segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

SANTA MÃE DE DEUS, MARIA-B- (01-01-12)

1ª leitura Nm 6,22-27

Deus ordena explicitamente a “Aarão e seus filhos” que abençoem os filhos de Israel. Trata-se de invocar o nome Dele sobre o povo. Invocar é chamar a Deus em auxílio, suplicar proteção.

Deus por sua livre iniciativa estreitou a Aliança com o povo, após o ter libertado da escravidão do Egito. Em virtude da aliança, o conduz rumo à terra prometida, para fazer dele um sinal perante todos os povos da terra. O povo é escolhido para a missão de testemunhar com o cumprimento das exigências da Aliança e com o estilo de vida de fraternidade, de solidariedade, de união na prática do direito e da justiça e, desta forma, manifestar Deus como o próprio Rei. A qualidade do testemunho será motivo para a adesão dos povos da terra ao Deus de Israel e assim, acontecer o senhorio de Deus para com toda a humanidade.

Apesar de este bom propósito ter motivado a livre e entusiasta adesão do povo com a renovação da Aliança em Siquem, antes de entrar na terra prometida, Deus sabe da fragilidade do povo.

É um povo de cabeça dura, que não quer entender, que confia parcialmente e só na medida em que responde aos critérios e expectativas dele. Aspectos e obstáculos que levam ao fracasso do bom propósito.

Portanto, é preciso estabelecer momentos específicos. A benção é um destes momentos. Chamar a Deus em auxílio e suplicar proteção é para lembrar ao povo que Ele está presente, não esquece a promessa, menos ainda os abandona, pelo contrário, Ele é fiel. Para que, assim, revigorado e fortalecido na confiança o povo persista no caminho, na prática da Aliança e não desista do objetivo da missão.

Com efeito, a benção “O Senhor te abençoe e te guarde” mostra a finalidade, motivada pela compaixão de Deus para com o seu povo e suscitada pela invocação, como proteção e cuidado para não perder a confiança Nele e remotivar o caminho. É expressão do amor do pai para com os filhos. Não é este mesmo o significado de pedir a benção do pai e da mãe na experiência de todos os dias?

Ela consiste em se manifestar “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face (...) volte para ti o seu rosto”. Voltar o rosto para o povo e manifestar a face é próprio de quem deseja dar-se a conhecer e oferecer o melhor de sua pessoa, com a surpresa de passar a riqueza, a profundidade e todo o positivo que pode transmitir.

É atitude de grande consideração, voltada a estabelecer comunhão e familiaridade, a suscitar acolhimento e resposta positiva, para consolidar e reforçar cada vez mais o relacionamento.

Um relacionamento que por ser resposta de Deus à fragilidade e à fraqueza humana, confere consistência e força para estabelecer com inteligência e criatividade as condições para o reino de Deus acontecer.

“Volte para ti o seu rosto e te dê a paz”. Desta forma é atingido o mundo interior e incentiva a vivência comunitária, a sociedade, a humanidade toda ser construtora da harmonia e da paz.

O rosto e a face brilhante de Deus se manifestaram na pessoa humana de Jesus, como frisado pela segunda leitura.

2ª leitura Gl 4,4-7

“Quando se completou o tempo previsto” Trata-se do momento estabelecido por Deus, como algo que foi algo pensado com anterioridade e chegou o tempo previsto. Portando, corresponde a um projeto que ao longo do tempo foi se desenvolvendo e chegou o momento de acontecer.

“Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei”. O menino nascido em Belém é verdadeiro homem, como todo ser humano que nasce da mulher, nada mais, nada menos. Portanto, não é certa toda afirmação que, em virtude de ser Deus em forma humana, diminuem todo o que se refere à humanidade em função das vantagens da condição divina. Mais ainda, é homem como todo membro do povo de Israel sujeito à lei por ser descendente de Abrão e sujeito às Leis da aliança. Não lhe falta nada.

(Entre parêntesis, houve por mais de quatrocentos anos polêmica ao respeito, até que no Concílio celebrado em Calcedônia definiu-se que da pessoa de Cristo não pode ser tirado nada que diminui o humano e o divino, mesmo permanecendo desconhecidas como as duas realidades se relacionam entre elas na pessoa de Jesus).

O motivo do envio do Filho foi para “resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação divina (...) tudo isso por graça de Deus”. Da citação completa podemos tirar uma série de elementos que configuram o conteúdo da benção trazida por Jesus:

- O resgate da Lei, sendo que a maneira de ser interpretada e atuada(cumprida) desviou do fim para o qual foi promulgada. A tentativa de recolocá-la nos trilhos custou a Jesus a morte. Contudo sendo que o fez por amor ao povo e fidelidade à verdade, essa morte se tornou ressurreição.

- Por ter assumido a condição do pecador ele, que não tinha pecado, e, em virtude disso, se constituiu como representante de toda a humanidade de todos os tempos perante o Pai. Com sua morte e ressurreição não só nos resgatou da lei, nos libertou da escravidão e da morte, mas, nos passou a condição de justos perante do Pai. E, com isso, a participação à vida divina na condição de filhos adotivos. Filhos por ter aceitado e acreditado o dom do representante

- Pelo voto de confiança, “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!”. Pois, na condição de filhos o Espírito conforma a consciência em sintonia com a nova realidade pela qual se torna espontâneo e certo se dirigir a Deus com o termo afetuoso de Pai.

- É uma mudança radical de perspectiva: da condição de pecador, escravo e excluído à de filho, partícipe da vida de Deus, do reino e herdeiro da glória de Deus “Assim, já não és escravo, mas filho; e se és filho também herdeiro”.

Perceber tudo isso, interiorizando e acreditando a nova condição, se manifesta no comportamento indicado pelas bem-aventuranças, e pela reinterpretação ousada e criativa dos mandamentos na ótica do amor ensinado por Jesus.

-“tudo isso por graça de Deus”, por Deus revelar o seu rosto e brilhar a sua face, motivando e sustentando atitudes e comportamentos de paz de forma gratuita, visando unicamente o bem das pessoas e da humanidade.

É o que aconteceu nos pastores e em Maria; deveria acontecer em todo cristão consciente.

Evangelho Lc 2,16-21

Os pastores, cuja condição ético-social foi comentada o domingo passado, “foram às pressas a Belém”. Apesar de todos os pesares foram decididos, sem demorar(sinal da pronta aceitação do anuncio e do convite do anjo). Portanto, a mesma determinação deve marcar a aproximação ao Senhor de todos, seja qual for a condição pessoal, sustentados pelo anúncio e a esperança de libertação, ou seja, do salto qualitativo da existência.

Eles “contaram o que lhes fora dito sobre o menino. E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam”. Devem ter passado informação e a experiência do que aconteceu para com eles com tal força e convicção que todos ficaram maravilhados e contagiados pelo evento.

Esta ação e atitude missionária suscitaram duas reações complementares, mesmo se referindo a dois sujeitos diferentes, qual Maria e os mesmos pastores. Maria “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Sendo que Maria representa a toda humanidade, a atitude de meditar envolvendo o mais profundo do ser e a pessoa, deve se tornar a mesma de toda pessoa atenta à mensagem e ao testemunho transmitido.

Os eventos com os quais Deus se manifesta são de tal profundidade e importância que precisam ser guardados e meditados porque constituem um patrimônio indispensável para o caminho bem sucedido.

Voltar com lucidez e inteligência ao conteúdo deste patrimônio, nos momentos qualificados da própria caminhada que marcam para sempre um antes e um depois, é garantia que a benção do Senhor está presente, acompanha e inspira a resposta e a atitude adequada, além de enriquecer o mesmo patrimônio.

Os pastores “voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito”. Obedecendo ao convite do anjo não ficaram desiludidos, pelo contrário. Devem ter experimentado uma verdadeira e significativa transformação do próprio mundo interior, da imagem deles com eles mesmos, percebendo a ação salvadora, neles, da presença de Deus naquele menino e, por conseguinte, neles mesmos.

A missão exercida por estes pastores: ter acolhido o dom, ter se movido na direção indicado por ele e transmitido o conteúdo dele, assim como o próprio envolvimento, os tornou exultantes de alegria.

Lembrando que eles tinham consciência de serem considerados pecadores públicos e, portanto, com certeza, excluídos do reino de Deus com a chegada do messias, o desenvolvimento da missão foi motivo de resgate, de regeneração, de salvação. Em última análise, a benção é a missão. Com efeito, o dom para se tornar eficaz e aumentar sua forca e poder deve ser transmitido. Assim a missão abrange o começo, o desenvolvimento e a meta da ação de Deus. É o processo, de salvação.

“Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus”. O nome de Jesus significa Salvador, cuja ação já se fez presente nos pastores e no coração de Maria, como antecipação do evento determinante e decisivo ao respeito de sua morte e ressurreição.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

NATAL DO SENHOR 2011

1ª leitura Is 9,1-6

Na noite de Natal, momento de união familiar, de harmonia e paz, de festa; caem como um meteorito as palavras “tu os abateste como na jornada de Madiã. Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas”. O dia de Madiã se refere à grande e desconcertante evento da vitória de poucos homens contra um exército tido como invencível, que teria destruído Israel.
A “tropa de assalto”, um punhado de homens animados e sustentados pela promessa do Senhor, passa a imagem de pessoas determinadas que agem com convicção, apesar da desproporção de forças. Os “Trajes manchados de sangue” indicam a intensidade e violência da batalha, além de toda previsão. Com efeito, foi um massacre. Um quadro totalmente diferente do que se espera no dia de Natal, tal vez porque preanuncia a missão e o destino do menino que nasce em Belém.
A vitória sobre os inimigos é evento de libertação da escravidão da violência e da opressão “O jugo que oprimia o povo, -a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais- tu os abatestes como na jornada de Madiã”.
A condição de opressão e escravidão do povo é percebida como imersão na escuridão e nas sombras da morte “O povo que andava na escuridão (...) que habitavam nas sombras da morte”. Sobre este povo “Uma grande luz (...) uma luz resplendeceu”: a libertação e com ela a condição de resgatar à dignidade uma existência diminuída e humilhada.
Botas e trajes manchados de sangue “tudo será queimado e devorado pelas chamas” como se não tivesse que deixar rastro do acontecido, como se o fogo engolisse para sempre a violência e a guerra, como se todo o mal tivesse que desaparecer da face da terra.
O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar estas coisas”. No evento de Madiã por meio de poucos homens. Mais na frente, por meio do menino cujo nascimento é anunciado “nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho”, juntamente ao ponto dramático da missão e sua trágica conclusão, para conseguir a libertação e salvação do povo.
Pois, o menino deverá enfrentar corajosamente a luta para quebrar o “jugo” da injustiça, a carga da distorção da Aliança para a vantagem dos poderosos e chefes do povo, para destruir “a carga sobre os ombros” e implantar a nova ordem social ma justiça e no direito com a chegada do reino de Deus queimando “o orgulho dos fiscais”. A luta extrema será na cruz, na qual o menino, já adulto, será afogado em seu próprio sangue.
O menino “traz aos ombros a marca da realeza”. Realeza bem diferente daquela que estamos acostumados considerar. É aquela da entrega da própria vida pela causa da justiça, da fraternidade universal. É a realeza do amor pela qual Deus oferece as condições para que todos experimentem a salvação, visibilizando-a no acontecer do reino de Deus. Então “a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi (...) a partir de agora e para todo o sempre”.
Nesta perspectiva ao menino são atribuídas as qualidades de “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz”. Ele será o guia certo para implantar e consolidar a verdadeira fraternidade entre os homens, de maneira tal que o dom de si mesmo para o bem do outro no horizonte da justiça e do direito se trone, ao mesmo tempo, a plena realização de si mesmo.
O respeito e a solidariedade entre povos e culturas diferentes, no horizonte da fraternidade universal, é o acontecer de maneira corajosa e criativa da justiça e do direito. É o acontecer do reino de Deus como uma espiral em continua expansão, que abrange tudo e todos na dinâmica que será implantada pela morte e ressurreição do menino; dinâmica da vivência de Deus na condição humana, dinâmica da condição do homem assumir para si a condição de divinizado.
Eis, portanto, a passagem da escuridão à luz e seus efeitos “Fizeste crescer a alegria, aumentaste a felicidade”. Os termos crescer e aumentaste indicam o processo de expansão acima indicado. Processo que não terá fim, pois a glória de Deus não é um ponto de chegada, mas uma espiral que não termina nunca.
Todos se regozijam em tua presença, como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos” .É a satisfação de quem recolhe os frutos do comportamento correto e confere que valeu trabalhar o dom oferecido pelo menino, já adulto, com a morte e ressurreição dele.
É o argumento da segunda leitura.

2da leitura Tt 2,11-14

Paulo se dirige ao destinatário “Caríssimo: A graça de Deus se manifestou”.A graça é a pessoa de Jesus, a missão dele e, sobretudo, os efeitos de sua morte e ressurreição. Manifestou-se no sentido de que compareceu no mundo na pessoa do menino nascido em Belém. Ele, dom gratuito - a graça – oferecido indistintamente a toda pessoa traz “salvação para todos os homens”.
A salvação acontece no profundo do ser da pessoa. É neste nível que a pessoa se percebe como um novo sujeito, transformado e regenerado por acolher o dom e acreditar na eficácia dele. Nisto consiste, propriamente, a fé, produto da simultaneidade de dois votos de confiança: na bondade e verdade do oferecido, e acolhimento confiante da eficácia do dom.
Assim, na consciência se forma a imagem de um novo sujeito. Com outras palavras, o ser - a realidade mais intima e profunda da pessoa - se percebe modelado, como faz o oleiro com o barro, como um sujeito ao qual são perdoados os pecados e apresentado como justo perante Deus Pai; no qual é restabelecida a Aliança, que havia quebrado com o pecado, e partícipe da vida de Deus, a vida eterna, como antecipação da plenitude da gloria que se manifestará no fim dos tempos.
A pessoa é mergulhada no mistério de Deus, pois, a fé reproduz nela os efeitos da vitória de Jesus Cristo sobre o mal e o pecado. Cabe especificar, que apesar disso, o mal e o pecado continuarão exercitando a tentação e a sedução deles. A adesão de coração e a consolidação, do dom por meio da Palavra de Deus, dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, sustentam a comunhão, o permanecer nele, ou seja, o acontecer cada dia da salvação e com ela a vitória sobre o mal e o pecado.
Mergulhar no dom, no mistério de Deus, tem uma dimensão propedêutica (preparatória), pois “ Ela - a graça – nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas...”, como se defender e não cair na tentação da descrença e das paixões que destroem a integridade da pessoa. A esta altura o pecado não é invencível, como muito acreditam ser inevitável.
... e a viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade”, três dicas que conformam o retrato da pessoa que vivencia a profunda comunhão com o Senhor. Assim, o grau e a intensidade da vivência é espelho do grau e da intensidade da comunhão com o Senhor, Portanto, é também um teste para conferir, além da vontade, dos sentimentos e das emoções, a consistência e a verdade da comunhão.
Cabe acrescentar que a vivência ética consolida a certeza da vinda do Senhor, por participação do mesmo amor Dele, especialmente quando provada e fortalecida pelas provações e dificuldades e até da mesma cruz, como foi para Jesus. Assim, ética e glória são as duas faces da mesma moeda: o mergulho no mistério de Deus. Portanto, a ética dá sustentação para aguardar “a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”.
Esta verdade confere o sentido último a toda existência, motiva imitar o estilo de vida de Jesus e a fidelidade à missão que confiou a todo cristão. Missão que imitará a dele “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem”. Pois, devolvendo o dom recebido se manifesta a plenitude da comunhão com o Senhor e o acontecer do reino nos discípulos e nas pessoas e nas realidades atingidas pela ação pastoral deles.
O evangelho revela o sentido do nascimento do menino em Belém para toda a humanidade.

Evangelho Lc 2,1-14

Maria deu à luz os eu filho primogênito”. Se não fosse pela morte e ressurreição deste menino já adulto, o nascimento teria passado despercebido. O evento pascal orientou as lâmpadas da humanidade sobre Ele. Foi então que os discípulos entenderam quem verdadeiramente era Jesus.
O humano e o divino na pessoa de Jesus abrem horizontes para nova compreensão de nós mesmo e de toda a criação. Ficando só no aspecto individual, há uma simbiose no sentido de que o mais humano é divino e vice-versa.
Assim, na primeira criação Deus faz a pessoa sua imagem, para que se torne semelhante a Ele. Na segunda criação é o contrário. Com a ressurreição, faz a pessoa semelhante a Ele, para Ele assumir plenamente a maneira humana de ser “tudo em todos” ( 1 Cor 15,28) no novo mundo.
Mais exatamente este processo de divinização da pessoa e da humanização de Deus, começa na pessoa desde sua entrada no mundo, pelo dom dos efeitos da morte e ressurreição de Jesus e o envolvimento livre e consciente da mesma no estilo de vida e prática correspondente. Assim, a pessoa vai se tornando cada vez mais semelhante a Deus e vice-versa, no sentido indicado acima. Processo que nunca terminará, acredito nem com a vinda do Ressuscitado, porque Deus e a pessoa viverão para sempre, contudo, marcará o momento da constituição última e definitiva, sem possibilidade de retorno ou de desviar.
Cabe se perguntar se “a glória do Senhor” que envolveu os pastores em luz, tem a ver com a percepção deste projeto. Os pastores se considerando, pela teologia de então elaborada pela instituição, excluídos do reino por levarem os rebanhos sobre pastos alheios (E, portanto, ladrões sem possibilidade de devolver o prejuízo mais o 25%, condição para ser perdoados) “ficaram com muito medo”. E não era para menos: de excluído a incluídos ao sumo grau, sem entender o porquê e o como.
Como por Maria, o anjo intervém “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria (...) nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”. Tal vez seja um detalhe importante que o anjo não se refere ao homem Jesus, filho de Maria, mas a Cristo Senhor, o titulo que compete ao Ressuscitado.
Apesar da surpresa e do medo os pastores se dirigem à cidade de Davi e se aproximam ao sinal indicado pelo anjo “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Um encontro muito humano de familiaridade de e de ternura.
Então irrompe o divino “E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste”. Acontecimento ao mesmo tempo humano e divino. Revelação inesperada e de repente, não acompanhada pelo medo por parte doa pastores, mas envolvidos na percepção que os homens são amados por Deus.
Em primeiro lugares eles, os excluídos, os já condenados pela teologia oficial, e todos indistintamente que acolherão o convite de se aproximar ao Salvador e se deixar transformar pela morte e ressurreição dele.
Assim que a “glória a Deus no mais alto do céu e a paz na terra”, cantada pela multidão da corte celeste, se torne a realidade da nova criação, reunindo a glória a Deus e a paz na terra na prática do amor que o Salvador ensinou “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. (Jo15,12).

FELIZ NATAL
e
PROSPERO ANO NOVO

COM MUITA BENÇÃO DE DEUS

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

4o DOMINGO DO ADVENTO-B-(18-12-11)

1ª leitura dois Sm 7,1-5.8b-12.14a.16

Depois de ter se estabelecido em Jerusalém, construído o palácio real, Davi se propôs construir uma casa - Templo – para Deus e colocar nela a arca da Aliança, sinal da presença de Deus. Teria construído o Templo de maneira que o palácio real ficasse à direita do mesmo, pois, estar à direita de Deus é afirmar a dignidade de Filho. O pensamento dele era sincero e reto, sem segundas intenções, pois o profeta Natã aprovou o projeto.
Construir a casa tem sentido de estabilidade e, sobretudo, de permanência perene. É colocar um elemento que permanecerá por muito tempo. Portanto, construir uma casa a Deus pode ser expressão da vontade de pretender por parte de Deus permanência e estabilidade, aspectos estes que não competem ao rei e a nenhum ser humano.
Eis, então, o questionamento de Deus “Porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar?” e lembra a Davi tudo o que fez a favor dele “Fui eu que te tirei do pastoreio (...). Estive contigo em toda parte (...)” e anuncia o que realizará futuramente, concluindo “Eu o Senhor te anuncia que te fará uma casa” mais exatamente que estabelecerá uma descendência no decorrer dos séculos “suscitarei, depois de ti, um filho teu (...) e teu trono será firme para sempre”, como firme é a casa que queres construir.
Com esta atitude Deus quer lembrar a Davi que toda iniciativa procede dele, que não pode ser colocada em segundo plano, menos ainda ocultada, ainda quando a boa vontade e a correta atitude do rei podem levar a pensar o contrário. Deus não pretende mortificar a iniciativa e criatividade, mas ser suporte dela. Pelo contrário, a atividade e criatividade, desenvolvida em determinadas condições e para fins corretos, podem ser consideradas manifestação da iniciativa do Senhor. Portanto, recebem aprovação e sustento de grande importância.
Mais ainda. O relacionamento entre Deus e o rei se tornará tão forte e íntimo que o descendente prometido será para Deus como um filho “Eu serei para ele um pai e ele para mim um filho”. Há um abismo entre o projeto de Davi de construir o templo do Senhor, e o casamento que o Senhor estabelecerá para sempre com a descendência do rei.
A aliança, a união, a familiaridade será permanente. Diz o Senhor “Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre”. Portanto, a oposição instável x firme; transitório x perene; oferece a percepção da segurança e da eternidade que coloca a pessoa no limiar do mistério da existência, no qual encontrar o sentido da existência e o motivo para se comprometer nas exigências da aliança, desafiando o aleatório, o passageiro da condição humana, sobretudo da morte como inevitável limite e toda existência.
A importância desta mensagem ultrapassa a circunstância do evento. Há uma ligação entre o passageiro e o eterno, entre o presente e o futuro. Com outras palavras, há caminho e condições para ultrapassar o provisório, o contingente e se firmar no último e definitivo que constitui o motivo e o sentido do Advento.
A famosa frase de santo Agostinho “Senhor tu nos criaste para ti e nosso coração está inquieto até descansar em ti” aponta que só na comunhão e amizade com o Senhor, no ser para ele um filho e nele ser reconhecido como pai, está a serenidade, a felicidade plena de cada pessoa.
A descendência à qual o texto alude é o Senhor Jesus, constituído como referência imprescindível para a estabilidade do reino de Deus.
A segunda leitura mostra como participar desta realidade.

2da leitura Rm 16,25-27

Considerando o grande mistério no qual está mergulhado e envolvido. Paulo se dirige ao “único Deus, o sábio” o louvor e a glória, extensiva até o fim dos tempos, nos séculos. O mistério “mantido em sigilo desde sempre” se refere a uma realidade não só envolvida no silêncio, como o embrulho envolve o conteúdo, mas o silêncio é a fonte da qual emana o mistério mesmo.
Portanto, o silêncio é parte constitutiva do mesmo. Mergulhar no mistério, inevitavelmente é entrar no silêncio, pois, é mantido,sustentado e alimentado do mesmo. A sabedoria de Deus brota do silêncio que acompanha os séculos. Ela não o elimina nem o desmancha, pelo contrário o exige.
Por outro lado, sendo que Deus “tem o poder de vos confirmar na fidelidade ao meu evangelho” como pode levar a cumprimento esta tarefa se o destinatário não se aproxima no limiar do silêncio, se tornando ele mesmo “silêncio”? Com efeito, todos sabem que o silêncio é o ponto de partida para a eficaz escuta. Eis, então, brotar dele a palavra humana de Paulo que anuncia “à pregação de Jesus cristo, de acordo com a revelação do mistério (...) levado ao conhecimento”, conforme a determinação de Deus.
O “meu evangelho” de Paulo se refere ao anúncio da morte e ressurreição de Jesus. Ele experimentou como esta boa notícia se tornou boa realidade nele, e percebeu que, objetivamente, os efeitos deste mesmo evento são passados a toda pessoa e a criação.
A percepção da transformação, renovação e regeneração, deste evento se dá de forma misteriosa, não acessível ao raciocínio e a qualquer forma de percepção humana, mas só pela fé, pelo voto de confiança.
Com efeito, o evento Pascal mergulha a todos no amor de Deus. É este mesmo amor praticado por Jesus na sua atividade evangelizadora e selado com sua morte e ressurreição que confere a cada pessoa a transformação e a condição de nova criatura, embora não perceba nada disso do ponto de vista humano.
Este conteúdo da missão deve ser “levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-los à obediência da fé”. A obediência da fé é o passo necessário para que o objetivo da salvação operada por Cristo e oferecida como presente se torna subjetiva, ou seja, percebida como realidade da própria pessoa, em virtude da consciência da transformação e regeneração suscitada por ela. Um exemplo. O que adianta ter notícia que foi assinado a favor da pessoa um cheque de um milhão, se ele não pega e não acredita na informação. Assim a obediência da fé é isso mesmo, que devemos exercitar em cada Missa.
Com efeito, após a consagração, o celebrante anuncia que os efeitos da morte e ressurreição acabam de ser oferecidos para todos “Eis...” como “... o mistério da fé”. Com isso destaca o acontecer do amor de Deus a favor dos presentes, da humanidade, e da criação, de forma misteriosa.
A eficácia em cada pessoa do evento que acaba de acontecer depende do voto de confiança, baseado no pressuposto que a pessoa de Jesus representa as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares perante o Pai. Portanto, o que aconteceu nele, acontece em todos aqueles que confiadamente se deixam envolver pela atualização dos efeitos ma Missa.
Aceitar o presente, é aceitar o dom pelo qual o Pai nos acolhe como justos, e portanto restabelece a comunhão e a aliança perdidas. Isso é propriamente a “obediência da fé”. A resposta da assembleia “ Anunciamos (...). Proclamamos (...). Vem (...)” brota da consciência, esclarecida pelo voto de confiança, da transformação que acaba de acontecer.
O mistério se realizou e se manifestou, embora permaneça misterioso, “conforme determinação de Deus eterno” para acontecer o “hoje”(Lc 4,21) da salvação, cuja manifestação plena e definitiva acontecerá com a vinda do Ressuscitado no fim dos tempos.
Jesus é o evento, cuja entrada no mundo é descrita no evangelho.

Evangelho Lc 1,26-38

O texto é muito conhecido e comentado, sobretudo, pela figura de Maria, a maneira de se colocar no evento da anunciação e sua disponibilidade em colaborar positivamente ao convite da maternidade. Nela é representada toda pessoa que pela “obediência da fé” é convidada fazer de si mesma o lugar da salvação como representante da humanidade toda, e conscientemente responde positivamente.
Gosto de frisar que cada pessoa é a maneira humana de Deus ser no mundo. Portanto, na medida em que alcança se tornar gradativamente cada vez mais semelhante a Deus, não é só a vitória individual dela, mas dos sete bilhões das pessoas no mundo. É correto pensar cada um de nós como humanidade em miniatura.
Tudo começa com o anúncio desconcertante e inacreditável “O Senhor está contigo”. Esta presença, dom de Deus, é motivo de alegria. Contudo, a percepção da realidade tão inesperada e surpreendente, deixa a Maria, como se lhe faltasse o chão debaixo os pés, meio abalada. Ela é confortada pela palavra do anjo “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus”. Tudo é resgatado equilibrado pelo dom gratuito - a graça - de Deus.
Esta específica condição se atualiza em cada cristão consciente dos efeitos da morte e ressurreição de Cristo - a graça- nele. Ela, a graça, estabelece a presença do Senhor na profundidade do ser, cuja realidade enche a pessoa de alegria e confere consistência e firmeza no relacionamento com Deus.
Só então brota e compreende-se a missão “Eis que conceberás e darás a luz um filho (...) e o seu reino não terá fim”. A missão consiste em assumir o projeto de Deus a favor da humanidade. Sendo que Maria e nós somos miniaturas da humanidade, a salvação da humanidade é simultaneamente a nossa. Trata-se de assumir o que Deus determina conveniente e possível para cada pessoa. No caso de Maria a concepção do corpo de Jesus, no nosso a concepção no coração.
Missão impossível pelas simples condições humanas, daí a pergunta de Maria: “Como acontecerá isso?”. A resposta coloca em jogo o Espírito Santo e a vontade do Pai “O Espírito virá sobre ti (...) porque para deus nada é impossível”.
Então se fecha o círculo. Se Maria, assim como cada um de nós, acolhe no profundo do ser a presença do Senhor; se acredita em seu coração de ser agraciada pelo Senhor, a perplexidade é vencida pela certeza de que Deus não a deixará sozinha, pelo contrário, a acompanhará pela ação do Espírito Santo, em cada circunstância imprevista e sofrida que seja motivo pelo qual foi envolvida e associada ao desenho da salvação.
Maria se percebe sob o olhar e na presença de Deus. Não há registro das perguntas de caráter pessoal, familiar e social que normalmente surgem no interior da pessoa em situações como esta. Normalmente ao acontecer de eventos que mudam radicalmente a os projetos e os ritmos da vida ordinária, surgem muitas perguntas sobre as repercussões e consequências a todos os níveis que comporta.
Seria interessante saber as respostas de Maria, mas não há registro delas. Assim, podemos pensar que as possíveis respostas às perguntas acima indicadas são como englobadas, e em certos sentidos elaborados, por se perceber como “a serva do Senhor”.
O anúncio e a manifestação do projeto de Deus. Evidencia o pedido do serviço pelo qual só com a total dedicação e confiança no Senhor, e o reflexo nela mesmo, poderia ser desenvolvido convenientemente. Portanto, “Eis a serva”.
O “Eis” revela que Maria alcançou esta consciência. Ela se foi formando pelo diálogo com o anjo. No se manifestar Deus cria nela a percepção pela qual se coloca no singular relacionamento com o Senhor, no caso específico, na condição de serva. Posicionamento que deve tê-la fascinada, maravilhada e envolvida ao ponto tal de assumir sem reserva, incondicionalmente.
A Palavra e o Espírito Santo transformaram Maria de mulher comum em serva do Senhor. Para dar a luz o “Filho do Altíssimo” devia primeiro ser dada a luz como serva. É o mesmo que acontece com os grandes personagens da história de Israel. É à base de toda autêntica vocação.
Portanto, “faça-se em mim segundo a tua palavra!” é conclusão coerente com todo o processo: transformada pela Palavra e pelo Espírito - as duas mãos de Deus -, oferecerá a própria carne à Palavra e tudo de si mesma ao filho que nascerá dela.
A experiência dela é o que deveria ser, a de cada cristão. Com uma diferença: Ela concebeu o Verbo na carne, os cristãos no próprio coração.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

3o DOMINGO DO ADVENTO-B-(11-12-11)

1a leitura Is 61,1-2a.10-11

O profeta é preenchido pelo Espírito de Deus. “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu”. A presença do Espírito é uma unção de consagração, pela qual a pessoa (ou tambèm um objeto) é separada e destinada para uma finalidade especifica. É unção interior,cujo sinal exterior é a unção com óleo.
Quem está atrás das palavas e da ação do profeta é Deus mesmo. Assim, Deus separa o profeta para a missão específica. Pois, “enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o tempo de graça do Senhor”.
A missão do profeta será proclamar um tempo de graça, momento oportuno para experimentar o dom gratuito da presença do Senhor e sua força regenaradora e transformadora. Com outras palavas, o acontecer da salvação.
Deus é atento e participa dos sofrimentos das pessoas. Faz parte Dele ser compassivo, sejam quais forem a causa e o tipo de sofrimento: humilhação, isolamento e desprezo, dependências, cárcere. Perante Dele está um ser humano diminuído na sua dignidade de ser criado a Sua imagem e semelhança. É uma condição desumana.
Ele criou a pessoa para a vida plena, colocou nela a marca - a imagem - de sua presença, para que no decorrer da existência se torne gradativamente sempre mais semelhante a Ele, na prática do que Ele é, na prática do Amor.
Assim, o sentimento de compaixão se torna ação misericordiosa, própria de quem se inclina de coração sincero sobre a lastimável condição da pessoa, para levantá-la, erguê-la à vida nova. A glória de Deus é o homem vivente, dizia Santo Irineu. E o agir de Deus é para que tenha vida em abundância.
O profeta ajusta-se plenamente à proposta , porque é o primeiro beneficiado por ele. De fato, isso é motivo de exultação: “Exulto de alegria no Senhor e minh’alma regozija-se em meu Deus” pelo que está experimentando. Por outro lado, não poderia exercitar, nem passar para outros algo que não faz parte dele, ou pelo menos, que não experimentou porque não estava envolvido.
Expressão de grande alegria e manifestação de profundos sentimentos ( semelhantes aos de Nossa Senhora, no hino de agradecimeto dela): “Ele me vestiu com a veste da salvação, envolveu-me (…) adornou-me (…)”. Tais sentimentos manifestam o impulso missionário e o motivo da dedicação a causa de Deus em quem está realmente tocado pela graça Dele. Com efeito, o dom recebido produz fruto de uma existência bem sucedida, quando é passado a outros. Cada qual é como a artéria que, deixando passar o sangue, mantém vivo e sadio o corpo e ela mesma.
“Assim como a terra (…), assim, Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações”. Justiça e glória caminham juntos, mais ainda, são as duas faces da mesma moeda: a salvação. É justiça de Deus tirar o homen da triste condição na qual se encontra, muitas vezes, por causa dos próprios pecados, pela atitude magnânima e gratuita de Deus.
É manifestação da glória de Deus a alegria, a abundância de vida do homem, por ter se reencontrado e por contribuir com a construção de uma sociedade em sintonia com o direito e a justiça. E, também, por conservar e respeitar a criação, jardim que Deus lhe confiou.
Tudo isso pede constante e alegre dedicação em colaborar com a obra de Deus. E vigiar para não se deixar levar por forças contrárias. É o que indica a segunda leitura.

2da leitura 1Ts 5,16-24

“Aquele que vos chamou é fiel; ele mesmo realizarà isso”. Paulo, baseado na própria experiência, passa aos cristãos a convicção da fidelidade de Deus e a certeza de que vai cumprir o que prometeu. Mais ainda, afirma que Deus mesmo age nele. Não estão sozinhos, podem contar com a familiaridade e a comunhão com Ele.
Portanto, sustentado por esta certeza, Paulo exorta “Afastai-vos de toda espécie de maldade!”. A sedução de outras propostas, a necessidade dos bens materiais, o fascínio de dominar mundos ocultos, o medo de ficar sozinho e isolado do convivio social e dos afetos das pessoas queridas, as provações e as dificuldades do dia-a-dia, dentre outros aspectos, são tentações para desviar do caminho do Senhor.
É preciso tomar atitude: assumir o que ajuda e afastar o que atrapalha. Positivamente aconselha “Estai sempre alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circustâncias, porque essa é, a vosso respeito, a vontade de Deus em Jesus Cristo”. A comunhão e a familiaridade com Deus leva consigo o estado de ânimo caracterizado pela alegria. Com outras palavras, pela serendidade interior, pela satisfação… É alegria que brota naturalmente, espontaneamente, não devida ou forçada por circustâncias ou vontade alheia.
Ela é acompanhada pela oração, pela ação de graças em todas circustâncias, em virtude da consciência de que “Deus dispõe todas as coisas para o bem dos que o amam” (Rm 8,28). Portanto não há circustância, mesmo que adversa, que não seja sustentada pela vontade de Deus, sempre orientada – a vontade Dele – para o bem de si mesmo ou dos outros. Vale lembrar que querer o bem dos outros é querer o próprio bem.
Paulo acrescenta ter cuidados de “Não apagueis o espírito! Não desprezeis as profecias…” no momento em que vai se afastando da vivência com o Senhor Deus, prevelece o disinteresse pela presença do espírito no profundo do próprio ser, e a desconfiança da profecia, daqueles que falam e argumentam a partir do ensino e da experiência da Palavra de Deus. Então, se abre a porta a todo tipo de maldade.
Nestes momentos de crise é importante a vigilância. Ela deve ser praticada com discernimento “…mas examinai tudo e guardai o que for bom” . É preciso distinguir o que è bom em sentido de ajuda, crescimento e aprofundamento dos objetivos da evengelização.
A evangelização é algo dinâmico, exige coragem e criatividade pelas circustâncias históricas em contínua evolução. Saber interpretar os “sinais dos tempos” na realidade em contínua mudança, significa discernir, à luz da Palavra do Senhor, e determinar a prática pastoral correspondente. É não apagar o espírito e vivenciar a profecia.
Aí está a ação de Deus para que “o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois – espírito , alma, corpo – seja conservado sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!”. A atenção está voltada para a vinda do Senhor, esperada como próxima. Assim, os que pertencem a Ele por se terem “conservados sem mancha”, participam plenamente da glória de Deus.
É João Batista quem anuncia e prepara o caminho da vinda do Senhor.

Evangelho Jo 1,6-8.19-28

João “ veio como testemunha, para dar testemunho da Luz”. Eis, sintetizada, a missão dele. A Luz è necessária “ para que todos chegassem a fé” e João traz o testemunho dessa luz, pois, foi enviado por Deus e tem consciência da missão que lhe foi confiada. Luz que ilumina o novo caminho da aliança que o Messias irà implantar e será motivo de renovada confiança, para assim reconstruir a sociedade e a dignidade da pessoa nos moldes da justiça e do direito.
À interpelação João responde: “Eu sou a voz que grita no deserto: “ Aplainai o caminho do Senhor-conforme disse o profeta Isaias”.O evangelista faz referência ao texto da primeira leitura e do evangelho do domingo passado.( Portanto, è preciso retomar o comentário para entender o sentido da afirmção).
O inciso referido ao profeta Isaías, melhor o livro da consolação do segundo Isaías, coloca em evidência a ligaçao da missão dele com a do profeta, a atualização do novo êxodo e da nova aliança. Parece- me querer preanunciar o começo de uma etapa radicalmente nova.
Contudo, João se posiciona de maneira certa e verdadeira perante a pergunta dos interlocutores “ Quem és tu?”. A resposta não encaixa em nehuma categoria de pessoas que poderiam justificar a atividadeque està desenvolvendo. Ele quebra, põe fora todos os esquemas, ao ponto de motivar o questiona mento “ Por que então andas batizando, se nao és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?”.
Notável que jà desde o início há descontinuidade com a tradição. O efeito é o desconcerto e a perplexidade. Ao mesmo tempo é como amostra do que Jesus realizará em todos os níveis.Com isso, fica afirmada a absoluta libertade de Deus em confiar a missão da forma que achar mais oportuna, sem estar amarrado à determinações e experiências anteriores. A criatividade e a novidade faz parte do específico da ação de Deus.
João se apresenta em função da missão que lhe foi confiada. Não se preocupa a qual categoria de pessoas pertence, mas com o que deve desenvolver. “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim” Obriga os ouvintes a fixar a atenção sobre uma presença no meio deles desconhecida, que continuará a missão iniciada por ele.
A atenção se torna inda mais viva e desafiadora pelo que a continuação acrescenta “ Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias” . Se já é respeitado e tomado em consideração, mesmo com dúvidas e peplexidade ,pelo que está pregando e realizando, o que será a experiência com aquele do qual afirma ser tão superior a ele?
A intervenção de João objetiva suscitar a maior atenção possível. Aquela atenção que não deve ser simples curiosidade, mas, entender que o desconhecido já presente- o Messias- na sua autorevelação se manifestará de maneira tão surpreendente e inesperada que rompe todos os cânones e expectaivas, muito mais do que João està mostrando.
Esta revelação é a luz que o povo precisa,e que por certos aspectos será luz para o mesmo João , considerando que não os outros, mas ele mesmo ficará surpreendido até enviar desde o cárcere no qual está preso os seus discípulos para perguntar a Jesus se é ele ou não o que tinha que vir (Mt 11.3).
O tempo do Advento reproduz a mesma coisa, olhando o futuro da vinda do Messias, esta vez como Ressuscitado no fim dos tempos. Assim, o que vai chegar não é coisa de pouca conta e previsível. Pelo contrario, precisa de grande atenção, para pereceber a presença dele e entender os critérios da sua sabedoria e da missão como realidade última e definitiva da ação de Deus a favor de tudo e de todos.
Será uma atenção que dexará a todos surpeendidos e deconcertados, inclusive os mais preparados, como foi o caso de João. Talvez seja o repropor em nível universal a experiência de morte e ressureição que caracretizou este evento de faz dois mil anos.
O evidente fracasso humano, em termos de rejeição do estilo de vida, da filosofia de Jesus e conseginte perda dos bens materiais, do poder, das honras e até da propria vida, será simultaneamente percebido como participação ao inedito e surpreendente gloria de Deus, pela qual haverá experiencia do que significa Deus ser “tudo em todos” (1Cor 15,28).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

2do DOMINGO DO ADVENTO -B-(04-12-11)

1ª leitura Is 40,1-5.9-11

O texto é o começo do livro da consolação “Consolai o meu povo, consolai-o, diz o vosso Deus” , pois, está para terminar o exílio e a escravidão em terra estrangeira de Babilônia, na qual o povo foi deportado.

Foi entendimento comum que a causa da escravidão e da deportação foi o pecado, o desvio da Aliança. “Falai ao coração de Jerusalém (...) sua servidão acabou e a expiação de suas cul pas foi cumprida”. Falar ao coração e consolar manifesta atitude de preocupação, de carinho e interesse do Senhor para com o seu povo.

A expiação das culpas tem o sabor não da vingança ou do “olho por olho e dentes por dentes”, mas da pedagogia da correção. Com efeito, “Recebeu das mãos do Senhor, o dobro por todos os seus pecados” pode ser entendido como a necessária disposição de firmeza e de severidade para desmotivar e desanimar todo intento de voltar ao pecado, à transgressão da aliança. Portanto, é uma manifestação da preocupação do carinho de Deus para com o seu povo, como um pai de família preocupado para que o filho não volte aos erros anteriores.

O Senhor pede que o povo se disponha convenientemente ao evento “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso deus. Nivelem-se (...) rebaixem-se (...) endireite-se (...) alisem-se (...)”. É como um novo êxodo rumo à terra prometida, só que esta vez não é desconhecida, mas a terra que Deus lhes confiou e Jerusalém como capital.

Mas voltar a ela para reconstruir a nação, para se reorganizar nos termos da Aliança, supõe a mesma atitude, o mesmo esforço, a mesma purificação de então. Assim, o deserto e a solidão são formidáveis lugar, condição de purificação e de encontro com o Senhor. Portanto “a glória do Senhor então se manifestará... como renovação da Aliança,como identidade com a vontade do Senhor, no sentido de pertencer ao Senhor e de ter o Senhor Deus como próprio pai e rei.

“... e todos os homens verão juntamente o que a boca do Senhor falou” manifestação do acontecer do reino de Deus, na pratica di direito e da justiça. Trata-se de criar as condições para realizar a fraternidade e a solidariedade, sobretudo, para com os mais pobres e necessitados, por implantar a harmonia e a paz não só entre os integrantes do povo, mas com os estrangeiros, com todos os povos da terra.

O sonho de Deus de então é também o de hoje. Cada Advento é voltar ao mesmo propósito, é reassumir o mesmo compromisso, é creditar que merece todo esforço e investimento das próprias capacidades para dar um passo na frente, apesar das dificuldades e forças contrárias dentro e fora da Igreja.

Então haverá condição para anunciar “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor vem com poder (...) eis à sua frente a vitória”, a presença, o poder, a vitória que transparece na vida do povo por acolher e praticar a Aliança.

Assim, a Lei, a normativa da Aliança, é a maneira de Deus pastorear o seu povo. “Como um pastor, ele- Deus- apascenta o rebanho, reúne (...) carrega-os (...) tange as ovelhas mães” Ela , corretamente entendida e desenvolvida, é expressão d vivencia legal da Aliança com Deus.

Não é a Lei que segura a Aliança. É o contrário. O envolvimento no temor de Deus, no desejo de agradar a ele com amorosa e positiva aceitação de sua inspiração e guia é que sustenta e motiva a Lei. Cumprir a lei pela lei, na mera observância da letra, leva ao desvio da Aliança.

Infelizmente é o que acontecerá. E Deus estabelecerá a nova e eterna Aliança na pessoa de Jesus, pano de fundo da segunda leitura.

2da leitura 2Pd 3,8-14

O dia do Senhor, o retono do Ressuscitado está demorando. Este dia é apresentado como um evento no qual “os céus acabarão (...) os elementos, devorados pelas chamas (...) a terra será consumida com tudo o que nela se fez”. Viver nesta expectativa próxima, até iminente, significa redesenhar o sentido da existência, reformular projetos e programas de vida, aguardando com certa preocupação a chegada do evento que vai mexer radicalmente tudo e todos.

A demora cria sérios problemas e perguntas às quais os apóstolos não podem se substrair. Eis, então, que Pedro enfrenta o desafio e argumenta “O dia do Senhor chegará como um ladrão”, pois, é a promessa do Ressuscitado e o sentido da ressurreição do Senhor. É certo que tudo e todos serão tocados pelo evento.

Com efeito, a ressurreição de Jesus é manifestação de que Deus em Jesus, como representante da humanidade e da criação, tomou conta da mesma e a destinou à glória dele com a vida do Ressuscitado. Será um evento transformador e renovador em todos os aspectos.

O que está falhando é o quando. Particularmente, hoje, não é só isso, mas também a modalidade da vinda e as consequências em termos apocalípticos. Tomando ao pé da letra a descrição pavorosa da vinda, se acostuma ligar os eventos assustadores da natureza, o perigo atômico, os gravíssimos problemas sociais a sinais premonitórios do fim. Mas será isso mesmo?

O que nos esperamos, de acordo com sua promessa, são novos céus e uma nova terra...”. Não aponta a outro céu e outra terra, mas este céu e esta terra transformados, pelo triunfo da justiça “...onde habitará a justiça” . Tudo o que não responde à justiça “tudo se vai desintegrar (...) quando os céus em chamas vão derreter e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão”.

Sobre o corpo massacrado e morto de Jesus, em virtude de sua entrega de amor para o triunfo da justiça, o Espírito Santo - o fogo de Amor - liberou Jesus da morte, o renovou e transformou... Portanto, o que aconteceu nele, acontecerá para toda a humanidade. Não entendo porque haveria um processo diferente.

Parece-me que mais que acontecimentos naturais apocalípticos - a natureza tem suas leis e seu destino- o evento ultimo e definitivo, com a vinda do Ressuscitado, será a investida do Espírito Santo, cujos efeitos serão como o fogo descrito, que purifica e transforma tudo e todo.

Purificação e transformação que já fazem parte do dia-a-dia do cristão consciente em nível do conhecimento “Uma coisa vós não podeis desconhecer, caríssimos: para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia. O senhor não tarda (...). Ele está usando de paciência (...) quer que todos venham a converter-se. O dia chegará(...)”. E em nível de prática de vida coerente “esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura e sem mancha e em paz”.

Este processo tem em João Batista uma referencia muito significativa, como o Evangelho indica.

Evangelho Mc 1,1-8

“Inicio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Não se trata simplesmente do inicio cronológico, com respeito à atividade e missão de Jesus. Mas, também, do inicio do processo pelo qual a boa noticia de Jesus se torna boa realidade na vida da pessoa e da comunidade.

“Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho”. João Batista desenvolve a missão e chama o povo ao deserto, tradicionalmente lugar do encontro com Deus e de conversão, e incentiva enfaticamente “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” .

Na proximidade da chegada do messias prega “um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. Pecados por desrespeitar a Lei e afastar da Aliança. A conversão esperada consiste em voltar ao respeito da Lei, exigência da Aliança. Pois, com a chegada do Messias haverá o juízo: para os cumpridores a salvação, a participação no Reino e para os outros o fogo eterno. Ninguém poderá escapara nem com a morte, pois a ressurreição dos mortos é exatamente para que o juízo os alcance.

Trata-se fundamentalmente da conversão ética, sem dúvida muito importante, mas não determinante, pelo que Jesus fará acontecer. A retidão para com a Justiça não é dispensável, pois, “A sabedoria não entra numa alma que planeja o mal nem mora no corpo devedor ao pecado” (Sb 1,4).

É o primeiro passo. O mesmo João enxerga que muito mais há de vir “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu”. Sabe que o agir dele é circunstanciado e abrange um horizonte limitado, propedêutico a algo maior. Não percebe a magnitude, em termos de renovação e transformação, do que vai acontecer com a pregação de Jesus. Prova está que do cárcere “enviou seus discípulos para lhe perguntarem ‘És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro? ’” (Mt 11,3).

Percebe a ínfima pequenez dele “Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias”. Contudo, não é motivo para ficar com um pé atrás o acanhado perante os poderosos. Pelo contrario, está bem determinado em desenvolver a missão que lhe compete, ao ponto de desafiar o rei com as consequências que sabemos.

Mas percebe também a distancia entre a missão dele e a do Messias. “Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”. Com certeza João Batista não tinha ideia do que poderia significar o batismo “com o Espírito Santo”, pois ele acontecerá com a morte e ressurreição de Jesus.

Pois, Jesus disse “ Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra!”(Lc 12,49). É o fogo do Espírito Santo. É o batismo, mergulho, ma morte e ressurreição.

Com Jesus continua o processo de conversão, de purificação e de transformação com o fogo do Espírito, por meio da Palavra e de sua ação sacramental, que investe o os que acreditam nele e terá seu ponto final na vinda do Ressuscitado, como evento último e definitivo,motivo próprio do Advento e da esperança de todos os tempos.

Importante é tomar consciência que estamos neste processo, que participamos plena e ativamente dele por assumir o estilo de vida, a pratica e a missão de Jesus e, para com ele mergulhar no evento final, para que Deus seja tudo em todos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

1o DOMINGO DO ADVENTO -B- (27-11-11)

1ª leitura Is 63,16b-17. 19b; 64,2b-7

Há momentos em que devido às péssimas e lastimosas condições de vida cabe se analisar e se perguntar o porquê da condição atual e suas causas. A insatisfação e o sofrimento do presente levam olhar para trás.

Assim, no horizonte do povo eleito, do povo da aliança, sobressai a resposta. “Tu te irritaste, porque nós pecamos (...). Não há quem invoque o teu nome, quem se levante para encontrar-se contigo ”. Perderam o temor de Deus e o coração deles se endureceu.

Assim, o povo - a maioria, não todos, v.4 -, não deu importância, não tomou a serio as condições da Aliança, não acreditou e, menos ainda, cultivou o correto relacionamento com o Senhor, apesar de tê-lo experimentado como libertador, como redentor e como Pai na saída do Egito, terra de escravidão e do domínio do mal.

Deus ficou desiludido e desconcertado. A reação dele é própria de toda pessoa defraudada “Tu te irritaste, porque nós pecamos (...) escondeste de nossa tua face e nos entregaste à mercê de nossas maldades”.

E as consequências estão aí “Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas obras são como um pano sujo; murchamos todos como folhas, e nossas maldades empurram-nos como o vento”.

Como então, também hoje, estamos dominados por gente corrupta, que em ausência da lei, ou se burlando dela, mandam e desmandas a próprio gosto, cultuando o deus dinheiro e da prepotência do poder. Só pensar na especulação e crise financeira em nível mundial, a exploração da natureza com suas consequências para o meio ambiente, as guerras e as violências espalhadas no mundo...

Nessas condições o pensamento e o olhar se dirigem a Deus, e paradoxalmente se tornan cobrança, como se Ele fosse o culpável: “Como nos deixaste andar longe de teus caminhos e endureceste nossos corações para não termos o teu temor?”.

Eis, então, o resgate dos sentimentos, da condição de filhos e da consciência de ser integrantes da obra de Deus “tu és nosso pai, nosso redentor; eterno é o teu nome (...), Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obras de tuas mãos”, e, sobretudo, da memória “Nunca se ouvi dizer (...) que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que neles esperam”.

Daí a súplica de todo coração “Por amor de teus servos (...) volta atrás. Ah! se rompesses os céus e descesses!” para oferecer ao povo a condição e a possibilidade de restabelecer a nova ordem e recompor a Aliança. Pois, há pessoas bem disposta a isso “Vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos”.

Contudo, a permanente vinda e presença do Senhor é aquela que o povo descobre na observância dos termos da Aliança. É a força e a vida de Deus em nosso meio, para não cair na tentação, da sedução do poder e do dinheiro e do egoísmo do individualismo.

Mas, também, está na indignação dos homens de toda raça, cultura a nação, de todo movimento em sintonia com a justiça e o direito, para uma eficaz legislação e organização mundial que não permita o que tristemente estamos assistindo. A força dos indignados é a força de Deus, é antecipação de sua vinda última e definitiva.

O sentido do Advento é ao mesmo tempo antecipar e ao mesmo tempo aguardar a vinda do Ressuscitado, o futuro que se faz presente, mesmo se reservando como futuro.

Atualização já presente na comunidade de Corintos em todo homem de boa vontade, por Jesus ter restabelecido a Aliança, e as pessoas terem respondido positivamente a ela.

2da leitura 1Cor 3-9

Paulo se dirige aos integrantes da comunidade, lembrando o agir, o dom, de Deus e a nova condição deles, pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, que transformou a vida dele. Este mesmo dom foi passado a eles, e consequentemente Paulo afirma dar “graças a Deus sempre a vosso respeito (...) por ele fostes chamados à comunhão com seu filho, Jesus Cristo, Senhor nosso”. É a comunhão que ele está experimentando. Portanto, falando a eles está manifestando a própria experiência, a própria vivencia, de comunhão com o Senhor.

Pelo dom de Deus “nele fostes enriquecidos em todo, em toda palavra e em todo conhecimento, à medida que o testemunho sobre Cristo se confirmou entre vós”. A medida está ligada à transmissão do dom dentro e fora da comunidade, ao aprofundamento do mesmo na prática da caridade, pelo qual se percebe a grandeza, a profundidade e a participação ao mistério de Deus.

Portanto, o enriquecimento deve-se à dinâmica da caridade (é muito mais da esmola!). Palavra e conhecimento adquirem a condição de verdade, pela pratica da caridade que faz mergulhar na plenitude da vida, na plenitude do amor, que é Deus mesmo. Eis, então, que o testemunho de Cristo toma firmeza e consistência neles.

Nesta condição “não tendes falta de nenhum dom...” ,pois, tudo o que Deus podia doar já doou. É o dom do qual se desdobram todos os dons, tudo o que o homem precisa para uma existência bem sucedida está doado. Com isso, especifica Paulo, “ele vos dará perseverança em vosso procedimento irrepreensível” sendo que o dia -a dia - traz consigo provações, dificuldades e seduções, no qual se precisa firmeza e coerência para não desviar ou compactuar com situações que não condizem.

O mergulho cada vez mai profundo no dom e no envolvimento nos efeitos dele, faz que “aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo”. Ela acontecerá “o dia de nosso Senhor Jesus Cristo”, o dia último e definitivo de Deus a favor deles, da humanidade e da criação. Será o dia da vinda do Ressuscitado, no qual Deus Pai será tudo em todos.

Será como o novo nascimento, a participação plena à vida de Deus. Assim, o presente e o futuro, o caminho e a meta estão intimamente ligados. Por outro lado a ressurreição de Jesus Cristo é garantia e manifestação deste elo.

Como a morte e ressurreição dele està motivada pela pratica do amor, o melhor, da caridade, a mesma pratica atualizada na vida do cristão o faz participe da realidade divina e da percepção da realidade da mesma meta, do mesmo destino, Se a caridade é o dom de Deus para a vida presente, ao mesmo tempo é certeza do destino, da meta futura.

Paulo esperava a vinda do Ressuscitado como iminente. Mas não foi assim. O que isso significa e como entender? Toquei o assunto O domingo anterior, no comentário da segunda leitura.

Fica a verdade do evento, pelo qual precisa assumir a atitude certa indicada pelo evangelho.

Evangelho Mc 13,33-37

“Vigiai, porque não sabeis quando o dono de casa vem; à tarde (...)”. Mem Jesus diz sabê-lo, pois, é de conhecimento só do Pai. Mesmo assim, Jesus passa a certeza que vai acontecer, pelo singular relacionamento com o Pai. (Vai além de este comentário investigar como é que sendo Deus é ignorante do que è do Deus Pai. É, sem dúvida, um quebra cabeça).

Contudo, alerta: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento”. Não ter conhecimento é condição necessária para viver intensamente o presente. A vinda do “dono da casa” acontecerá, e ela condicionaria demais o presente se fosse conhecido o momento.

Mas, também, é alerta contra a desconfiança, a descrença, de que vai acontecer. Na natureza humana, é espontâneo desconfiar quando há demora. Surge a pergunta: será que vai acontecer? Será que houve um entendimento errado? Será que as condições da vinda não são aquelas que comunmente se entende? O que Paulo achava como próximo, já passaram mais de dois mil anos... Então?

Cuidado de não baixar a alerta, bem ficando desconhecida a hora da vinda “Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo”. Condição de quem se deixa levar pela passividade sustentada pela desconfiança, pelo desanimo de que não vai acontecer.

O que destaca no texto é a ligação entre presente e futuro, entre o caminho nesta vida e a meta. O presente tem espaço e tempo necessários para desenvolver a existência de maneira bem sucedida. Pois o dono “deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa”.

Assim, o tempo presente é de responsabilidade ativa, para o bem da humanidade e próprio conjuntamente “amarás o Senhor teu Deis para o teu próximo como para te mesmo”. Assim que amar ao “outro” - pessoa, comunidade, humanidade- é a maneira de amar a si mesmo. É o tempo para desenvolver criativa e corajosamente a própria tarefa, ou melhor, a missão incluída nela, como lembra a parábola dos talentos.

A certeza do evento final se tornará mais firme e o que se desvelará nele mais esclarecido, pelo correto desenvolvimento da missão. Missão e evento final são interligados. A missão faz perceber a realidade do evento, assim como este último motiva ainda mais a missão.

Santo Irineu, um grande teólogo dos segundo século depois de Cristo, faz uma afirmação muito importante “ A gloria de Deus é o homem vivente, e a vida do homem é louvor a Deus”. A glória de Deus se manifesta na caridade para com o “outro”, pois é essencial para a vida de cada ser humano, além do alimento, amar e ser amado. Por outro lado, quem se percebe amado tem condição de amar, de devolver o dom recebido a favor de outros menos favorecidos. O louvor a Deus é exatamente isso: a liturgia da vida.

A exortação final “ O que vos digo, digo a todos: vigiai”, não é uma simples atitude de espera passiva, mas aponta aguardar o evento futuro na pratica da caridade, porque ela é já o futuro que se faz presente no tempo, é antecipação do evento final. E condição pera que este seja percebido como o verdadeiro sentido e fim da existência pessoal, da humanidade a da criação.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

FESTA DE CRISTO REI-A-(20-11-11)

1ª leitura Ez 34,11-12.15-17

O texto faz parte do juízo de Deus para com os chefes do povo. O Senhor tem palavras duríssimas contra eles, pois, os repreende para não se preocuparem do povo, mas de si mesmos, dos próprios interesses. Não tomaram conta dele, e das pessoas como o pastor responsável faz para com as ovelhas. O efeito foi que as ovelhas “foram dispersas num dia de nuvens e escuridão”.

Todo tem responsabilidades uns para com os outros, em virtude da solidariedade e da fraternidade próprias da condição humana; do relacionamento do dia- a dia- na família, no serviço e no convívio social. Em todo caso, todos exercem o pastoreio.

Mas o texto se refere aos que exercem autoridade sobre o povo, aos chefes. Eles têm especial responsabilidade com respeito a pratica da justiça e do direito para com as pessoas mais vulneráveis, expostas a todo tipo de exploração e engano por parte dos poderosos.

Não ter cumprido com isso, não tomar conta do bem das ovelhas, suscitou a indignação do Senhor. Pois, as ovelhas ficaram muito prejudicadas e com elas o sonho esvanecido; a expectativa do Senhor com respeito ao cumprimento das exigências da Aliança, frustradas. Grande é a desilusão do Senhor.

Eis, então, a determinação do mesmo de tomar conta pessoalmente das ovelhas e de proporcionar todos os cuidados necessários “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas (...) vou cuidar delas (...) vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersas”.

Elenca detalhadamente os cuidados “fazê-las repousar (...) procurara perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a de perna quebrada, fortalecer a doente,” expressão da compaixão, da misericórdia e do carinho para com elas. Não da para suportar a violência, a injustiça, a opressão e a maldade para com elas.

A indignação do Senhor transparece “Vou (...) vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito”. Outras traduções indicam a atitude do Senhor muito severa para com as ovelhas gordas e fortes. Trata-se do “vigiar” que traz consigo o castigo. Pois, a condição delas é a dos chefes, que a custa das ovelhas fracas engordaram e se fortaleceram que desrespeitaram a justiça e o direito e condenaram muitas ovelhas ao sofrimento e à vida desumana.

É facílimo o paralelismo com a realidade humana e social hodierna. Não se precisa de palavras para expor o que está debaixo dos olhos de todos. Infelizmente, assistimos a situações e sofremos condições pelas quais cabe se perguntar onde está o Senhor, como pode permitir que aconteça tanta injustiça, opressão etc., inclusive por parte daqueles que professam adesão à pessoa do Senhor e fazem dela o eixo da própria vida. O profeta Isaias declara que por causa deles muitos se afastam do Senhor...

Contudo, fica firme o compromisso do Senhor de cuidar, apascentar conforme ao direito e a justiça, de implantar uma nova ordem social. Assim, cada pessoa será atendida pessoalmente por ele e receberá o que precisa para o bem individual e a correta participação ao convívio social “eu farei justiça entre ovelha e outra, entre carneiro e bodes”.

Com efeito, a justiça de Deus toca a pessoa na sua individualidade e especificidade. Com sua ação o Senhor chega ao mais profundo do ser humano e cria as condições para regenerar, renovar e transformar a pessoa toda “Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar”. Devolve a ela a condição de gente, para se encontrar com a autenticidade de si mesma e exercer o pastoreio que o Senhor espera dela.

É Jesus o agir de Deus nos termos indicados pela segunda leitura.

2da leitura 1Cor 15,20-26.28

Paulo afirma “na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (...) e assim também em Cristo todos reviverão”. Com o termo primícias indica a ressurreição como primeiro fruto da ação salvadora, coroamento do evento Pascual. A ressurreição dele é potencialmente a ressurreição de todo homem, de todo tempo e lugar, pois, a pessoa de Jesus os representa a todos perante o Pai.

“Em primeiro lugar Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Pertencem a Cristo os que acreditam nele e se deixam tocar e transformar gratuitamente pelos efeitos da sua morte e ressurreição.

Esta, propriamente, é a justiça de Deus. Com efeito, Jesus, resistindo ativamente- tendo tolerância zero para com a ação de todos aqueles que queriam assumisse outras atitudes, que ensinasse conforme aos cânones estabelecidos pela instituição de então – e resistindo passivamente, no sentido que carregou toda rejeição até a cruz da sexta feira santa, tornou justa a humanidade de todos os tempos perante o Pai.

Tudo isso, em virtude de ser o representante dela. Portanto, pertencem a Cristo toda pessoa que aceita o dom oferecido e se deixa envolver por ele na condição de regenerado e transformado. Isso é justo aos olhos de Deus: devolver a dignidade e a vida às ovelhas perdidas. O conteúdo primeiro e específico da fé é exatamente isso.

Na Missa, após a consagração, a indicação do celebrante “eis o mistério da fé” e a resposta da assembléia apontam à atualização desta verdade. Assim, as palavras ao final da oração Eucarística em ternos de louvor e glória ao Pai na unidade do Espírito Santo são motivadas pelo que Cristo fez e atualiza na celebração a nosso favor. O consentimento é manifestado com o amém.

Era esperada como iminente a vida do Ressuscitado. Portanto, “por ocasião de sua vinda” este o acontecimento teria manifesto a todos a verdade da afirmação de Paulo. Era preciso cultivar a consciência de permanecer em Cristo, como condição de lhe pertencer, como o amante e o amado se pertencem mutuamente.

A vinda do Ressuscitado atingirá não são as pessoas, mas a humanidade e a criação. “A seguir, será o fim”, o ato último e definitivo de Deus a favor das obras de suas mãos. Ele consistirá em Cristo “entregar a realeza a Deus Pai”. A entrega ao rei do que lhe pertence: a humanidade e a criação redimida, pela constante atualização do mistério Pascual e a adesão a ele das pessoas e da humanidade.

A redenção de Cristo se visibilizará na luta permanente da humanidade no dia - a- dia-, pois, a luta de Cristo é a luta dos discípulos, dos seguidores, cuja vitória será manifesta quando “destruir todo principado e todo poder e força” contraria ao estilo de vida, à filosofia de Cristo “até que todos os inimigos estejam de baixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído será a morte”.

O mal e a morte não são as ultimas palavras na história das pessoas e da humanidade. Elas podem ser vencidas, antes de morrer, pela singular comunhão com Cristo, por Cristo e em Cristo... Tal vez seja esta percepção no meio das contradições e da ambigüidade da história e da vivencia do di- a - dia, que permite Paulo a surpreendente afirmação “E, quando todas as coisas estiverem submetidas a ele, então o próprio Filho se submeterá àqueles que lhe submeteu todas as coisas...”

Assim, a experiência e a vivencia do Deus conosco na pessoa de Jesus, bem tendo em si mesma todo o mistério de Deus, não o esgota. É como pretender que o oceano possa ser contido na garrafa... A obediência do Filho, a obediência dos discípulos, é a expressão da submissão à vontade do amor do Pai e do Filho pela humanidade.

Submeter ao Pai a humanidade redimida é a condição “... para que Deus seja tudo em todos”.O que significa, o alcance desta afirmação foge a toda consideração e pensamento humano. É presença no horizonte infinito, o indizível e inefável...

Algo desta surpresa é passada no texto do Evangelho.

Evangelho Mt 25, 31-46

É o conhecido texto do juízo universal, momento no qual a humanidade de todos os tempos será reunida “Quando o Filho do homem vier em sua glória (...) e ele separará uns dos outros”: salvação para uns e condenação ao “castigo eterno” para outros.

No contexto da salvação operada por Cristo, o Filho do homem na gloria adquirida por ter carregado sobre si mesmo o pecado da humanidade, choca esta sentencia que anula os efeitos da entrega Dele a favor de todo pecador... Ele morreu exatamente por estes que agora condena irremediavelmente ao castigo que não terá fim. Com a vinda dele acabou a compaixão e a misericórdia? A justiça se tornou retribuição, como no Antigo Testamento? São perguntas pelas quais, ainda, não encontrei uma resposta exaustiva...

O motivo da condenação ou da salvação é bem conhecido: “estava com fome e não me destes de comer...” para os primeiros, e “eu estava com fome e me destes de comer...” para os segundos. A condenação é para aqueles que voluntariam ou involuntariamente não se mexeram a favor do necessitado.

Descuido, indiferença, falta de atenção, preconceito, desprezo etc.. Os motivos podem ser múltiples, de fato, fechados sobre si mesmos - egocêntricos - foram insensíveis ou desatentos à compaixão e à misericórdia pelos que sofrem e precisam de ajuda. Deviam ser o bom pastor para com eles, mas nada disso aconteceu. Foram para frente como se o sofrimento dos outros fosse simplesmente problema deles. Tal vez, na melhor da hipótese, merecedores de expressões quais “coitadinhos”, “ninguém faz nada para com eles?”etc.

Surpreende a todos que o Ressuscitado se identifique com eles “Eu estava com fome (... ) com sede...”e mais ainda a resposta de quem lhe pergunta “quando foi que te vimos...?”. A resposta “Em verdade os digo que, todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” é particularmente importante.

Parece-me que não se trata de “ver” a Jesus no necessitado, nem de acrescentar não sei quais virtudes por eles serem carentes. Nada sustenta pensar ou da para perceber que sejam melhores dos outros, pois, como todos os seres humanos deixam desejar... Muitos deles são como ricos frustrados e assumem a mesma a mentalidade deles, explorando, por sua vez, os mais necessitados..Muitas vezes os sofrimentos e a carência os tornam insensíveis. Nada de sublimar a condição deles, pelo fato de Jesus se identificar com eles.

Contudo, a caridade feita a eles é ao mesmo Cristo e fonte de salvação. Perceber a presença de Cristo no pobre é o mesmo ato de fé de perceber a presença Dele na hóstia e no vinho consagrado. Não se percebe nada do ponto de vista humano e, contudo, se afirmam que o pão e o vinho são transubstanciados, transignificados e transfinalizados.

É preciso se despojar de todo critério humano, pois, a presença , o significado e a finalidade da presença do Senhor, como na Eucaristia, coloca quem pratica a caridade para com eles em outro nível, no horizonte da comunhão com o Senhor pela pura gratuidade do dom de si mesmo.

O amor nestes termos é salvação, é o culto espiritual. O contrario é isolamento e perdição.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

33o DOMINGO DO T.C.-A-(13-11-11)

“Uma mulher forte (...) vale muito mais do que as jóias”. A fortaleza é característica própria da pessoa que enfrenta os desafios, dificuldades e provações. Sabe viver em toda circunstância, particularmente as adversas, com coragem e determinação, sustentada pelos valores que constituem o patrimônio da própria cultura humana, religiosa e social.

Ela consegue desenvolver suas atividades de maneira bem sucedidas “Procura lã e linho, e com habilidade trabalha as suas mãos”. É atenta e generosa para com as pessoas carentes “Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos aos pobres”,pois, não esgota no âmbito familiar sua preocupação, sensibilidade e afeto.

O texto descreve uma mulher bem identificada consigo mesma, com sua missão de mãe e de esposa, com suas atividades e com o ambiente. Portanto, “ela vale mais do que as jóias”, é a companheira perfeita do marido que, nestas condições, “confia nela plenamente e não terá falta de recursos”. É a descrição de um quadro ideal e, de fato, o autor se pergunta “quem a encontrará?”...

Contudo, o eixo desta condição ideal está no temor do Senhor, enfaticamente motivo de louvor “a mulher que teme ao Senhor, essa sim, merece o louvor”. Até o que é próprio da feminilidade, o encanto e a beleza, é relativizado em função do temor ao Senhor, para o desenvolvimento bem sucedido. Não que sejam desvalorizadas, mas são integradas dentro do quadro do correto relacionamento com o Senhor.

Com efeito, o temor do Senhor - atitude reverencial e amorosa de quem pretende não desagradar até nos detalhes - confere o juízo, bom senso e cria as condições para elaborar o estilo de vida e as atitudes convenientes que o texto descreve.

Assim,ser autenticamente si mesma em sintonia com os valores nos quais acredita, cresce a identidade com o Senhor, presta atenção aos necessitados, aos carentes, tornando mais lúcida e consciente a caridade para com eles. Este testemunho, apreciado e valorizado, é colocado como exemplo de imitar “essa merece louvor! Proclamem o êxito de suas mãos, e na praça louvem-na as suas obras!”.

Evidentemente, hoje, a realidade e a condição da mulher têm bem outras características. Não há paralelismo com os do então. Contudo, permanece essencial e valido assumir como referencia central o temor do Senhor.

Na complexidade e nos desafios da vivencia pessoal e familiar , o temor do Senhor, à luz do estilo de vida de Jesus e do significado de sua morte e ressurreição, é o pano de fundo para discernir o certo do errado, o que é preciso assumir ou deixar para uma existência bem sucedida.

É a maneira para não desanimar nas dificuldades por um lado, e não ficar parado o acomodado ma mesmice, que produz tédio e tira o sabor da existência. Pelo contrario é estimulo e pano de fundo para a criatividade, para a coragem de ultrapassar limites convencionais, para a luta sustentada pela certeza de encontrar novas respostas e enxergar novos caminhos de satisfação.

É vivenciar a condição de filho da luz, à qual faz referencia Paulo na segunda leitura.

2da leitura 1Ts 5,1-6

Paulo distingue dois mundos contrapostos, o das trevas e o da luz. Ao mundo da luz pertencem os membros da comunidade “Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia”, por cuidarem e cultivarem o correto relacionamento com o Senhor, o temor de Deus, fonte e principio de toda sabedoria.

O ensino de Jesus e a pratica de vida correspondente, em sintonia com o estilo de vida, a filosofia e a missão dele, à luz do evento da morte e ressurreição, passam a certeza deles participarem do mesmo destino e de aguardarem com confiança e certeza o retorno por Ele prometido, antes de sua saída ao céu.

Portanto “Quanto ao tempo e à hora, meus irmãos, não há por que vos escrever. Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como ladrão de noite”. A vinda do Senhor ressuscitado é certa e acontecerá quando menos esperam, será uma surpresa “então e repente sobrevirá a destruição, como as dores de parto sobre a mulher grávida”. Momento, também, de pavor “E não poderão escapar”.

Destruição, pavor, evento apocalíptico descrito nos textos bíblicos com imagens terrificantes. Os cristãos da comunidade, e com eles Paulo, esperavam acontecesse no tempo bastante próximo.

(Entre parêntesis. Hoje, dois mil anos depois, como entender estas palavras? É o que o tempo de Advento indica como meta, destino, da historia da humanidade. Muitas perguntas ficam no ar, embora o a teologia específica sobre este assunto - a escatologia - procura respostas plausíveis à luz do mistério pascal).

Contudo, se Paulo falou disso significa que ele teve percepção, intuição e certeza do acontecimento como realidade que vai acontecer, como momento determinante e definitivo da vida pessoal e da história da humanidade. É a ele que estamos orientados e destinados.

É realidade ligada à pessoa de Jesus e ao evento pascal. Modalidade e tempo poderão ser repensados e reformulados, mas a meta e o evento fazem parte do patrimônio da fé transmitido pela morte e ressurreição de Jesus e a vinda, em Pentecostes, do Espírito Santo.

Em contraposição Paulo explicita aos cristãos “Mas vós, meus irmãos, não estamos nas trevas (...). Não somos da noite nem das trevas...”, assim de ficar surpreendidos da vinda do Senhor. A vida com Cristo e em Cristo é como estar na luz, é participar da certeza da vinda e conformar a ela própria vida no dia- a dia-.

Conseqüentemente “... não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios”. Trata- se da alerta de não voltar ao estilo de vida de antes, como quem ignora esta verdade e leva uma conduta que não condiz, se deixando levar por todo excesso. O convite à sobriedade é usar dos bens necessários com equilíbrio e correta moderação. Assim, ter as condições físicas, psicológica e morais de aguardar a vinda iminente do Senhor com a atitude vigilante, própria de quem está já participando da alegria da proximidade da chegada .

Não é uma espera passiva, de braços cruzados, mas ativa, como ensina o evangelho

Evangelho Mt 25,14-30

A parábola mostra o homem que antes de viajar “entregou seus bens” e os distribuí, em quantidade diferentes a três dos seus servos. Estes últimos são conscientes das expectativas do patrão, “ Senhor, sei que és um homem severo pois, colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste”.

Por que esta severidade arrogante e surpreendente e, até, injusta sob o perfil dos critérios humanos? Que mensagem queria passar? Parece-me que queria ser como uma enérgica sacudida para eles não se acomodarem, para tomarem a sério, pelo temor reverencial, a entrega do dom. Ao mesmo tempo é uma alerta de que o dom deverá ser trabalhado com determinação e inteligência, pois, se lhes pedirá conta.

Os primeiros dois responderam positivamente, e apresentaram o fruto recebendo a aprovação, o elogio e mais confiança na administração dos bens do Senhor e o convite “Vem participar da minha alegria”.

A atenção vai para o terceiro, que justifica sua atitude “Senhor, sei que és um homem severo (...). Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence”. Ele motiva ser o medo, pela severidade do Senhor, o empecilho pelo qual preferiu enterrar o dom. Mas o Senhor aponta ele ser “Servo mau e preguiçoso”. Não tinha vontade de trabalhar o dom recebido e a preguiça falou mais alto.

O Senhor teria se conformado com que simplesmente tivesse depositado o dinheiro no banco “devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence”. Algo tão simples e de pouco empenho. Mas nem isso. Preferiu ocultar sua ma vontade atrás do medo pela severidade do patrão.

Tal vez se tivesse admitido e reconhecido o próprio erro e não disfarçá-lo atrás do medo pela severidade do patrão, teria conseguido o perdão e outra chance de se redimir. A falta de sinceridade manifestou a vontade de permanece na atitude errada e fechou toda alternativa de redenção. Tornou-se “servo inútil

Não tendo trabalhado o dom acabou perdendo o dom mesmo “Tirai dele o talento...”. É uma advertência e uma indicação de grande importância para permanecer no caminho da salvação e para chegar à meta. É preciso trabalhar o dom, no sentido que deve ser passado a outros. Pois, a transmissão do dom enriquece o destinatário, no caso que o acolha e se deixe tocar por ele. Ao mesmo tempo enriquece, também, o transmissor se ele opera na gratuidade e no desinteresse, sem segundas intenções. Isso permite que o transmissor cresça mesmo que o destinatário fique fechado o indiferente.

Pois a gratuidade e a liberdade de amar do transmissor fazem dele a testemunha da verdade pela dinâmica de oferecer o dom com toda convicção e generosidade. O crescimento é, ao mesmo tempo, entrar na alegria do Senhor.

“... e dai-o àquele que tem dez! Porque a todo aquele que tem será dado mais, e será em abundancia, mas aquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. É uma sentencia muito dura, chocante. Parece que não há misericórdia e compaixão para com a fraqueza deste servidor negligente, tal vez pelo motivo indicado acima, pela ambigüidade, pela hipocrisia dele. Com efeito, Jesus tem palavras duríssimas contra os hipócritas. Não vê para eles espaço de salvação.

A severidade do patrão “Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!” alerta sobre o resultado final e as conseqüências. Uma realidade que faz estremecer...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

FESTA DE TODOS OS SANTOS-A- 06-11-11)

1ª Leitura (Ap 7,2-4.9-14).

O anjo de Deus marca “na fronte os servos do nosso Deus” antes da ação transformadora da terra e do universo.É a “marca do Deus vivo”com a qual Deus reconhece a autenticidade e valor daqueles que agiram como seus servos. É a marca da esperança. Aponta a intervenção de Deus em favor de seu povo, preservando-o da tragédia que está para acontecer.

Obedientes e cumpridores das exigências da Aliança deram testemunho de fidelidade ao projeto Dele. Ser marcados significa, também, pertencer Ele como Senhor da Vida, do qual tudo procede e ao qual tudo tem sua meta e seu fim.

Os 144.000 é um número simbólico. É 12x12x1000 que na linguagem bíblica significa todos. Com efeito, no versículo seguinte (v.9) fala-se “de uma multidão imensa de gente...que ninguém podia contar” frisando a universalidade do projeto de Deus, assim como de seus servos e ,portanto, da salvação. Multidão caracterizada pela diversidade de etnias, de línguas, de maneiras do encontro com Deus.

O texto se refere ao que acontecerá no final da historia, com a volta do Ressuscitado, como Jesus mesmo prometeu antes de voltar ao Pai. É um texto escatológico que descreve, de maneira simbólica, a última e definitiva intervenção de Deus sobre a criação a humanidade e a história, o que comumente chamamos “fim do mundo”.

Estavam de pé”: atitude de respeito, de prontidão. Eles manifestam com suas roupas e palmas a realidade e a condição de servos. Com efeito, “trajavam vestes brancas... pois, lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”. As vestes se tornaram brancas e puras não em sentido moralista e, sim por acreditar nos efeitos da morte e ressurreição do Cordeiro. Foi por esta fé que assumiram a condição de novas criaturas. O inciso: “ Traziam palmas na mão” indica que foram fieis até o martírio,pois, “Esses são os que vieram da grande tribulação” derramaram o próprio sangue. Assim, os servos de Deus aqui descritos são aqueles que fizeram a radical opção de servir ao projeto de Deus, por confiar integralmente Nele.

Impressionante o testemunho deles: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. Reconhecem que Deus, sacrificando o próprio filho- o Cordeiro que tira o pecado do mundo- é origem e causa da salvação deles, por terem aceitado e interiorizado este presente de Deus. Isso suscitou neles a determinação de seguir o Cordeiro, e os tornaram novas criaturas e fieis até o martírio. Assim, no final dos tempos, proclamam “com voz forte” o certo e a conveniência daquela determinação que, por passar pelo crivo das provações e perseguições, fez deles participantes da mesma glorificação do Cordeiro.
Eis, portanto, traçado o perfil do caminho de santidade. Todo cristão é chamado e ela por aceitar o dom de Deus, selado pelo Batismo, alimentado pela Eucaristia e vivenciado na prática do Evangelho no dia- a dia- em virtude do qual a Boa Noticia do Evangelho se torna Boa Realidade nos relacionamentos familiares, na comunidade, no serviço, na convivência da sociedade civil, na preocupação pela justiça e o direito entre os povos,ou seja,nos relacionamentos do dia-a-dia.
Mas, também, o caminho de santidade é forjado pela oposição de pessoas e instituições que pensam e agem de maneira contrária. Daí o choque, o conflito e até o martírio, razão pelo qual muitos desistem ou até nem de longe pensam permanecer nisso.
O que determina a pessoa nesse caminho é indicado na 2da leitura.

2ª Leitura (1 Jo 3,1-3).

Ponto de partida é o “grande presente de amor (que) o Pai nos deu” com a entrega do próprio Filho, o Cordeiro que tira o pecado do mundo. A aceitação e a interiorização no coração, dessa verdade leva acreditar nos efeitos atualizados daquela entrega. Assim, ela nos torna filhos de Deus.

Com ênfase o texto frisa: “e nós os somos!” como para convencer de algo que ultrapassa de muito toda expectativa e imaginação: de pecadores, afastados e inimigos de Deus á filhos, pois, somos filhos no Filho! Eis, então, o grande presente pelo qual os pecados da desconfiança, da superficialidade, da desvalorização, do desinteresse, da oposição e até da rejeição, da promessa e da ação de Deus são desmanchados. Em virtude disso, é resgatada a amizade, a familiaridade a comunhão com Deus, a dignidade de filhos por meio do Filho.

Então, ser chamado de filho de Deus é um presente. Indica profunda intimidade com o agir e pensar de Deus. Naquele que é reconhecido como filho de Deus transparece a união tão intensa com Ele ao ponto dele semelhar a Deus, e Deus assumir a forma humana nele. Pois, o amante e o amado se unem no amor.

O conteúdo específico e fundamental da fé é exatamente isso!Ela sustenta e alimenta a esperança de maneira tal que “Todo o que espera nele...” por acreditar nos efeitos do presente, do dom, “purifica-se a si mesmo”. Eis, portanto, o processo de purificação interior, quando nos colocamos em total,humilde e sincera transparência no mais profundo de nós mesmos com esse surpreendente dom de Deus.

Aí recuperamos nossa identidade, nosso verdadeiro ser e o sentido profundo de nossa existência que se desdobra, com satisfação plena, nos acontecimentos e nas atitudes coerentes do dia-a-dia. Isso nos leva a intuir que a filiação divina transcende ao simples cumprimento de preceitos éticos e ou morais, pois, eles manifestam o grau, a intensidade, da adesão filial.

O texto acrescenta algo ainda mais surpreendente "como também ele é puro" . Parece uma meta impossível , e como tal é descartada de antemão...Contudo,é algo que nos fascina,que motiva a esperança,que sustenta um futuro que não é tão impossível, considerando que Ele assumiu nossa condição humana e caminha conosco. Entre outras coisas, essa meta oferece sonhar alto para que a vida tenha aquele horizonte, aquele futuro, que dá sentido ao presente e sustenta cada atitude coerente.Tudo isso é oferecido por esse “grande presente de amor que o Pai nos deu” . Já somos filhos, porém, quando formos como Jesus o veremos como Ele é. Então, alcançaremos nosso potencial máximo, seremos verdadeiramente nós mesmos , um “eu” íntegro, não dividido em Jesus Cristo.
Por outro lado, sabemos que nem todos compartilham esse entendimento. O texto define estes como “mundo”, que não “conheceu o Pai”. O “mundo” não é estranho a nós mesmos, mais age em nós e toma conta de nós em determinados momentos e circunstâncias. Daí, então, a necessidade de voltar à purificação, ou seja,ativar o processo de conversão permanente,mergulhando, com renovada fé, no grande presente de Amor através da Palavra e os Sacramentos,especialmente da Missa.
Esta atitude de perseverança, de confiança, habilitará repetir em nossa vida e na sociedade a vivencias das Bem aventuranças.

Evangelho (Mt 5,1-12ª)

É o famoso texto das bem-aventuranças. Como soaria o texto substituindo o termo bem-aventurado por parabéns? Pois, disso mesmo se trata. Jesus ensina aos discípulos o que merece ser parabenizado “ Jesus começou a ensiná-los” Mas, parabéns de que? Por serem pobres, aflitos, mansos, por promover a paz num mundo hostil... Por serem perseguidos, caluniados etc.? Quem se atreveria falar isso a uma pessoa nessa situação? Parabenizamos todo o contrário... Como entender isso?
Estamos no pleno paradoxo do Evangelho: a verdade se manifesta no seu contrário. Jesus fala para aqueles que assumiram para valer a causa dele, a missão dele “...por causa de mim" Eles assumiram a causa como resposta de amor ao grande amor do qual falamos na 2da leitura. Trata-se de pessoas profundamente tocadas e transformadas por este amor. Em virtude disso, o viver delas é Cristo, é se tornar, com humildade, testemunhas da continuação da presença de Cristo na história e nas circunstâncias concretas do dia-a-dia.
Nesse sentido Jesus está passando para eles o que é, e será, a experiência Dele no desenvolvimento da missão. Assim, o discípulo experimentará todo o que Ele experimentou como homem, como pessoa, como Filho do Pai. Experimentará o que é ser homem, o que é ser pessoa e o que é ser filho de Deus- filho no Filho, como tocamos na 2da leitura-. Dai os parabéns.
Assim, o texto pode ser entendido como a peneira que discerne até que ponto o cristão é realmente discípulos de Jesus. É evidenciado, assim, o grau de percepção e da vivencia “do grande presente de amor que o Pai nos deu” (2da leitura),assim como a consistência, ou menos, da realidade de filhos de Deus.
O texto deve ser assumido como um todo. Não dá para pensar uma bem - aventurança desligada da outra. Não dá, por exemplo, ter fome e sede de justiça e ter um coração com segundos fins, um coração impuro...
Assim, o entusiasmo por uma bem - aventurança e a frieza para com a outra, a prática significativa de uma e a prática insignificante da outra, determinam concretamente o espaço da conversão no processo de recepção do grande presente de amor e da identificação em Cristo.
Tudo isso nos diz que o processo de santificação é inesgotável. Acompanha-nos a vida toda e constitui a experiência da profunda alegria nessa vida, mesmo passando pelas dificuldades e provações que o texto aponta:”Alegrai-vos e exultai” se refere aqui e agora porque, misteriosamente, esse tipo de sofrimento tem e si mesmo essa verdade.
É se alegrar interiormente pelo sentido de plenitude e satisfação de quem experimenta o acontecido como oportunidade de crescimento, de integração, de identificação com o que é ser pessoa bem sucedida e,na transparência, enxergar a presença que faz dela e de Cristo uma realidade só,mantendo as devidas diferenças.
Cabe destacar que não é pela observância, cumprimento, das bem-aventuranças que ganhamos ou merecemos o céu. É o contrario. O cumprimento delas manifesta que já o céu está em nós, pela vivencia de filhos de Deus.