segunda-feira, 30 de abril de 2012

5o DOMINGO DA PASCOA -B- (06-05-12)

1ª leitura At 9,26-31

Este trecho relata a volta de Paulo a Jerusalém, depois da conversão e das dificuldades por ele encontradas para integrar-se na comunidade.

Por um lado, Paulo (Saulo) “procurava juntar-se aos discípulos” em virtude da singular experiência de sua conversão, da firmeza e consolidação dela na própria pessoa.

Por outro lado, “todos tinham medo dele, pois não acreditavam que ele fosse discípulo”. Da para entender a dificuldades deles: passar de perseguidor a seguidor e, mais ainda, testemunha da Ressurreição, sendo que, antes, por causa dela mesma (Ressurreição), ele estava caçando os cristãos. Não é um salto de pouca conta.

Será que é tudo um engano para melhor atingir o objetivo? Será um fogo de palha, algo momentâneo, sem consistência e depois tudo voltará ser como antes? Em fim, são muitas as perguntas em circunstâncias como estas que motivam o ‘ficar com um pé atrás’.

A mediação de Barnabé que relata como Paulo, em Damasco, se esmerou em predicar a Cristo publicamente abre o caminho à aceitação de Paulo, mais ainda quando o mesmo em Jerusalém “pregava com firmeza em nome do Senhor”.

Paulo falava, discutia e argumentava com convicção e determinação até o ponto que “os judeus de língua grega procuravam matá-lo” e os irmãos da comunidade o “levaram para Cesaréia, e daí o mandaram para Tarso”.

Não ter desanimado nem reclamado pela desconfiança manifestada pela comunidade de Jerusalém, e ao contrário, ter predicado com ousadia publicamente a favor de Jesus Cristo, se expondo até o perigo de vida, testemunha a solidez e consistência da própria conversão.

Paulo era tido como um temente de Deus, uma pessoa sincera e escrupulosamente dedicada à causa de Deus, portanto, não admitia que o caminho certo da salvação fosse alterado ou falsificado com propostas e pregações falsas e inoportunas. Daí o zelo da perseguição aos cristãos.

O mesmo zelo se manteve quando, na porta da entrada em Damasco, aconteceu o evento da conversão, quando entendeu o verdadeiro significado da morte e ressurreição a favor dele e de toda a humanidade. Foi uma reviravolta radical e o mesmo zelo, talvez tenha sido fortificado e motivado ainda mais, levando-o a se comportar com grande ousadia e a expor a própria reputação e até mesmo a vida.

Esta certeza e firmeza fazem dele o apóstolo de grande importância, demonstrará a vida, os seus escritos e a dedicação dele à causa de cristo, que destaca de sobremaneira, pela qualidade, ousadia e inteligência do serviço.

No meio deste singular acontecimento “a Igreja vivia em paz (...). Ela consolidava-se e progredia no temor do Senhor, e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo”. É um pequeno resumo entusiástico da situação da Igreja da Palestina. Com efeito, havia entre as comunidades, tensões, desentendimentos e dificuldades que o mesmo livro dos Atos dos Apóstolos registra.

Trata-se do crescimento não só quantitativo, mas qualitativo. A referência ao Espírito Santo leva pensar no desenvolvimento pessoal e social dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, não só em termos de quantidade agregada, mas ma compreensão e vivência do mistério na dimensão do amor, conforme a palavra e o exemplo de Cristo “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15,12).

É ao relacionamento qualitativo que se refere a segunda leitura.

2ª leitura 1 Jo 3,18-24

O apostolo exorta os cristãos “não amemos só com palavras e de boca, mas com ações de verdade!”. Com a expressão “ações de verdade” deixa entender como a verdade se faz pela ação, quando esta é caracterizada pelos elementos que fazem dela expressão do verdadeiro amor.

Não se trata de fazer o que o destinatário gosta, mas o que precisa, e acontece que às vezes é o que não gosta “Aí está o critério para saber que somos da verdade...”,que pertencemos a ela e vice versa.

“...e para sossegar diante dele o nosso coração”, pois o coração inquieto, agitado, preocupado, insatisfeito encontra tranqüilidade, paz, serenidade e harmonia, porque “Deus é maior” e surge espontâneo e natural com o “coração que não nos acusa” por termos confiança diante de Deus.

Nesta condição temos acesso à comunhão e familiaridade com Deus. Portanto, “qualquer cosia que pedimos recebemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é do seu agrado”. Os mandamentos se reduzem a um bem conhecido “que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros”.

Fazer a verdade na participação ativa e inteligente na comunidade familiar, social; prestar atenção aos desafios globais da humanidade em ordem a pensar globalmente para agir localmente em sintonia com a justiça e o direito são maneiras de cultivar e manifestar a comunhão com Deus, pela fé em Jesus Cristo.

É a maneira de permanecer com Deus “Quem guarda os seus mandamentos permanece com Deus e Deus permanece com ele”. Assim, permanecer na comunhão com ele não é uma realidade alcançada de uma vez para sempre, como a recepção do Batismo ou dos demais sacramentos pode deixar supor, mas o resultado de fazer a verdade nos termos acima indicados.

É fazer com que a força contida no dom dos efeitos da morte e ressurreição, presente nos sacramentos, se torne ativa e produza os frutos que é lícito esperar. A realidade e a dinâmica do amor precisam ser, constantemente, ativadas e alimentadas, para que capacitem a pessoa e a instituição a se renovarem, serem criativas , extensivas e abrangentes às diferentes circunstâncias e novidades que se apresentam no dia -a- dia.

Isso é possível pela ação do Espírito Santo que mora no profundo do ser de cada pessoa e ativa sua presença quando a pessoa, a instituição, determina agir no horizonte do amor. É o mesmo Espírito Santo que ilumina a mente e imprime no coração a certeza da presença de Deus “Que ele -Deus- permanece conosco, sabemo-lo pelo Espírito que ele nos deu”.

Eis, então, a condição para permanecer em Deus e produzir os frutos da existência bem sucedida, como o evangelho mostra.

Evangelho Jo 15,1-8

Eis a triangulação entre o agricultor, a videira e os ramos, e acrescento a seiva - o Espírito Santo. Tudo para que Deus Trindade seja glorificado pelos frutos “Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos”. Ainda mais, é uma chegada provisória que se torna ponto de partida de novo, e assim perpetua o movimento que não termina nunca: a espiral da ação de Deus que vai abrangendo tudo e todos na sinfonia inesgotável do amor.

Deus dirige, governa a história e a conduz ao encontro último e definitivo da comunhão com ele, por meio da colaboração das pessoas que se tornam cada vez mais discípulos conscientes e determinados em tomar ciência do que a seiva do Espírito Santo produz nelas.

A consciência de o novo ser - que vai surgindo com as características e potencialidade geradas pela transformação radical dos efeitos da morte e ressurreição - ilumina o imenso. Do seio dele brota torrentes de água “rios de água viva jorrarão do seu interior”(Jo 7.38), a seiva do Espírito Santo que corre entre o Pai e o Filho .

A consciência de o novo ser, como toda realidade que tem atinência com Deus, não é estática e adquirida de uma vez para sempre. Pelo contrário, é provisório, uma etapa de processo em continua expansão e crescimento.

Daí, então, a poda: “todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda”. A poda é um corte, como o é o corte de “Todo ramo que em mim não dá fruto”. Mas os pressupostos são diferentes. Os dois são privação, têm aparência de morte. Mas em virtude dos pressupostos, a finalidade de um e do outro são opostas.

A consciência de o novo ser, pela ação do Espírito, é sustentada pela Palavra, a outra mão de Deus juntamente ao Espírito, “Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei”. Portanto, todo o processo, desde o começo até o fim, é acompanhado pela palavra.

O “permanecei em mim e eu permanecerei em vós” é sustentado e alimentado pela palavra e o mestre interior, que abre a inteligência e o coração ao entendimento verdadeiro e profundo dela, o Espírito Santo.

O permanecer é ato da vontade, da inteligência e da memória que investem suas energias e capacidades em aprofundar constantemente o mundo da Palavra, o inesgotável patrimônio contido nela. E, ainda, o também misterioso e inesgotável processo da história da humanidade com o novo que cada dia se revela e surge como fruto da busca e da investigação do trabalho do homem.

Só que este último é ambíguo por natureza, pois, contém em si mesmo possibilidades de realização, de melhorar a qualidade da vida, assim como de destruí-la.

Eis, então, a necessidade de confrontar e analisar esta segunda à luz da Palavra para discernir o que é certo do que é errado, para o triunfo da vida sobre as múltiplas realidades de morte.

Eis, então a sentença do Senhor: “Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim (...) porque sem mim nada podeis fazer”.

O permanecer eficaz é só por amor, como resposta de gratidão ao amor com que nos amou e continua nos amando constantemente como seus filhos e filhas. É ineficaz e ilusório pretender permanecer nele por conveniência, por necessidade, por medo o por troca. Deus é amor e só nesse autêntico e sincero relacionamento há salvação.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

4o DOMINGO DA PàSCOA -B- (29-04-12)

1ª leitura At 4,8-12

Este trecho apresenta a réplica de Pedro diante do Sinédrio - a máxima autoridade sócio religiosa de Israel - causada pela cura que ele operou em nome de Jesus. Agir em nome de Jesus e conseguir o efeito de curar os aleijados é afirmar que a “realidade do nome” atingiu profundamente o ser e a pessoa de Pedro.

Criou-se uma comunhão de vida, de ação e de destino tão profunda e envolvente de maneira tal que o agir de Pedro é o mesmo do Cristo. Só assim se pode compreender o acontecer do milagre. Entre parênteses, este estado não é permanente, adquirido de uma vez para sempre, mas um dom a ser cultivado constantemente. Prova está no desentendimento com Paulo, em Antioquia e outra perplexidade na ação que os textos registram.

Em ter que dar conta ao Sinédrio do acontecido, Pedro, com grande coragem e atrevimento, afirma que o agir dele foi “pelo nome de Jesus Cristo (...) aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos”. E, para acrescentar ainda mais a responsabilidade deles e o tamanho do erro, retoma a palavra da Escritura se referindo a Jesus como “a pedra, que vós, os construtores, desprezastes, e que se tornou pedra angular”.

Tudo isso devia soar a blasfêmia e absurdo aos ouvidos deles. Pedro estava se expondo à mesma sorte do mestre. Talvez a surpresa e o desconcerto da cura do aleijado, o evento anunciado da ressurreição e a firmeza das palavras de Pedro, assim como a coragem e a determinação da comparação, devem ter agido como freio para proceder a mais uma condenação.

A coragem e a força argumentadora de Pedro estão na percepção, pela ação do Espírito Santo em Pentecostes, do significado da ressurreição de Jesus e sua importância para o povo todo “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possam ser salvos”.

A salvação era esperada como o dom maior com a vinda do Messias, como início da nova humanidade, como última e definitiva intervenção de Deus, como um bem pelo qual merecia investir a vida toda e todos os seus bens. Era o sentido último de ser e de viver!

Ter percebido o acontecer da salvação na pessoa e na obra de Jesus com a ressurreição de entre os mortos; ter sido feito partícipe dela de forma gratuita, assim de se perceber justificado perante do Pai de todo pecado de incredulidade, de desconfiança, de ignorância, de abandono do Filho; ser readmitido à plena comunhão com Deus e partícipe da vida divina é uma transformação absolutamente inesperada.

A transformação não deixa outra atitude que a de Pedro, pois, ele encara a todos, se expondo custe o que custar. É assim manifesta a força e o poder da ressurreição pelo milagre que opera na transformação do ser de cada pessoa que abre o coração e a inteligência à obra realizada por Jesus a favor dela e, ao mesmo, tempo de toda a humanidade.

Mais que a atenção sobre o que realmente aconteceu no corpo, na pessoa de Jesus, sem dúvida de grande importância a ser investigado pelo necessário caráter de plausibilidade da fé, parece-me determinante fixar no próprio mundo interior a atenção à qualidade de vida - vida nova -gerada pela ressurreição.

Assim, cada pessoa e a humanidade têm condição de redesenhar profundamente o relacionamento consigo mesmo, com os outros, com a sociedade, com a criação em sintonia com a realidade do Reino de Deus que Jesus veio implantar na sua pessoa e com sua missão.

É a isso que alerta a segunda leitura.

2da leitura 1 Jo 3,1-2

A transformação e a nova realidade interior são o “grande presente de amor (que) o Pai nos deu” com a entrega do próprio Filho. Assim, todo cristão se torna filho no Filho, filho de Deus por adoção.

Com ênfase o texto frisa: “e nós o somos!” como para convencer de algo que ultrapassa, de muito, toda expectativa e imaginação: de pecadores, afastados e inimigos de Deus as pessoas se tornam filhos! Em virtude disso, é resgatada a amizade, a familiaridade a comunhão com Deus, e com isso a sintonia com o pensar e o agir do Mesmo.

Esta realidade não é compreendida por todos. Estes são o que João chama de mundo “Se o mundo não nos conhece”. Os motivos podem ser múltiplos: da rejeição consciente e lúcida da pessoa e missão de Jesus à falta de oportunidade e de atenção, passando pelo comportamento antiético em nível individual e social.

A causa porque o “mundo (...) não conheceu o Pai”, é porque não teve experiência dele. Experiência que passa pela retidão individual, pela atitude responsável para consigo mesmo, no compromisso para o bem do próximo, na gratuidade e liberdade, voltado à pratica da verdade. Desta forma, colabora ativamente para fazer acontecer a justiça e o direito na vida social e no mundo.

Sendo Deus amor, ele é presente e se manifesta nos relacionamentos entre as pessoas, na organização da sociedade e no respeito da criação. Conhecer a ele não é, em primeiro lugar, uma ideia, um sentimento, uma emoção, mas um estilo de vida marcado pelas características do parágrafo anterior.

Quanto mais se aprimora e se mantém fidelidade a elas, apesar das provações e dificuldades, mas se experimenta a presença, o conhecimento do Pai. Para fazer uma comparação, é como olhar uma fotografia opaca e confusa, que gradativamente se torna nítida e distinta nos detalhes que dão realce e profundidade à mesma.

Contudo, a realidade de comunhão com Deus e de condição de filhos que experimentamos neste mundo é muito aquém do que experimentaremos futuramente, com a instalação última e definitiva do reino de Deus, no fim dos tempos “desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos!” O que nos aguarda é incomparável.

“Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é”. A experiência do ressuscitado passou uma certeza com respeito ao momento de quando ele se manifestar para toda a humanidade ao fim dos tempos: “seremos semelhantes a ele”.

O ser humano é criado a imagem e semelhança de Deus e no momento final, no qual “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28), se encontrará semelhante ao Ressuscitado. Na humanidade ressuscitada em Jesus Cristo, a divindade de Deus preenche, transforma e faz dela uma nova criação, uma humanidade regenerada na plenitude de Deus. Esta condição será comum a todos, no respeito e valorização da especificidade e diferença de cada um, levada à plenitude.

“Porque o veremos tal como é”: mediador e representante do toda a humanidade, pois, todos estão nele. Portanto, toda pessoa se perceberá parte de todos e em comunhão com todos, em sintonia com o que Jesus disse quando o informaram que sua mãe estava procurando-o: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”(Mc 3,34-35).

Esta solidariedade e comunhão universal é a meta da missão dele como pastor, como deixa entrever o evangelho.


Evangelho Jo 10,11-18


“Naquele tempo, disse Jesus: ‘Eu sou o bom pastor’”. Nestes tempos de rápidas mudanças, de complexidade, de incerteza, de precariedade, é quanto mais necessário quem indica a certeza da meta, o caminho e os meios para chegar. Trata-se de oferecer sentido à existência.

Em primeiro lugar, Jesus critica quem, pretendendo ser pastor, na realidade é um mercenário. Este age por interesses pessoais e, nos momentos difíceis, do perigo, “abandona as ovelhas e foge (...) e não se importa com as ovelhas”. Infelizmente é uma prática muito comum em nível familiar, social e político.

Característica básica do verdadeiro pastor é dar “ a vida por suas ovelhas”. Cristo pertence à humanidade toda, homens e mulheres de toda raça, cultura e religião, pois, entrou no mundo como mediador e representante dela. Portanto, “Eu dou minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”.

O dar a vida como ele a deu: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”(Jo 15.12) é o que gera comunhão e reconhece Jesus como próprio pastor, bem nas diferentes raças, culturas e religiões. Não precisa se homologar na cultura dominante nem rejeitar a própria religião, mas assumir o estilo e a filosofia de vida de Jesus.

Toda cultura, religião, inclusive o ateu e agnóstico, é integrado, pela vontade de Deus, como ovelha do rebanho por fazer da própria existência um dom para o bem do próximo e da humanidade, na prática do amor sem segundo fim e gratuitamente “Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecer em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual”( Rm 12,1).

No meio da complexidade do mundo atual e das inúmeras propostas de vida bem sucedida, três tópicos ajudam discernir a atitude e o comportamento que imitam o de Jesus Cristo. O que é proposto:

a) motiva e faz de cada pessoa um ser mais humano, o capacita a se doar como Jesus se doou até entregar da vida?

b) a vida familiar e social adianta na prática do direito e da justiça no intento de fazer acontecer e descobrir a presença do reino de Deus?

c) a natureza é respeitada de maneira que se torne e cresça como o jardim do Éden que Deus colocou nas mãos dos homens?

“É por isso que o Pai me ama”, porque Jesus ama a pessoa, a humanidade e a criação com o mesmo amor do Pai. Este amor mútuo é o motivo e a força da ressurreição, pois, em virtude do amor “Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente”. Talvez, isso vale para todo discípulo e não só para ele. Pois, “Essa é a ordem que recebi do meu Pai”: a mesma ordem que ele nos deu... Então...

domingo, 15 de abril de 2012

3ro DOMINGO DA PASCOA -B- (22-04-12)

1ª leitura At 3,13-15.17-19

“... e disso nós somos testemunhas”. Eles - os apóstolos - enquanto testemunhas, garantem transmitir a verdade com respeito ao que foram feitos partícipes, pela ação específica de Deus.

O evento no qual foram envolvidos e mergulhados constitui o maior desconcerto que o ser humano podia experimentar: o crucificado na sexta feira se apresentou a eles como o vivente, no domingo seguinte. O maldito de Deus - tal como era entendido o crucificado - se tornou o Salvador de todos.

Não se trata de um fantasma, de uma ilusão coletiva, de um espírito andarilho, da reanimação de um cadáver nem da reencarnação, mas do regate da vida corporal preenchida, transformada e aperfeiçoada pela presença e ação do Espírito Santo.

Com o evento de Pentecostes, ou seja, a ação do Espírito Santo neles, aconteceu a plena compreensão do evento da ressurreição. Isso suscitou neles coragem e ousadia surpreendentes, considerando que estavam, antes, todos no cenáculo com as portas trancadas, por medo de sofrerem o que aconteceu ao mestre.

Coragem e ousadia pelas acusações dirigidas ao povo e às autoridades “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos”. Deus reverteu o juízo deles sobre a pessoa e a obra de Jesus: de mentiroso e blasfemo se tornou quem justifica os mesmos que o mataram e todo o homem, de todas as épocas, que acreditarem nele.

É o que Pedro argumenta na continuação, atenuando a culpabilidade deles por motivo da ignorância “eu sei que agistes por ignorância, assim como vossos chefes”.Está projetando sobre eles a mesma ignorância dos apóstolos que abandonaram Jesus no momento da crucificação, particularmente ele- Pedro- que o renegou explicitamente. O próprio erro e fraqueza, assumidos conscientemente e com humildade, permitem compreender as mesmas atitudes em outros.

O que aconteceu na pessoa de Jesus, na sexta feira santa, responde ao que Deus “ havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer”.O que os profetas haviam anunciado não responde a um destino mecanicamente realizado, nem a uma necessidade iniludível que não podia ser de outra maneira, e, menos ainda o cumprimento de uma condenação que expiaria pelo sangue e o sofrimento, a culpa de outros, como se fosse um inevitável e necessário castigo.

“Haveria de sofrer” pela cabeça e coração duro dos homens em não acreditar na proposta e ação de Jesus, e por outro lado pela teimosia e determinação, cheia de amor do mesmo, em permanecer na sua atitude e pensamento, porque está em jogo fazer a vontade de Deus a favor dos mesmos que o rejeitavam. O sofrimento é simplesmente motivado pelo amor sem fim, até o extremo.

É esse amor que salva, purifica e transforma Jesus da morte, assim todos aqueles que acreditam ser representados por ele perante o Pai.

Eis, então a exortação de Pedro “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”. Duas condições para o perdão: o arrependimento e a conversão. A primeira é a sincera consciência do próprio erro, acompanhada pela dor do prejuízo provocado a uma pessoa inocente, mais ainda quando estava ensinando o caminho certo e de resgate do mal individual e social.

E logo a determinação de mudar a própria ideia sobre Deus, pois aquela apresentada por Jesus é totalmente diferente daquela conhecida e estabelecida até então. Portanto, a conversão se trata de sair da primeira ideia, de entrar na outra e proceder em sentido exatamente contrário. É uma conversão teológica antes de ética. Logicamente, mudando a ideia de Deus, muda também o comportamento para consigo mesmo, com os outros, a sociedade e a criação.

Contudo a conversão não é alcançada de uma vez para sempre, é escolha de todos os dias. Daí a possibilidade de voltar atrás. A segunda leitura trata desta eventualidade.

2ª leitura 1 Jo 2,1-5ª

“Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis”. Cabe a pergunta: o que é pecado? Normalmente é entendido e colocado no âmbito ético, pois, é transgressão da lei, dos mandamentos. Portanto, o exame de consciência visa tomar ciência e assumir os próprios erros e faltas ao respeito.

Simplesmente isso, não se chega à raiz do pecado. Ele não é, em primeiro lugar, uma realidade ética, mas teológica. É a desconfiança, o desinteresse, a ignorância, a desvalorização com respeito à nova condição na qual o dom de Cristo, com sua morte e ressurreição, coloca objetivamente cada pessoa e a humanidade toda.

Então, o pecado consiste na fraqueza, na inconsistência e superficialidade que faz da condição de ressuscitados com ele, de nova criatura, de filhos no Filho, de estar sentado no céu com Cristo à diretita do Pai - e outras afirmações no mesmo teor que abundam nos escritos de são Paulo - uma simples informação e não uma realidade consistente e sólida que conforma e sustenta a consciência do próprio ser e o agir correspondente.

Esta condição impossibilita a observância dos mandamentos, porque percebidos como imposição, como obrigação e não como resposta de gratidão e de amor pelo imenso dom recebido.

Portanto, o exame que se limita ao âmbito ético, à mera observância dos mandamentos, é como dar atenção ao fruto não amadurecido ou podre e não à causa porque ficou tal.

Certo que do pecado (teológico) decorrem os pecados (éticos). Assim, mesmo tirando os pecados com a absolvição sacramental, daí a pouco tudo se repete, se a mesma absolvição não atinge - pela pouca profundidade e consistência da fé - o pecado. (Jesus dirá explicitamente aos que sarou: “tua fé te salvou”. Daí decorre o grande sentido de frustração e de inutilidade do sacramento da reconciliação).

A verdade profunda do ponto de vista espiritual é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O efeito da morte e ressurreição de Jesus tira o pecado (e os pecados) da raiz do ser, sara, renova e transforma a pessoa toda. Contudo o mal, com sua força sedutora, continua ameaçando-a e, muitas vezes, atinge o seu objetivo.

Portanto, “se alguém pecar, temos, juntos do Pai, um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é vítima de expiação (...) pelos pecados do mundo inteiro”. A expiação realizada por Cristo é atualizada e passada pela fé nos quatro sacramentos: o batismo, a missa, a reconciliação e a unção do doente. (Quando fé e amor forem autênticos e puros, nem se precisa do sacramento).

A expiação age como as ondas do oceano na praia. Se o pecador estivesse caminhando beira mar e deixasse as pegada na areia, voltando, olhando para trás, não as veria mais, porque canceladas pelas ondas do imenso amor de Deus.

Tudo isso pela fé em Cristo, como mediador e representante, cuja ressurreição é, entre outros aspectos, a manifestação da vitória em nós do pecado, comprovada pela determinação de fidelidade sempre maior e mais perfeita em guardar “os seus mandamentos”.

Tudo se fundamenta na ressurreição, como indica o evangelho.

Evangelho Lc 24,35-48

A ressurreição foi um evento que surpreendeu a todos, totalmente inesperado. Os discípulos “ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”. Mesmo depois de Jesus ter falado e manifestar que não era um fantasma “ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos”. Não é difícil imaginar o estado de ânimo e o desconcerto deles.

Em primeiro lugar Jesus passa certeza da própria identidade “sou eu mesmo! (...) mostrou-lhes as mãos e os pés” e de que se trata de sua presença corporal, mesmo com umas características que ultrapassam a simples corporeidade costumeira, pois, “apareceu no meio deles” de maneira que os deixou pensar num fantasma, assim que ficaram assustados e cheios de medo.

Para convencê-los “Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne e ossos (...). Ele tomou um pedaço de peixe assado e comeu diante deles”. Trata-se realmente de ressurreição corporal. Um acontecimento inédito, cujo significado é ainda mais intrigante e Jesus procura explicar e motivar.

Disse-lhes “ São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco”,frisando, indiretamente, que não entenderam nada, e por isso a enorme paciência de Jesus para com eles em virtude da qual, mais uma vez, explica “era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos”.

Apesar de todo este patrimônio os discípulos não entenderam, pois, a interpretação dele foi muito longe, em outra direção. Eis, então, a importância do correto entendimento e da fiel transmissão do conteúdo. A direção norteadora é o acontecer do Reino nas concretas circunstancias do momento, que é tal pela prática do direito e da justiça capaz de integrar as diversidades de povos, línguas e religiões no acontecer do amor, como Jesus ensinou e praticou.

Tudo isso tem uma admirável síntese nas palavras de Jesus, em sintonia com as Escrituras, que abre a inteligência dos discípulos: “ O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”.

Assim o que aconteceu nele é para que eles, e todos os homens, entendessem a ideia certa de quem é Deus, do tipo de envolvimento dele com as pessoas e a humanidade toda, da sua filosofia e da prática de vida. Com uma palavra, o conteúdo do amor verdadeiro.

“A conversão e o perdão dos pecados” se realiza neles por acreditarem que o dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, tirou o pecado, em sintonia com o que foi comentado na segunda leitura.

“Vós sereis testemunhas de tudo isso”, um exemplo vivente dessa transformação, que permitirá enxergar o ressuscitado em todo ser humano que te chama por nome – Maria; que te fala das Escrituras a partir da vivência autêntica delas – Emaús; e que acredita na eficácia da palavra – a pescaria no lago de Tiberíades.