terça-feira, 6 de setembro de 2011

24o DOMINGO DO T.C.-A-(11-09-11)



1ª leitura Eclo 27,33-28,9

O rancor e a raiva são coisas detestáveis...”. O rancor é o estado de ânimo de quem não esquece a ofensa, pelo contrário, ela está sempre presente e perturba a paz interior. Continuamente ele remexe o mundo interior, se torna desgastante e acaba com a serenidade da pessoa. A raiva é o sentimento de irritação incontrolável e explode. É o que torna a pessoa como cega, pois, não permite pensar e menos raciocinar.
Os dois sufocam os bons sentimentos e sustentam o ódio. Mas, também, alimentam a vingança. A vingança é a atitude pela qual se inflige um dano muito maior daquele recebido, com a finalidade de mostrar uma força maior, dominar ou afastar para sempre o outro. Ela estabelece o domínio do ódio.
“...até o pecador procura dominá-las”. O ruim e o devastador delas são bem conhecidos pelo pecador. Como ter domínio e controle sobre elas. Como consegui-lo? “Lembra-te do teu fim (...) pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos (...). Pensa nos mandamentos (..). Pensa na Aliança do Altíssimo”. Pensar no fim da vida, na morte, é considerar que tudo terminará em algo pelo qual não vale, nem é sábio, perseverar e manter rancor e raiva. Elas só estragam o presente, os dias da breve existência humana.
Por outro lado, há atitudes a ser incentivadas. Em primeiro lugar, a observância e perseverança nos mandamentos. É a maneira de amar o Senhor para o próximo, inclusive aquele que ofendeu e pelo qual se sente rancor e raiva. Com efeito, o amor ao Senhor tem sua motivação na Aliança estabelecida no Sinai e na promessa da terra prometida “Pensa na aliança do Altíssimo”. Na medida em que o coração acredita e assume este amor, compreende a compaixão e a misericórdia do Senhor para com ele.
Conseqüentemente, será possível cumprir a indicação do Senhor “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo” e ter a certeza de que “quando orares teus pecados serão perdoados”. Pode doar o que recebeu.
Em segundo lugar, se manter nesse amor não é espontâneo nem mecânicos, mas precisa atenção e praticar os mandamentos. Daí a indicação de pensar e perseverar neles. Por outro lado, são a maneira de cumprir o pacto e as exigências da Aliança.
Portanto, o que é humanamente muito difícil – ficar livre do rancor e vencer a raiva -, (esquecer é impossível) em fim perdoar, é possível em virtude da aliança , da pratica das suas exigências e do bom senso perante a brevidade da existência.
Contudo, pelo livre arbítrio, a pessoa pode escolher de ficar na vingança “Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados”. A indiferença às indicações do Senhor, a insensibilidade e não acreditar Nele, é rejeitar o amor Dele. Não acolhendo o amor, menos ainda há condição de doá-lo.
Pedir severas contas dos pecados não é retorço, uma espécie de olho por olho e dente por dente, uma vingança. É conseqüência e manifestação de não acreditar no amor do Senhor. Assim, a pessoa se privou da possibilidade de ficar livre do rancor e da raiva. Portanto, ficar preso deles, ou seja do pecado, separa e isola , faz impossível a comunhão com o próximo e vencendo a barreira do ódio.
Jesus mesmo é o primeiro que derruba a barreira di ódio. Paolo faz experiência disso e testemunha, conforme escrito na 2da leitura.

2da leitura Rm 14,7-9

Eis a afirmação fundamental: “pertencemos ao Senhor”. O apostolo tem consciência de que ele (e todos os cristãos conscientes) pertence ao Senhor e o Senhor lhe pertence. Portanto, não há nele rancor e raiva para com aqueles que foram e são causa das múltiplas ofensas, desrespeito, violência verbal e física.
Paulo chegou e esta convicção e estado de animo por observar exatamente as indicações da primeira leitura. Mas com uma diferença: a Aliança é a estabelecida por Cristo com sua morte e ressurreição. E os mandamentos, ou melhor o mandamento, é amar como ele amou “Cristo morreu e ressuscitou exatamente para isto”.
A passagem de perseguidor a seguidor e apóstolo de Cristo, iniciado em Damasco, foi acrescentando e se consolidando pela fé e pela experiência de ter sido amado por Cristo “me amou e se entregou por mim”(Gl 2,20). Daí a consciência da aliança sólida, consistente e inquebrantável.
Tudo o demais escorrega, como água sobre impermeável, não afeta nem mexe com o seu ser profundo. Pois, ficando no rancor e na raiva se tornaria vítima deles ao ponto de desmanchar, no sentido de não perceber nem acreditar no perdão e na misericórdia de Deus alcançada pela entrega do Filho.
A partir da certeza da importância da vida e da entrega de Jesus Cristo “Senhor dos mortos e dos vivos”, Paulo afirma como a vida de todo cristão consciente deve ser caracterizada pela dedicação, e, assim, orientada e determinada pelo Senhor . O Senhor é o eixo dela “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos”.
Portanto, declina o seu contrario “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo”. É uma indicação importante, pois, faz eco à palavra de Jesus: quem quer salvar a própria vida vai perdê-la, e o contrário, quem perder a sua vida pela causa do evangelho vai salvá-la. É prestar atenção em não ser dominado pelo egoísmo.
Com efeito, fazer do próprio eu o eixo da existência, seria como quem fica olhando o próprio umbigo, é um suicídio psicológico, moral e espiritual. Pode levar a pessoa à depressão, a não se encontrar, não ter sentido de viver etc.
É inevitável a dimensão egoísta do viver. Mas é necessário prestar atenção e colocar uns indicadores que alertem quando ela se torna egocêntrica. Sinal disso é quando há dificuldade em se libertar do rancor e da raiva e cresce o desejo de vingança.
O evangelho oferece um modelo.

Evangelho 8, 21-35

As palavras finais oferecem o motivo da intervenção de Jesus “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. É impossível esquecer a ofensa recebida. Pelo contrário, é possível perdoar de coração, no sentido de não ficar preso do rancor e da raiva. É como olhar a cicatriz sarada. Lembra-se o acontecido, mas não doe mais.
A pergunta de Pedro “Senhor, quantas vezes devo perdoar (...) até sete vezes” é como se ele tivesse necessidade de ter uma regra à qual se ater, para se sentir justificado pelo cumprimento dela. A resposta de Jesus, além de não entrar nessa, pode indicar que o perdão deverá se praticado muito mais do que se pode pensar. Praticá-lo “sempre”- é o significado de “setenta vezes sete”- supõe conferir o correto relacionamento com o perdão recebido nos termos indicados pela parábola.
O empregado devia uma “enorme fortuna” ao seu patrão. Nem executando a ordem deste último de vender “a mulher e os filhos” teria conseguido extinguir a divida. A súplica do empregado prostrado, bem sendo mentirosa - pois, era objetivamente impossível que pagasse- “ Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo”, conseguiu mexer com o coração do patrão “teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a divida”.
Tal vez, o patrão se deixou levar pelo desespero do empregado ao vê-lo no beco sem saída, ao considerar o sofrimento dos inocentes, qual a mulher e os filhos. Tal vez lembrou-se da aliança e da misericórdia. Em fim, o empregado recebeu um presente enorme, tão grande como foi a divida dele...
Ao sair dali”. Imediatamente depois frisa o contraste mais radical que mente humana pode pensar. A quantia que lhe devia um dos seus companheiros era irrisória. Assim é um contraste radical a inflexibilidade em exigir que seja encarcerado, apesar das mesmas súplicas dele perante do patrão. (Evidentemente, o relato é uma parábola).
Cabe a pergunta: esta atitude do servo o que revela da personalidade dele? Ter amontoado uma enorme divida não foi coisa de tempo breve. Cabe supor a permanente atitude desonesta. Por outro lado, o que manifesta para com o seu companheiro é arrogância, presunção, indiferença, insensibilidade e crueldade. Um quadro humano, ético e espiritual que deixa muito desejar: um coração de pedra!
Nestas condições o gesto de prostração e as palavras da súplica para com o patrão, não vão além de uma estratégia vazia de todo sentimento e, portanto, impossibilitado de sentimentos de gratidão, de amor, que, por outro lado, tal vez nunca experimentou nem conheceu... Quem não acreditou nem experimentou o amor, não tem condição de doá-lo. Portanto não soube perdoar, porque não tinha condição para isso.
(Convido retomar ao comentário do evangelho do dia de Pentecostes, onde, na parte final, analiso a condição, os níveis e a profundidade do evento do perdão)
Cabe acrescentar que, tal vez, projete sua condição no companheiro. Diz o refrão “todo ladrão pensa que os demais sejam de sua condição” e, portanto, sabe como se “comportar”...
Os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo”. Eles manifestam sentimentos em sintonia com os do patrão e tomam atitude. Não caem na indiferença, no desinteresse pela condição do companheiro na prisão, menos ainda pensam que este último queria ser espertinho e enganar a quem devia, e que este, muito esperto, não se deixou enganar...
Tudo isso evidencia o grau de perversão do servidor infiel, como o serviço dele exercitado de maneira incorreta o leva à incapacidade de receber e doar amor.
É a alerta que o Senhor quer transmitir com as últimas palavras di texto. Não conseguir perdoar de coração manifesta uma espécie de corto circuito no crescimento humano e espiritual, que é preciso corrigir quanto antes, antes que seja demasiado tarde.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

23o DOMINGO DO T.C.-A- (04-09-11)

1ª leitura Ez 33,7-9

O trecho aponta à responsabilidade do profeta, e,portanto, de cada pessoa que serve fielmente o Senhor, com respeito ao correto relacionamento para com o próximo. Diz o Senhor “Quanto a ti, filho do homem, eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel”. O vigia, sobretudo de noite, está acordado e atento a todo o que acontece ao seu redor, com a finalidade de proteger, advertir e convocar, para a defesa e o bem do povo todo.
O profeta recebeu do Senhor o encargo de passar a mensagem Dele “Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome”. Evidentemente, está em sintonia com as exigências e o cumprimento da Aliança
O destinatário é o ímpio, com outras palavras, a pessoa que fala a age como se o Senhor não existisse. Hoje diríamos o ateu, não só o teórico que nega a existência de Deus, ou o agnóstico (naquela época absolutamente impensável), mas aquele desinteressado da Lei e pratica sem contar com ela. O ímpio está totalmente por fora dos caminhos e do horizonte de vida proposto pelo do Senhor. E, portanto, está se expondo à morte.
A este o Senhor se dirige por meio do profeta confiando-lhe a missão “Se eu disser ao ímpio que ele vai morrer, e tu não lhe falares, advertindo-o a respeito de sua conduta, ímpio vai morrer por própria culpa, mas eu te pedirei contas da sua morte”. O pensamento vai à pergunta de Deus dirigida a Caim e a resposta deste “ Onde está teu irmão Abel (...) Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão Abel?”( Gn 4,9). A responsabilidade para com o próximo é imprescindível do ponto de vista de Deus. Portanto, o profeta tem que se aproximar ao ímpio. Tem que buscá-lo, não deve esperar que chegue voluntaria ou espontaneamente a ele.
É a missão não só do profeta, mas de cada cristão. Cabe uma pergunta: com qual sentimento e atitude interior tomar a iniciativa e se aproximar? Quais os tópicos da correta aproximação?
Em primeiro lugar é preciso supor que nenhuma pessoa é totalmente ruim. Pois, há nela as raízes do bem, ainda que abafadas ou não desenvolvidas. Sem este otimismo é difícil dar o primeiro passo. A continuação é dever não ter sentimentos, e menos ainda, atitudes de juiz. Não se trata de julgar, mas de facilitar nele a compreensão do próprio erro, do próprio limite, com a finalidade de resgatar o bem que está nele.
A tal fim, o enviado, deve se manifestar de maneira sincera e transparente. Deve falar com a serenidade que procede do coração de quem, pelo amor ao bem presente no outro, acredita na possibilidade de que o ímpio o vê, o assuma, acredite, e, conseguintemente, investe a própria inteligência, vontade e memória, ativando o caminho de conversão. É o resgate dele por ele mesmo.
Trata-se de facilitar a salvação da pessoa. Ela acontece por tomar consciência da transformação- libertação operada nela pela palavra do Senhor no profundo do ser dela. É o surgir da nova imagem, da nova realidade, assim como a indicação da meta e dos meios para alcançá-la. Ao mesmo tempo é como uma luz para discernir as escolhas certas e as atitudes convenientes do dia-a-dia.
É importante se aproximar sabendo que pode haver resposta negativa “Mas, se advertires o ímpio (...) e ele não se arrepender...”. Não por isso o enviado deve se sentir fracassado, pois, ele “salvará sua vida”, não em sentido simplesmente de ter evitado um prejuízo. Mas de ter acrescentado a vida nele, tendo vivenciado a salvação para consigo por aceitar com paciência o sofrimento e a humilhação da rejeição; por acreditar e perceber que valeu afirmar a verdade do Senhor; por esperar que no futuro - que só Deus sabe quando- a semente dará fruto; por ter consciência de que, tal vez, apesar da boa vontade e determinação, cometeu involuntariamente erros...
Em fim, a vida não é só existência física, é todo o ser em harmonia com todos e com tudo. É a realidade do amor, vivenciada com coragem e determinação, vencendo todo obstáculo humano e confiando na presença do Senhor.
A segunda leitura desenvolve o tema.

2da leitura Rm 13,8-10

Não fiqueis devendo nada a ninguém...”. A consciência de dever algo a alguém surge por não ter feito o que podia e devia ser feito, ou pelo remorso de não ter feito bastante. Contudo, há algo inesgotável e impossível ao respeito: o amor mútuo. É o que Paulo indica “... a não ser o amor mútuo”.
O amor é Deus mesmo, sua nascente é Deus. Portanto, o amor mútuo, se for expressão e concretização do amor de Deus, mesmo crescendo qualitativa e quantitativamente, por sua natureza estabelecerá o relacionamento de um para o outro sempre aquém do devido, pois, é inesgotável.
Portanto, “quem ama o próximo está cumprindo a Lei” se refere não à meta alcançada, mas ao processo e a dinâmica que se expande como uma espiral e abrange sempre mais tudo e todos, em virtude do inesgotável amor de Deus.
Assim, a observância dos mandamentos é entendida como manifestação concreta desse amor, pois os mandamentos se resumem no “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
Nestes dias tive oportunidade de ler um texto hebraico que apresenta a tradução do preceito nestes termos “Amarás para o teu próximo como para te mesmo”. E acrescenta “A Lei não pede de amar o próximo, pede de amar para o próximo. Nesta sutil diferença, tal vez, esteja toda a Lei”
Para o autor, “Amarás o...” se refere só a Deus. Conseqüentemente o texto completo soa assim: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma (...) para o teu próximo como para te mesmo”. A mudança é notável.
Amarás o Senhor porque primeiro ele te amou. É o que frisa são João “Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos o seu filho”(1Jo 4,10). Portanto, a primeira atitude para com Deus é se deixar amar por Ele. É atitude “passiva”, no sentido de ser simplesmente o destinatário e receptor que se deixar envolver com todo o coração com toda alma e com todo o ser, com atitude de confiança e gratidão. Em virtude disso, experimenta-se, na e pela fé, o amor Dele em termos de remissão dos pecados, do restabelecimento da nova e eterna aliança e de participação à vida eterna, antecipação da glória futura. (Tudo isso é o que nos passa a celebração da Eucaristia).
Então, amar o Senhor para o teu próximo não é simplesmente desejar o crescimento humano e espiritual para ele. É torná-lo consciente que o amor para com ele- que está acontecendo por se aproximar conforme ao mandamento de Jesus “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15,12)-, é mesmo amor de Cristo que o envolve e o faz mergulhar no mistério de Deus. Eis, pois, a finalidade “de amar o Senhor... e o amaras para o teu próximo”: perceber de ser amado por Deus e se motivar para o compromisso evangelizador a favor dos outros.
Esta atitude é, ao mesmo tempo, a maneira de amar a si mesmo “... amarás como para te mesmo”. Com efeito, devolvendo o dom a Deus no amor para o meu próximo, acrescento a comunhão e a intimidade com Deus mesmo, cresço humana e espiritualmente na glória de Deus. O dom recebido é como o sangue que corre nas artérias. Correndo nelas, benéfica as artérias mesmas e o corpo todo simultaneamente. Mais ainda, esta atitude é condição para amar o próximo e a si mesmo simultaneamente, ou seja, para o crescimento humano e espiritual dos dois.
Portanto, “Amarás o Senhor teu Deus...” é colocar Deus como eixo, como ponto de referencia central, pois, ele é caridade. Por outro lado,“Amarás para o teu próximo como para te mesmo” indica que os dois- o próximo e te mesmo- são beneficiados ao mesmo tempo. Assim, Deus permanece Deus e o homem glorificado por e para Ele.
A glorificação da pessoa se declina no correto comportamento indicado pelo evangelho.

Evangelho Mt 18,15-20

Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo”. Indicação na grande maioria dos casos amplamente desrespeitada. Normalmente se conversa com todos, menos com a pessoa envolvida... Contudo, o ofendido deve tomar a iniciativa de recompor o relacionamento, manifestando o próprio incomodo e a própria mágoa.
Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão”. O condicional “Se” indica que se aproximar será a oportunidade para conferir em si mesmo e no irmão a qualidade e a consistência do relacionamento.
Se nos dois há motivo para manter e cultivar o sincero relacionamento de fraternidade, por um lado haverá condição de manifestar o desaponto com calma, serenidade e com coração apertado, motivando adequadamente o que e o porquê do desaponto o da mágoa. Isso supõe muito domínio das próprias emoções, e a consciência de ter sido atingido injustamente ou sem motivo. ( Caso contrário, a única saída é a humildade: reconhecer em parte ou totalmente o próprio erro...)
Pelo outro lado, se tiver boa e reta consciência, há condição para escutar e discernir corretamente, assim de sarar o que deve ser concertado, reconhecendo o próprio erro e motivando o próprio comportamento. Entre outros aspectos, é uma maneira para se tornar mais sábio. (Entre parêntesis, refletir sobre a própria experiência se torna fonte de sabedoria). Eis, então, o resultado final: “ganhaste o teu irmão”.
Mas, orgulho, vaidade, ciúme etc., são todos fatores que endurecem o coração, a pessoa se fecha sobre si mesma, nas próprias razões e argumentações ao ponto de ficar isolada de tudo e de todos, com a conseguinte exclusão do convívio comunitário.
Tal vez, seja licito supor que as palavras a continuação “tudo o que ligares na terra será ligado no céu , e tudo o que desligares na terra será desligado no céu” estejam ligadas a esta experiência. Estará ligado o que é conforme a este proceder e desligado o contrário. Assim, ter feito o que se devia e se podia fazer é já participar da realidade do céu. Portanto, deveria acrescentar o sentido de comunhão com Deus, apesar do eventual resultado negativo
O texto retoma o horizonte da vivencia comunitária e frisa o positivo dela “onde dois ou três estiveram reunidos em meu nome...”. Reunidos em seu nome é a consciência de mergulhar nos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e a conseguinte vivencia imitando o estilo de vida dele, assumindo a sua filosofia como base da comunhão entre os irmãos em ordem à evangelização, em fazer própria a causa de Cristo. Nestas condições Cristo garante a sua presença “...eu estou aí, no meio deles”.
Portanto, todo pedido em sintonia com a realidade da comunhão e da evangelização “isso lhes será concedido por meu Pai que está no céu”. O discípulo é o continuador da missão de Jesus e, portanto, pode contar com a presença e ajuda do Pai pelo Espírito Santo, no levar para frente o plano de Deus, manifestado na pessoa de Jesus.
É necessária a iluminação e a força do Espírito para discernir na complexidade do mundo atual que é certo do que é errado, e para criar as respostas convenientes que determinam a prática de vida conveniente.















terça-feira, 23 de agosto de 2011

22o DOMINGO DO T.C.-A- (28-08-11)

1ª leitura Jr 20,7-9

Momento altamente dramático para o profeta. Ele é rejeitado e isolado pelo povo e pelas autoridades no desenvolvimento da missão que Deus lhe confiou. Missão que se revelou muito mais complicada do que pensava, tal vez por ter a certeza de ser enviado e acompanhado por Deus.
De fato,diz Jeremias, “ falo, levanto a voz, clamando contra a maldade e invocando calamidades” e com isso irrita a todos, pois , eles pensavam que podiam contar irrestritamente com a presença e proteção de Deus por ser o povo eleito e por Jerusalém ter o templo o lugar da presença do Mesmo.
Portanto, foi marcado como profeta da desventura, da desgraça, em contraposição ao otimismo generalizado. Em virtude disso “Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim (...) a palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro”. Sente-se como sufocado e desamparado, ao limite das suas possibilidades.
Volta, então, com o pensamento ao momento da chamada, quando Deus lhe confiou a missão, e lembra que foi como uma sedução à qual toda resistência foi vã “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mai forte, tiveste mais poder”. A sedução tem em si mesma a força enganosa da persuasão de maneira tal que, perdendo de vista todos os outros aspectos da realidade, leva a pessoa à entusiasta adesão.
Com a reflexão do depois, o profeta percebe a força sedutora de Deus “foste mais forte, tiveste mais poder” acompanhada pelo sentimento de decepção, de desilusão, por se ter deixado levar por ela. A realidade é bem diferente do que ele esperava...
A experiência de Jeremias é comum a toda pessoa que em virtude do sonho, do projeto de vida pessoal e social que o fascina e motiva a própria vida, se decide per entrar nele com toda a esperança de conseguir resultados significativos e satisfatórios. Depois chegam os reveses, os imprevistos, as provações, ou seja, os momentos da crise...
Nesta circunstância a primeira reação é como a do profeta “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”: deixar e se afastar da missão. E muitos desistem, abandonam, e vão por outro caminho...
Não é caso de Jeremias “Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem força para suportar”. Se o evento do chamado dele tivesse sido só uma sedução enganosa, tudo teria acabado. Foi seduzido enquanto aos resultados, às expectativas da missão. Tal vez, pelo excesso de entusiasmo e de otimismo dele, devido à juventude. Tal vez, pelas atitudes não pertinentes, por falta de adequado discernimento, como deixa entender mais na frente “ diz o Senhor: Se retornares, eu te faço retornar e estarás diante de mim. Se separares o valioso do que é vil serás como a minha boca” (Jr 15,19).
De fato a missão em si mesma fica de pé com toda sua força e ímpeto. A autenticidade do chamado de Deus se desvela nesse desdobramento. Por um lado é um fogo ardente que nada e ninguém podem tirar ou apagar; pelo outro, tem em si mesmo elementos de sedução humana que necessariamente serão purificados no desenvolvimento da mesma, como está acontecendo ao profeta..
A missão é, também, o âmbito do desenvolvimento da pedagogia de Deus, que acompanha e sustenta a atividade do enviado. Atividade que se mistura entre o certo e o errado, sustenta a sedução, e, portanto, necessitada de constante atenção e discernimento.
É a alerta que Paulo faz na segunda leitura.

2da leitura Rm 12,1-2

A exortação está alicerçada na “misericórdia de Deus”, pois, Paulo a experimentou plenamente, e foi marcado para ser o que ele é. Com profunda e sincera gratidão o apostolo retorna o dom que recebeu de Cristo a Deus “vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Com efeito, recebeu misericórdia pelo sacrifício de Jesus - o Santo-, conforme a vontade do Pai assumida pelo Filho no Espírito Santo.
Notável a afirmação que segue: “este é o vosso culto espiritual”. Com ela, aponta à existência do discípulo, dom de si mesmo no horizonte do amor gratuito, sincero, desinteressado e sem segundos fins, como o culto espiritual: o culto sustentado pelo Espírito Santo.
Assim, devolver o dom recebido é essencial para manter e aprofundar a comunhão com a Trindade e mergulhar, com sempre maior consciência e experiência, na vida eterna no presente. O objetivo da misericórdia de Deus é exatamente entrar nessa dinâmica de receber e devolver o dom, que garante e oferece estabilidade e consistência ao correto relacionamento com Deus.
Oferecer a própria vida requer atenção e discernimento. Atenção de “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos...”. Não só se trata de prestar atenção para tomar distancia dos critérios do mundo, que, por certos aspectos determinantes e decisivos da vida do dia-a-dia e do convívio social, são contrários aos de Deus. É ter consciência da inevitabilidade de ter que caminhar na contra- mão, com todas as conseqüências que acarreta...
Mas, também, ao mesmo tempo, se trata de renovar “...vossa maneira de pensar e de julgar”, em consideração dos diferentes povos, culturas e ambientes, das diferentes circunstâncias e condições de vida que, à luz da missão salvadora operada da Cristo, faz o discípulo capaz de responder criativa e adequadamente. Em virtude disso os destinatários se sentem envolvidos o mistério da morte e ressurreição de Cristo e se tornam, por sua vez, discípulos.
Para o discípulo, renovar a maneira de pensar e de julgar é uma atividade constante, sustentada pelo amor a Cristo e responde fielmente à causa do Evangelho, como continuador da missão Dele. Com efeito, a vontade de Deus consiste na salvação de todos “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”(1Tm 2,4). Para atingir o objetivo é necessária esta ação de discernimento “para que possais distinguir o que é vontade de Deus, isto é o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”.
Contudo, o não se conformar com o mundo, a transformação de pensar e de julgar não é fácil nem simples. É o que o evangelho mostra.

Evangelho Mt 16,21-27

Pedro acaba de professar sua fé em Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,17). É elogiado pelo Mesmo, e lhe confia o poder de ligar e desatar na terra e no céu tudo o que é conforme ou discorda dessa fé. Tudo bem. Com certeza é um momento de grande satisfação para Pedro e os apóstolos: uma sintonia e uma colaboração -atar e desatar- perfeita. Não falta nada. Parece ter chegado no nível de comunhão e entendimento invejável...
Mas, a continuação Jesus manifesta que o Messias “devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos (...) e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. Pedro, tal vez sob o efeito do elogio e da empolgação, chama a atenção de Jesus, cuja resposta, sem duvida, é particularmente chocante para ele e para todos “Vai longe satanás!”. É a mesma resposta com a qual Jesus despede o demônio no final das tentações!
A primeira pergunta é: como é possível um contraste tão radical no espaço de poucos minutos? Como é possível que aconteça em Pedro - e, portanto, em cada pessoa, em cada discípulo - uma divergência de tal magnitude? Pedro entendeu a realidade de Jesus, mas faltou discernimento para compreender corretamente as mediações e o conteúdo especifico da realidade do Messias, Filho de Deus.
Faltou discernimento porque, explica Jesus, “ não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens”. Ele e os apóstolos não assimilaram, ainda, os critérios de Deus apesar de ter escutado e visto a o comportamento e a atuação de Jesus. Não entender os critérios de Deus, leva Pedro, apesar do bom propósito e da vontade, a ser “uma pedra de tropeço” para Jesus mesmo.
Portanto, para o correto desenvolvimento da missão não é suficiente a boa intenção e a boa vontade. É preciso prestar atenção aos critérios de atuação, que a continuação Jesus explicita. “Se alguém quer me seguir renuncie a si mesmo...”. A determinação de segui-lo inclui a condição e a vontade de assumir os critérios e o estilo de vida dele. Portanto, é preciso se afastar dos próprios.
A identificação com Jesus é de tal portada que este passo é necessário e coerente. Mas traz consigo exatamente o que Pedro queria afastar “...tome a sua cruz e me siga”. Assim, a rejeição de Jesus será a mesma que sofrerão os apóstolos. Seguir a ele é ter o mesmo tratamento e o mesmo destino.
Mas, tudo isso encerra o paradoxo surpreendente “Pois, quem quiser salvar a própria vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”: a verdade se manifesta no seu contrário.
É esta realidade difícil de aceitar, pois, vai à contra mão do sentido, da expectativa, do desejo e da experiência humana. É proceder sabendo e aceitando as inevitáveis “batidas”de quem procede em tal direção... Precisa de muita fé, de boa identificação com Jesus, para se manter, não desviar nem desistir e retroceder.
Jesus sabe da dificuldade de Pedro (e de todos) entender e aceitar a sua mensagem e indica o motivo: o desejo inato do homem de poder, de domínio como realização da existência bem sucedida. Mas revela o engano dele, pois, no fundo se trata de perder irremediavelmente a própria vida. É o paradoxo em sentido contrario daquilo proposto por ele. “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?”.
E alerta que será perder sem possibilidade de resgate “O que poderá alguém dar em troca de sua vida?”. Aqui está a diferença: o perder proposto por ele é para encontrar a vida; o proposto pelos homens é perdê-la definitivamente.
Eis, então, as palavras para selar a bondade e a conveniência de sua proposta “Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”.
Trocar os critérios é questão de fé, de confiança, e em último termo de salvação, de entrar na comunhão com Deus.