domingo, 1 de janeiro de 2012

EPIFANIA DO SENHOR -B- (08-01-12)

1ª Leitura Is 60 1-6.

“Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte”. Experiência sumamente gratificante. Gostaríamos de permanecer constantemente nela. Ela motiva o sentido profundo e verdadeiro da existência de todo ser humano. É o que, por diferentes caminhos, todos desejam e buscam.

Notável é o motivo de tão grande e intensa alegria. Ele não é de tipo intimista e individual, mas comunitário e social: “Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando desde longe com tuas filhas, carregadas nos braços”. A agregação de pessoas dispersas que moram longe; de mulheres que enfrentam a viagem com as crianças nos braços, deixa entender, por um lado, o esforço, a fadiga da viagem, e, pelo outro, destaca e valoriza o motivo pelo qual deve-se enfrentar tudo isso.

Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos”. Panorama triste e sombrio, sem horizonte, sem futuro nem esperança. Há momentos na vida individual, familiar ou social que, por diferentes causas, esta condição gera desânimo, pessimismo, depressão e tira todo sentido da vida. Às vezes por culpa própria, outras por circunstâncias alheias à própria responsabilidade. De toda a maneira, são circunstâncias de grande perturbação, de desconcerto e de abalo. A pessoa, ou os envolvido estão no chão, como prostrados.

Contudo, não é a última palavra “porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor (...) a sua glória já se manifesta sobre ti”. Cabe se perguntar: em que consiste a luz? O que é percebido como luz e motiva a reviravolta tão radical? O evento da transformação interior, de maneira que a pessoa assume outros critérios para analisar e avaliar o próprio caminho, permanecendo as complicadas condições de vida?

Uma intuição e projeto com respeito à nova organização da sociedade, em sintonia com as exigências da justiça e do direito, em sintonia com as indicações da aliança? Uma transformação, por parte das autoridades, das condições de vida social no horizonte da fraternidade e da solidariedade? “Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora”

A manifestação da glória do Senhor vai nessa linha, mesmo o texto não explicita claramente sobre isto. Por outro lado, que glória seria se os homens continuassem oprimidos, desrespeitados, humilhados, sem enxergar em si mesmo novos horizontes de resgate? Que motivo teriam para enfrentar as dificuldades da viagem, o risco presente em deixar uma realidade para ir ao encontro com outra, se esta última não oferece proposta e garantia de maior realização e de um futuro bem sucedido?

Tal vez a luz seja as duas realidades juntas, pois elas são como as duas pernas do novo caminhar De fato, “todos se reuniram e vieram a ti”. Daí a alegria e o júbilo, pois, ficarás radiante e com o coração batendo forte. Mais ainda, constatando que com eles chegarão outros povos, outras nações, com suas riquezas “pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações” .

Esta luz, o poder da glória de Deus atrairá povos que nem conhecem, além-mar, indicando a universalidade da ação de deus que por meio do testemunho do povo libertado e renovado convoca a todos os povos da terra, e Jerusalém se torna como a capital do novo reino.

O efeito será “uma inundação de camelos e dromedários... virão todos trazendo ouro incenso e proclamando a glória do Senhor”, ou seja, a experiência da harmonia e da paz universal. Assim, a fraternidade, a solidariedade, será o sinal da presença da glória do Senhor que motivará a partilha dos bens materiais- o ouro- e o correto louvor a Deus- o incenso-, na celebração da liturgia da vida.

A luz e a glória de Deus que já brilha sobre nós, têm o conteúdo indicado na 2ª leitura.

2ª leitura Ef 3,2-3ª.5-6.

“Se ao menos soubésseis” É desejo profundo do coração de são Paulo que os destinatários da carta adquiram o conhecimento que ele estima. De grande importância e imprescindível para o alicerce e o fundamento do autêntico saber, sobre o qual se constrói e experimenta, com ele, a “ graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”.

Assim, o conhecimento é graça, é dom de Deus que motiva o esforço, o trabalho, a instrução, em sintonia com plano de salvação de Deus a favor dos destinatários e, por conseguinte, à humanidade toda.

A dedicação, a teimosia, os sofrimentos, as lutas, os êxitos e os fracassos e, enfim, a morte dele, testemunham como este dom foi acolhido e devolvido a Deus, com a finalidade de fazer conhecer aos homens de todos os lugares que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus cristo, por meio do Evangelho”.

Importante é devolver o dom, para que ele cresça em quem o transmite e em quem o recebe. Concretamente, Paulo, após experimentar a salvação no momento de sua conversão quando estava para entrar em Damasco, assumiu a mesma causa de Cristo a favor da salvação da humanidade toda. Recebeu o dom e de imediato sentiu a urgência de passá-lo a outros.

Consequentemente se dedicou em derrubar todo tipo de barreira, implantando os critérios da verdadeira fraternidade, sustentado pelo significado e o efeito da morte e ressurreição de Jesus Cristo. No mesmo efeito são mergulhados todos aqueles que, pela fé, aceitam este presente por meio de Evangelho, ou seja, do evento da sexta- feira Santa e do domingo da ressurreição.

Ele, o evento, é a boa noticia do resgate e da redenção que se tornou boa realidade. Assim, a pregação, a aceitação, a memória- celebração daquele evento atualiza os mesmos efeitos e faz as pessoas partícipes da herança, do mesmo corpo e da mesma promessa.

Mais ainda, tudo isso constitui o que Paulo chama de mistério, manifestado a ele “por revelação tive conhecimento do mistério... (que) Deus acaba de revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas”. Ele teve conhecimento disso na porta de Damasco, quando a luz do mistério o envolveu. Assim, que quando Paulo fala de mistério, não entende, em primeiro lugar, uma realidade desconhecida e inacessível que fica tal, mas o evento pelo qual de forma misteriosa a pessoa é envolvida, iluminada e transformada, e faz da causa de Cristo a própria causa de vida.

Isso se deve à ação do Espírito, a eterna presença do Ressuscitado em nós. Ele revela a presença do Ressuscitado na pessoa de coração aberto. Este, consciente das próprias faltas e pecados, com humildade e gratidão, aceita o presente da própria redenção, do próprio resgate, ou seja, do perdão dos pecados, do resgate da aliança e da comunhão com Deus, pelo que Cristo fez e atualiza para ele.

Estas pessoas são os santos, não em sentido ético, mas porque são renovados, transformados na profundidade, na estrutura do próprio ser. Para usar uma comparação, são como a pessoa refeita, sarada e renovada, após sofrer o atropelamento esmagador e sem possibilidade de concerto. É o que acontece na celebração da Missa... Ela é sempre a mesma... Mas o efeito é sempre novo.

Para chegar a essa interiorização, para botar para dentro no coração a verdade deste dom, é preciso o caminho sintetizado pela experiência dos magos, como comentaremos no evangelho.

Evangelho Mt 2, 1-12

O texto apresenta estes misteriosos personagens - genericamente indicados como magos, sábios , sem especificar a origem de onde vem e sem relatar o que a experiência deles trouxe e significou para os povos de origem quando “retornaram para a sua terra”. Cabe pensar que o texto quer destacar simplesmente o motivo e as características do caminho deles.

O motivo: “Nós vimos a sua estrela de Oriente e viemos adorá-lo” A percepção de um sinal, interpretado como revelador da grandeza e importância do nascimento de um menino, suscita a determinação de chegar até ele e manifestar a própria atitude de adoração. Que descobriram, mais concretamente, naquele sinal - a estrela- não é dito. Deve ter sido algo muito forte para motivar numa viagem tão singular. Tal vez, o texto seja como uma parábola, mais que um evento real, pretendendo passar a mensagem que aquele menino é luz e ímã para todas as nações indistintamente.

De fato, hoje a estrela é a Ressurreição de Jesus. É sábio, portanto, investir na viagem para chegar perto dele, experimentar a sua presença e adorá-lo. Trata-se de viagem por caminhos desconhecidos e inexplorados. Portanto, a estrela é sinal de promessa, de algo inédito, de esperança, que suscita a coragem de arriscar na certeza que levará a bom fim, ao encontro com aquele que é preciso adorar.

Caminho andando, no meio da viagem, a estrela desaparece. Não há registro de desconcerto, de pânico, de sentimento de frustração, de decepção, de vontade de desistir ou de voltar atrás. (Isso é particularmente significativo para a nossa caminhada. Quantas vezes, dificuldades, provações de todo tipo motivam- erroneamente- a desistência ou o desvio do caminho).

Pelo contrário perguntam a quem supõem pode dar uma indicação: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” Receberão a resposta certa e, ao mesmo tempo, mexerão involuntariamente com uma situação que desembocará na matança de inocentes. Terrível e inexplicável contradição: êxito por uns- os magos- e morte prematura e injusta para outros ( este último aspecto é fruto da ambiguidade humana e da falsidade do governante. Quando se associam poder e medo o resultado é a matança dos inocentes...). É algo desconcertante, difícil de entender.

Contudo, a persistência, a perseverança e, sobretudo, a determinação são premiadas “Depois... eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”. E não era para menos, evidentemente. Chegaram à meta! Valeu. Tributaram-lhe a homenagem “e lhe ofereceram ouro (para o rei), incenso (para o Deus) e mirra (é a bebida da paixão, antes de morrer na cruz)”.

Todo cristão consciente pode se espelhar no caminho destes misteriosos personagens - os magos -, assim como todo homem de boa vontade na procura do sentido último e verdadeiro da existência.

Na luz, na estrela, da morte e ressurreição há o DNA da convivência entre os povos e as diferentes etnias e a manifestação da autêntica expressão religiosa que motiva e sustenta a comunhão, a fraternidade universal, no respeito das diversidades.

O futuro de Deus se faz presente nesta festa universal, o acontecer do reino que tem como seu eixo a pessoa de Cristo ressuscitado. Com efeito, é tradição que nesta festa a igreja anuncie a data da Páscoa de Ressurreição.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

SANTA MÃE DE DEUS, MARIA-B- (01-01-12)

1ª leitura Nm 6,22-27

Deus ordena explicitamente a “Aarão e seus filhos” que abençoem os filhos de Israel. Trata-se de invocar o nome Dele sobre o povo. Invocar é chamar a Deus em auxílio, suplicar proteção.

Deus por sua livre iniciativa estreitou a Aliança com o povo, após o ter libertado da escravidão do Egito. Em virtude da aliança, o conduz rumo à terra prometida, para fazer dele um sinal perante todos os povos da terra. O povo é escolhido para a missão de testemunhar com o cumprimento das exigências da Aliança e com o estilo de vida de fraternidade, de solidariedade, de união na prática do direito e da justiça e, desta forma, manifestar Deus como o próprio Rei. A qualidade do testemunho será motivo para a adesão dos povos da terra ao Deus de Israel e assim, acontecer o senhorio de Deus para com toda a humanidade.

Apesar de este bom propósito ter motivado a livre e entusiasta adesão do povo com a renovação da Aliança em Siquem, antes de entrar na terra prometida, Deus sabe da fragilidade do povo.

É um povo de cabeça dura, que não quer entender, que confia parcialmente e só na medida em que responde aos critérios e expectativas dele. Aspectos e obstáculos que levam ao fracasso do bom propósito.

Portanto, é preciso estabelecer momentos específicos. A benção é um destes momentos. Chamar a Deus em auxílio e suplicar proteção é para lembrar ao povo que Ele está presente, não esquece a promessa, menos ainda os abandona, pelo contrário, Ele é fiel. Para que, assim, revigorado e fortalecido na confiança o povo persista no caminho, na prática da Aliança e não desista do objetivo da missão.

Com efeito, a benção “O Senhor te abençoe e te guarde” mostra a finalidade, motivada pela compaixão de Deus para com o seu povo e suscitada pela invocação, como proteção e cuidado para não perder a confiança Nele e remotivar o caminho. É expressão do amor do pai para com os filhos. Não é este mesmo o significado de pedir a benção do pai e da mãe na experiência de todos os dias?

Ela consiste em se manifestar “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face (...) volte para ti o seu rosto”. Voltar o rosto para o povo e manifestar a face é próprio de quem deseja dar-se a conhecer e oferecer o melhor de sua pessoa, com a surpresa de passar a riqueza, a profundidade e todo o positivo que pode transmitir.

É atitude de grande consideração, voltada a estabelecer comunhão e familiaridade, a suscitar acolhimento e resposta positiva, para consolidar e reforçar cada vez mais o relacionamento.

Um relacionamento que por ser resposta de Deus à fragilidade e à fraqueza humana, confere consistência e força para estabelecer com inteligência e criatividade as condições para o reino de Deus acontecer.

“Volte para ti o seu rosto e te dê a paz”. Desta forma é atingido o mundo interior e incentiva a vivência comunitária, a sociedade, a humanidade toda ser construtora da harmonia e da paz.

O rosto e a face brilhante de Deus se manifestaram na pessoa humana de Jesus, como frisado pela segunda leitura.

2ª leitura Gl 4,4-7

“Quando se completou o tempo previsto” Trata-se do momento estabelecido por Deus, como algo que foi algo pensado com anterioridade e chegou o tempo previsto. Portando, corresponde a um projeto que ao longo do tempo foi se desenvolvendo e chegou o momento de acontecer.

“Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei”. O menino nascido em Belém é verdadeiro homem, como todo ser humano que nasce da mulher, nada mais, nada menos. Portanto, não é certa toda afirmação que, em virtude de ser Deus em forma humana, diminuem todo o que se refere à humanidade em função das vantagens da condição divina. Mais ainda, é homem como todo membro do povo de Israel sujeito à lei por ser descendente de Abrão e sujeito às Leis da aliança. Não lhe falta nada.

(Entre parêntesis, houve por mais de quatrocentos anos polêmica ao respeito, até que no Concílio celebrado em Calcedônia definiu-se que da pessoa de Cristo não pode ser tirado nada que diminui o humano e o divino, mesmo permanecendo desconhecidas como as duas realidades se relacionam entre elas na pessoa de Jesus).

O motivo do envio do Filho foi para “resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação divina (...) tudo isso por graça de Deus”. Da citação completa podemos tirar uma série de elementos que configuram o conteúdo da benção trazida por Jesus:

- O resgate da Lei, sendo que a maneira de ser interpretada e atuada(cumprida) desviou do fim para o qual foi promulgada. A tentativa de recolocá-la nos trilhos custou a Jesus a morte. Contudo sendo que o fez por amor ao povo e fidelidade à verdade, essa morte se tornou ressurreição.

- Por ter assumido a condição do pecador ele, que não tinha pecado, e, em virtude disso, se constituiu como representante de toda a humanidade de todos os tempos perante o Pai. Com sua morte e ressurreição não só nos resgatou da lei, nos libertou da escravidão e da morte, mas, nos passou a condição de justos perante do Pai. E, com isso, a participação à vida divina na condição de filhos adotivos. Filhos por ter aceitado e acreditado o dom do representante

- Pelo voto de confiança, “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!”. Pois, na condição de filhos o Espírito conforma a consciência em sintonia com a nova realidade pela qual se torna espontâneo e certo se dirigir a Deus com o termo afetuoso de Pai.

- É uma mudança radical de perspectiva: da condição de pecador, escravo e excluído à de filho, partícipe da vida de Deus, do reino e herdeiro da glória de Deus “Assim, já não és escravo, mas filho; e se és filho também herdeiro”.

Perceber tudo isso, interiorizando e acreditando a nova condição, se manifesta no comportamento indicado pelas bem-aventuranças, e pela reinterpretação ousada e criativa dos mandamentos na ótica do amor ensinado por Jesus.

-“tudo isso por graça de Deus”, por Deus revelar o seu rosto e brilhar a sua face, motivando e sustentando atitudes e comportamentos de paz de forma gratuita, visando unicamente o bem das pessoas e da humanidade.

É o que aconteceu nos pastores e em Maria; deveria acontecer em todo cristão consciente.

Evangelho Lc 2,16-21

Os pastores, cuja condição ético-social foi comentada o domingo passado, “foram às pressas a Belém”. Apesar de todos os pesares foram decididos, sem demorar(sinal da pronta aceitação do anuncio e do convite do anjo). Portanto, a mesma determinação deve marcar a aproximação ao Senhor de todos, seja qual for a condição pessoal, sustentados pelo anúncio e a esperança de libertação, ou seja, do salto qualitativo da existência.

Eles “contaram o que lhes fora dito sobre o menino. E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam”. Devem ter passado informação e a experiência do que aconteceu para com eles com tal força e convicção que todos ficaram maravilhados e contagiados pelo evento.

Esta ação e atitude missionária suscitaram duas reações complementares, mesmo se referindo a dois sujeitos diferentes, qual Maria e os mesmos pastores. Maria “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Sendo que Maria representa a toda humanidade, a atitude de meditar envolvendo o mais profundo do ser e a pessoa, deve se tornar a mesma de toda pessoa atenta à mensagem e ao testemunho transmitido.

Os eventos com os quais Deus se manifesta são de tal profundidade e importância que precisam ser guardados e meditados porque constituem um patrimônio indispensável para o caminho bem sucedido.

Voltar com lucidez e inteligência ao conteúdo deste patrimônio, nos momentos qualificados da própria caminhada que marcam para sempre um antes e um depois, é garantia que a benção do Senhor está presente, acompanha e inspira a resposta e a atitude adequada, além de enriquecer o mesmo patrimônio.

Os pastores “voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito”. Obedecendo ao convite do anjo não ficaram desiludidos, pelo contrário. Devem ter experimentado uma verdadeira e significativa transformação do próprio mundo interior, da imagem deles com eles mesmos, percebendo a ação salvadora, neles, da presença de Deus naquele menino e, por conseguinte, neles mesmos.

A missão exercida por estes pastores: ter acolhido o dom, ter se movido na direção indicado por ele e transmitido o conteúdo dele, assim como o próprio envolvimento, os tornou exultantes de alegria.

Lembrando que eles tinham consciência de serem considerados pecadores públicos e, portanto, com certeza, excluídos do reino de Deus com a chegada do messias, o desenvolvimento da missão foi motivo de resgate, de regeneração, de salvação. Em última análise, a benção é a missão. Com efeito, o dom para se tornar eficaz e aumentar sua forca e poder deve ser transmitido. Assim a missão abrange o começo, o desenvolvimento e a meta da ação de Deus. É o processo, de salvação.

“Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus”. O nome de Jesus significa Salvador, cuja ação já se fez presente nos pastores e no coração de Maria, como antecipação do evento determinante e decisivo ao respeito de sua morte e ressurreição.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

NATAL DO SENHOR 2011

1ª leitura Is 9,1-6

Na noite de Natal, momento de união familiar, de harmonia e paz, de festa; caem como um meteorito as palavras “tu os abateste como na jornada de Madiã. Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas”. O dia de Madiã se refere à grande e desconcertante evento da vitória de poucos homens contra um exército tido como invencível, que teria destruído Israel.
A “tropa de assalto”, um punhado de homens animados e sustentados pela promessa do Senhor, passa a imagem de pessoas determinadas que agem com convicção, apesar da desproporção de forças. Os “Trajes manchados de sangue” indicam a intensidade e violência da batalha, além de toda previsão. Com efeito, foi um massacre. Um quadro totalmente diferente do que se espera no dia de Natal, tal vez porque preanuncia a missão e o destino do menino que nasce em Belém.
A vitória sobre os inimigos é evento de libertação da escravidão da violência e da opressão “O jugo que oprimia o povo, -a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais- tu os abatestes como na jornada de Madiã”.
A condição de opressão e escravidão do povo é percebida como imersão na escuridão e nas sombras da morte “O povo que andava na escuridão (...) que habitavam nas sombras da morte”. Sobre este povo “Uma grande luz (...) uma luz resplendeceu”: a libertação e com ela a condição de resgatar à dignidade uma existência diminuída e humilhada.
Botas e trajes manchados de sangue “tudo será queimado e devorado pelas chamas” como se não tivesse que deixar rastro do acontecido, como se o fogo engolisse para sempre a violência e a guerra, como se todo o mal tivesse que desaparecer da face da terra.
O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar estas coisas”. No evento de Madiã por meio de poucos homens. Mais na frente, por meio do menino cujo nascimento é anunciado “nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho”, juntamente ao ponto dramático da missão e sua trágica conclusão, para conseguir a libertação e salvação do povo.
Pois, o menino deverá enfrentar corajosamente a luta para quebrar o “jugo” da injustiça, a carga da distorção da Aliança para a vantagem dos poderosos e chefes do povo, para destruir “a carga sobre os ombros” e implantar a nova ordem social ma justiça e no direito com a chegada do reino de Deus queimando “o orgulho dos fiscais”. A luta extrema será na cruz, na qual o menino, já adulto, será afogado em seu próprio sangue.
O menino “traz aos ombros a marca da realeza”. Realeza bem diferente daquela que estamos acostumados considerar. É aquela da entrega da própria vida pela causa da justiça, da fraternidade universal. É a realeza do amor pela qual Deus oferece as condições para que todos experimentem a salvação, visibilizando-a no acontecer do reino de Deus. Então “a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi (...) a partir de agora e para todo o sempre”.
Nesta perspectiva ao menino são atribuídas as qualidades de “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz”. Ele será o guia certo para implantar e consolidar a verdadeira fraternidade entre os homens, de maneira tal que o dom de si mesmo para o bem do outro no horizonte da justiça e do direito se trone, ao mesmo tempo, a plena realização de si mesmo.
O respeito e a solidariedade entre povos e culturas diferentes, no horizonte da fraternidade universal, é o acontecer de maneira corajosa e criativa da justiça e do direito. É o acontecer do reino de Deus como uma espiral em continua expansão, que abrange tudo e todos na dinâmica que será implantada pela morte e ressurreição do menino; dinâmica da vivência de Deus na condição humana, dinâmica da condição do homem assumir para si a condição de divinizado.
Eis, portanto, a passagem da escuridão à luz e seus efeitos “Fizeste crescer a alegria, aumentaste a felicidade”. Os termos crescer e aumentaste indicam o processo de expansão acima indicado. Processo que não terá fim, pois a glória de Deus não é um ponto de chegada, mas uma espiral que não termina nunca.
Todos se regozijam em tua presença, como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos” .É a satisfação de quem recolhe os frutos do comportamento correto e confere que valeu trabalhar o dom oferecido pelo menino, já adulto, com a morte e ressurreição dele.
É o argumento da segunda leitura.

2da leitura Tt 2,11-14

Paulo se dirige ao destinatário “Caríssimo: A graça de Deus se manifestou”.A graça é a pessoa de Jesus, a missão dele e, sobretudo, os efeitos de sua morte e ressurreição. Manifestou-se no sentido de que compareceu no mundo na pessoa do menino nascido em Belém. Ele, dom gratuito - a graça – oferecido indistintamente a toda pessoa traz “salvação para todos os homens”.
A salvação acontece no profundo do ser da pessoa. É neste nível que a pessoa se percebe como um novo sujeito, transformado e regenerado por acolher o dom e acreditar na eficácia dele. Nisto consiste, propriamente, a fé, produto da simultaneidade de dois votos de confiança: na bondade e verdade do oferecido, e acolhimento confiante da eficácia do dom.
Assim, na consciência se forma a imagem de um novo sujeito. Com outras palavras, o ser - a realidade mais intima e profunda da pessoa - se percebe modelado, como faz o oleiro com o barro, como um sujeito ao qual são perdoados os pecados e apresentado como justo perante Deus Pai; no qual é restabelecida a Aliança, que havia quebrado com o pecado, e partícipe da vida de Deus, a vida eterna, como antecipação da plenitude da gloria que se manifestará no fim dos tempos.
A pessoa é mergulhada no mistério de Deus, pois, a fé reproduz nela os efeitos da vitória de Jesus Cristo sobre o mal e o pecado. Cabe especificar, que apesar disso, o mal e o pecado continuarão exercitando a tentação e a sedução deles. A adesão de coração e a consolidação, do dom por meio da Palavra de Deus, dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, sustentam a comunhão, o permanecer nele, ou seja, o acontecer cada dia da salvação e com ela a vitória sobre o mal e o pecado.
Mergulhar no dom, no mistério de Deus, tem uma dimensão propedêutica (preparatória), pois “ Ela - a graça – nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas...”, como se defender e não cair na tentação da descrença e das paixões que destroem a integridade da pessoa. A esta altura o pecado não é invencível, como muito acreditam ser inevitável.
... e a viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade”, três dicas que conformam o retrato da pessoa que vivencia a profunda comunhão com o Senhor. Assim, o grau e a intensidade da vivência é espelho do grau e da intensidade da comunhão com o Senhor, Portanto, é também um teste para conferir, além da vontade, dos sentimentos e das emoções, a consistência e a verdade da comunhão.
Cabe acrescentar que a vivência ética consolida a certeza da vinda do Senhor, por participação do mesmo amor Dele, especialmente quando provada e fortalecida pelas provações e dificuldades e até da mesma cruz, como foi para Jesus. Assim, ética e glória são as duas faces da mesma moeda: o mergulho no mistério de Deus. Portanto, a ética dá sustentação para aguardar “a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”.
Esta verdade confere o sentido último a toda existência, motiva imitar o estilo de vida de Jesus e a fidelidade à missão que confiou a todo cristão. Missão que imitará a dele “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem”. Pois, devolvendo o dom recebido se manifesta a plenitude da comunhão com o Senhor e o acontecer do reino nos discípulos e nas pessoas e nas realidades atingidas pela ação pastoral deles.
O evangelho revela o sentido do nascimento do menino em Belém para toda a humanidade.

Evangelho Lc 2,1-14

Maria deu à luz os eu filho primogênito”. Se não fosse pela morte e ressurreição deste menino já adulto, o nascimento teria passado despercebido. O evento pascal orientou as lâmpadas da humanidade sobre Ele. Foi então que os discípulos entenderam quem verdadeiramente era Jesus.
O humano e o divino na pessoa de Jesus abrem horizontes para nova compreensão de nós mesmo e de toda a criação. Ficando só no aspecto individual, há uma simbiose no sentido de que o mais humano é divino e vice-versa.
Assim, na primeira criação Deus faz a pessoa sua imagem, para que se torne semelhante a Ele. Na segunda criação é o contrário. Com a ressurreição, faz a pessoa semelhante a Ele, para Ele assumir plenamente a maneira humana de ser “tudo em todos” ( 1 Cor 15,28) no novo mundo.
Mais exatamente este processo de divinização da pessoa e da humanização de Deus, começa na pessoa desde sua entrada no mundo, pelo dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e o envolvimento livre e consciente da mesma no estilo de vida e prática correspondente. Assim, a pessoa vai se tornando cada vez mais semelhante a Deus e vice-versa, no sentido indicado acima. Processo que nunca terminará, acredito nem com a vinda do Ressuscitado, porque Deus e a pessoa viverão para sempre, contudo, marcará o momento da constituição última e definitiva, sem possibilidade de retorno ou de desviar.
Cabe se perguntar se “a glória do Senhor” que envolveu os pastores em luz, tem a ver com a percepção deste projeto. Os pastores se considerando, pela teologia de então elaborada pela instituição, excluídos do reino por levarem os rebanhos sobre pastos alheios (E, portanto, ladrões sem possibilidade de devolver o prejuízo mais o 25%, condição para ser perdoados) “ficaram com muito medo”. E não era para menos: de excluído a incluídos ao sumo grau, sem entender o porquê e o como.
Como por Maria, o anjo intervém “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria (...) nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”. Tal vez seja um detalhe importante que o anjo não se refere ao homem Jesus, filho de Maria, mas a Cristo Senhor, o titulo que compete ao Ressuscitado.
Apesar da surpresa e do medo os pastores se dirigem à cidade de Davi e se aproximam ao sinal indicado pelo anjo “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Um encontro muito humano de familiaridade de e de ternura.
Então irrompe o divino “E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste”. Acontecimento ao mesmo tempo humano e divino. Revelação inesperada e de repente, não acompanhada pelo medo por parte doa pastores, mas envolvidos na percepção que os homens são amados por Deus.
Em primeiro lugares eles, os excluídos, os já condenados pela teologia oficial, e todos indistintamente que acolherão o convite de se aproximar ao Salvador e se deixar transformar pela morte e ressurreição dele.
Assim que a “glória a Deus no mais alto do céu e a paz na terra”, cantada pela multidão da corte celeste, se torne a realidade da nova criação, reunindo a glória a Deus e a paz na terra na prática do amor que o Salvador ensinou “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. (Jo15,12).

FELIZ NATAL
e
PROSPERO ANO NOVO

COM MUITA BENÇÃO DE DEUS