terça-feira, 18 de outubro de 2011

30o DOMINGO DO T.C.-A- (23-10-11)

1ª leitura Ex 22,20-26

O texto faz parte das muitas normas que orientam a maneira certa de cumprir as exigências da Aliança. Estrangeiros, viúvas e os órfãos constituem a tríade por antonomásia das pessoas mais expostas à exploração. Elas são as pessoas mais indefensas e mais necessitadas de ajuda para sobreviver e, portanto, as mais vulneráveis a todo tipo de exploração e de chantagem.
Daí a ordem do Senhor “Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito”. A experiência do Egito é mais valida da argumentação para desistir de toda ação maldosa para com as pessoas menos favorecidas. De fato, não há como experimentar na própria pele o sofrimento, a humilhação, os maus tratos físicos, psicológicos e morais, para se sensibilizar devidamente.
Portanto, ativar para com as mesmas a compaixão e a misericórdia, é imitar o Senhor. Pois, se eles clamarem “por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso. - Palavra do Senhor” . É cumprir com as exigências da Aliança.
Dos sofrimentos que os atingem, eles - os estrangeiros, as viúvas e os órfãos - não têm como sair. Não têm a quem pedir ajuda, senão invocar a intervenção do Senhor “Se os maltratardes gritarão por mim e eu ouvirei o seu clamor”. Deus é atento, não distraído nem indiferente o insensível.
Mais ainda, manifesta sua desconformidade com a desconcertante expressão “Minha cólera, então, se inflamará...”. Pois, a participação de Deus aos sofrimentos deles é tão sincera e profunda que gera Nele um estado emocional intenso, veemente - manifestação da enorme indignação - até o ponto de pronunciar uma sentencia duríssima contra eles “... e eu vos matarei de espada: vossas mulheres ficarão viúvas e órfãos os vossos filhos”.
Pelo desrespeito às exigências da Aliança, faltará a eles o amparo, a benção de Deus, única maneira para sustentar e motivar o relacionamento de fraternidade, na observância do direito e da justiça. Com isso, Deus os alerta que se encontrarão na mesma condição daqueles que estão prejudicando sem piedade.
Será como voltar na mesma condição da escravidão do Egito, sinônimo do mal e do pecado. Será como se nunca tivesse acontecido a libertação e a saída do país: de novo morte, viúvas e órfãos...
O Senhor acrescenta mais uma ordem “( ...) não sejas usurário (...). Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque são misericordioso”. A impiedade da usura tira a condição de viver como ser humano. O coração do usurário se endurece como pedra, se desumaniza. E a vítima é desumanizada até o ponto de não ter condição nem de dormir pelo frio.
O texto é de grande atualidade. A exploração dos estrangeiros, a falta de atenção aos fracos, etc. compõem o quadro social bem conhecido.
Com tristeza cabe constatar como a palavra do Senhor permaneça periférica em conformar e sustentar o relacionamento interpessoal e social. As advertências do Senhor caíram como no vazio. O relacionamento com Ele fica esvaziado de sua força transformadora e renovadora. A manifestação da fé nele é só funcional aos próprios projetos, muitas vezes simplesmente egocêntricos. E, portanto, destrói todo o que Deus espera em virtude de sua contínua ação amorosa e do pacto estabelecido no Sinai.
Contudo, a segunda leitura insiste em não desistir do caminho certo.

2da leitura 1Ts 1,5c-10

O apostolo descreve o pano de fundo da vivencia da comunidade, assim como o testemunho dos membros dela. Paulo se dirige aos integrantes da mesma traçando o perfil e a expectativa deles “como vos convertestes, abandonando os falsos deuses, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, esperando dos céus o seu Filho (...): Jesus, que nos livra do castigo que está por vir”.
Eles “acolhendo a palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações”, se tornaram “imitadores nossos e do Senhor (...) e modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia”. Assim, a força do Espírito Santo e a maneira de proceder de Paulo para com eles, deram consistência e firmeza à fé deles, ao ponto do testemunho deles ser reconhecido abertamente “pois, as pessoas mesmas contam como vós nos acolhestes e como vos convertestes”.
Este processo de crescimento e de fortalecimento se dá pela palavra. Devidamente acolhida torna a pessoa capaz de receber o novo e surpreendente da vida, morte e ressurreição de Jesus. Ela da coragem para permanecer no novo, como quem quer compreender e descobrir o que ele traz, por intuir que algo valioso é apresentado.
A esta abertura e coragem é sustentada pelo Mestre interior - o Espírito Santo – quem revela o significado e a importância do que é apresentado e aquece o coração pela beleza, pela profundidade e o sentido do mistério que se faz presente e no qual a pessoa é introduzida e envolvida.
Isso é acompanhado por “tantas tribulações”. O mesmo Paulo da testemunho do que ele teve que sofrer dentro e fora da comunidade, dos perigos e das diferentes e múltiplas dificuldades. É impressionante de como Paulo faz frente a elas com coragem, sofrimento e sem pensar de ficar com um pé atrás. Elas são os que dão consistência e solidez à fé, como o fogo da consistência à cerâmica, para que se consolide para sempre, sem desgaste no decorrer do tempo.
Com certeza, a percepção do destino, do ponto de chegada da vida, da história da humanidade e da criação teve um papel determinante. Pois, a morte e a ressurreição de Cristo foram como uma janela ao respeito.
O evento da Páscoa e a volta de Jesus ao Pai no céu passaram a certeza do retorno dele e do significado último e definitivo da segunda vinda de Jesus Cristo. Eles estão aguardando e “esperando dos céus (...) Jesus, que nos livra do castigo que está por vir”.
O destino e a vinda de Jesus tomaram consistência na consciência deles. Por isso, se “tornarem imitadores nossos - Paulo - e do Senhor”. Portanto, assumir a mesma missão, a mesma pratica de vida, a mesma filosofia da existência, a mesma dinâmica de morte e ressurreição nas diferentes e múltiplas circunstâncias, é condição para perceber a verdade do mesmo destino e o ponto final da história e da criação.
Tudo isso não é fruto do raciocínio, da especulação racional da inteligência humana particularmente dotada, mas a vivencia do amor, como Cristo nos amou.
É a isso que aponta o Evangelho.

Evangelho Mt 22,34-40

Não havia bom relacionamento entre fariseus e saduceus. Os primeiros rigorosos e minuciosos cumpridores da Lei acreditam na ressurreição dos mortos e são tenazes opositores dos invasores romanos. Os saduceus são mais, dizemos assim, liberais. A eles interessa o dinheiro, não lhes importa colaborar com os romanos e não acreditam na ressurreição. Em fim, dois mundos bem diferentes e briguentos, dentro do povo da Aliança.
Portanto, os fariseus “ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus” e, talvez, acharam de encontrar em Jesus um aliado. “Então eles se reuniram em grupo, e um deles perguntou a Jesus para experimentá-lo” com o intento de conferir se podiam confiar nele e agregá-lo ao seu círculo, ser o teólogo e mestre deles.
E colocam para Jesus a pergunta clássica e fundamental “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”. Jesus responde com palavras muito conhecidas também para nós “ ‘Amaras o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda atua alma, e de todo teu entendimento!’Esse é o maior e o primeiro mandamento...”.
Definir este o maior e o primeiro, é estabelecer que o ponto de partida e a nascente é o amor a Ele, como resposta por Ele ter amado primeiro cada pessoa e a humanidade toda “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou seu Filho como vitima de reparação pelos nosso pecados”(1Jo 4,10). Perder esta referencia é partir com o pé errado.
“... O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”. É semelhante porque é parecido, quase igual. Pois, contem elementos e características iguais ou parecidas ao primeiro mandamento. Estabelece-se uma ligação muito forte, mas também a diferença: o primeiro é o centro e o segundo está mai perto ou mai longe, dependendo das características de sua realização. Mas nunca estará no mesmo nível e menos ainda poderá substituí-lo.
Faz pouco tempo tive oportunidade de ler um texto hebraico que apresenta a tradução do segundo mandamento nestes termos “Amarás para o teu próximo como para te mesmo”. E acrescenta “A Lei não pede de amar o próximo, pede de amar para o próximo. Nesta sutil diferença, tal vez, esteja toda a Lei”
Para o autor, “Amarás o Senhor...” se refere só a Deus. Conseqüentemente o texto completo soa assim: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma (...) Amarás para o teu próximo como para te mesmo”. A mudança é notável.Amarás o Senhor porque primeiro ele te amou, como acima. Portanto, a primeira atitude para com Deus é se deixar amar por Ele. É atitude “passiva”, no sentido de ser simplesmente o destinatário e receptor que se deixar envolver com todo o coração com toda alma e com todo o entendimento. Em virtude disso, experimenta-se na e pela fé o amor Dele em termos de remissão dos pecados, do restabelecimento da nova e eterna aliança e de participação à vida eterna, antecipação da glória futura. É o que nos passa a celebração da Eucaristia.
Então, amar o Senhor para o teu próximo não é simplesmente desejar o crescimento humano e espiritual para ele. É torná-lo consciente que o amor para com ele- que está acontecendo por se aproximar conforme ao mandamento de Jesus “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15,12)-, é mesmo amor de Cristo que o envolve e o faz mergulhar no mistério de Deus. Eis, pois, a finalidade “de amar o Senhor... e o amaràs para o teu próximo”: perceber de ser amado por Deus e se motivar para o compromisso evangelizador a favor dos outros.
Esta atitude é, ao mesmo tempo, a maneira de amar a si mesmo “... amarás como para te mesmo”. Com efeito, devolvendo o dom a Deus no amor para o meu próximo, acrescento a comunhão e a intimidade com Deus mesmo, cresço humana e espiritualmente na glória de Deus. O dom recebido é como o sangue que corre nas artérias. Correndo nelas, benéfica as artérias mesmas e o corpo todo simultaneamente. Mais ainda, esta atitude é condição para amar o próximo e a si mesmo simultaneamente, ou seja, para o crescimento humano e espiritual dos dois.
Portanto, “Amarás o Senhor teu Deus...” é colocar Deus como eixo, como ponto de referencia central, pois, ele é caridade. Por outro lado,“Amarás para o teu próximo como para te mesmo” indica que os dois- o próximo e te mesmo- são beneficiados ao mesmo tempo. Assim, Deus permanece Deus e o homem glorificado por e para Ele.
Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.Porque para viver em plenitude cada pessoa precisa amar e ser amado, e vice versa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

29o DOMINGO DO T.C.-A-(16-10-11)

1ª leitura Is 45,1.4-6

Isto diz o Senhor sobre Ciro, seu ungido”. O profeta oferece uma visão retrospectiva, após a libertação do povo do desterro de Babilônia. Foi o rei Ciro quem decretou o retorno do resto do povo à terra natal, libertando-o da escravidão.
O que chama de imediato a atenção é atribuir condição de “ungido” a um rei estrangeiro. Um estrangeiro indicado pelo Senhor como messias, como enviado por ele, ultrapassa toda imaginação e expectativa do povo de Israel.“Tomei-o pela mão”. O Senhor age para com ele como se fosse o próprio familiar, o próprio filho.
Isso mostra a absoluta liberdade e determinação de Deus com respeito aos esquemas preconcebidos em conduzir sua ação salvadora para com o seu povo. Os caminhos Dele são diferentes dos caminhos dos homens, como lembrava a primeira leitura do 25º domingo: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra” (Is 55,8-9).
Ele age com duas finalidades.
A primeira, afirmar sua identidade “ Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus (...). Eu sou o Senhor, não há outro”. E também o senhorio Dele sobre todos os povos “para que todos saibam, de oriente ao ocidente, que fora de mim outro não existe”.
A segunda “Por causa de meu servo Jacó e do meu eleito Israel”. Pela causa da Aliança estabelecida com o povo no Sinai. Com esta atitude, Deus chama o povo para que se conscientize da nova realidade, e entre sintonia com ela.
Ele liberta e reconstrói o seu povo por fidelidade à Aliança, pois a fidelidade faz parte da sua essência profunda.
Ao mesmo tempo chama o povo para que colabore em atingir a meta, a finalidade da Aliança; pois, a universalidade dela e a experiência da salvação que ela traz fazem parte do sentido da unção do rei Ciro. Ele é chamado “ para submeter os povos ao seu domínio, dobrar o orgulho dos reis, abrir todas as portas à sua marcha, e para não deixar trancar os portões”.
A ação do domínio dele sobre os povo é finalizada à integração, á união de todos os povos: abrir as portas e não trancá-las; criar fraternidade e não dividir, separar e dominar. Se essa é a missão conferida por Deus a um rei pagão, mais ainda vale para o povo eleito, constituído pela ação do mesmo rei.
Cabe frisar que o rei Ciro não tem consciência desta eleição, de ser ungido pelo Senhor: “Armei-te guerreiro, sem me reconheceres”. Ele age como rei comum, como rei conquistador dentro dos hábitos e das funções que lhes são próprias. Sua preocupação é a guerra e a vitória.
A eleição como “ungido” do Senhor foge à sua percepção. Contudo, ele se torna o instrumento da vontade de Deus para reerguer o povo de Israel e para testemunhar a abertura universal do Senhor para com todos os povos. “Vossos caminhos não são como os meus caminhos” lembra o profeta acima. Caminhos de desconcertante abertura, coragem; caminhos que trilham a ousadia da criatividade visando as atitudes, as leis que estabelecem a convivência fraternal na justiça e no direito.
As atitudes convenientes que produzem frutos adequados são indicadas na segunda leitura.

2da leitura 1Ts 1,1-5b

Paulo se dirige aos membros da comunidade afirmando que “ o nosso evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo; e isso com toda abundancia”.O termo abundancia remite a quantidade e a qualidade além do necessário, à fartura.
Portanto, eles estão como que mergulhados, submersos no evangelho (como o peixe no mar), na palavra e experimentando a força do Espírito. Palavra e Espírito são as duas mãos de Deus com as quais Ele atua na criação, na história e em cada pessoa. Essencial é abrir a inteligência, o sentimento, o coração e se deixar modelar por estas duas mãos.
Santo Agustinho, tomando exemplo do trabalho do oleiro, dirá que o cristão é modelado pela Palavra e cozido pelo fogo do Espírito, entendendo por este último a firmeza e a tenacidade nas provações e dificuldades. Paulo aponta a três aspectos que qualificam a bondade deste processo:
* “a atuação da vossa fé”. Em primeiro lugar no mundo interior do cristão. A profundidade da palavra e a força do Espírito geram a transformação ontológica, do ser mais intimo e profundo da pessoa, do qual brota todo pensamento, palavra e ação. Com outras palavras, é como se nascesse nele um novo ser purificado dos pecados, restabelecido na aliança e amizade com Deus, preenchido da vida eterna- a comunhão com o Senhor-. Ela se percebe como outra pessoa, renovada e regenerada, capaz de se perdoar suas faltas e pecados e profundamente identificada com Cristo Jesus.
* “o esforço da vossa caridade”. Por caridade não entende, de jeito nenhum, a esmola ou a boa ação. Mas a capacidade de se esvaziar de si mesmo, de colocar em segundo plano os próprios projetos, as próprias idéias etc., para prestar atenção e disponibilizar-se ao que o outro precisa.
O eixo da vida é o outro. Mais exatamente, o que ele precisar para se desenvolver e crescer humana e espiritualmente de maneira que se torne capaz, por sua vez, de repetir a mesma atitude, a mesma dinâmica para com outros. Forma-se como uma espiral que se expande gradativa e qualitativamente envolvendo mais e mais pessoas, e transformando a realidade social nos cânones da justiça e do direito, como expressão do acontecer do reino de Deus.
O “esforço” é necessário para sair de si mesmo e romper o egoísmo, a acomodação, a comodidade que acompanha cada momento a vida de todo ser humano, e desmotiva ou desanima o exercício da caridade, nos termos indicados.
*“firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo”. A esperança está alicerçada em Cristo, dependendo sua consistência do grau de comunhão, de intimidade e de familiaridade com Ele. Daí a certeza de participar do mesmo futuro, do mesmo destino, da gloria de Deus na qual o homem Jesus foi introduzido, e em virtude da qual foi constituído Cristo. A firmeza designa aquela convicção interior consistente e inabalável, que fala mais alto perante de toda duvida e de toda proposta alternativa.
Este testemunho é motivo de agradecimento a Deus por parte de Paulo “Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações”. Agradecimento que se torna louvor pelo cumprimento da promessa de Deus.
Pela comunhão em Cristo, se participa da sabedoria dele, como mostra o evangelho.

Evangelho Mt 22,15-21

Por pare dos fariseus a rejeição de Jesus é firme e determinada, ao ponto de planejar “um plano para apanhar Jesus em alguma palavra”. Eles se aproximam de Jesus com hipocrisia, elogiando sua pessoa e atitudes “Mestre, sabemos (...). Dize-nos, pois, o que pensas: é licito ou não pagar impostos a Cesar?”. Se Jesus responder sim ou não teria caído na armadilha. Com isso, haveria motivo para ser condenado pelas autoridades do povo ou para os invasores romanos.
Em primeiro lugar Jesus evidencia a atitude deles “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?” .Entre parêntesis cabe frisar que a atitude que menos tolera Jesus é a hipocrisia: mostrar o que não é, ou ocultar o que é, com o intento de passar uma imagem que não corresponde à verdadeira estrutura da personalidade.
A resposta de Jesus é muito conhecida: “Daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. A moeda apresentada tendo a inscrição do César pertence a César. Portanto, Jesus indica devolver o que pertence a César e, em virtude disso, tem direito de receber. Jesus vai ao fio lógico das coisas assim como elas se apresentam e são. Ninguém pode negar a verdade e a legitimidade da resposta.
Mas Jesus aproveita e “pega carona” e acrescentando o que ninguém esperava: “e a Deus o que é de Deus”. Os fariseus, pela rigorosa e minuciosa observância da Lei, eram entre aqueles tidos como modelo da vivência religiosa. Eles mesmos se consideravam os primeiros destinatários do reino de Deus, que o esperado Messias devia implantar. Portanto, era forte neles a convicção de pertencer a Deus e de merecer a entrada no Reino.
Eis, então, a cobrança de Jesus de dar Deus o que é de Deus. A continuação o texto anota “Ao ouvirem isso, ficaram maravilhados e, deixando-o, foram- se embora”, sem ulteriores considerações ou explicações. Cabe se perguntar: ficaram maravilhados pela resposta sábia e arguta, que não permitiu alcançar o objetivo deles? Foram embora porque não tinham como replicar?

Foram embora pelo absurdo da colocação de Jesus aos ouvidos deles? Pois, eles com o cumprimento da Lei - de maneira tão rigorosa e minuciosa - estavam devolvendo a Deus o que ele esperava, manifestando a adesão incondicionada à sua vontade. Que maneira mais oportuna e conveniente de “dar a Deus o que é de Deus” senão respeitando até os menores detalhes a Lei que Ele mesmo deu? Que podia mais exigir deles?
Cabe supor que eles ficaram mais convencidos ainda, da distorção da vontade de Deus nas palavras e nas atitudes de Jesus. De fato, não desistiram do propósito de condená-lo, como demonstram os eventos da Páscoa. Tudo isso, apesar Jesus afirmasse que não veio para abolir a Lei, mas para levá-la a sua perfeicção, que ela deve ser cumprida detalhadamente, porque ajuda alcançar o fim pela qual foi promulgada, e assim devolver a Deus o que lhe pertence pela prática da justiça, do direito no horizonte do amor e a vinda do reino. Apesar disso, não conseguiu a confiança deles.
Prevaleu neles, como expressão da fidelidade aDeus, a rigorosa observancia da Lei ao pe da letra. Faltou neles a inteligencia de enxergar o fim da Lei, à qual submeter as normas da mesma. Um perigo não só daqueles tempos, mas também de hoje, ficar no pe da lei do direito canonico o do dogma...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

28o DOMINGO DO T.C.-A-(09-10-11)

1ª leitura Is 25,6-10ª

Naquele dia”. O profeta enxerga o dia futuro do cumprimento da promessa de Deus. Descreve a meta, o ponto de chegada, da historia da humanidade e de cada pessoa. Ter clareza da meta é condição para acreditar na proposta oferecida por Deus, assumir as exigências da Aliança e, assim, entrar no caminho que leva a ela.
A meta é “para todos os povos” indicando o destino universal da proposta e do caminho. Não é só para o povo de Israel, mas para a humanidade toda. Tendo o mesmo destino, se declina a condição de fraternidade, de solidariedade, de união, de familiaridade entre todas as nações e culturas.
Detalhe importante, que já muitos séculos antes da chegada de Cristo eram posto à consideração e reflexão ao povo eleito. Foi eleição não fechada, mas aberta. Ela simplesmente constitui um ponto de partida para chegar a abranger a todos.
Naquele dia” haverá, ou melhor, se completará o processo de transformação. Por um lado “Ele removerá (...) a teia em que tinha envolvido todas as nações (...) eliminará para sempre a morte, e enxugará as lágrimas (...)e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra”. Por outro lado, “O Senhor dos exércitos dará (...) um banquete de ricas iguarias...” significando a nova condição de felicidade e harmonia completa.
Naquele dia” será manifesto como foi bom e conveniente acreditar na palavra e na promessa do Senhor. Aqueles que duvidaram, não deram importância e se afastaram dela ficarão desiludidos e frustrados. Pois, “se dirá: Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou (...), nele temos confiado: vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvado”.
Esperamos nele, até que nos salvou”. Portanto, se o “até” indica “por fim”, cabe pensar que a profecia objetiva sustentar a fé e a esperança do povo provado pelas dificuldades do momento presente. Com efeito, há momentos nos quais parece que Deus abandonou, esqueceu do seu povo, pelo prevalecer da injustiça da maldade, ou seja, todo o contrário da promessa.
São momentos nos quais a teia da maldade, a morte prematura e injusta, as lágrimas e a desonra tomam conta da vida social e pessoal. Surge a pergunta: então há que continuar esperando? A profecia responde que sim, porque “a mão do Senhor repousará sobre este monte”. Está marcada a vitória final “vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvado”. Expressão da vitória será o banquete descrito com imagens de fartura e de qualidade “ricas iguarias, regado de vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos”
Cabe destacar como este mesmo assunto será retomado pelo Ap. 21, 1-7( visita o texto). Quem dará inicio à vitória final é Jesus Cristo. Com o evento da morte e ressurreição Dele, começa a vitória definitiva sobre o mal e o pecado “Eis que eu faço novas todas as coisas (...) Eu sou o Princípio e o Fim”(Ap. 21,5-6) .
Com Ele, e por meio do evento da sua morte e ressurreição, o futuro já se faz presente, já esta ao nosso alcance e é garantia da já participar agora da vitória final. Mais ainda, os acontecimentos da vida presente são assumidos e revestem a presença deste futuro nas escolhas do dia a dia.
Um exemplo é o testemunho de Paulo na segunda leitura.

2da leitura Fl 4,12-14.19-20

Paulo afirma “Irmãos, sei viver na miséria e sei viver na abundancia. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação”. Viver é encarar a vida com sucesso. É acreditar nela de cabeça erguida.
A provação, a dificuldade, o imprevisto, a falta do resultado esperado etc., nos deixam abatidos momentaneamente, mas não são motivos para depressão, para desmoronar. Fazem sofrer, mas não são frustração nem sentimento de derrota. Menos ainda sustentam, tal vez, sem ter consciência disso, a vontade de descontar no outro.
Nos momentos de abundância e de sucesso, saber viver é não cair no sentimento de potência e de autossuficiência, nas atitudes egocêntricas, na acomodação; mas, agradecer a Deus, pois, tudo procede Dele e a Ele é orientado.
O que sustenta uma atitude e outra? “Tudo posso naquele que me dá força”. A capacidade e a determinação de sua atitude têm sua nascente e origem na sua comunhão com Cristo. É desta comunhão que tudo procede. A vontade, o sentimento, o desejo simplesmente humano não conseguiriam, pois elas estão muito condicionadas pela vontade de ter, de possuir, de dominar.
A consciência de estar “em Cristo”, de sua profunda e sincera identidade com Ele se torna força e capacitação para assumir as atitudes convenientes e ser o que Ele é.
Eis, pois, as palavras de agradecimento eterno “Ao nosso Deus e Pai, a gloria pelos séculos dos séculos”, sinal de que valeu se deixar tocar e transformar pelo dom de Deus, no caminho do Damasco.
Manifestação da não auto-suficiência é a aprovação e o agradecimento pela ajuda dos irmãos “No entanto, fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades”. Tudo posso, mas preciso de vocês... Simbiose estupenda que une a força de Deus e a solidariedade dos irmãos: os irmãos ajudam a Deus a se manifestar, e Deus sustenta a generosidade se manifestando através deles.
O dom recebido e transmitido é a expressão do saber viver com sucesso é ao mesmo tempo a oportunidade para experimentar a permanente presença de Deus “O meu Deus proverá esplendidamente, com sua riqueza, a todas vossas necessidades, em Jesus Cristo”.
O contrário de tudo isso é relatado no evangelho

Evangelho Mt 22,1-14

O que aconteceu? Devia ser uma festa para todos indistintamente, e termina com uma sentença tão desconcertante para um convidado “Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão...”.
O convite e a participação era dirigida a todos “ os empregados saíram para o caminho e reuniram todos os que encontraram, maus e bons”. Notável a atitude de não tomar em conta a condição ética deles. Contudo, a todos é pedido participar “usando o traje da festa”.
O convite já é sinal de acolhida, de comunhão, de amizade, independentemente da condição ética. Portanto, o convidado tem que se revestir desta consciência. Pelo convite e pela aceitação dele, é revestido da nova condição e habilitado para participar da festa do rei. Mesmo sendo mal, Deus, através dele, o faz bom e digno do banquete. Eis o conteúdo e motivo da festa!
Para isso, é preciso se revestir desta consciência, desta nova realidade, coisa que o convidado não tomou em consideração nem deu importância. Aceitou o convite, sem perceber ou valorizar o que comportava e, muito menos, suas exigências.
É o que acontece para com muitos com respeito ao convite ao banquete da Eucaristia. Não é difícil a comparação. Muitos se aproximam a ela tendo uma informação insuficiente, superficial ou inconsistente.
Conseqüentemente, não tem condição de se revestir da consciência do valor e do que a Eucaristia vai operar em termos de remissão dos pecados, de restabelecimento da nova e eterna aliança, de participação da vida eterna, como antecipação da glória que se manifestará no fim dos tempos.
Não tem noção do que a Eucaristia vai suscitar nele em ordem à transformação profunda do ser e do crescimento desse mesmo ser nele que, tomando conta de toda a pessoa, o capacita de se perdoar do mal e do pecado, até então tido como invencível.
Portanto, há como uma resignação de quem deve necessariamente compactuar com ele. Pois, é comum o entendimento de que o espírito é forte, mas a carne é fraca, assim como a percepção do contrário, de que a carne é forte e o espírito fraco.
Não tem condição de perceber a importância de acreditar, da fé nessa ação de Deus por meio do Espírito Santo, tão necessária para fazer que o entendimento de acima se torne realidade, se aproprie do dom de Deus e se senta destinatário do presente e participe da glória do mesmo Deus. Eis em que consiste “o traje da festa”.
Faltando este, tal vez, o convidado tenha o traje da obrigação, do costume social, do fazer porque deve ser feito... Mas é absolutamente inadequado. Terminada a “festa” é como se nunca tivesse acontecido. Daí a conseqüência de ser jogado fora e permanecer na escuridão. Não adiantou nada!
Cabe pensar que o convidado se apresentou com a mesma indiferença, desvalorização, superficialidade e desinteresse dos primeiros convidados. Estes “não deram a menor atenção: um foi para o campo, outro para os seus negócios”. Falou mais alto o interesse particular, prevaleceu o egocentrismo.
Este último, desenvolvido até dominar o próprio ser, o pensamento, a vontade e a memória, e se tornando inspirador das escolhas e determinações do dia- a- dia, deu lugar à fúria homicida “outros agarram os empregados, bateram neles e os mataram”, determinando a própria condenação “O rei ficou indignado e mandou sua tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles”.
Deus convida a todos, quer a salvação de todos e a todos oferece a oportunidade de participar do banquete. Contudo, é necessário preferir o convite sobre outras propostas. É condição para participar dele com consciência e respeitando as exigências para que o convite se torne uma verdadeira festa, e não motivo de desgraça.