segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

EPIFANIA DO SENHOR- 2-1-11

1ª Leitura Is 60 1-6.

Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando forte”. Experiência sumamente gratificante. Gostaríamos de permanecer constantemente nela. Ela motiva o sentido profundo e verdadeiro da existência de todo ser humano. É o que, por diferentes caminhos, todos desejam e buscam. Ela está ao alcance de todos, embora esteja a “terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos” com sua carga de sofrimento, de sensação de estar num beco sem saída, e, portanto, sem futuro e sem esperança.
Contudo, ela está disponível “porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor... e sua glória já se manifesta sobre ti”. Dai o convite: “Levanta-te, acende as luzes”, o imperativo e a ordem: Levanta-te, com outras palavras, deixa as trevas e as nuvens escuras da existência enganosa, falsa, porque sedutora e desviante. Olha a luz no interior e profundo do teu ser, porque como diz o salmo “na tua luz nós vemos a luz”, pois, a luz que ilumina teu novo ser e teu novo dia já está aí, na pessoa do Salvador “sua glória já se manifestou sobre ti”.
Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” O sujeito é a pessoa (também a comunidade) revestida por essa luz e glória do Senhor. Ela se torna tão expressiva e significativa de surpreender até ela mesma, pois, “todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços”. Daí, a alegria e o júbilo, pois, ficarás radiante e com o coração batendo forte. Mais ainda, constatando que com eles chegarão outros povos, outras nações, com suas riquezas “pois com eles virão as riquezas e mostrarão o poderio de suas nações” . Portanto, a percepção e o sentimento da universalidade da salvação dependem de “ levantar- se”, de abrir os olhos e acolher a luz e ser luz, de viver coerentemente e em sintonia com ela e se tornar luz das nações.
O efeito será “uma inundação de camelos e dromedários... virão todos trazendo ouro incenso e proclamando a glória do Senhor”, ou seja, a experiência da harmonia e da paz universal. Assim, a fraternidade universal será o reconhecimento, o sinal, da presença da glória do Senhor que motivará a partilha dos bens materiais- o ouro- e o correto louvor a Deus- o incenso-.
Parece-me desnecessário frisar esta festa como oportunidade para avaliarmos, como pessoas e como comunidade, as concretas atitudes do dia -a- dia, dentro e fora da comunidade, com respeito à humanidade toda, portadora de grandes desafios, marcados pelos diferentes povos e diferentes culturas, que desafiam a evangelização e a convivência na pratica do direito e da justiça.
Com efeito, a vocação cristã tem a dimensão que abrange a humanidade toda. É preciso, portanto, pensar globalmente para agir localmente e ter consideração para com a humanidade, como a única família de Deus. Nesta perspectiva, a festa de hoje é entendida no horizonte da fraternidade, do respeito, da diversidade, do direito e da justiça, ou seja, do acontecer do reino de Deus.
A luz e a Glória de Deus que já brilha sobre nós, têm o conteúdo que analisaremos na 2da leitura.

2da leitura Ef 3,2-3ª.5-6.

Se ao menos soubésseis” É desejo profundo do coração de são Paulo que os destinatários da carta adquiram o conhecimento do que ele estima de grande importância e imprescindível para o alicerce e o fundamento do autentico saber sobre o qual d construir para experimentar com ele a “ graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”.
Assim, o conhecimento é graça, é dom de Deus, que se desdobra no esforço, no trabalho, na instrução, no testemunho para contribuir ao plano de salvação de Deus com respeito aos destinatários e, por conseguinte, à humanidade toda. A dedicação, a teimosia, os sofrimentos, as lutas, os êxitos e os fracassos e, enfim, a morte dele, testemunha como este dom foi acolhido e devolvido a Deus, com a finalidade de fazer conhecer aos homens de todos os lugares que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus cristo, por meio do Evangelho”.
Importante é devolver o dom, para que ele cresça em quem o transmite assim como em quem o recebe. Concretamente, são Paulo assumiu a mesma causa de Cristo a favor da salvação da humanidade toda, derrubando todo tipo de barreira e implantando os critérios da verdadeira fraternidade. Tudo baseado no significado e no efeito da ação, da morte e ressurreição de Jesus Cristo, nos quais são mergulhados todos aqueles que, pela fé, aceitam este presente por meio de Evangelho, ou seja , do evento da sexta- feira Santa e do domingo de ressurreição . Ele, o evento, é a boa noticia do resgate e da redenção que se tornou boa realidade. Assim, a pregação, a aceitação, a memória- celebração daquele evento atualiza os mesmos efeitos e faz as pessoas participes da herança, do mesmo corpo e da mesma promessa.
Mais ainda, tudo isso constitui o que Paulo chama de mistério, manifestado a ele “por revelação tive conhecimento do mistério... (que) Deus acaba de revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas”. Ele teve conhecimento disso na porta de Damasco, quando a luz do mistério o envolveu. Assim, que quando Paulo fala de mistério, no entende, em primeiro lugar, uma realidade desconhecida e inacessível que fica tal, mas o evento pelo qual de forma misteriosa a pessoa é envolvida ,iluminada e transformada, e faz da causa de Cristo a própria causa de vida.
Isso se deve à ação do Espírito, a eterna presença do Ressuscitado em nós. Ele revela a presença do Ressuscitado na pessoa de coração aberto, humildade e consciente das próprias faltas e pecados, que aceita o dom gratuito da própria redenção, do próprio resgate, perdão, salvação etc. operado por Cristo. Estas pessoas são os santos, não em sentido ético, mas em sentido que são renovados, transformados na profundidade, na estrutura do próprio ser. Para usar uma comparação, são como a pessoa refeita, sarada e renovada, após sofrer o atropelamento esmagador e sem possibilidade de concerto. É o que acontece na celebração da Missa... Ela é sempre a mesma... mas o efeito é sempre novo.
Para chegar a essa interiorização, para botar para dentro no coração a verdade deste dom, é preciso o caminho sintetizado pela experiência dos magos, como comentaremos no evangelho.

Evangelho Mt 2, 1-12

O texto apresenta estes misteriosos personagens - genericamente indicados como magos, sábios- ,sem especificar a origem de onde vem e sem relatar o que a experiência deles trouxe e significou para os povos de origens quando “retornaram para a sua terra”. Cabe pensar que o texto quer destacar simplesmente o motivo e as características do caminho deles.
O motivo: “Nós vimos a sua estrela de Oriente e viemos adorá-lo” A percepção de um sinal, interpretado como revelador da grandeza e importância do nascimento de um menino, suscita a determinação de chegar até ele e manifestar a própria atitude de adoração. Que descobriram, mais concretamente, naquele sinal- a estrela- não é dito. Deve ter sido algo muito forte para motivar numa viagem tão singular. Tal vez, o texto seja como uma parábola, mais que um evento real, pretendendo passar a mensagem que aquele menino é luz e imã para todas as nações indistintamente.
De fato, hoje a estrela é a Ressurreição de Jesus. É sábio, portanto, investir na viagem para chegar perto dele, experimentar a sua presença e adorá-lo.Trata-se de viagem por caminhos desconhecidos, tal vez, inexplorados. Portanto, a estrela é sinal de promessa, de algo inédito, de esperança, que suscita a coragem de arriscar na certeza que levará a bom fim, ao encontro com aquele que é preciso adorar.
Caminho andando, a estrela desparece. Não há registro de desconcerto, de pânico, de sentimento de frustração, de decepção, de vontade de desistir ou de voltar atrás. (Isso é particularmente significativo para a nossa caminhada. Quantas vezes, dificuldades, provações de todo tipo motivam- erroneamente- a desistência ou o desvio do caminho).
Pelo contrário perguntam a quem supõem pode dar uma indicação: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” Receberão a resposta certa e, ao mesmo tempo, mexerão- involuntariamente- com uma situação que desembocará na matança de inocentes... Êxito por uns- os magos- e morte prematura e injusta para outros ( este último aspecto é fruto da ambigüidade humana e da falsidade do governante. Quando se associam poder e medo o resultado é a matança dos inocentes...). É algo que deixa desconcerto, difícil de entender.
Contudo, a persistência a perseverança e, sobretudo, a determinação são premiadas “Depois... eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”. E não era para menos, evidentemente. Chegaram à meta! Valeu.Tributaram-lhe a homenagem “e lhe ofereceram ouro (para o rei), incenso (para o Deus) e mirra (é a bebida da paixão, antes de morre na cruz)”.
Todo cristão consciente pode se espelhar no caminho destes misteriosos personagens - os magos-, assim como todo homem de boa vontade na procura da verdade e do sentido último e verdadeiro da existência.
Na luz, na estrela, da morte e ressurreição há o DNA da convivência entre os povos e as diferentes etnias e a manifestação da autentica expressão religiosa que motiva e sustenta a comunhão, a fraternidade universal, no respeito das diversidades .
O futuro de Deus se faz presente nesta festa universal, o acontecer do reino que há como seu eixo a pessoa de Cristo ressuscitado. Com efeito, é tradição que nesta festa a igreja anuncie a data da Páscoa de Ressurreição.

domingo, 19 de dezembro de 2010

NATAL 2010 (missa da noite)

1a leitura Is 9,1-6

“"O povo, que andava na escuridão (...) os que habitavam nas sombras da morte” e as pessoas estão oprimidas pela “ carga sobre os ombros” e ameaçadas pelo “ orgulho dos fiscais". Com estas palavras é evocada a triste siutação do exílo. Nele as pessoas não tem futuro, a não ser o da escravidão e do sofrimento. Não há esperança de que algo possa mudar em melhor, não há alegria, pois recitará o salmo: “como cantar cantos de Sion em terra estrangeira?”.
É a situação de muitas pessoas e de povos inteiros na atualidade, pela qual se tornaram exiladas e estrangeiras na própria terra, devido à prepotência dos poderosos e a pratica da injustiça das autoridades, à corrupção generalizada que isola as pessoas pela desconfiança de um para com outro, e torna impossível o satisfatório relacionamento humano.
Em muitos há resignação, acompanhado por um sentimento de impotência e de falta de esperança, assim como prevalece a indiferença e o pessimismo por toda proposta e esforço de procurar um remédio. Há refugio no individualismo e no circulo reduzido, muito pequeno, de pessoas confiáveis.
Cada ano, na circunstância do Natal, retorna as palavras “O amor zeloso do Senhor dos exércitos” em virtude do qual “Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para sempre”. Surge a pergunta: o “zelo” foi a toa? Um bom propósito destinado a entrar nas categorias das ilusões? Por alguns aspectos a resposta é afirmativa, considerando as diferentes formas de degrau moral e social que cada dia os meios de comunicação apresentam.
O que mais chama a atenção é a insistência, a teimosia, a firmeza em apresentar a ação de Aquele cuja presença mira consolidar e reforçar o reino “em justiça e santidade, a partir de agora e para sempre”. Por outro lado, as Escrituras afirmam que o reino está presente em forma escondida e discreta no mundo, portanto, perceptível em determinadas condições.
Parece-me que o reino pode ser percebido na luta pela justiça e pela verdade, na defesa dos direitos e da dignidade da pessoa, na resistência a cada intento de opressão e desrespeito humano. Assumindo estes comportamentos, se realiza o choque dramático e violento do qual faz referencia o texto à experiência de Gedeão (Jz 7) “Pois o jugo que oprimia o povo –a carga sobre os ombros o orgulho dos fiscais- tu os abateste como na jornada de Madiã".
O reino se faz presente na(s) pessoa(s) que assume, e permanece fiel, ao estilo de vida que impõe não assumir as atitudes violentas e opressoras acima indicadas (resistência ativa). Também, não se dobra àqueles que, pelo contrario, as justificam e as praticam, mas, pelo contrário, tem a coragem de proclamar a verdade e a justiça sofrendo todo tipo de retaliação(resistência passiva). Este comportamento a levará ao choque que poderá assumir momentos dramáticos e violentos “Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas” até sofrendo a derrota e a morte prematura.
Para esta pessoa não haverá gratificação alguma, pois a esperada transformação social e individual será afundada no fracasso completo. Ficará só a teimosia, humanamente incompreensível, absurda, ingênua, fora da realidade. É o que aconteceu com o Messias e sua crucificação.
Contudo, nisso estava escondido o que ninguém esperava: a vitória sobre o pecado e sobre a morte mesma. Não se dobrando, resistindo até a morte, tudo foi “queimado e devorado pelas chamas”. Jesus dirá “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!...”(Lc 12,49-50) aludindo à sua morte e ressurreição. É desta forma que acontece o reino na pessoa Dele. O mesmo acontecerá no verdadeiro discípulo. O acontecer é a luz que ilumina a treva da vida, agora e sempre.
Eis, então, a ternura do nascimento “Porque nasceu para nós um menino, foi-lhe dado um filho”, em total contraste com o quadro anterior de forte violência. Mas isso é só aparência porque “traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: conselheiro admirável...” A tremenda “marca da realeza” consiste em se deixar desmanchar em nome da resistência ativa e passiva. É “conselheiro admirável” por convidar segui-lo no mesmo caminho.
Eis, então, a grande luz nas trevas e seus efeitos “O povo (...) viu uma grande luz(...) Fizeste crescer a alegria, aumentaste a felicidade(...) Grande será seu reino de paz (...)O amor zeloso do senhor há de realizaras coisas” . Não é fácil entender e aceitar tudo isso, pelo paradoxo que encerra em si mesmo
Esta singular união nascimento -morte é retomada na 2da leitura.

2da leitura Tt 2,11-14

A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens”. A Graça de Deus é Jesus mesmo. O nascimento dele traz o processo e o caminho de salvação que será selado com sua morte e ressurreição. Nele acontecerá, objetivamente, o resgate da humanidade e de cada pessoa de todos os tempo e lugares, pois, “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença”. Trata-se daquela vitória estrepitosa, dramática e violenta da primeira leitura.
Não se trata só de resgate, mas de constituição e de formação da nova realidade que consiste em “purificar para si um povo que lhe pertença” no qual Ele- o Cristo- se reconheça como Senhor. Acredito que a purificação ao qual se refere seja em primeiro lugar a fidelidade ao dom do resgate e a conseguinte determinação de viver e caminhar na nova realidade por ele inaugurada, sem segundos fins.
Trata-se da identificação radical pela qual, eventuais fraquezas, incongruências ou caídas não constituem propriamente vontade de desviar, de abandonar ou renegar o dom recebido, mas simplesmente é expressão da fraqueza e do limite humano. Portanto, a ação conseguinte será o arrependimento e a correção. Nisso o Senhor pode se reconhecer como tal, como aceito, intimo familiar, amigo e perceber que estas pessoas lhe pertencem, porque Nele esta o principio, o caminho e a meta de referencia delas, apesar dos momentos de fraqueza...
Mergulhados nessa realidade, por um lado, “Ela nos ensina abandonar a impiedade e as paixões mundanas e viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade”, e pelo outro lado, cria as condições para que a pessoa e o povo “se dedique a praticar o bem”.
Este mergulho faz crescer a motivação e a atitude de “aguardar a feliz esperança”, na certeza do acontecer do evento último e definitivo de Deus, o verdadeiro Natal que espera, ou seja, “ a manifestação da glória do nosso grande deus e salvador, Jesus Cristo”.Com outras palavras, o passado (o resgate), o presente( nos ensina) e o futuro ( a esperança) abrangem o eterno evento de Deus na historia.
História que , enquanto manifestação do evento, tem seu ter seu ponto inicial no nascimento de Jesus em Belém.

Evangelho Lc, 2,1-14

Maria deu à luz o seu filho primogênito”. Se não for pela ressurreição deste filho, ninguém teria prestado atenção e consideração ao nascimento dele em Belém. Mais um entre bilhões... O evento pascal orientou os refletores da humanidade sobre ele. Foi então que os discípulos e os seguidores perceberam a especial singularidade do menino.
Um menino comum, um ser individual comum, e Deus são a mesma pessoa. Pois é afirmado pelas Escrituras que em Jesus está toda plenitude de Deus. Foi, e ainda é, um quebra cabeça pela compreensão humana, mesmo iluminada pela fé como é a reflexão teológica, combinar na mesma pessoa a subsistência do homem verdadeiro e do Deus verdadeiro.
De toda maneira, esta singularíssima realidade coloca a pessoa no horizonte humano e divino simultaneamente. Trata-se de um salto qualitativo enorme, que confere a toda pessoa a verdadeira e definitiva identidade, implantada objetivamente, como semente na terra, pela ressurreição do Crucificado. Semente que deverá ser cultivada de maneira tal que a imagem se torna cada vez mais semelhante a quem a imprimiu. Fomos criados a “imagem” e chamados a se tornar “semelhança” de Deus. Se Deus se fez homem, então o homem pode se tornar “como deus”, conforme a famosa expressão do Genesis.
Pergunto se não é essa a “glória do Senhor” que os anjos cantam sobre a manjedoura da humanidade e “envolveu de luz” os pastores de então ( considerados pela teologia moral de então excluídos do reino por levar os rebanhos sobre terrenos alheios), e os correspondentes “pastores”de hoje.
Com certeza, a proposta deste tipo gera temor “eles ficaram com muito medo. O anjo, porem, disse aos pastores: Não tenhais medo! (...) Hoje, (...) nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”. É notável que não diga: Jesus filho de Maria, mas Cristo Senhor, ou seja, o titulo que lhe compete como Ressuscitado.
Acolhendo o convite e se dirigindo ao lugar do evento “na cidade de Davi”, o que era motivo de grande temor se converte no encontro muito humano, cheio de familiaridade e de ternura “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado muna manjedoura”. Com isso, o relacionamento entre o humano e o divino adquire sua estrutura permanente, no sentido que o profundamente humano é divino e o profundamente divino é humano. Trata-se do “hoje” a da salvação. Não é só um dado cronológico, é a determinação do evento que acontece aqui e agora , pela fé, em todo lugar e em todo tempo.
A atitude dos pastores indica o caminho de conversão. A pesar do medo pela manifestação do divino por um lado e a surpresa pelo outro, não fogem nem ficam com o pé atrás. Acolhem o anuncio e a exortação do anjo de ir a Belém. Chegam à meta indicada e acontece a inesperada experiência de humanidade e de ternura. Nela percebem a manifestação da glória celestial e o significado do evento: “O amor zeloso do Senhor” que indicava a primeira leitura.
Mais na frente o evangelista anota “Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito”. Neles realizou-se o Natal. Lembro da frase do grande teólogo do segundo século Santo Irineu “A glória de Deus é que o homem viva, e a vida do homem é louvar a Deus”. A união entre o humano e o divino.

FELIZ NATAL. Que o Deus da Vida os faça adiantar neste caminho: O eterno Natal ao nosso alcance, pela graça de Deus.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

4to DOMINGO DO ADVENTO-A-(19-12-10)

1ª leitura Is 7,10-14

O Senhor falou com Acaz”. A dinastia do rei Davi, à qual estão ligadas as promessas, está em perigo. Os reis de Aram e de Israel querem eliminá-la, colocando no trono o filho de Tabel. Em lugar de pedir o auxílio de Deus, Acaz faz imolar aos ídolos seu único filho (2 Rs 16,3) e procura aliança com a Assíria.
O profeta quer dissuadir o rei desse absurdo e lhe propõe pedir a Deus um sinal de sua presença “Pede ao Senhor teu Deus que te faça ver um sinal, quer provenha da profundeza da terra, quer venha das alturas do céu”. Mas Acaz não mostra ter fé em Deus e procura disfarçar dizendo não querer tentá-lo “Não pedirei nem tentarei o Senhor”.
Com efeito, o coração do rei já está desviado e determinado para outro caminho. O pecado, caracterizado pela desconfiança, pelo desinteresse à fidelidade da aliança e ao projeto de Deus, o torna como surdo a toda proposta e indicação para voltar ao caminho de Deus e, assim, resgatar a fé que abandonou.
É o que acontece, também, hoje quando toda pessoa se deixa levar por pensamento e ações que gradativa e progressivamente os afastam de Deus. Nela vai se formando como o hábito que torna particularmente complicado voltar atrás. Pois, como indica o livro da Sabedoria, “A sabedoria não entra numa alma que planeja o mal nem mora no corpo devedor ao pecado” (1,4).
Contudo, Deus não deixa de cumprir e ser fiel a sua Promessa, apesar da resposta irritante do rei. No momento da recusa, por parte do rei, da ajuda de Deus, o Mesmo coloca o sinal da presença Dele: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel”.
Deus sabe que afastado dele o povo irá se perder. Portanto, em nome do amor ao povo, por ele libertado da escravidão e conduzido na terra prometida, colocar um sinal certo e seguro da fidelidade Dele, pois, Emanuel significa Deus conosco.
É impressionante a teimosia e o amor de Deus, manifestação do carinho e da vontade de resgate que ultrapassa todo entendimento e expectativa humana. Só uma pessoa que ama muito pode se comportar desta forma. A percepção desse amor que constitui o próprio da força salvadora de Deus.
Contudo, perecebe- se, sem dificuldade, que este sinal é prefiguração de outro que, muitos séculos depois, se revelará com a encarnação do Filho de Deus em Maria.
São Paulo faz referencia a este evento na 2da leitura.

2da leitura Rm 1,1-7

No começo da carta são Paulo se apresenta como apóstolo “por vocação e escolhido para o Evangelho de Deus”, para transmitir e ser com o próprio comportamento a boa noticia de Deus para toda a humanidade. Especifica que O Evangelho - a boa noticia- se refere a uma pessoa específica, ao que ela é, ensinou e fez. Refere-se, evidentemente, à pessoa de Jesus “descendente de Davi segundo a carne, autenticado como Filho de Deus com poder, pelo espírito de santidade que o ressuscitou dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Eis, portanto, frisada a origem descendente de Davi, conforme a primeira litura e a descendência divina, em cumprimento ao que Deus havia prometido “pelos profetas, nas Sagradas Escrituras”.
É por ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado”. O que Paulo é, é percebido por ele mesmo como um dom totalmente imerecido. Com efeito, como demonstra o evento e a recepção por parte dos cristãos de sua conversão, ninguém teria pensado nem imaginado que de perseguidor pudesse se tornar seguidor com a paixão e a determinação que lhe foi própria. O dom é sempre para ser testemunhado, não é para a gratificação e a salvação pessoal, mas para ser transmitido, e , com isso, se concretiza o crescimento para si mesmo e a salvação para quem transmite e para quem recebe,.
Com efeito, o apostolo especifica o fim da própria missão “de podermos trazer à obediência da fé todos os povos pagãos, para a glória de seu nome”. Evidentemente, é o que aconteceu nele, após a conversão no caminho a Damasco. Passou da obediência rigorosa à lei de Moises, à obediência igualmente rigorosa aos efeitos da morte e ressurreição de Jesus, por meia da qual ele entendeu que Jesus “me amou e se entregou por mim" (Gl 2,20)
A glória de Deus é a vida dos homens, e a vida dos homens é a glorificação de Deus. Esta belíssima intuição do grande teólogo são Irineu, do segundo século depois de Cristo, ilumina o sentido da vida de cada pessoa. Nela, aceitando a salvação oferecida como dom por Cristo, Deus se faz presente como o próprio Senhor, Jesus é tido como referencia e modelo fundamental da vida e o Espírito Santo estabelece a comunhão e a amizade em virtude da qual a salvação se torna realidade. Nisso se manifesta a santidade e a vida de Deus, pois pelo Amor acolhido a pessoa alcança a plenitude.
Percebendo esta realidade a pessoa retorna o dom a Deus em termos de glorificação, pelo louvor e o sincero sentimento de gratidão. É reconhecimento do dom recebido e a manifestação da dinâmica própria do dom, em virtude da qual o devolver é condição para o crescimento na pessoa do dom mesmo. Assim a glória de Deus e a glorificação de Deus pela pessoa participam da mesma e infinita dinâmica e realidade do amor. Mesmo em diferentes níveis, Deus como Deus e o homem como homem, os dois crescem juntos. Isto pode parecer demais referido a Deus, mas se Deus é amor, a dinâmica do amor não é outra. É como o universo em continua expansão, no qual tudo cresce, cada um em sintonia com a própria essência e a própria realidade.
A encarnação do filho de Deus é o começo do processo de glorificação de Deus para com a humanidade e a glorificação da humanidade em Deus, neste singular relacionamento simbiôntico. Sendo todos os povos envolvidos nisso, Paulo frisa que também os destinatários da carta estão no mesmo processo pela obediência da fé “Entre esses povos pagãos estais também vós, chamados a serem discípulos de Jesus Cristo”
Obediência da fé que teve em José uma testemunha muito singular, como relata o evangelho.

Evangelho Mt 1,18-24

José, seu marido,”. O que aconteceu com Maria foi no ano em que os dois ficaram de noivos. Conforme as leis de então, nesta tempo, legalmente são como esposo e esposa, com a diferença de que, pelo ano todo, os dois continuam morando na casa dos próprios pais. Contudo, devem observar todos os direitos e obrigações de esposo e esposa.
José é apresentado como homem “justo”, temente de Deus. Isso o qualifica como obediente pela fé à lei de Deus. Portanto, é próprio dele manter o correto relacionamento com Deus. Parece-me particularmente importante este inciso para entender a atitude e o comportamento dele frente a um acontecimento tão singular.
José “resolveu abandonar Maria, em segredo”. O texto não relata os sentimentos de José perante as afirmações de Maria. Contudo, refletindo sobre a atitude dele, acredito que a resolução dele foi motivada não porque duvidasse da integridade dela, mas por amor a ela e também por respeito à intervenção de Deus sobre ela. Acreditando na verdade da afirmação de Maria, o mais lógico é se retirar, sem querer comprometer a dignidade da amada.
Esta atitude de amor e de fé será confirmada no sonho pelo anjo que o motivará a “receber Maria como tua esposa”, explicando a origem e o sentido daquele evento. O evangelista constatará nisso o cumprimento da profecia de Isaias na primeira leitura “Eis a virgem conceberá e dará a luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco”.
Eis, então, a conclusão coerente e em sintonia com a sua condição de justo “Quando acordou, José fez conforme o anjo do senhor havia mandado, e aceitou sua esposa”.
É notável considerar como um homem comum como José por sua correta atitude moral e sincero cumpridor do temor de Deus se deixa envolver com docilidade no plano de salvação de Deus a favor da humanidade. Ele oferece a contribuição que lhe é próprio com simplicidade e disponibilidade, confiante no Deus no qual acredita.
Depois desaparecerá do relato dos evangelhos. Com efeito, a atenção deles será a vida e missão de Jesus, obviamente. Mas fica esta perola de disponibilidade e de humildade que contribuiu ao desenvolvimento do plano de Deus. A cada um o destaque e o papel que Deus lhe confia...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

3o DOMINDO DO ADVENTO-A- (12-12-10)

1ª leitura Is 35,1-6a.10

A profecia se dirige aos exilados, aqueles que foram deportados em terra estrangeira pelo rei de Assiria. O exílio foi um duríssimo golpe, um trauma, para o povo. Não só pelo exílio em si mesmo, mas por voltar à experiência da escravidão em terra estrangeira, como foi no Egito nos tempos passados. Pela consciência de “povo eleito por Deus” e destinatário da promessa de que a ele confluirão todas as Nações da terra; pela missão lhe conferida por Deus de ser luz das Nações, foi o desconcerto total.
A condição humana e psicológica do povo se deduz do texto “Mãos enfraquecidas (...) joelhos debilitados (...) pessoas deprimidas”. O povo se tornou como “cego (...) surdo (...) coxo”, em fim, como castigado e rejeitado por Deus, por não escutar a voz dos Profetas, começando pelo rei e pelas autoridades. A condição de exilados, na visão dos Profetas, é conseqüência do desvio das condições da Aliança, de não ter respeitado a lei e a Palavra do Senhor.
Não é difícil se espelhar na experiência pessoal e social do povo de Israel. O pecado domina e se impõe na vida de todos os dias e em todos os níveis com conseqüências de se experimentar exilados de si mesmo, por não ter clareza da própria missão, da identidade profunda e verdadeira ; do convívio humano, pelo prevalecer do individualismo; da convivência social, por ser algo simplesmente funcional às necessidades e a interesses de natureza econômica e de poder etc.
À situação de infidelidade do povo, Deus responde com a mensagem de animo e de esperança, pois, ele se manifestará de maneira que até a criação participará com júbilo do resgate “Alegre-se a terra que era deserta (...). Germine e exulte de alegria e louvores. Foi-lha dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo”.
Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai animo, não tenhais medo! (...) é ele -Deus- que vem para salvar”. Ele os libertará da escravidão, do sofrimento, do exilo. Será como um novo êxodo, um reconstruir o que estava derrubado. Portanto, a última palavra sobre a condição de vida será vitória sobre a dor e o pranto, pois, “se abrirão os olhos dos cegos (...). O coxo saltará (...) se desatará a língua do mudo”.
Os efeitos da intervenção não serão automáticos, mecânicos, mas exigirão aceitação e colaboração dos destinatários, pois, toda ação de Deus é eficaz só a estas condições. Aceitação e condição consistirão em assumir e renovar o compromisso da Aliança, e torná-la eficaz na pratica do direito e da justiça. Então se identificarão “Os que o Senhor salvou”.
Estes “voltarão para casa (...) com infinita alegria (...) cheios de gozo e contentamento, não mais conhecerão a dor e o pranto”. Será como a nova criação, a implantação do reino de Deus. O sonho de Deus para o resgate de cada pessoa e da humanidade está ao alcance de todos, assim como a presença e a intervenção Dele no concreto dos relacionamentos humanos. Ele “vem para vos salvar” se sintonizar com a Promessa que ultrapassa o presente, mas que já está nele - neste sentido é, também, futura-, e se disponibilizar em antecipá-la nas condições e circunstâncias, provisórias e parciais, do dia-a-dia.

2da leitura Tg 5,7-10

A condição de salvados, de já participar da vida e das condições oferecida pela Aliança, (no caso do Novo Testamento é a nova e eterna Aliança, implantada com a morte e ressurreição de Jesus. Ela, com a morte e ressurreição, aponta ao futuro, ao destino e à Promessa) motiva a afirmação do Apostolo “Ficai firmes até a vinda do Senhor (...) porque a vinda do Senhor está próxima”.
Depois de dois mil anos, de que vinda, de que proximidade se trata? No tempo do escrito, era esperada a vinda do Ressuscitado como iminente “Eis que o juiz está às portas”. Depois, os apóstolos e a comunidade perceberam que não era assim. Então, como tocava no evangelho do primeiro domingo, cabe se pergunta: se trata de um evento cronológico, ou o fato de ter alcançado a plenitude pela qual os cristãos percebem que, ainda permanecendo uma realidade misteriosa e oculta no âmbito histórico, Deus já está “tudo em todos”, como Paulo afirma em primeira Corintios15,28, ultrapassando o elemento cronológico e adiando-o a uma data que ninguém sabe ( ou que nunca acontecerá, porque a eternidade poderia ser uma dimensão do tempo e não sua exclusão)?
Se a vinda constitui o específico da espera do Natal, que o Advento celebra, então cabe pensar na segunda parte da pergunta, ou seja, à aproximação ao evento de Plenitude, adiado a uma indefinida, em quanto ao tempo e ao espaço, intervenção de Deus, mas, já presente e atuante pelos efeitos da morte e ressurreição de Jesus.
Este processo faz que Deus nasça no coração, no profundo de cada pessoa. É um processo que não tem fim por um lado, e pelo outro, liga o Natal com o evento Pascal, assim que os dois se associam rumo à plenitude cuja meta e destino final é assegurado pela Promessa de Deus. Desta forma, a vida toda é a grande gestação de Deus em nós, cujo Natal será sempre presente e futuro simultaneamente, até ser introduzido naquela realidade ocultada pela barreira da morte.
Eis, então, o convite: “ficai firmes e fortalecei vossos corações” exercitando aquela confiança e esperança própria do agricultor, quem sabe aguardar e esperar na certeza que o que semeou dará o seu fruto esperado “ Vede o agricultor: ele espera.. .”. Contudo sabe o autor que este processo tem suas dificuldades, pois, indica de se deixar inspirar e tomar por modelo “o sofrimento e firmeza dos profetas, que falaram em nome do Senhor”.
João Batista é uma figura eminente em tal sentido como relata o evangelho.

Evangelho Mt 11,2-11

João estava na prisão”. Situação dramática. Como pode ser que o precursor do Messias esteja na prisão e Ele não faz nada para tirá-lo de lá? Depois de tudo o que ele fez para lhe preparar o caminho? Será que fez alguma coisa errada? São todas perguntas legítimas. Para piorar ainda mais a situação, Jesus em vez de “limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”, ou seja, separar os dignos de entrar no reino dos condenados, como indicava a pregação de João o domingo passado, faz todo o contrário: come com os pecadores, se junta com pagãos, amigo de prostitutas, etc.
A crise de João se torna desconcerto “És tu, aquele que deve vir, ou devemos esperar um outro?”. Chegar a colocar esta pergunta manifesta o que os místicos indicam como a “noite escura”, ou seja, o momento em que a pessoa tem a sensação de ter sido abandonado por Deus, de ter errado tudo. É o momento mais alto do processo de conversão e de purificação.
Jesus responde aos enviados por João “ Ide contar a João o que estais vendo: Os cegos (...), os paralíticos (...), os leprosos (...) os surdos (...) , os mortos (...) e os pobres são evangelizados”. É como se dissesse: não estás vendo que a vida refloresce nos abatidos, a esperança toma conta dos desanimados etc. e, portanto, o evangelho, a boa noticia, da vinda do Reino está acontecendo? A vinda do reino não era para condenar, mas para oferecer mais uma chance de salvação para aqueles que estavam sem esperança.
Depois acrescenta uma mensagem para João mesmo: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim”. Feliz tu João se entender e aceitar tudo isso e vencer o que te escandaliza e te transtorna, em nome da vinda do reino muito diferente do que pensavas e esperavas. É o convite à conversão. Não se sabe qual foi a resposta e a atitude de João. Cabe supor que entendeu, e Deus lhe concedeu o dom da conversão, pelo que a continuação Jesus afirma dele. Mas que passou um momento altamente dramático e sumamente abalador passou, com certeza!
A continuação Jesus faz um elogio e um destaque muito significativo da pessoa de João “Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. É dele que está escrito ‘Eis que envio o meu mensageiro à sua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti (...) de todos os homens que já nasceram nenhum é maior do que João Batista”. Jesus aprecia, valoriza a dedicação, a determinação e a fidelidade de João à causa do Reino, embora com as limitações que logo ele se preocupará de corrigir, como já comentei. Nada foge a Ele do positivo da atitude, do comportamento e da missão de João, pois reconhece nele o mensageiro, o precursor que vai lhe preparando o caminho.
Contudo, há algo maior “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”. Perante a grandeza moral e a dedicação de João, surpreende esta afirmação. Quem teria mais qualidades humanas e morais do que ele? Como entender a comparação? O que pode dar razão dela? Quais são as condições para pertencer ao Reino, ainda seja como “menor”?
Falar de menor supõe estabelecer degraus, como uma escala de valores as quais a pessoa aderir em forma mais ou menos completa, parcialmente. Estar no reino é próprio de quem está ao serviço por ter interiorizado a filosofia de Jesus com respeito aos últimos, aos excluídos e marginalizado e ter praticado o relacionamento para com eles de maneira tal de infundir neles a esperança e a vontade de se resgatar da condição lastimável e adquirir uma nova vida... Esta dedicação, nem em todos será total e levada às extremas conseqüências como foi em Jesus.
As virtudes humanas e morais de João são necessárias também pelo “menor” no reino dos céus. Parece-me, portanto, de que não se trata simplesmente de virtudes pessoais, pois, o que faz a diferença é o conteúdo. A adesão ao reino é algo que eclipsa o conjunto da experiência espiritual e, em certo sentido, da personalidade de João. Ao “menor” se abre o horizonte da compreensão do mistério de Deus e da mística muito superior daquele de João. Se não fosse assim, não teria sentido o convite de conversão dirigido por Jesus ao mesmo João.
Portanto, com a vinda de Jesus temos a disposição o patrimônio que muitos não percebem, ou não recebem ajuda para percebê-lo, e cuja consciência e adesão introduz na experiência do verdadeiro Natal que estamos aguardando. Este consiste no fato que Deus constantemente gera em cada cristão, no coração dele, a imagem do próprio Filho.
Neste sentido, o Natal é a realidade mais profunda de todos os dias, pois, leva ao Natal onde tempo e eternidade cominam junto na glória de Deus.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

2o DOMINGO DO ADVENTO-A-(5-12-10)

1ª leitura Is 11,1-10

Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor”. A alusão ao “tronco” e à “raiz” de Jessé faz supor que a dinastia do rei Davi irá acabando. Contudo, o oráculo assegura, na continuidade da dinastia, a fidelidade divina às promessas. Ao apresentar, porém, a característica do verdadeiro rei descreve o que se realizará no Messias.
Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de discernimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus”. São os dons do Espírito Santo que no sacramento da Confirmação são passados aos crismados. Portanto, o Messias será um sujeito plenamente disponível à vontade de Deus através a ação do Espírito nele.
Cabe frisar o inciso “no temor do Senhor encontra ele o seu prazer”. Com isso, a atitude dócil, reverencial e amorosa, pela ação do Espírito à vontade de Deus, será motivo e fonte de grande satisfação e até de prazer. Para alcançar esta atitude é preciso se despojar do próprio projeto, das próprias expectativas e desejos, como quem não constrói, nem planeja, não projeta atribuindo a tudo a característica de conformidade à vontade de Deus.
Mas, se dispõe a modificar o que pensou e esperou em virtude da realidade concreta que lhe se apresenta e obrar nela e sobre ela com os critérios de Deus, com as atitudes sugeridas naquele momento pela ação do Espírito. Significa ter e cultivar a “infância espiritual” própria de quem se deixa conduzir, momento por momento, como a criança que confia plenamente no pai, pelos rumos que lhe são apresentados. Esperava uma coisa e se apresenta outra. Tudo bem, só indagar e perceber como se comportar o que assumir ou rejeitar, pensando e agindo conforme ao critério de Deus sugerido pelo Espírito, sustentado por essa docilidade, por essa “infância espiritual”.
Só dessa forma desenvolverá a missão com as atitudes certas “Ele não julgará pelas aparências que vê nem decidirá somente por ouvir dizer” cujos efeitos será a “...Justiça (...) uma ordem justa (...) destruirá o mau”. Eis, então, retrato o perfil do Messias como quem ,dessa maneira, “Cingirá a cintura com a correia da justiça e as costas com a faixa da fidelidade”.
Com efeito, a pratica da justiça e a perseverança na fidelidade constituem os elementos fundamentais, irrenunciáveis, do cumprimento e realização da Aliança e com ela a implantação do reino de Deus entre os homens. A poética descrição a continuação “O lobo e o cordeiro viverão juntos (...) vers. 6-8” manifestam a harmonia da criação. O que agora é contraposto e hostil se tornará o que a mente e expectativa humana não se atrevia pensar nem supor.
Até o maior inimigo será vencido “Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte”. E, em positivo, “a terra será repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar”. Será o triunfo da raiz do Jessé- o Messias- que “se erguerá como um sinal entre os povos”- como não pensar no Ressuscitado?- “e gloriosa será a sua morada”.
A Promessa, selada pela Aliança no Sinai, terá sua plena realização. Valeu esperar, já se aproximando dessa realidade de maneira conveniente, como indica a segunda leitura.

2ª leitura Rm 15,4-9

acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus”. Cabe se perguntar: Em que consiste a glória de Deus em virtude da qual devemos acolher? Um grande teólogo do segundo século depois de Cristo respondeu: “A glória de Deus é que o homem viva e a vida do homem é glorificar a Deus”. Com efeito, a vida à qual se refere esta afirmação é a que brota e toma consistência por ter sido acolhida anteriormente por Cristo, com todos seus defeitos e pecados, para ser redimida e resgatada. Portanto, aceitar de ter sido aceito e justificado perante do Deus Pai, por ter sido acolhido por Cristo, é o alicerce da verdadeira vida, é o que faz viver a pessoa na glória de Deus.
Sabemos em que consistiu e o preço desse acolhimento “Cristo tornou-se servo (...) para honrar a veracidade de Deus, confirmando as promessas feitas aos pais”. Com isso, ele se tornou modelo do acolhimento entre os homens. Pois, o mesmo exercício manifesta a glória de Deus atuante entre os homens. Portanto, como dizia o teólogo acima citado, a vida do homem é glorificar a Deus, no sentido de redesenhar, refazer, reconstruir os relacionamentos como se eles fossem outro Cristo. O ter sido aceito por Ele, a consciência dessa mesma aceitação - que é o próprio do conteúdo da fé - sustenta a identificação com Cristo que os capacita na mesma missão Dele e que Ele mesmo lhes confiou.
Nesse processo é importante para o seu correto desenvolvimento se referir ao que “foi escrito para a nossa instrução” e ser sustentado “ pelo conforto espiritual das Escrituras”. Portanto, é preciso não descuidar nem desvalorizar o estudo e o aprofundamento das Escrituras, sob pena de estancar o processo de crescimento ou até de retroceder e desviar.
O conforto espiritual consiste na ação do Espírito que ilumina o significado do que Cristo realizou com sua morte e ressurreição à luz dos textos do Antigo Testamento. Estes textos eram as Escrituras a disposição de Paulo, pois, ainda não existiam os textos do Novo Testamento. Após o evento da morte e ressurreição de Jesus, os discípulos relendo os textos do Antigo Testamento, por ex. os 4 Cânticos do servo de Yavé, perceberam , com surpresa, que tudo isso se cumpriu na pessoa de Jesus. Daí, então, o conforto espiritual, a certeza de estar no caminho certo e a força motivadora que isso proporciona.
Conseqüentemente, o discípulo experimentará a constância e o conforto como dom de Deus “O Deus que dá constância e conforto vos de a graça da harmonia e concórdia, uns com os outros, como ensina Cristo Jesus”, cujos frutos amadurecidos serão a harmonia e a concórdia nos termos indicados pela primeira leitura. Com outras palavras, será descobrir o tesouro escondido do reino de Deus já presente no meio de nós.
Com isso a certeza do cumprimento da promessa de Deus “feita aos pais”, que teve uma primeira expressão e manifestação com a morte e ressurreição de Cristo e terá sua implantação definitiva e última com a vinda do Ressuscitado, será motivo de consolidar a esperança e fazer dela uma realidade cada vez mais firme e consistente.
A realidade do Reino é central na pregação do João Batista do evangelho.

Evangelho Mt 3,1-12

João Batista anuncia a grande expectativa do povo: a proximidade do reino “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Entre parêntesis, Reino dos Céus e Reino de Deus são sinônimos). Condição para participar dele é a conversão, visibilizada pelos frutos correspondentes “Produzi frutos que manifestem a vossa conversão”. Não se trata de sentimentos ou de bons propósitos, mas de atitudes, de comportamentos em sintonia com as exigências da Lei. São frutos decorrentes da prática da justiça e do direito, que estabelecem e configuram o povo de Deus libertado da escravidão do Egito e consolidado pela vivencia entre eles da libertação: livres para libertar todo ser humano de todo o que o oprime desde as necessidades básicas às exigências do amor fraternal.
João lembra o que já todos sabem. O reino será implantado pelo Messias, enquanto “Ele-o Messias- está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”. Será manifesta a “ira que vai chegar” e da qual de jeito nenhum ninguém poderão fugir.
Nem será argumento válido se apelar à descendência: “Não penseis que basta dizer: ’ Abraão é nosso pai’, porque eu vos digo, até mesmo destas pedras deus pode fazer nascer filhos de Abraão” Entre parêntesis, o mesmo vale enquanto ao nosso batismo. Não é suficiente batizar simplesmente as crianças ou os adultos e com isso pensar de “estar bem com Deus” por ter feito a própria parte.
Perante a iminência desta realidade assustadora “Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia (...) confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão”. Pois, a perspectiva de acabar “no fogo que não se apaga” não é agradável para ninguém. Mai ainda, com a ameaça iminente de que “O machado já está na raiz das árvores, toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo”. Há como uma pressão em proceder rapidamente e com determinação, pois, o tempo se faz curto, não há como demorar!
Contudo, a idéia de João Batista com respeito à missão do Messias e à implantação do reino dos céus, está muito aquém daquela que Jesus desenvolverá e realizará. João Batista declara a superioridade do Messias com respeito a ele mesmo “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu (...). Ele vos batizará com o Espírito santo e com fogo”. Mas, entende e interpreta tudo isso dentro da expectativa dele, ou seja, o premio para os convertidos e o castigo eterno para os outros. O Messias dividirá o povo em dois blocos; Salvação para uns e condenação para outros.
João Batista manifesta a concepção do Antigo Testamento com respeito ao cumprimento da Lei mosaica estabelecida como sinal da Aliança no Sinai, á qual ninguém poderá fugir. A mesma idéia de ressurreição do Antigo Testamento visava a isso. Se alguém pensasse que com a morte tudo acabasse e pudesse desta forma fugir ao juízo da Lei, o Antigo Testamento responderá que não. Ele será ressuscitado para ser julgado conforme à exigência da lei. Ninguém poderá se subtrair a ela. A conversão imediata era a última chance oferecida antes da catástrofe final e irreversível.
A atuação de Jesus irá muito além. Ela provocará um grande desconcerto na pessoa de João como indicado no evangelho do próximo domingo.
De toda maneira, fica atual a urgência da conversão, não no âmbito do entendimento da lei, mas à realidade e conseqüências da morte e ressurreição de Jesus.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

1oDOMINGO DO ADVENTO-A-(2811-10)

1ª leitura Is 2,1-5

Acontecerá, nos últimos tempos”. O texto pretende apontar o aproximar-se do momento último e definitivo da historia, caracterizado pela intervenção de Deus. Convida dirigir o olhar à meta, para o povo esperar e já se aproximar a ela de maneira conveniente. A meta é simbolizada pelo “monte da casa do Senhor”.
Para o hebreu a casa do Senhor, o templo, era o centro do mundo, ou melhor, o umbigo do mundo que liga céu e terra. O lugar mais santo di templo, onde só o Sumo Sacerdote entrava - não sem temor- uma vez por ano para o rito da expiação dos pecados, era o lugar onde Deus apoiava seus pés.
O fato de estar “firmemente estabelecido no ponto mai alto do monte e dominará as colinas” passa a idéia de uma realidade estável, permanente, que se impõe a todos e a tudo- as colinas- por sua visibilidade e força. Com outras palavras, se manifestará o mistério de Deus e do reinado Dele sobre a sua criação, que abrangerá tudo e todos.
Esta manifestação será como o imã, pois, ao templo “acorrerão todas as nações (...) para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine cumprir seus preceitos”. Faz parte da consciência do povo de Israel sua missão universal de reunir todos os povos sob a lei do único Deus. Portanto, ele carrega sobre si mesmo esta responsabilidade, testemunhando o cumprimento d a Aliança e convidando os outros povos a reconhecerem a presença do verdadeiro Deus, para que a glória do Mesmo se manifeste em toda sua realidade salvadora. Daí a consciência de superioridade com respeito aos demais povos.
Porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a palavra do Senhor”. Nos últimos tempos, a lei e a palavra do Senhor se manifestarão em toda sua potencialidade, como indicado acima. Más ela já está presente no patrimônio do povo eleito. O que acontecerá no será surpresa de algo totalmente desconhecido e inesperado. Pelo contrário, o povo reconhecerá o cumprimento da promessa, a bondade do caminho da Aliança. A conclusão será que valeu tomar a serio e investir seriamente nelas.
Eis, portanto a exortação final “Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos (hoje) guiar pela luz do Senhor”. Portanto, ter ciência da singular ligação entre presente e futuro oferece sentido e motivação à vida do povo e das pessoas, com respeito ao cumprimento da Aliança com Deus estabelecida após a libertação do mal e da escravidão do Egito, selada no Sinai por Moises e portadora da Promessa de uma nova humanidade, onde reinará, com todas suas múltiplas características, a paz universal.
Devido ao desrespeito das exigências da Aliança, aos múltiplos pecados do povo, a paz universal está longe de ser implantada. Contudo, será “nos últimos tempos” que Deus, com sua intervenção última e definitiva, julgará as nações e argüirá numerosos povos. Estes “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra outros e não mais travarão combate”.
Portanto o tempo de Advento, à luz do evento final, é tempo da espera, participação na glória da plena comunhão com Deus e motiva já antecipar no presente os efeitos deste futuro, por meio da conduta moral coerente.
É o que Paulo incentiva na segunda leitura.

2ª leitura Rm 13,11-14

São Paulo já falou longamente nesta carta da obra salvadora de Deus por meio do seu Filho Jesus e afirmou que ela continua a realizar-se agora. Portanto, convida os cristãos à conscientização deste momento “Vós sabeis em que tempo estamos” e assumir atitude conveniente “pois, já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mai perto de nós do que quando abraçamos a fé”. Paulo não precisa a causa da alerta, da necessidade de despertar. Tal vez, seja pela pouca atenção, pela distração, por não perceber o alcance e a amplitude da salvação etc.,
Viver o presente como momento favorável da salvação, fruto da fé na obra realizada por Jesus nos eventos da Páscoa, faz perceber que “A noite já vai adiantada, o dia vem chegando”. Com outras palavras, a noite da injustiça, do mal em todas suas múltiplas expressões, vai deixando espaço à luz do novo dia que está cada vez mais próximo. Percebe-se a esperança como realidade concreta e de indiscutível atualização, que vai cada vez mais se aproximando, como o dia que vai chegando vencendo a noite.
Eis, então, a exortação: “despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz”. Aproximar-se da luz pede ao cristão o comportamento ético, que se concretiza na vigilância por um lado e em fazer as obras da luz pelo outro. É preciso determinação e colaboração ativa para que o processo da passagem da treva à luz se consolide oportunamente.
A exortação toma realisticamente em conta a possibilidade do processo se estancar, ou até de retroceder. Pois, as seduções, os desânimos, as provações e as dificuldades de todo tipo acompanham o dia - a – dia da vida do cristão. Sem determinação e firmeza de caráter na luta para conseguir o que se enxerga, o processo não chegará ao seu fim. Com efeito, toda ação salvadora de Deus pede a colaboração e o consentimento ativo da pessoa, ou da comunidade à qual se dirige. De braços cruzados e passivamente, nunca chegará o novo dia.
Daí as indicações concretas “Procedamos honestamente, como em pleno dia” como se já estivéssemos na plenitude da luz. Este “como” é particularmente importante, pois o cristão não está na plenitude da luz, só a enxerga que vai chegando. Contudo, deve se comportar como se já estivesse nela... Isso é possível pela fé, pois, a carta aos Hebreus a define “uma maneira de já possuir o que se espera”. Portanto, é preciso antecipar as atitudes e os comportamentos próprios de quem já possui o que espera. É singularíssimo tudo isso, com certeza, mas faz parte do dom que vai chegando. Ele motiva e qualifica o compromisso, a vontade e o esforço de sustentar a luta contra as trevas.
Trevas que são acolhidas por quem não se afasta das atitudes quais “nada de glutonarias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem brigas e rivalidades”. Elas conformam o processo de retrocesso e, portanto, a negação da luz e da esperança .
Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”, pois, o modelo é Ele. Convida a ser autênticos representantes de Cristo, se despojando do homem velho, para assumir a novidade que traz a identificação com a pessoa de Cristo e sua missão.
Manter tudo isso é a missão de todos os dias de quem sabe vigiar sobre si mesmo e discernir o tempo presente e futuro.

Evangelho Mt 24,37-44

Jesus faz referencia à manifestação de sua vinda “A vinda do Filho do Homem”, - com este termo se refere a si mesmo - que acontecerá quando a historia e a criação chegar ao seu ponto final. Cabe perguntar: este momento se refere a lago cronológico, a um futuro que será determinado pelo tempo do relógio que parara de marcar o seu decorrer? Será um tempo de plenitude, no qual a existência da pessoa e da criação alcançará a sua plena potencialidade de viver o Amor como comunhão dinâmica com o Deus da Vida. Nesse sentido será algo que não necessariamente excluirá o tempo cronológico?
Penso nisso porque um futuro que sempre foge a totalmente alheio à dimensão temporal e espacial é um futuro frustrante que não existe nem pode existir, é um futuro que só deixa como um vazio e, portanto, não interessa se não for ao momento que se faz presente, e, portanto, deixa de ser futuro. É um futuro futurível ou simplesmente a expressão de algo que se chama tal só porque está na frente como idéia, como possibilidade, ou seja, simplesmente em contraposição ao presente, não tendo atinência com o hoje?
A referencia à historia de Noé, na qual as pessoas “nada perceberam até o dia em que Noé entrou na arca”, diz respeito à intervenção que surpreendeu a todos, mas não a Noé que, pelo contrário, foi feito participe desse futuro com anterioridade. Haverá pessoas que não percebem e outras muito conscientes do que irá acontecer. O futuro para uns e para outros é bem diferente... Para os primeiros é incógnito e simplesmente vivem o presente com o que lhe é próprio “todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento”. Para outros é o futuro de Deus, pertence a Deus e àqueles que lhe pertencem pela fé. Esse futuro é teológico que, tal vez, não exclui o temporal, mas, com certeza, será reassumido e reelaborado pela intervenção de Deus.
É o que mostra a continuação “Dois homens (...) um será levado e outro deixado. Duas mulheres (...) uma será levada e outra deixada”. Não diz o critério da escolha, simplesmente afirma que a intervenção atingirá tudo e todos indistintamente. Com isso passa a idéia de que tudo e todo serão atingidos de uma maneira ou outra, inclusive o tempo cronológico, o tempo qualitativo ou os dói juntos...
Portanto, ficai atentos! Por que não sabeis em que dia virá o Senhor... Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”. Pois, se as pessoas que sabem da hora da chegada do ladrão se preparam e vigiam para não ficarem surpreendidos e prejudicados, quanto mais àqueles que desconhecem quando da hora da chegada, mas tem a certeza que chegará!
“Por isso, também vós ficai preparados” ao Novo Natal, como quem sabe o que estão esperando e o alcance da vinda Dele. A primeira vinda e a saída do mundo de Jesus são prelúdio e garantia da segunda vinda dele como Ressuscitado. O Natal passado é motivo para lembrar e dirigir o olhar e o coração ao último e definitivo Natal que celebramos com anterioridade, na esperança e na certeza de fazer parte da plenitude do novo nascimento antecipado no batismo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

FESTA DE CRISTO REI-A-(21-11-10)

1ª leitura 2Sm 5,1-3

Com poucas palavras é narrado um dos acontecimentos fundamentais da história do povo de Israel: Davi é ungido rei e reconhecido por todas as tribos de Israel. Acontece no momento da unidade Nacional , pois, Davi, habilidosamente, escolhe Jerusalém como capital, ponto de união, no confino dos dois reinos anteriores e, assim, manter a eqüidistância.
O povo se reconhece na pessoa do rei como “Somos teus ossos e tua carne”. Não é só uma indicação antropológica, mas existencial, pois abrange a vivencia toda do povo e de sua tradição. O povo reconhece nele um autentico representante dos sentimentos, das expectativas e do sonho dele “Tempo atrás, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel”.
Nesse contexto Deus lhe confia a missão: “Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o seu chefe”. Apascentar significa cuidar, proteger, orientar, guiar, socorrer etc. Essas,devem ser as atitudes próprias do chefe no desenvolvimento da missão em sintonia com o mandato recebido. Com efeito, a missão do rei é salvar, pois, é representante do Deus Salvador. Sua missão é de proteger os mais indefensos, particularmente o pobre, a viúva e o estrangeiro, mais expostos à exploração, à prevaricação dos prepotentes.
Ao rei Deus lhe confia vigiar e incentivar o que for necessário, para o cumprimento das exigências e características da Aliança, de maneira que o sonho de liberdade, começado com a saída da escravidão do Egito, se consolide cada vez mais na pratica da vida do povo. Ele é o garante humano, como representante de Deus, da Aliança, e com ela, do sonho de Israel de se conformando como povo eleito, como povo de Deus, modelo a ser apresentado a todas às Nações.
O reconhecimento de Deus e do povo é indicado pelas palavras “O rei Davi fez com eles uma aliança em Hebron, na presença do Senhor, e eles o ungiram rei de Israel”. A unção é sinal de consagração que o separa de outra finalidade, de outra causa, que não for o cumprimento da missão que acaba de assumir. De fato, com seus altos e baixos, com seus trancos e barrancos, o reinado de Davi e de seu filho Salomão serão lembrado como o período de ouro da historia de Israel.
Contudo, a história de Israel testemunha, começando pelos filhos de Salomão, a sucessão de reis fieis e infiéis à Aliança, prevalecendo aqueles que levarão o povo ao afastamento do correto entendimento da mesma, apesar da presença dos profetas cuja missão será chamar a atenção aos governantes de sua obrigação específica.
Do ponto de vista da bíblia, a conseqüência de tudo isso será desastrosa para a vida do povo, como a mesma testemunha pelos muitos acontecimentos ruins. Irá se formando a idéia e a espera de um Messias, de um novo ungido que restaurará a gloria dos tempos de Davi e Salomão.
Do ponto de vista cristão essa espera se cumprirá com a vinda de Jesus.

2da leitura Cl 1,12-20

O texto é um hino de agradecimento. Ele reconhece que a iniciativa da salvação é do Pai, por meio do Filho “por quem temos a redenção, o perdão dos pecados”. Isso significa ser capacitado “de participar da luz, que é a herança dos santos”. Com outras palavras, entrosar e mergulhar na vida e na comunhão com Deus. Eis, então, a atitude de agradecimento: “ Com alegria dai graças ao Pai”.
O agir do Pai é fonte inspiradora e modelo do agir do rei, pois, como tocava na 1ª leitura, a missão dele é a salvação de toda pessoa e do povo. É Jesus o modelo histórico do agir do rei, sobretudo pelo significado e importância do mistério Pascual pelo qual amou “até o fim” (Jo 13,1).
Eis, então, a exaltação do Filho em termos que abrangem a preexistência na comunhão trinitária, assim como sua missão e presença na Igreja. Desde o versículo 15 até o 20 é um condensado de afirmações teológicas de grande significado, que merecem toda consideração, reflexão e interiorização e manifestam a magnitude e grandeza da pessoa de Jesus.
Vale destacar que “Ele, Jesus, é imagem do Deus invisível (...) porque Deus quis habitar nele com toda sua plenitude”. Com estas palavras se manifesta que Deus se tornou visível, acessível a toda pessoa e a experiência humana de todos os dias. Não é mais o Deus distante, no céu- entendido como outro mundo-, mas o Deus perto e próximo, quem se inclina sobre as misérias da pessoa e da humanidade para resgatá-la de sua lastimável condição.
Mais surpreendente, ainda é que nele “Deus quis habitar com toda sua plenitude”. Este “toda ” abre a mente e o coração à percepção de algo sensacional: Come pode toda plenitude habitar numa realidade humana, contingencial, no especo e no tempo ,nas cultura de um povo? Come pode o infinito e o imenso estar todo Ele no limite da condição humana?
A possível resposta está na ação na pratica Dele, na missão que desenvolveu. Pela característica dela, o que está em jogo é a realidade da entrega e do amor nos termos bem conhecidos e frisado pelo texto “por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Portanto, é a qualidade dos diferentes relacionamentos pessoais, sociais, com a natureza que conferem a dimensão de eternidade a tudo o que é passageiro, limitado e contingente.
De fato, a ação criadora, re-criadora, regeneradora de tudo e de todos está alicerçada na qualidade do relacionamento. Tudo pode ser construído ou destruído por ele; tudo pode terminar no nada ou adquirir plenitude de vida. “Ele é o Principio, o Primogênito (...) em tudo ele tem a primazia” se pode entender não só no sentido que tudo tem seu início, mas também a nascente de onde brota toda atitude e força que levam as pessoas, a sociedade e a natureza à plena realização.
Reconhecer e aceitar este princípio supõe manter e cultivar em si mesmo a correta atitude ética com a realidade mais verdadeira de si mesmo, que o evangelho deixa transparecer na pessoa do “bom malfeitor”.

Evangelho Lc 23,35-43

Acima dele (Jesus) havia um letreiro: Este é o Rei dos Judeus”. Irônico e dramático: um rei crucificado! Desconcertante: como podia ter pretensões de Messias uma pessoa que termina sua vida na cruz? Era sentenciado que todo crucificado era um maldito de Deus! “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido”. É a última tentação à qual o evangelista apontava, após a vitória de Jesus sobre as tentações no deserto: “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). Se Jesus tivesse descido da cruz o demônio teria conseguido o resultado que não obtive com as tentações no deserto: o fracasso da missão de Jesus.
É impressionante constatar como a tentação radical e decisiva da própria vida se faz presente nos últimos e mais dramáticos momentos dela e nas condições mais favoráveis por ela e, ao contrário, mais desfavoráveis por Jesus, provado e debilitado pela trágica circunstância, conseqüente ao projeto e finalidade da própria vida e missão.
Contudo, a realeza Dele se configura exatamente por tudo isso! Que realeza mais diferente do que comumente se entende por ela! Ela é possível só se amar a Deus com todo o ser, alma e coração e ser sepultado nesse amor misterioso, confiante que a Promessa da vinda do reino se está manifestando e se visibilizará pelo mesmo evento.
Parece-me que este é o elo com a segunda parte do texto: o diálogo de Jesus com o “bom ladrão” no qual certifica a participação deste último ao evento da salvação que está acontecendo por meio e na pessoa de Jesus mesmo “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Com estas palavras Jesus manifesta a certeza de sua entrada na glória e, portanto, a vitória de sua missão. Com a sua entrega, com o oferecimento da totalidade de si mesmo ao Pai pelo Espírito, ele enxerga “a potencia da vida indestrutível”(Hb 7,16). Só assim podemos entender o surpreendente comportamento humano e psicológico de Jesus no evento da morte Dele.
Por que Jesus acolhe um malfeitor e deixa o outro? O que faz a diferença entre ele é a atitude para com Jesus. O primeiro simplesmente quer aproveitar da oportunidade “Salva-te a te mesmo e a nós”, diríamos, quer simplesmente “pegar carona”. O segundo, apesar de ser um malfeitor, manifesta um núcleo ético, como um núcleo sadio de sua personalidade, que lhe permite reconhecer objetivamente a condição de justo de Jesus e a própria de malfeitor “Nem sequer temes a Deus (...)? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”.
Este núcleo sadio, mantido por temer a Deus, será o “espaço” a brecha da ação do Espírito, como foi na conversão de são Paulo. Ele- Paulo- era um temente de Deus, pretendia servir a Deus com dedicação total, só que estava no caminho errado. A ação de Deus encontrou o terreno fértil nesta brecha e pode entender o significado e a importância do evento Pascal, não sendo um dos apóstolos que segui Jesus durante a missão dele. Assim como, com certeza, não foi discípulo o malfeitor, bem percebendo a realidade de justo de Jesus.
Portanto, parece-me que a atenção e o cultivo do núcleo ético permitem a todo homem ter condição de se abrir positivamente ao evento da Páscoa e fazer dessa percepção o hoje da salvação.
Portanto, o “hoje” é o hoje de todos os dias, o momento da conversão “Jesus, lembra-te de mim, quando entrarás no teu reinado”. Tal vez, não tendo ciência totalmente esclarecida do que estava pedindo, contudo, tinha a convicção de que Jesus estava alcançando a meta que pregou e pela qual foi enviado.
A realeza de Jesus é esta oportunidade de salvação em todo momento e condição, que pode ser percebida só se não destruímos em nós a raiz ética que permite reconhecer e aceitar o que realmente somos, sem máscaras e sem medos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

33o DOMINGO DO T.C.-C-(14-11-10)

1ª leitura Ml 3,19-20ª

Virá o dia (...) esse dia abrasador”. Estando em proximidade do final do ano litúrgico os textos apontam ao fim do mundo, sinalizado como “o dia” que virá. Eles indicam a meta, o ponto final da história, da humanidade, do universo e de cada pessoa. Indicação de grande importância, pois, só conhecendo o ponto de chegada pode-se ter clareza e segurança com respeito ao caminho. Jesus dirá “Eu sou o caminho” (Jo 10,6), exatamente porque indica com clareza a meta com a entrada na glória da qual tivemos testemunho com sua morte e ressurreição.
Também há outra consideração importante com respeito a esse “dia”. A meta, o fim último, é sempre o primeiro na intenção e o último a ser realizado. De fato, o que motiva a ação é o fim que se pretende atingir, sem esse fim se caminha a toa, sem saber por que caminhar e aonde ir... Portanto, do ponto de vista de Deus, a história começa do fim, da meta, que no específico do relacionamento de Deus para com ela, já está presente e reprisa o passado, pelos efeitos da presença Trinitária, manifestada com a vida paixão morte e ressurreição de Jesus.
Será um dia “abrasador como fornalha”. Imagem assustadora, motivo de grande pavor pelo qual muitos preferem remover, nem pensar nessa circunstância, nesse evento. Ao mesmo tempo, toda catástrofe natural suscita a pergunta se ela não é um sinal pré-monitor desse evento final...
Contudo, essa “fornalha”, esse fogo “abrasador” lembra a sarça, a chama de fogo, do chamado de Moises; o fogo do amor no qual Jesus deseja que arda, pelo efeito da entrega Dele; o forno onde profeta Daniel foi jogado com os seus companheiros por ordem do rei e do qual saiu incólume... Atrais da imagem aterradora há um significado de chamado, de amor, de purificação.
Ele será motivo para discernir os justos dos ímpios. “todos os soberbos e ímpios serão como palha (...) haverá de queimá-los (...) tal que não lhes deixará raiz nem ramo”. Os soberbos, os auto-refernciais, os ímpios que conscientemente rejeitaram toda atenção e referencia ao Deus de Israel, que renegaram a Aliança experimentarão o fogo purificador.
Parece-me que mais do que o castigo, merecido, indica a última oportunidade de conversão. Pois, tomando consciência de que não ficou nada da soberba e da impiedade deles, “nem raiz nem ramo”, a percepção do fracasso total de suas atitudes se tornará algo tão humilhante e desconcertante que terá o efeito de uma fornalha purificadora. A humildade de reconhecer isso será a última e definitiva possibilidade de conversão.
Diferente será a experiência dos justos “Para vós, que temeis o seu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo salvação em suas asas”. Refere-se àqueles que cultivaram pela fé o correto relacionamento de obediência no amor, na prática das atitudes coerentes com a realidade do povo eleito libertado da escravidão do mal (o Egito), da Aliança estabelecida no Sinai e confiantes que a promessa de Deus se cumprirá. E agora, estão comprovando a verdade de tudo isso: nasce o sol da justiça, trazendo a salvação. Em fim, valeu confiar, amar e esperar, contra toda esperança.
A atitude dos justos se manifesta de maneira muito prática e concreta. Uma delas é o que aponta a segunda leitura.

2ª leitura 2Ts 3,7-12

Em Tessalônica havia alguns que, com o pretexto da iminente vinda do Senhor, viviam à custa dos outros, alienados das realidades terrenas. Com um toque de ironia descreve a condição deles: “Ouvimos dizer que entre vós há alguns que vivem à toa, muito ocupados em não fazer nada”.
A iminente vinda do Senhor não dispensa de assumir as exigências do tempo presente com bom senso e sentido de responsabilidade, como é a ocupação no trabalho para a própria sustentação, bem sabendo que o direito o dispensaria “ Não que não tivéssemos direito de fazê-lo, mas queríamos apresentar-nos como exemplo a ser imitado”.
O esforço do trabalho cotidiano é um reflexo da dimensão do respeito e do amor para com os iramos. É para “não sermos pesados a ninguém”. Mas de atenção ao direito, prevalece atenção às condições precárias dos irmãos, que deveriam suportar uma situação pesada do ponto de vista financeiro. A espera do último e definitivo deveria os tornar mais sensíveis e atentos às situações humanas e contingentes dos irmãos e se deixar guiar pela caridade para com eles.
É o contrario do que está acontecendo em alguns deles. Daí, então o posicionamento do apóstolo “ Quem não quer trabalhar, também não deve comer”. Em positivo, coloca si mesmo como referencia “deveis seguir o nosso exemplo, pois não temos vivido entre vós na ociosidade”. É o convite ao bom senso. Nesse sentido ele faz parte de quem entendeu corretamente o significado do último e definitivo oferecido pela morte e ressurreição de Jesus e de sua vinda que, naquele tempo e circunstância, era tido como iminente. O futuro glorioso, não dispensa do amor sincero e eficaz no presente, pelo contrário o exige.
Eis, então, e exortação final “Em nome do Senhor Jesus Cristo, ordenamos e exortamos a estas pessoas que, trabalhando, comem na tranqüilidade o seu próprio pão”. Ao mesmo tempo, é dignificado o trabalho honrado e finalizado à própria sustentação. Assim mesmo é reprovada toda ociosidade e atividade exploradora, enganadora, não ética que significaria a prática da injustiça e uma carga pesada para outros.
O momento da vinda do Ressuscitado fica segredo na vontade de Deus pai. Ninguém sabe. Jesus mesmo afirmou de ignorá-lo. Contudo, o evangelho oferece umas indicações que alertam sobre possíveis enganos e como viver este tempo de espera.

Evangelho Lc 21,5-19

Algumas pessoas manifestam o próprio orgulho pela beleza e grandiosidade do templo de Jerusalém centro da atividade religiosa e política da Nação. Jesus disse: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”. Não é difícil imaginar o constrangimento, o assombro dos ouvintes que se apressam em perguntar “Quando (...) e qual vai ser o sinal”. Deixando de lado o evento histórico da destruição de Jerusalém que acontecerá por obras dos Romanos, com a XII legião de Tito no ano 70 ao qual este texto parece se referir, Jesus indicando que não ficará “pedra sobre pedra” coloca em evidencia que depois de tal evento não será possível reconstruir o passado como seria recolocar as pedras no mesmo lugar e na mesma posição de antes, pois, elas serão separadas de maneira tal que não será possível recompô-las. Ou seja, começará um tempo novo: novo céu e nova terra. Não outro céu e outra terra, mas este céu, esta terra totalmente renovada e transformada.
Acredito que Jesus se refere à vinda ultima e definitiva Dele, após sua morte e ressurreição. De fato, ao respeito, alerta contra o possível engano “Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome dizendo: Sou eu! E ainda: O tempo está próximo! Não sigais essa gente!”.
Acrescenta aqueles sinais que no entendimento geral são premonitórios do fim dos tempos: “guerras e revoluções (...) um pais atacará outro (...) terremotos, fome, pestes coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu”. O engano apontado pelo Senhor consiste em dar credito, em buscar, nesses fenômenos de coisas comuns e terrificantes, que não faltarão no decorrer da história e, também, nas nossas pequenas experiências pessoal, mas que na realidade não dizem nada ao respeito.
Estes eventos pavorosos testemunham a necessidade da intervenção última e definitiva de Deus para implantar definitivamente a realidade do Reino com as características que lhe são próprias. Haverá uma transformação radical. Assim, o sinal do cumprimento de tudo isso não está nos eventos extraordinários e pavorosos, mas na experiência pessoal sempre mais exigente em ordem ao testemunho.
Antes, porém, que estas coisas aconteçam”. Jesus convida colocar a atenção sobre o hoje, o dia -a- dia, e enfrentar devidamente os eventos terrificante e pavorosos que acompanham a testemunha; “ sereis presos e perseguidos (...) levados diante de reis e governadores (...) entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos,parentes e amigos. E eles matarão alguns di vós. Todos vos odiarão por causa do meu nome”.
Acredito que se posicionar corretamente é propedêutico para perceber a certeza da vindoura última e definitiva intervenção de Deus sobre uma realidade. Esta última, bem se mantendo dentro das características comuns sem nenhuma transformação visível e socialmente constatável, tem em si mesma a manifestação da presença e da ação transformadora dessa intervenção orientada ao momento final em virtude do evento Pascual que atingiu de uma vez para sempre a criação. Será o momento no qual, como diz são Paulo “Onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça”(Rm 5,20).
O posicionamento correto é sustentado pela específica presença do Espírito de Cristo, o Espírito Santo, “eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater”. É na certeza dessa promessa que o discípulo deverá fazer própria as indicações de Jesus e encarar o apavoramento como ocasião “em que testemunhareis a vossa fé” e não dar excessiva importância a sua condição pessoal. Por outro lado, Jesus mesmo garante de que “vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça”. Evidentemente, não se refere materialmente ao cabelo em si, nem diz respeito ao corpo, pois, os tratamentos judiciais da época eram massacrantes e até testemunham de mortes prematuras e dolorosas. Refere-se a que nada será perdido perante e na presença de Deus,metaforicamente, for só um cabelo.
Eis, então, a conclusão: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”. É a atitude primeira e fundamental da existência. Firmeza é ato da vontade de quem está como encharcado do mistério da morte e ressurreição de Jesus pelo qual como dirá são Paulo “Por ele- Jesus- o mundo está crucificado por mim, como eu estou crucificado para o mundo”(Gl 6.14).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

TODOS OS SANTOS (7-11-10)

1ª Leitura Ap 7,2-4.9-14

O anjo de Deus marca “na fronte os servos do nosso Deus” ,antes da ação transformadora da terra e do universo.É a “marca do Deus vivo”com a qual Deus reconhece a autenticidade e valor daqueles que agiram como seus servo.Obedientes e cumpridores das exigências da Aliança, estes deram testemunho de fidelidade ao projeto Dele. Ser marcados significa, também, que pertencem a Ele, e é reconhecido como Senhor da Vida, do qual tudo procede e ao qual tudo tem sua meta e seu fim.
Os 144.000 é um número simbólico. É 12x12x1000 que na linguagem bíblica significa todos. Com efeito, no versículo seguinte (v.9) fala-se”de uma multidão imensa de gente...que ninguém podia contar” frisando a universalidade dos servos e ,portanto, da salvação.
O texto se refere ao que acontecerá no final da historia, com a volta do Ressuscitado, como Jesus mesmo prometeu antes de voltar ao Pai. É um texto escatológico que descreve -de maneira simbólica - a última e definitiva intervenção de Deus sobre a criação a humanidade e a história, o que comumente chamamos “fim do mundo” . "Estavam de pé”, atitude de respeito, de prontidão, manifestando com suas roupas e palmas a realidade de condição de servos. Com efeito, “trajavam vestes brancas... pois, lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” . As vestes se tornaram por acreditar nos efeitos da morte e ressurreição do Cordeiro. Foi esta fé que assumiram a condição de novas criaturas. O inciso: “ Traziam palmas na mão” aponta que foram fieis até o martírio,pois "Esses são os que vieram da grande tribulação” derramaram o próprio sangue.
Impressionante o testemunho deles: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro” Reconhecem que Deus, sacrificando o próprio filho- o Cordeiro que tira o pecado do mundo- é origem e causa da salvação deles, por eles terem aceitado e interiorizado este presente de Deus. Com isso, suscitou- se neles a determinação de seguir o Cordeiro, que os tornou novas criaturas e fieis até o martírio. Assim, no final dos tempos, proclamam “com voz forte” o certo e a conveniência daquela determinação que, por passar pelo crivo das provações e perseguições, fez deles participantes da mesma glorificação do Cordeiro.
Eis, portanto, traçado o perfil do caminho de santidade. Todo cristão é chamado e ela por aceitar o dom de Deus, selado pelo Batismo, alimentado pela Eucaristia e vivenciado na prática do Evangelho no dia- a dia- em virtude do qual a Boa Noticia do Evangelho se torna Boa Realidade nos relacionamentos familiares, nos relacionamentos na comunidade, no serviço, na convivência da sociedade civil, na preocupação pela justiça e o direito entre os povos,ou seja,nos relacionamentos do dia-a-dia.
Mas, também, o caminho de santidade é forjado pela oposição de pessoas e instituições que pensam e agem de maneira contrária. Daí o choque, o conflito e até... o martírio, razão pelo qual muitos desistem ou até nem de longe pensam permanecer nisso.
O que determina a pessoa nesse caminho é o que comentaremos na 2da leitura.

2ª Leitura 1 Jo 3,1-3

Ponto de partida é o “grande presente de amor (que) o Pai nos deu” com a entrega do próprio Filho- o Cordeiro que tira o pecado do mundo-. A aceitação, o botar para dentro no coração, dessa verdade consiste em acreditar nos efeitos atualizados daquela entrega. Assim, ela nos torna filhos de Deus.Com ênfase o texto frisa:”e nós os somos!”como para convencer de algo que ultrapassa de muito toda expectativa e imaginação: de pecadores, afastados e inimigos de Deus á filhos...somos filhos no Filho! Eis, pois, o grande presente pelo qual os pecados da desconfiança, da superficialidade, da desvalorização, do desinteresse, da oposição e até da rejeição da preocupação, da promessa e da ação de Deus são desmanchados. Em virtude disso, é resgatada a amizade,a familiaridade a comunhão com Deus, a dignidade de filhos por meio do Filho:numa palavra a salvação.
O conteúdo específico e fundamental da fé é exatamente isso!Ela sustenta e alimenta a esperança de maneira tal que: ”Todo o que espera nele...” por acreditar nos efeitos do presente “purifica-se a si mesmo”. Eis, portanto, o processo de purificação interior, de algo que acontece em nós,com nós mesmos e por nós mesmos ,quando nos colocamos em total,humilde e sincera transparência no mais profundo de nós mesmos com esse surpreendente dom de Deus. É aí que recuperamos nossa identidade, nosso verdadeiro ser e, com eles , o sentido profundo de nossa existência que se desdobra,com satisfação plena, nos acontecimentos e nas atitudes coerentes do dia-a-dia.
O texto acrescenta algo ainda mais surpreendente: "como também ele é puro" . Parece uma meta impossível , e como tal é descartada de antemão...Contudo,é algo que nos fascina,que motiva a esperança,que sustenta um futuro que não é tão impossível, considerando que Ele assumiu nossa condição humana e caminha conosco. Entre outras coisas, essa meta oferece sonhar alto para que a vida tenha aquele horizonte, aquele futuro que dá sentido ao presente e sustente cada atitude coerente.Tudo isso nos é oferecido por esse “grande presente de amor que o Pai nos deu” .
Por outro lado, sabemos que nem todos compartilham esse entendimento. O texto define estes como “mundo” que não “conheceu o Pai” Um mundo, um desconhecimento que não é estranho a nos mesmo, mais que age em nós e toma conta de nós em determinados momentos e circunstâncias. Daí, então, a necessidade de voltar á esperança purificadora,ou seja,ativar o processo de conversão permanente,mergulhando, com renovada fé, no grande presente de Amor através da Palavra e dos Sacramentos,especialmente da Missa.
Sinal do bom andamento do processo é a confrontar com o texto do Evangelho.

Evangelho Mt 5,1-12ª

É o famoso texto das bem-aventuranças. Como soaria o texto substituído o termo bem-aventurado por parabéns?Pois, disso mesmo se trata. Jesus ensina aos discípulos o que merece ser parabenizado: “ Jesus começou a ensiná-los” Mas, parabéns de que? Por serem pobres, aflitos, mansos, por promover a paz num mundo hostil... Por serem perseguidos,caluniados etc.? Quem se atreveria em falar isso a uma pessoa nessa situação? Parabenizamos todo o contrário... Como entender isso?
Estamos no pleno paradoxo do Evangelho: a verdade se manifesta no seu contrário... Jesus fala para aqueles que assumiram para valer a causa dele, a missão dele:“...por causa de mim “ Eles assumiram a causa como resposta de amor ao grande amor do qual falamos na 2da leitura. Trata-se de pessoas profundamente tocadas e transformadas por este amor. Em virtude disso, o viver delas é Cristo, é se tornar, com humildade, testemunhas da continuação da presença de Cristo na história e nas circunstâncias concretas do dia-a-dia.
Nesse sentido Jesus está passando para eles o que é, e será, a experiência Dele no desenvolvimento da missão. Assim o discípulo experimentará todo o que Ele experimentou como homem, como pessoa, como Filho do Pai. Então, o discípulo experimentará o que é ser homem, o que é ser pessoa e o que é ser filho de Deus- filho no Filho como tocamos na 2da leitura-. Dai os parabéns.
Assim, o texto pode ser entendido como a peneira que discerne até que ponto somos realmente discípulos de Jesus. É evidenciado, assim, o grau de percepção e da vivencia “do grande presente de amor que o Pai nos deu” (2da leitura) assim como a consistência,ou menos, da realidade de filhos de Deus.
O texto deve ser assumido como um todo. Não dá para pensar uma bem- aventurança desligada da outra... não dá por exemplo, ter fome e sede de justiça...e ter um coração com segundos fins,com segundas intenções, um coração impuro...
Assim, o entusiasmo por uma bem- aventurança e a frieza por com a outra; a prática significativa de uma e a prática insignificante da outra, determinam concretamente o espaço da conversão no processo de recepção do grande presente de amor e de identificação em Cristo.
Tudo isso nos diz que o processo de santificação é inesgotável, nos acompanha a vida toda e constitui a experiência da profunda alegria nessa vida, mesmo passando pelas dificuldades e provações que o texto aponta:”Alegrai-vos e exultai” se refere aqui e agora porque, misteriosamente, esse tipo de sofrimento tem e si mesmo essa verdade.É se alegrar interiormente pelo sentido de plenitude e satisfação de quem experimenta o acontecido como oportunidade de crescimento,de integração, de identificação com o que é ser pessoa bem sucedida e,na transparência, enxergar a presença que faz dela e de Cristo uma realidade só,mantendo as devidas diferenças.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

31o DOMINGO DO T.C.-C-(31-10-10)

1ª leitura Sb 11,22-12,2

O trecho é uma profunda meditação sobre a compaixão, a misericórdia, a bondade, a ternura e o perdão de Deus que dá fundamento ao otimismo dos homens, para que se arrependam. Pelo autor, perante da glória e da imensidade de Deus, o mundo inteiro é pouco mais do que nada, algo extremamente frágil e insignificante “é como um grão de areia na balança, uma gota de orvalho da manhã que cai sobre a terra”. Não merece atenção nenhuma tão é inconsistente e vulnerável a realidade dele. O autor relata a percepção que todos temos do nosso limite quando a realidade humana é confrontada com a de Deus.
Contudo, surpreende a atitude de Deus, sobretudo a motivação “Entretanto, de todos tens compaixão, porque tudo poder”. Deus exerce seu imenso poder em virtude de sua imensa compaixão, como expressão do seu infinito amor. O poder que exerce não vai à expectativa dos milagres, dos gestos deslumbrantes, mas da compaixão que, por um lado, fechando “os olhos aos pecados dos homens” resgata o que na consideração humana tem um valor ínfimo para Deus e, pelo outro, valoriza o que objetivamente tem seu limite “não desprezas nada do que fizeste”.
Parece-me muito importante, outra vez, a motivação e as duas perguntam que a acompanha “porque, se odiasses alguma coisa não a terias criado (...) como poderia alguma coisa existir, se não a tivesses querido? Ou como poderia ser mantida, se por ti não fosse chamada?”. Assim, amor e ato criador caminham juntos.
Portanto a criação é da categoria da relação, mas do que um momento pontual no qual as coisas que não existiam agora existem e ponto. Por sua vontade amorosa Deus as chama à existência as pessoas e todas as coisas e, pelo mesmo amor, são recriadas constantemente. O ato criador é dinâmico de maneira tal que a realidade criada é recriada e cresce pelo amor e no amor, ou ela se autodestrói por si mesma. Nesse sentido, a criatura é constantemente envolvida e responsabilizada na ação criadora de Deus, que é ao mesmo tempo ação salvadora. Mas tudo isso acontece se a pessoa escolhe livre e conscientemente de colaborar com Deus, pois, é a exigência mesma do amor criativo.
A seiva de tudo este processo é o Espírito “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas!”. Esta presença é muito esquecida e foge de nossa consideração e apreciação. É um defeito difícil de corrigir, pelo costume de nos referimos quase exclusivamente a Cristo, na paternidade do Pai. Contudo, nas pessoas, criadas pelo sopro divino, o Espírito desenvolve uma missão específica: “corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes seus pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti,Senhor”. Ele é Deus em nós, realidade pouco valorizada, com grande prejuízo, a causa de nossos pecados e por delegar esta presença nas autoridades eclesiais constituídas, ou a pessoas tidas como particularmente santas.
É por meio do Espírito que “A todos tu tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida”. Belíssima esta expressão. Quem não ama a vida? Quem não deseja a plenitude e a realização dela? Pois bem, temos um amigo que nos pede confiar e se deixar acompanhar por ele. É o que são Paulo indica na segunda leitura.

2da leitura 2Ts 1,11-2,2

São Paulo intercede a Deus na oração sem cessar a favor dos cristãos da comunidade “para que o nosso Deus vos faça dignos de sua vocação”. Tornar-se digno da vocação, do chamado, supõe entrar na dinâmica que comentei na primeira leitura. Com efeito, o poder de Deus é re-criativo, pela sua dinâmica consegue realizar na pessoa e na comunidade “o bem que desejais e torna ativa a vossa fé”. O coração do apóstolo está voltado para essa finalidade, é mesmo o coração de Deus que late nele. Parece-me particularmente incisiva esta verdade, que configura a verdadeira identidade da pessoa que segue a Cristo. Ela deve ter elaborado no seu mundo interior uma convicção e uma intimidade tão profunda com Cristo em virtude da qual vive com os mesmos sentimentos e atitudes Dele.
Neste horizonte podemos encaixar a finalidade pela qual Paulo intercede “Assim o nome de nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós, e vós nele”: a glorificação mutua de Cristo e dos cristãos. A glorificação consiste na manifestação da santidade de Deus na pessoa, no sentido, para usar uma frase de Jesus, que eles -os cristãos- estão no mundo, mas não são do mundo. Manifestam com palavras e atitudes coerentes de pertencer plenamente a Deus pela adesão à Cristo “em virtude da graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo”, cabe acrescentar: no Espírito Santo. A graça, o dom de Deus, é o Espírito. No final da primeira leitura já toquei a ação e a missão dele.
Vivenciar tudo isso de coração sincero e envolvendo a totalidade do ser tem uma dimensão escatológica, porque já é viver no presente a realidade futura. Estabelece-se, portanto, um relacionamento direto entre presente e futuro, em virtude do qual este último se torna como o imã que atrai a quem está sinceramente sintonizado com o mistério de Deus que está e se manifestou pessoa de Cristo.
Portanto, o apostolo liga presente e futuro dessa forma “No que se refere à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e a nossa união com ele”. A vinda Dele não está desligada à união dos cristãos com ele. Pelo contrário é uma união que será levada à sua plenitude quando Deus Pai será tudo em todos como frisa o apostolo na 1ª carta aos Coríntios.
O que Paulo alerta é o quando isso vai acontecer “não deixeis tão facilmente transtornar a vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação, ou carta atribuída a nós. Afirmando que o Dia do senhor está próximo”. É preciso esperar confiadamente, porque ninguém sabe o dia e a hora da última e definitiva intervenção de Deus sobre a humanidade de todos os tempos, sobre a criação e o universo. Tudo isso fica no mistério de Deus, não dá para ter acesso a este conhecimento. Deve-se continuar exercendo a fé ma promessa e a esperança encharcadas pelo amor já experimentado pela ação de Jesus na sua pregação, no seu testemunho e particularmente no evento da Páscoa.
Amor de Jesus que atinge a rodos, sobretudo, os pecadores como aponta o Evangelho.

Evangelho Lc 19,1-10

Eis a figura de Zaqueu “chefe dos cobradores de impostos e muito rico”. Um pecador público, um ladrão apoiado pela lei. Os cobradores chefes dividiam o serviço a outras pessoas, estabelecendo quanto dinheiro estes últimos devia entregar. Se conseguirem mais, ficava com eles. Não é difícil imaginar o que isso significa em termos de exploração de carga sobre os ombros do povo. E tudo isso a serviço dos odiados estrangeiros romanos que dominavam o território. Portanto, Zaqueu era tido como pecador pela exploração e colaborador da potencia invasora. Religiosa e socialmente era o pior dos piores.
Contudo, ele sentia uma inquietude interior, algo que o deixava incomodado, tal vez simplesmente curioso, ao ponto que “ procurava ver quem era Jesus” de todas maneira até o ponto que individuado por onde devia passar Jesus “subiu uma figueira” para vê-lo. Tal vez, tendo ouvido o posicionamento de Jesus para com os ricos com respeito à impossibilidade dele de entrar no reino de Deus, não esperava o pedido de Jesus: “Desce depressa! Hoje devo ficar na tua casa”.
Todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” Não era para menos, aos olhos deles significava comunhão de vida. O desconcerto era total. Como podia ser? Iam para baixo todas as pretensões messiânicas de Jesus. Os pecadores como Zaqueu não tinha possibilidade real de redenção. Na concepção de então para conseguir a redenção devia devolver o defraudado mais o 25%. Saber a quem e quanto havia roubado era praticamente impossível. Daí que para ele(s) não há salvação possível.
Zaqueu “desceu de pressa, e recebeu Jesus com alegria (...) ficou de pé, e disse ao Senhor: Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais (Mas, a Lei exigia um quarto... será um erro de redação? Tal vez.)”. O fato de receber Jesus com alegria manifesta a sintonia com a pessoa, as atitudes e as palavras de Dele e como suas expectativas foram muito além do esperado. O que suscitou nele tudo isso não é dito, só é registrado que o mundo interior dele foi mexido de tal maneira de determinar a devolução com acréscimo do defraudado.
Normalmente para pessoas entregues ao dinheiro e à riqueza, deixar este mundo de poder e de segurança não é fácil. Jesus mesmo apontará como é difícil para um rico entrar no reino de Deus. Será que em Zaqueu, apesar de tudo, se manteve um espaço de sensibilidade, uma brecha no interior dele? Será que prevaleceu a força de persuasão da palavra e de personalidade de Jesus, sobre uma estrutura interior sem esperança? Tal vez as duas coisas?
De toda a maneira o sujeito principal não é Zaqueu, mas Jesus e a atitude dele para com os já condenados, no entendimento geral do povo. La resposta justificativa de Jesus: “Hoje a salvação entrou nesta casa” frisa o evento da salvação disponível aqui e agora para todos indistintamente, como expressão da chegada do reino de Deus no meio deles. Este “hoje” lembra o de Cafarnaum, no começo da pregação dele (Lc 4,21). E acrescenta “porque também este homem é um filho de Abraão”, ou seja, pertence ao povo eleito, ao povo de Deus, cujo destino é a salvação. Portanto, está em sintonia com a vocação de todo filho de Abraão.
A conclusão “Com efeito, o Filho do homem veio para procurar e salvar o que estava perdido”, indica a finalidade é ultima e o sentido profundo da missão dele em sintonia com as características do agir de Deus para com a humanidade e a pessoa da primeira leitura. É o amor misericordioso que se faz presente em toda circunstância a favor de todo ser humano.

domingo, 17 de outubro de 2010

30o DOMINGO DO T.C.-C-(24-10-10)

1ª leitura Eclo 35,15b-17. 20-22ª

O Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas (...) não é parcial em prejuízo do pobre”, (...). O texto frisando as atitudes de Deus se contrapõe à prática comum no ambiente social. A injustiça, a discriminação, a exploração dominam o tecido social e a prática individual, com conseqüências das mágoas e dos sofrimentos que o relato deixa entender.
Ao pobre, ao oprimido, à viúva, ou seja, às pessoas mais vulneráveis, sem defesa contra todo tipo de exploração, não há alternativa do que dirigir suas súplicas e desabafar suas mágoas a Deus. Deus garante que “escuta (...) e jamais despreza a súplica” deles. Mais, ainda promete que “A prece do humilde atravessa as nuvens: enquanto não chegar não terá repouso; e não descansará até o Altíssimo intervenha”.
Cabe perguntar: quem é este “humilde”? Não é simplesmente aquele que ocupa os degraus mais baixos da escala social. Com certeza ele faz parte dos humildes do ponto de vista social, pois, está no chão e não tem como se erguer e ocupar os degraus mais altos. O humilde da bíblia é aquele que, juntamente a sua condição social, coloca sua plena confiança no Senhor, no sentido de que cultiva o correto temor de Deus.
O temor de Deus, não é o medo, o constrangimento, a insegurança, do inferior para com o superior, mas a atitude de atenção, de respeito, de preocupação de manter e cultivar corretamente o relacionamento com Deus. Ele lida com o sincero amor de quem não quer desagradar à pessoa amada, bem sendo conhecedor dos próprios limites e das próprias fraquezas. Nesse sentido a humildade é a virtude maior que abre a comunicação e a comunhão com Deus.
A humildade é a condição para que Deus “faça justiça aos justos e execute o julgamento”. Assim a justiça de Deus se percebe e se faz presente pela humildade. O humilde percebe o executar da justiça de Deus. De fato a humildade é uma maneira de servir a Deus “Quem serve a Deus como ele quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até às nuvens”.
Portanto, quem serve a Deus, pratica Deus, ou seja, assume a mesma maneira de pensar e de agir, vê a realidade com os mesmos olhos Dele. Isso significa assumir as atitudes que são de Deus para com os pobres, os oprimidos e as viúvas. Quem pratica a justiça, não faz diferenças ou discriminação de pessoas etc., implanta os tópicos da Aliança do Sinai e construi a sociedade sonhada por Deus.
Também hoje a realidade está muito longe do que Deus espera. É evidente para todos como as injustiças de acima fazem parte da realidade do dia- a- dia em todos os níveis e em todos os lugares. Portanto, estas indicações ficam como uma luz, um farol que iluminam o caminho de Deus no mundo e na sociedade. Elas mexem com os sentimentos e o coração dos verdadeiros humildes de hoje, que não desistem de sonhar e lutar para a causa de Deus.
São Paulo é uma figura eminente nesse sentido, como testemunha a segunda leitura.

2da leitura 2Tm 4,6-8. 17-18

Este trecho pode ser considerado como o testamento de são Paulo. Ele exprime os sentimentos dele diante a morte que percebe já próxima “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida”. Com efeito, daí poucos meses será decapitado na periferia de Roma, onde atualmente há a Igreja dedicada a ele.
Olhando retrospectivamente a própria caminhada de discípulo, sintetiza suas atitudes e os pontos firmes delas:
+ “Combati o bom combate”. Toda a vida dele foi um combate incessante, dentro e fora das comunidades. Não está se queixando ou se arrependendo de todas as tribulações e sofrimentos dele. Pelo contrário, fala de “bom combate”. Bom porque mereceu ser assumido por uma causa tão nobre e importante e, também, pelo resultado em termos de difusão do evangelho e constituição das comunidades cristã. Em fim, um combate que deu resultado para ele e para a difusão do evangelho.
+ “Completei a corrida”. É o próprio da consciência de quem fez tudo o que era nas suas condições e possibilidades fazer. Ele fez na convicção, sustentada pela experiência, de que a vida é uma corrida rumo à meta que estará sempre na frente e, por certos aspectos, inalcançável nesta terra. Contudo, é ela que dá sentido e valor a toda dedicação e empenho em virtude dos quais manifesta a percepção de ter evangelizado de forma adequada, assim de completar o que devia.
+ “guardei a fé”. No sentido de viver ousada e corajosamente a dinâmica de vida proposta e enxergada pela morte e ressurreição de Jesus. Foi algo muito criativo, renovador e surpreendente, pelo qual encontrou toda resistência e dificuldades que motivaram o combate, do qual não desistiu nem voltou atrás, mas continuou persistentemente propondo, motivando, explicando e exortando contra tudo e contra todos. Foi um “guardar” extremamente dinâmico.
Das considerações retrospectivas passa ao momento presente: “Agora”. Nele, enxerga o dom de Deus já próximo “está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. Assim, a justiça de Deus que aceitou pela fé, como dom da morte e ressurreição de Jesus, e que constituiu o eixo central de sua pregação, lhe será participada plenamente no seu valor e dignidade - coroa -. Tudo isso conforma o esperar “com amor a sua -do Senhor- manifestação gloriosa”, não só para ele, mas para todos os que abraçaram sinceramente a causa do Senhor.
No momento presente - estando “parado” na prisão em Roma - toma lúcida consciência de algo que, tal vez, lhe era impossível perceber anteriormente e precisamente de que “o Senhor esteve o meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e fui libertado da boca do leão”. Assim, o que disse e fez, e não foi poça coisa, foi pela graça e presença do Senhor, foi causa de libertação “da boca do leão”. Precisamente o leão que motiva fugir do combate, parar ou desistir da corrida, desconfiar do dom da fé e da promessa de Deus manifestada e realizada em Jesus Cristo. É o leão que continua “devorando” a qualidade do testemunho de muitos cristãos “comprometidos”, tornando-os inexpressivos ou insignificantes, desmotivado os de todo sério compromisso com o Senhor.
Em fim, dirige o olhar após a morte: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste”. Esta certeza surge do interior de quem se dedicou com esmero e humildade à causa do Senhor, tendo os olhos fixos sobre Ele. É como o fruto amadurecido de uma caminhada, de uma prática de vida. Ela - a certeza - tem a solidez própria de uma vida que se conformando ao dom da justificação, (constantemente oferecido, no nosso dia- a dia, pela atualização dos efeitos d a morte e ressurreição em cada Missa) se tornou a prolongação da ação e da presença do Senhor, nas diferentes circunstâncias e desafios de todos os dias.
A experiência pessoal de Paulo, seu passado de perseguidor redimido deve ter sintonizado muito com o cobrador de impostos do evangelho.

Evangelho Lc 18,9-14

Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros”. Jesus se dirige a uma categoria de pessoas bem definidas em ordem à justificação. Chama à atenção a singular união que fazem os destinatários da parábola de justiça e desprezo. Cabe uma pergunta: em virtude de que, o que sustenta esta singular união? O desprezo da pessoa não é simplesmente lhe atribuir pouco valor, pela carência de qualidades e virtude que motivam consideração e estimação. É a pessoa que não merece atenção nem aproximação alguma. É excluída do relacionamento individual e do convívio social. É condenada ao isolamento.
Portanto, a atitude de desprezo declina três aspectos:
• O desprezo do valor e finalidade da Lei. Corretamente vivenciada ela leva a bem outra atitude. Só pensar nas palavras do profeta Oséias “quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de deus, mais do que holocaustos” (Os 6,6). É a atitude da misericórdia, da vontade de reintegrar na comunhão, no respeito da lei, os fracos e afastados dela.
• O desprezo de si mesmo como sujeito capaz de assumir e testemunhar a atitude de Deus para com o pecador, capaz de carregar os limites e as fraquezas do mesmo e resgatá-lo para nova vida, cumprindo a finalidade da Lei.
• O desprezo da comunidade reduzida, dessa forma, a um grupo de executores rigorosos das normas e exigências da Lei auto-justificativas. Em virtude disso, se acham legitimados em se apresentar perante de Deus com as palavras e as atitudes do fariseu.
O engano deles está em assumir a Lei no horizonte do mérito, como se Deus tivesse que retribuir proporcionalmente ao fiel cumprimento das normas e das exigências dela. (Entre parêntesis muitos católicos têm o mesmo entendimento!). Portanto, a justificação perante de Deus Pai depende simplesmente da conduta deles.
Não percebem- e será o que Jesus implantará com sua pregação e, sobretudo, com sua morte e ressurreição- que a justificação é essencialmente um dom de Deus, o aspecto gratuito do Amor dele, frente à incapacidade do ser humano de vivenciar a Lei dentro da vontade e da expectativa de Deus. Libertando-os da escravidão do Egito (do mal e do pecado!) foram constituídos como novo povo de Deus, como povo eleito, como novas criaturas e, portanto, capacitadas de vivenciar a justiça a misericórdia, cuja manifestação e comprovação seriam os tópicos e as exigências da Lei. Em fim, inverteram a ordem, colocaram o carro perante os bois.
Daí a conclusão: o fariseu voltou para casa não justificado. Não porque Deus quis de alguma maneira puni-lo, mas simplesmente porque o fariseu estava bem longe de pensar que precisava dela, contrariamente ao cobrador de impostos.
Portanto tudo converge nos critérios da verdadeira e falsa justificação. É uma alerta muito importante para o nosso dia -a- dia.