motivam a confiança e a esperança, próprias da ação do Espírito Santo que- como mestre interior- faz enxergar o que ultrapassa o entendimento e a experiência humana. Esta experiência fortalece a determinação de permanecer no caminho, apesar de todos os pesares. É participação da comunhão e intimidade com Deus, com outras palavras, da salvação. Assim, o mistério de Deus se atualiza na pessoa: o humano se torna divino , Deus se humaniza na pessoa e a humanidade- a comunidade- se torna o templo do Senhor.