terça-feira, 21 de agosto de 2012

21ro DOMINGO DO T.C.-B- (26-08-12)

1a leitura Gs 24, 1-2.15-17.18

Acabado o caminho no deserto, passado o rio Jordao, o povo d’Israel entra na terra prometida. Chega à terra que Deus prometeu, cumprindo a promessa feita com a saída do Egito. Libertado da escravidão do poder opressor e instruído pela Aliança, o povo deverá organizar a nova sociedade, conforme a Lei recebida por Moises no Sinai, implantando a justiça e o direito. Isso não só para o próprio bem, mas para ser referência e modelo para os outros povos da terra.

Antes de tomar posse “Josuè convocou a Siquém todas as tribos de Israel, seus anciãos, seus chefes, seus juizes e seus oficiais” para renovar a Aliança do Sinai. Momento marcante da identidade do povo, pois determina sua fisionomia, o caminho, a missão e o destino. Josué coloca perante dele a alternativa “ se vos desagrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem serviram os vosso pais além do rio, se aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais”.

Pois as múltiplas infidelidades do povo na caminhada no deserto levam Josué a esta solene celebração da Aliança. Os amorreus com sua cultura e seus deuses com certeza exercerão fascínio e atração sobre o povo. Consciente, pela experiência do deserto, da fraqueza e inconsistência do povo na confiança no Senhor, Josuè estabelece que o povo renove o compromisso da aliança com plena consciência e liberdade.

Quer conferir se a experiência do deserto e a chegada à terra prometida consolidaram, deram firmeza à confiança deles no Senhor. Por parte dele, nao te duvida nem insegurança “quanto a mim, eu e minha casa serviremos o Senhor”.

O povo responde manifestando sua determinação “Longe de nòs abandonarmos o Senhor para servir outros deuses”. Ela é sustentada pela leitura dos eventos da libertaçao do Egito, da caminhada no deserto e do cumprimento da promessa, constatando a presença do senhor no meio dele “O Senhor (…) nos tirou, a nòs e a nossos pais, da terra do Egito (…) operou maravilhosos prodígios e guardou-nos ao longo de todo o caminho que percorremos”. A conclusão é “ Nós tambem, nós serviremos o Senhor, porque ele é o nosso Deus “.

O trecho ensina como fazer memória de Deus e lembrar os eventos históricos da intervenção de Deus, de sua ação com “mão forte e braço extendido”. O credo do povo recolhe os eventos, as ações de Deus no transcurso da história. Eventos de libertaçao, de misericórdia, de perdão etc., pois, falar de Deus é relatar suas ações, sua bondade e eficácia.

Contrariamente ao nosso credo, que rezamos na Missa, caracterizado por conceitos, ideias, aprofundamentos intelectual com respeito às qualidades pessoais de Deus, a sua essência, a Trindade, a Igreja, no intento de desvendar o que puder sobre o mistério Dele, com linguagem de dificil compreensão, se não tiver alguma preparação de ordem filosófico e teológico.

Esta diferença afastou o povo da refelxão teológica, tida como competência de pessoas especialmente dedicadas a ela. O povo se acha incapacitado, despreparado para elaborar a compreensão adequada de Deus, de sua ação nos eventos e na história.

Jesus procurará derrubar este obstáculo. Exortará a multidão a discernir nos eventos do dia – a – dia a presença do Messias, observando com atenção o que está acontecendo, assim como sabem observar e discernir no aspecto do céu e da terra se haverá chuva ou calor. Reprenderá a eles “Hipocritas! Sabeis discernir o aspecto do céu e da terra: como é que neste tempo nao sabeis discerni-lo? E porque nao julgais por vós mesmos o que é justo?”(Lc 12,54-57).

A repreensão vale também para nós. O horizonte do discernimento é a lei e a filosofia do amor que ele istaurou, movido pela compaixão e a misericórdia, cuja finalidade - a vida em abundancia, a terra prometida - será alcançada por praticar a mesma dinâmica dele.

O que seria isso aplicado ao relacionamento esposo - esposa é o conteúdo da segunda leitura.

2da leitura Ef 5,21-32

Paulo coloca como pano de fundo da reflexão o temor de Cristo “Sujetai-vos uns aos outros no temor de Cristo”. O “ temor de Cristo” tem a ver com a grandeza e profundidade da pessoa de Jesus manifestada com a sua resurreição. Perceber o crucificado sentado na glória, à direita do Pai é participar duma experiência que deixa aterrado, quite.

Mas também, ter ciência interior que aquele evento manifesta a justificação dele e de toda a humanidade perante o Pai. Ter a certeza do perdão dos pecados, da nova e eterna aliança e, já aqui na terra, da participação na vida eterna, como penhor da herança e entrada no reino, com a última e definitiva intervenção de Deus Pai, quando Ele será “tudo em todos”( 1 Cor 15,28), suscita um sentimento de imenso amor e gratidão.

Trata-se, evidentemente, de sua conversão pessoal, a entrada d a cidade de Damasco, quatro, cinco, anos após a morte e ressurreição de Jesus. Esta experiência suscitou nele o temor reverencial, por ter percebido a grandeza do mistério de Deus e o imenso amor para come ele e com todos. Consequentemente, o agir dele - eis o temor reverencial - é de quem determina viver em total sintonia com a dinâmica do amor, pela qual se sentiu amado, procurando não desagradar o amado até nos mínimos detalhes.

É a mesma característica de todo relacionamento sincero e autêntico entre amante e amada. Então, o apóstolo transfere isso para o relacionamento marido – esposa “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor”.Com certeza, pela sensibilidade de hoje o termo “submissa” não soa bem. Demais abusos pretenderam encontrar nesta palavra justificação de atitudes que nada tem a ver com o temor de Cristo e , menos ainda, com o Evangelho .

A impressão negativa do termo, aplicado ao relacionamento Cristo-Igreja, em paralelo ao mulher-marido, é desmanchada por se tratar de submissão no amor, cujo efeito é o contrário de todo abuso e maldade. O apóstolo especifica “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”, pois, não tem amor maior de quem doa a vida pela pessoa amada.

De fato a entrega tem a finalidade “para santificà-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irreprensível”. A submissão , encaixada no “temor de Cristo” é, neste contexto e para essa finalidade , resposta ao amor no qual se sente amada.

Merece destaque a ação e eficácia da palavra no processo de santificação, purificação e glorificação. Assim, em todo o processo, central é a submissão dos dois à Palavra. Esta condição é absolutamente necessária para que seja bem sucedido o desenvolvimento no amor entre eles. Assim, “o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois constituirão uma só carne” irà se consolidando o que nao será possìvel nem conveniente separar, pois , a força e consistência do amor os une para sempre.

“Este misterio é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e a Igreja”. Para o apóstolo, mistério é a imersão - como o peixe no oceano - nos efeitos da morte e resurreiçao de Cristo, que cria na mulher e no marido as condições para vivenciar o mesmo amor pelo qual Cristo continua se doando a Igreja pelos efeitos já mencionados.

O que Cristo realizou no evento pascal a favor da Igreja e da humanidade, o atualiza no relacionamento marido – mulher, se estas confiam plenamente na Palavra. De fato, o micro e o macro participam da mesma realidade.

Desta maneira, o corpo santificado se torna elemento de união, meio de comunicação e manifestação do amor “Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo.Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo”. Portanto, o amor para o outro sustentado pela Palavra é, ao mesmo tempo, amor para si mesmo que alimenta e cura “como Cristo faz a sua Igreja, porque somos membros do seu corpo”.

Deste ponto de vista se comprende a profundidade e carcterística do matrimônio cristão, como patrimônio a ser valorizado. Parece - me que a pastoral de preparação ao matrimônio dos noivos está muito aquém deste objetivo.

Colocar a Palavra no eixo da roda da própria existência e manter fé nela é vencer as dificuldades que o Evangelho evidencia.

Evangelho Jo 6,60-69

Continuando o texto do domingo passado, o evangelista registra as reações dos ouvintes surpreendidos pelas afirmaçoes de Jesus. Disseram “Isto é muito duro! Quem o pode admitir?” . O desconcerto atinge não só os Judeus, mas os mesmos discípulos, os seguidores de Jesus, abalados na confiança pela afirmações pesadas de compreender e aceitar.

Jesus percebe tê-los abalado e pergunta “Isso vos escandaliza?”. Pela Lei é abominação beber o sangue, além de não entender como pudesse dar a comer o próprio corpo. Como escutar convites contrários a Lei?

Jesus não explica o como nem porque ultrapassa a Lei. Coloca para eles três aspectos: ele como Filho do Homem que saído do Pai volta a ele “Que serà, quando virdes o Filho do Homem voltar para onde ele estava antes?”; a açao do Espírito que vivifica contido na palavra dele “O espìrito é que vivifica. As palava que vos tenho dito são espírito e vida”; a atração do Pai para o Filho “Ninguem pode vir a mim, se por meu Pai nao lhe for concedido”. Manifesta sua união com o Pai no Espírito. Assim, o que pede a eles é simplesmente a confiança na sua pessoa e na Palavra.

Contudo, é exatamente esta última que falta “Desde então, muitos dos seus discipulos se retiraram e já não andavam come ele”. Jesus percebe a desconfiança dos Doze e afirma “Quereis vós tambem retirar-vos?”. Pergunta desconcertante que evidencia a radical solidão de Jesus com respeito aos doze por ele mesmo escolhidos. É desconcertante e impressionante como Jesus se dispõe se separar deles, em nome da verdade e ficar na solidão, para depois recomeçar tudo de novo. Com certeza, nunca teria desistido da missão.

Do ponto de vista humano é uma situação assustadora. A comunhão firme e forte é com o Pai no Espírito, mediada pela paixão pela verdade, ùnico caminho de salvação para ele e a humanidade e expressão do autêntico amor.

Paradoxalmente, o relacionamento de Jesus com os Doze no amor se reveste de solidão. Assim, a solidão é parte costitutiva da dinâmica da missão. É um aspecto que merece muita atenção por parte de cada discípulo consciente. Mais dramática ainda será a solidão com o Pai, na sexta feira Santa. Também aí não desiste, não volta atrás, pois o que o sustenta é a certeza da fidelidade do Pai à promessa, na qual confia plenamente.

Os Doze, chegados no fundo do poço, o Espírito faz brilhar como uma luz. Pedro em nome deles afirma “Senhor, a quem iremos nós? Tu tens as palava da vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu ès o Santo de Deus!”.

Contudo, esta afirmação conhecerà a humilhaçao da sexta-feira santa. Mas tambem significa que seguir sinceramente Jesus, mesmo nos limites de compreensão e atitudes, haverà a luz interior do Espírito para vencer a dificuldade de momentos particularmente intrigados e complexos. Perece-me esta experiência realidade comum de todo cristão, como também aquela humilhaçao da sexta-feira santa. O que prevalece e vence é o dom da promessa : a graça.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ASSUNÇAO DE NOSSA SENHORA -B- (19-08-12)

1ª leitura Ap 11,19ª; 12,1.3-6ª.10ab

É a festa da glorificação de Maria, da participação na glória de Deus com o próprio corpo. A tradição da Igreja enxerga na “mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” a imagem de Nossa Senhora. Certo, também, é que a mulher simboliza o povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Com efeito, a mulher e o povo são vítimas das perseguições indicadas pelo texto. Entretanto, os textos que se referem ao povo de Deus, à Igreja, podem ser aplicados à Maria, enquanto o verdadeiro mistério dessa se insere no mistério da Igreja, ao mesmo tempo que o ilumina.

Abriu-se (...) e apareceu no Templo a arca da aliança”. A arca da aliança é uma caixa dourada, especialmente construída e contem os sinais da aliança de Deus para com o povo, quais as tábuas da Lei, o cajado de Moisés, etc. Agora, a nova arca da aliança é Maria. De fato, ela leva no seio e traz para a humanidade o artífice único e fundamental da aliança nova e eterna: o filho Jesus. Pois, “ela deu a luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro”.

Desde antes de nascer o filho, se trava a luta entre o mesmo, a mulher e os opositores. Estes últimos têm uma força muito grande e poderosa comparada a do Dragão. O motivo é o governo do mundo inteiro “Então apareceu (...) um grande Dragão, cor de fogo. (...) varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra”.

Os opositores percebem o perigo da presença deste nascituro. Já sabem os poderes deste mundo o que significa a adesão das pessoas a Jesus Ressuscitado. Percebem a força subversiva e inovadora da proposta e da filosofia dele. Sabem que Ele vai tirar o poder e força deles sobre os dominados, como indicará o cântico de Maria no Evangelho. Portanto, é uma luta extrema que procura suprimir a Mulher e o nascituro “O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar a luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse”.

O extremamente dramático deste retrato é imagem do que acontecerá à Igreja, à comunidade cristã e a toda pessoa que, tocada pela pessoa de Jesus, determina assumir para valer o caminho dele, se tornando discípulo. Portanto, a mensagem do texto é dirigida ao perseguido de todos os tempos e lugares, que desanimado, provado e assustado pode se desmotivar, achando ter sido enganado e abandonar o caminho.

Eis, então, a última e definitiva intervenção de Deus “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza de Deus, e o poder do seu Cristo. Pois, com sua ação Deus leva o Filho junto dele “e do seu trono” e “A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar”. A ação de Deus é realizada nos termos e com os meios próprios do exercício do poder humano dos opositores, com força, realeza e com o poder do enviado especial.

Portanto, os perseguidos devem saber que, por quanto assustadora e terrível seja a opressão, não será a última palavra com respeito à condição deles. Deus é maior, é o verdadeiro salvador, pois, não serão esquecidos nem abandonados.

O texto pretende ser uma mensagem que motiva a coragem e sustenta a esperança. Tudo isso tem sua fundamentação no evento da ressurreição de Jesus, que constitui propriamente o “poder do seu Cristo”, como indica a segunda leitura.

2da leitura 1Cor 15, 20-27°

Eis a anúncio fundamental, o eixo de toda argumentação e teologia de são Paulo: “Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”. Cristo se manifesta como primícias dos ressuscitados. Ora, se é verdade que às “primícias” segue a colheita, é verdade que à ressurreição de Cristo seguirá a nossa.

Isso se deve ao fato que Jesus é o representante da humanidade de todos os tempos, como o foi Adão no começo da criação. Daí, então, o sentido da afirmação “por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como por Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão”.

É importante fixar na mente e acreditar no coração a verdade do relacionamento representante (Jesus) e representado (a humanidade e as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares). Porque é a certeza dessa verdade o elo que garante e convence da transposição que o acontecido na pessoa de Jesus acontece, objetivamente, na pessoa e na humanidade toda. Assim, representante e representado estão intimo e profundamente unidos na mesma vivencia e no mesmo destino.

Só o voto de confiança nisso permite atualizar os efeitos da morte e ressurreição Dele na comunidade e nas pessoas que celebram a Eucaristia, os demais sacramentos e na prática de vida conseqüente. Evidentemente, tudo isso é realizado misteriosamente e percebido só pela fé. O evento foge e ultrapassa todo raciocínio e experiência humana. Daí, as palavras após a consagração do cálice “Eis o mistério da fé”. Assim, a fé de cada pessoa, e da comunidade, realiza a passagem do efeito objetivo - realizado por Jesus, o representante -, ao efeito subjetivo na pessoa que acredita sincera e firmemente nesse relacionamento.

Portanto, “também em Cristo todos reviverão” não é evento de rotina ou automático, mas atingirá “os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda”. Com certeza, quando Paulo escreveu era iminente a espera da volta do ressuscitado. De todas as maneiras, é certo também que participarão da ressurreição com Cristo os que “pertencem a Cristo” e isso se realiza pela fé que acabo de explicitar. É preciso se manter na fé, mesmo passando pelas provações e abalos indicados na primeira leitura.

Essa realidade é uma situação intermediária, ainda não é o fim, a meta: “A seguir, será o fim, quando ele (Cristo) entregar a realeza de Deus-pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força (...) . O último inimigo a ser destruído é a morte”.Com outras palavras, a meta será a manifestação do momento no qual Deus “será tudo em todos” (1Cor 15,28).

Tocará ao Filho, através da ação dos seus discípulos no mundo inteiro, “destruir todo principado e todo poder e força”. Parece-me que não se trata de uma dimensão sociológica, no sentido de submissão de toda a realidade sócio-humana, pois, ela continuará existindo com as ambigüidades que lhe são próprias até a vinda do ressuscitado. A vitória se manifestará pelo testemunho daqueles que não se dobraram ao principado, poder e força do mundo, que resistiram com coragem e esperança. É neles que Cristo vence e são com eles que entregará todos a Deus Pai.

Será evidente, então, o que o cântico de Maria proclamará no evangelho.

Evangelho Lc 1,39-56

O texto é muito conhecido. Após o “sim” da anunciação “Maria partiu (...) apressadamente a uma cidade da Judéia". A adesão à palavra suscita nela o dinamismo surpreendente, apto para enfrentar uma longa viagem ao encontro da prima Isabel, com o intuito de compartilhar o envolvimento da experiência tão singular e determinante para o futuro do povo, em ordem à realização da promessa de Deus.

Isso diz muito com respeito à qualidade e consistência de nossa adesão para valer à palavra, ao chamado de Deus, muitas vezes, marcada pelo comodismo, pela preguiça, pela indiferença para com as demais pessoas ou por uma fé simplesmente individualista.

Maria foi conferir o que o anjo lhe havia anunciado “Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice”. Também em Isabel o que parecia impossível se tornou realidade. O encontro é motivo para constatar a eficácia da promessa de Deus: a estéril e a virgem se tornam fecundas e mães, para a salvação da humanidade, associadas na única missão, cujos filhos a desenvolverão de maneira diferente. Tudo isso, sob a ação do único Espírito Santo “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.

No encontro com Isabel, Maria é elogiada pela fé, pelo voto de confiança na promessa: “Bem-aventurada àquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Ela colocou a disposição sua pessoa e deixou que Deus operasse nela. A fé e a atitude dela se tornaram patrimônio e possibilidade da humanidade toda e de cada pessoa em particular. É o que gostaríamos todos , vivenciar e experimentar a bem-aventurança que inspirou Maria no cântico atribuído a ela.

O cântico é uma visão retrospectiva que parte da constatação que Deus “Socorreu Israel (...) conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abrão e sua descendência, para sempre”. Ou seja, o que o Senhor prometeu conforme a palavra de Isabel se cumpriu. O cumprimento da promessa se deve que Deus “lembrando-se de sua misericórdia”, orientou seu coração ao resgate da dignidade e da vida do povo, agindo de maneira desconcertante “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias”.

Com isso “mostrou a força de seu braço” não só por reverter uma situação humanamente impossível, mas por dispersar “os soberbos de coração”, ou seja, a arrogância e a prepotência dos que se sentem superiores , privilegiados, e com isso motivados para dominar com o poder e dinheiro.

Nesse agir se manifesta a santidade do nome de Deus, pois ele é expressão da soberania de Deus sobre a verdadeira convivência humana, além das dificuldades e dos múltiples obstáculos e resistências que se apresentarem nas diferentes circunstâncias.

Nesse contexto, Maria encaixa a própria pessoa como a destinatária da bem- aventurança que será reconhecida como tal por “todas as gerações”. Reconhece que Deus “olhou para a humildade de sua serva (...) o Todo- poderoso fez grandes coisas em meu favor”, ou seja, ela mesma. Constata que o ter dado voto de confiança com o próprio “sim” a Deus, foi oportunidade para experimentar nela a ação surpreendente e poderosa de Deus, além de toda expectativa, como Salvador dela e da humanidade.

Tudo isso é motivo, nela, de estupor e de maravilha, manifestados pelas primeiras palavras do cântico: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. É o testemunho da existência bem sucedida, que motiva e anima toda pessoa encontrar nela o modelo de discípula (o) do Senhor, bem sabendo das dores e dos sofrimentos que acompanharam a vida dela, pelo que aconteceu na vida do Filho.

Ela por não desistir nem desconfiar de que a promessa será cumprida - como testemunha da ressurreição do filho - já participa plenamente com o próprio corpo da glória na qual o mesmo Filho está envolvido e preenchido.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

19no DOMINGO DO T,C,-B- (12-08-09)

1ª leitura 1Rs 19,4-8

Após o evento do monte Carmelo no qual desmascarou a os falsos profetas da rainha e determinou a trágica morte deles, o povo ficou aquém às expectativas de Elias, e isso foi motivo de desilusão. Além disso, a rainha jurou vingança determinando a imediata morte dele, obrigando-o fugir ao deserto.

O estado de ânimo de Elias sofreu um duro golpe, como quem depois de ter se esmerado no serviço, percebe que foi inútil e, mais ainda, pôs em própria vida. A reação primária dele é de acabar com tudo e pede a Deus que faça isso “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”.

Elias tem consciência de que os pais, também, sofreram momentos difíceis e provações que os levaram a desconfiar na presença e na promessa do Senhor. Como eles, também Elias, experimenta o que, tal vez, pensava que nunca teria acontecido para com ele. Tendo constatado o contrário, e o poder abalador da provação, até o sentido de viver veio abaixo.

Fugindo para o deserto, determina-se pegar o caminho rumo ao monte Horebe, para onde está se dirigindo. Quer voltar ao ponto onde tudo começou, onde Deus se manifestou e estabeleceu o pacto - a Aliança - para se encontrar com Deus e entender o que está acontecendo com ele e com o povo. Foi como voltar às origens para conferir a própria vocação e o correto desenvolvimento dela.

Neste caminho encontra o sustento do mensageiro de Deus que por duas vezes lhe oferece o alimento e ordena “Levanta-te e come!Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Com isso Deus aprova a ida a Ele, mas também revela que há muito caminho para percorrer, que não alcançará a meta em pouco tempo, como quem diz, não desanime, continue caminhando; garantindo por meio do anjo que não faltará o necessário para chegar.

Já isso é sinal da atenção e benevolência de Deus para com ele. Pode perceber que Deus não o abandonou nem se esqueceu dele. Continuar caminhando, mesmo com a carga de dor e sofrimento já é sinal de recuperação da desconfiança que provocou o abatimento.

“Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus”. Não desistiu no propósito e com a ajuda de Deus chegou à meta.

Não é difícil perceber o valor paradigmático - modelo - da experiência de Elias. Toda pessoa que sincera, autêntica e coerentemente desenvolve a missão que Deus lhe confiou passa por experiências de decepção, de dificuldades e rejeição que nunca teria pensado que acontecessem, e como isso é motivo para experimentar toda a força da tentação de deixar, de abandonar a missão.

O que ensina este trecho é de não se surpreender que isso aconteça, mas de tomar em conta e se preparar ao que vem como conseqüência disso. Com certeza não significa ficar imunizado do desconcerto, do sofrimento e da tentação, mas o fato de não ficar totalmente surpreendido ajuda enfrentar a dificuldade.

Enfrentá-la corretamente quer dizer se voltar ao ponto de partida, onde tudo começou, e reencontrar os pontos fundamentais e a motivação que sustentou a decisão de aceitar a missão. É importante avaliar, também, se o proceder nela foi correto.

Elias seguiu este caminho, sustentado pelo que metaforicamente poderia ser o pão e a bebida necessária: vontade e determinação de se dirigir ao Senhor -pão de vida – e a bebida da retidão ética consigo mesmo.

Tudo isso é sustentado pela presença do Espírito, que inspira e suscita as atitudes convenientes que a segunda leitura mostra.

2da leitura Ef 4,30-5,2

Paulo lembra aos membros da comunidade a singular condição de serem marcados, de uma vez para sempre, pelo selo do Espírito Santo “Não contristeis o Espírito Santo com o qual Deus vos marcou como com um selo para o dia da libertação”. Assim, o evento pascal - cujos efeitos são acolhidos pela fé por parte dos cristãos - os libertou do pecado, estabeleceu uma nova e eterna aliança no sangue de Jesus e os preencheu de vida eterna, da glória de Deus, como antecipação e participação da glória de Deus.

O selo do Espírito é o espaço na mente e no coração dos cristãos que, acolhendo o dom de Jesus cristo, se percebem como outras pessoas renascidas, regeneradas “do alto”. Este espaço e abertura é o selo que pode ser desmanchado pela desconfiança, superficialidade, provações que colocam em dúvidas a nova condição e a capacidade de viver em sintonia com ela. Nesse sentido eis a exortação de Paulo “Não contristeis o Espírito Santo”.

Portanto, os anima “Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor”. A atenção deve ser colocada no amor com o qual somos amados. A entrega de Cristo por mim, como dirá Paulo em outro texto, e os efeitos desse amor devem tomar conta de todo o ser, encharcá-lo como a esponja na água. Assim, o viver do cristão não pode ser desligado desse amor.

Só dessa maneira será possível viver no amor, pois, cada pensamento, cada ação brota dele e a ele tende. Daí vem motivação e força para assumir as atitudes convenientes que o apóstolo indica.

Em primeiro lugar a de devolver a Deus o dom recebido, como espontânea gratidão pelos benefícios recebidos, imitando-o “Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama”. Pois, Ele agiu não retendo nada para si mesmo, mas doando tudo para o bem da humanidade até entregar o próprio único Filho; daí, decorrem duas atitudes: A primeira afastar-se e libertar-se de “Toda amargura, irritação, cólera, gritaria, injúrias (...) como toda espécie de maldade”. Trata-se de cultivar e manter o coração livre de tudo que impede fluir o amor. É viver a verdadeira liberdade. Com efeito, tal condição se manifesta quando amamos, pois é a liberdade para amar, muito mais profunda que a liberdade de escolher.

A segunda é desenvolver no profundo do ser os mesmos sentimentos de Cristo “Sebe bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo”.

Particularmente importante é o perdão, cuja realização não é fruto da vontade, da determinação pessoal, pois, é experiência de todos os múltiplos fracassos da boa vontade e sinceros sentimentos neste sentido, mas da consistência e profundidade da interiorização do perdão realizado por Cristo Jesus. Com outras palavras, ter feito experiência do perdão é a força para perdoar.

Acreditar no perdão de Cristo exige a mesma fé que Cristo pede aos ouvintes do evangelho de hoje, continuação do domingo anterior.

Evangelho Jo 6,41-51

A afirmação de Jesus “Eu sou o pão que desceu do céu” suscitou a murmuração dos judeus, pois, comentavam “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?”. Perante delas Jesus faz apelo ao “Pai que me enviou”, no sentido que ninguém “pode vir a mim” se o Pai não o atrai. Acrescenta “E eu o ressuscitarei no último dia”.

Com isso afirma sua união e proveniência do Pai que legitima sua afirmação, e promete que quem acreditar nele terá como efeito ser ressuscitado no último dia pelo mesmo Jesus. Portanto não é só acreditar no presente em virtude de sua união com o Pai, mas ter a certeza da vida em plenitude no último dia, participando da ressurreição.

Com efeito, a ressurreição já era afirmada no Antigo Testamento, para que ninguém pensasse que com a morte tudo acabou, seja pelos os que respeitam a Lei, assim como pelos que a desrespeitam. Deste modo, ninguém pode fugir das exigências da lei, pois serão julgados para a salvação ou a condenação.

Jesus falando de pão da vida, da vida eterna, da ressurreição, coloca perante deles a certeza do pleno cumprimento da Lei para todos os que acreditam nele. Ele se apoia nos Profetas para afirmar que todos serão discípulos de Deus, pois, o Pai chama a todos, indistintamente, sem diferença e discriminação nenhuma.

A prova de que o pessoal escuta a voz do Pai “e por ele foi instruído, vem a mim”, se aproxima e acredita em Jesus. Assim, ser chamado e instruído pelo Pai não necessariamente significa tê-lo visto, isso é experiência de Jesus “Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai”. Contudo, quem acreditar em Jesus já possui a vida eterna, participa da vida do Pai.

Jesus não responde sobre o como desceu do céu, mas argumenta sobre sua união com o Pai e sobre os efeitos nas pessoas que acreditam na sua pessoa e na sua palavra. Portanto repete “Eu sou o pão da vida (...) quem dele comer, nunca morrerá”. Está oferecendo todos os motivos pelos quais merece confiança.

Tem mais, após afirmar de novo “Eu são o pão vivo descido do céu, quem come deste pão viverá eternamente”, afirma algo ainda mais surpreendente “E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”, que deixa ainda mais desnorteados os ouvintes. (As reações do povo e dos discípulos serão o conteúdo do evangelho do próximo domingo).

A glória de Deus é a vida do homem. Jesus que passar e mergulhar os homens na vida eterna já nesta vida passageira, que passa pela comunhão com todos os seres humanos e a criação. Esta meta, do ponto de vista racional e humano impossível, se torna realidade pela fé, por assumir o estilo de vida e a filosofia de Jesus, por acreditar nele, muito além do que os sentidos e a inteligência humana podem perceber e elaborar.

É este esforço e coragem de acreditar nele que Jesus pede aos ouvintes, de então e de hoje.